![]() |
Rodrigo Bellão - Foto Vítor Silva/Botafogo |
O Botafogo venceu o Mirassol por 3 a 2 nesta quarta-feira 1/4 e saiu da zona de rebaixamento. O técnico interino Rodrigo Dias Bellão conseguiu a primeira vitória após dois jogos no comando do time. Esta ainda não foi sua despedida da equipe, que está acordada com o treinador Franclim Carvalho.
Assista abaixo:
— Estou extremamente feliz. A vitória vai trazer confiança para a gente. Estou no futebol há quase 20 anos, e esse talvez seja um dos maiores aprendizados que tive na minha experiência toda. A gente conseguiu competir bem e, a partir do competir, o gol vem e isso dá confiança para a gente jogar melhor. Feliz pela oportunidade, por viver esse momento no Estádio Nilton Santos — disse Bellão.
— Já tenho a confirmação da diretoria que eu faço o jogo do Vasco. A partir de agora, vou começar a pensar no Vasco. A gente tem esse tempinho de dormir e acordar (risos), e aí vou pensar a respeito disso. Ainda não consegui ver muitos jogos do Vasco com o Renato. Amanhã, 6 da manhã, já estamos lá no CT trabalhando — acrescentou o interino.
O Botafogo vive uma crise fora de campo, com os problemas entre John Textor, dono da SAF, e o clube social. Dentro de campo, o clube também teve início ruim, que culminou na demissão do técnico Martín Anselmi. O interino comentou a situação:
— Tento trabalhar em cima do que eu posso controlar. Lógico que existem coisas internas e externas, mas eu foco no que eu posso trabalhar, sou centrado nisso. Temos jogadores vencedores a nível mundial. Já passei por momentos assim em outros clubes e temos que entender que o momento gera instabilidade emocional dentro de campo. Afeta ofensivamente e defensivamente. Temos que conseguir trabalhar em cima disso. Se pegar no recorte de três vitórias os jogadores estão conseguindo se superar, estão se dedicando e fazendo o que a gente está pedindo. Fico feliz por isso.
Novo técnico do Botafogo, Franclim Carvalho é esperado no Rio de Janeiro nesta sexta para se apresentar ao clube. Com um pré-acordo já assinado, o português de 39 anos será o sucessor de Martín Anselmi, demitido há pouco menos de duas semanas.
— Já vivi diversas situações no futebol e estou tranquilo no Botafogo, seja no sub-20 ou subindo para uma comissão fixa. Consigo participar de muitas coisas do profissional sendo do sub-20. Lógico que temos ambição de sermos participativos, mas se eu ajudar o profissional estando no sub-20 vai ser ótimo e vice-versa. Se a diretoria achar que pode contar comigo eu estou muito feliz aqui no Botafogo — destacou Bellão.
Com o resultado, o Botafogo chegou a nove pontos e pulou para a 12ª posição. O time ainda pode ser ultrapassado por até três equipes que ainda jogam na rodada (Bragantino, Santos e Atlético-MG/Chapecoense), mas não corre riscos de voltar para o Z-4 agora. O próximo jogo é contra o Vasco, no sábado, às 21h, em São Januário.
Outras declarações de Bellão:
Justino
— Dar essa oportunidade para o Justino, que é capitão do sub-20, é uma cereja do bolo, me deixa mais feliz ainda.
Ajustes para não tomar mais gols
— Acho que os números estão aí, em relação a sofrer gols. É uma questão que eu tentei trabalhar bastante, minha ideia foi trabalhar consistência defensiva durante esse período. Não posso falar algo em relação à falta de comprometimento. São questões de ajustes, o que eu estou tentando fazer é trazer esse equilíbrio defensivo. Não é que a equipe defende mal, mas a falta de resultado vai gerando uma bola de neve que leva a isso. É importante manter uma consistência defensiva para dar um passo de cada vez. É isso que eu estou tentando desenvolver aqui.
