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John Textor no Estádio Nilton Santos - Foto: Jorge Rodrigues/AGIF |
Em meio a uma crise financeira que se agrava nos bastidores, a SAF do Botafogo recorreu a um empréstimo estruturado em 4 de fevereiro de 2026 junto à GDA Luma para sanar pendências consideradas urgentes — entre elas, a suspensão do Transfer Ban imposto pela inadimplência na transferência de Thiago Ezequiel Almada que veio do Atlanta United, e tal imbróglio que durou por 38 dias.
Documentos obtidos pelo GE revelam que o contrato, firmado naquele mês, vai além de uma simples operação de crédito. Ele estabelece um modelo de controle financeiro rigoroso que limita significativamente a autonomia da SAF sobre suas próprias receitas, especialmente aquelas ligadas ao futebol.
Empréstimo com implicações estratégicas
A GDA Luma não aparece apenas como credora. A empresa também surge como uma das interessadas em assumir o controle da SAF em meio ao conturbado cenário societário que envolve o afastamento temporário de John Charles Textor do comando do Botafogo.
Na semana passada semana, a GDA LUMA Capital formalizou sua entrada como parte interessada no processo de recuperação judicial em curso na Justiça do Rio de Janeiro, reforçando sua posição estratégica dentro da crise.
O valor líquido do empréstimo foi de US$ 22,8 milhões (aproximadamente R$ 113,3 milhões), já descontadas taxas de uma operação total de US$ 25 milhões. No contrato, a transação é descrita como uma provisão de “liquidez em último recurso”, evidenciando o caráter emergencial do aporte.
Receitas do elenco como garantia central
Um dos pontos mais sensíveis do acordo está no artigo 3.2, que trata das garantias vinculadas ao elenco. A SAF do Botafogo cedeu à GDA Luma todos os direitos, títulos e créditos — presentes e futuros — relacionados aos seus jogadores.
Na prática, isso inclui receitas provenientes de transferências. O zagueiro Alexander Barboza, por exemplo, está em negociações avançadas para transferência ao Palmeiras, e valores dessa operação estariam automaticamente vinculados ao pagamento da dívida.
O anexo contratual inclui todos os atletas do futebol masculino e feminino do clube como parte dessas garantias, ampliando o alcance do compromisso financeiro.
Além disso, o contrato estabelece que tais receitas não poderão integrar o patrimônio da SAF em casos de insolvência ou falência. Trata-se de um mecanismo típico de proteção ao credor em cenários de recuperação judicial, garantindo prioridade na execução dos valores.
Outro trecho reforça esse controle ao permitir que a GDA Luma execute e recolha diretamente receitas relacionadas aos jogadores, independentemente de processos judiciais em andamento.
Estrutura “lock-box” (caixa de bloqueio) e controle de fluxo
O contrato institui ainda uma estrutura de conta vinculada — conhecida como lock-box — que concentra todo o fluxo financeiro relacionado ao elenco.
Segundo o documento:
“Todos os valores decorrentes de receitas ligadas ao elenco estarão sujeitos a controle exclusivo de fluxo de caixa em favor do credor.”
Na prática, isso significa que a SAF perde a liberdade de gerir esses recursos, que passam a ser automaticamente direcionados ao pagamento das obrigações com a GDA Luma.
Outras garantias e hierarquia de credores
O acordo inclui ainda a cessão fiduciária de direitos creditórios, transferindo à GDA a titularidade desses ativos enquanto a dívida estiver em vigor.
Além disso, os chamados “acionistas relevantes” — Eagle Football Holdings, Eagle Bidco e o próprio John Textor — devem oferecer garantias adicionais, como:
penhor de segundo grau sobre ações da SAF Botafogo;
penhor de terceiro grau sobre ações de Textor na Eagle Football Holdings.
Na hierarquia de credores, a GDA Luma ocupa posição subordinada à Ares Management, que possui prioridade na execução de garantias.
Um clube sob forte restrição financeira
O cenário que emerge do contrato é o de uma SAF altamente comprometida, com receitas futuras já atreladas ao pagamento de dívidas e sob supervisão direta de credores.
Mais do que um simples empréstimo, o acordo representa uma transferência significativa de controle financeiro — e possivelmente estratégico — em um momento crítico da história recente do Botafogo.
Mecânica de coleta e retorno mínimo
Outro ponto crucial do contrato é a forma como o pagamento foi estruturado. A remuneração da GDA Luma segue o modelo de Múltiplo ao Capital Investido (MOIC), mecanismo comum em operações de crédito de alto risco.
Isso significa que o valor originalmente emprestado — US$ 25 milhões — não é devolvido simplesmente com juros tradicionais. Ele é multiplicado conforme prazos, condições contratuais e, principalmente, a ocorrência de eventos de inadimplência (event of default).
Na prática, a partir da medida precautelar que antecedeu o pedido de recuperação judicial, a SAF do Botafogo incorreu em um “uncured event of default”, ou seja, um descumprimento não sanado do contrato. Esse gatilho elevou automaticamente a dívida para, no mínimo, US$ 55 milhões (cerca de R$ 273,3 milhões).
Com o avanço do processo, a GDA passou a ter direito a 200% do valor originalmente emprestado — percentual que ainda cresce com a incidência de uma taxa mensal de 20% de juros, ampliando rapidamente o passivo do clube.
O que deixa a GDA Luma, com fortes possibilidades de reconstruir a SAF Botafogo, resta saber se com Textor ou sem ele, e talvez usando Todd Boehly dono do Chelsea e Strasbourg, que é um dos sócios de Gabriel de Alba, dono da GDA.