Diferenças de trabalhar na base e no profissional
— Nesses 19 anos de carreira eu já trabalhei como profissional algumas vezes, flutuei entre base e profissional. O que o Botafogo me traz de experiência hoje é trabalhar com muitos jogadores de nível internacional. No meu clube anterior trabalhei com o Fernandinho, que foi capitão do Manchester City. O futebol é um funil, nem todos vão chegar no alto nível, e essa experiência me fez entender como lidar individualmente com o atleta. Em relação ao xadrez tático, hoje no sub-20 nós temos muitos treinadores capacitados. Estava conversando com o Guanaes, ele é um grande amigo meu, já o enfrentei antes. Há dez anos ele já era um bom treinador. Hoje a gente encontra grandes treinadores na base. No profissional, a grande diferença é o nível do jogador, você consegue mudar taticamente com maior facilidade.
Como você vê essa dificuldade defensiva?
— Eu sou um treinador que pensa o jogo também defensivamente. Quem acompanha as minhas equipes talvez enxergue isso. Eu vejo que o futebol moderno o pessoal muitas vezes deixa isso de lado. E não estou falando especificamente do Botafogo, estou falando a nível nacional. Aí acho que a gente olha muito para o jogador. O jogador é importante, tem características de marcador muitas vezes. Acho que a gente não pode deixar de formar jogadores com essa qualidade defensiva, para mim o Justino é um grande exemplo desse. A gente não pode excluir ele do processo, estou falando do Justino porque tenho uma propriedade maior para falar sobre ele. A gente não pode olhar só para o aspecto de jogar com bola, também é importante olhar para isso, formar jogadores para isso. Alguns ajustes são coletivos, essa é a dificuldade também. Não é só jogo aéreo, são detalhes coletivos que a gente precisa ajustar.
— Acho que esse é o passo que estamos tentando ajustar. O ponto também é a falta de confiança. Temos muitos jogadores que são bons defensores, excelentes defensores. E que, talvez pelo momento que o clube está passando, essa confiança defensiva vai caindo. Por isso que eu volto a dizer: acho que a vitória é importante para trazer confiança no aspecto geral. Nesse sentido defensivo, não posso dizer sobre o que era antes. Quando (a defesa) foi vencedora, eu não estava no clube. Não me compete dizer. O que a gente está tentando fazer é ajustar essa questão defensiva, que acho que hoje teve uma boa evolução. Primeiro tempo contra o Athletico acho que também tivemos uma boa atuação defensiva.
Importância de tentar recuperar Arthur Cabral e Júnior Santos
— Eu fico muito feliz não só pelos gols deles, mas pela atuação. Concordo contigo. Esse ponto que é importante. A pessoas dizem "não deu, troca, não deu, troca". Não, meu, eu tenho um ser humano ali, cara. Ele também precisa de apoio, de ajuda. O ponto importante para mim não é só ele, eles dois, é quanto o grupo busca isso, passa confiança. Fico feliz em ver não só eles, mas eles também conseguindo performar melhor e conseguindo os objetivos, fazer gols para gente. Tivemos chances claras de gol no segundo tempo com outros jogadores do ataque, acho que esse é outro ponto importante. Todo mundo junto vai fazer as pessoas crescerem e se desenvolverem cada vez mais.
Mudança no estilo de jogo
— Eu gosto de enxergar um jogo curto e um jogo longo, faz parte do futebol. Contra o Athletico-PR a gente tentou construir, tivemos duas chances no início, mas não finalizamos como gostaríamos. Temos que fazer essa alternância. Eu quis colocar alguns jogadores em algumas posições para que tivesse pé dominante, aconteceu em um lance de gol. Medina e Edenílson são jogadores de transição. E tem também o Junior Santos para buscar essa velocidade. Acho interessante quando jogamos dessa maneira ter uma referência, porque muitas vezes ele vai segurar a bola. O Mirassol é a equipe que mais tem posse. Então contra uma equipe que tem mais a bola que todo mundo, nós não vamos ficar com a posse e temos que explorar o que eles têm de mais fraqueza.
Medina consegue jogar junto com Montoro?
— Acho que eles conseguem jogar juntos, sim. Jogadores de qualidade sempre conseguem jogar juntos, tá? O Medina é um cara com muita versatilidade, ele já jogou de cinco subindo da base do Boca Juniors, tem uma característica muito grande de oito. E acho que o Montoro tem essa característica de ser um 10, de jogar pelos lados vindo para dentro. Acho que podemos construir essa equipe de diversas maneiras com os dois juntos. Agora, temos que olhar para o lado ofensivo, mas temos que olhar para o lado defensivo também. Depende muito do estilo de jogo do adversário para a gente conseguir casar bem essas duas características. Não são bons jogadores, são excelentes jogadores. É esse o ponto.
Trabalhar com Junior Santos e outros grandes nomes
— É especial ter a oportunidade de trabalhar com pessoas vencedoras ao seu lado é algo que todo mundo tem que ficar feliz. A oportunidade de trabalhar com o Carli é boa, gosto muito dele. O Junior é uma pessoa muito querida por todos do Botafogo e é por isso que a torcida gosta muito dele. Ver ele de volta e performando é muito importante. Senti muita honestidade quando cheguei e está sendo muito legal ver que todo mundo é de verdade.
Como foi fazer a transição desses meninos para o profissional?
— Em relação aos meninos, para mim tem uma relação muito clara do meu jeito de ser, da minha filosofia de vida. Passo muito para eles e acho que eles conseguem enxergar muito disso, que é a diferença do ser e do estar. Eu hoje sou treinador do sub-20 do Botafogo e estou no profissional. Eu passo isso para eles minha vida inteira. Vocês são jogadores do sub-20 e estão no profissional. Meu papo com eles é: quando você tiver 10 jogos como titular, aí você começa a pensar que você já é da equipe principal, que aí você está sendo muito utilizado, muito útil, enfim. Esse é o ponto que eu sempre coloco para eles. E não é só falar, é ser isso, transparecer. Eu sou um cara que cuida muito do ser humano.
— Acho que esse foi meu principal papel aqui quando cheguei, entender o contexto, entender quantos meninos de comunidade que tenho aqui, quanto eles têm uma vida sofrida, o quanto eles têm uma dificuldade de entender que eles têm um mundo gigantesco para eles poderem sair e construir a vida deles. Ao mesmo tempo tenho meninos de classe social alta, que também têm problemas, mas são outros. Esse lado que eu trabalho muito no dia a dia com eles, por isso que consigo ter o carinho dos meninos. Eu tento fazer com que eles sejam não só jogadores, mas pessoas melhores. Eu fico extremamente feliz com isso.
Como você enxerga o ato dos jogadores que te abraçaram ao saírem de campo?
— A responsabilidade é grande no futebol. Quando é um futebol de verdade, como eu digo, que é a equipe principal, é gigantesca a responsabilidade. A criação de vínculo porque as pessoas acabam vendo o quanto você se dedica, o quanto você aposta nelas, o quanto você fala e o quanto você é sincero quando você precisa fazer uma situação diferente. Esse carinho que eles tiveram comigo para mim é algo muito especial que eu estou levando dessa experiência que eu estou tendo, sabe? Fui muito bem recebido. E não é só quando chega lá, é em todos os momentos, é no momento de dificuldade, quando você dá a palavra e eles entenderem e comprarem isso. Ter uma retribuição como esse é algo especial. Esses dias me perguntaram "pô, Bellão, todo gol os moleques vão te abraçar". Eles disseram "pelo cara que você é com eles, eles gostam muito de comemorar contigo". Acho que é nesse sentido, é conseguir enxergar um pouco além do jogador. Essa é a maneira com a qual eu trabalho no dia a dia.
