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Camisa do Botafogo na Arena Fonte Nova em 30 de Maio de 2026 - Foto: Vítor Silva/Botafogo |
A situação financeira do Botafogo ganhou novos contornos nesta semana após a divulgação, pela Justiça do Rio de Janeiro, da lista oficial de credores da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) alvinegra no processo de Recuperação Judicial. O documento expõe um passivo sujeito à recuperação estimado em aproximadamente R$ 1,286 bilhão, enquanto a dívida total do clube ultrapassa a marca de R$ 2,5 bilhões, consolidando um dos cenários financeiros mais complexos do futebol brasileiro.
A relação foi tornada pública pelo juiz Marcelo Mondego de Carvalho Lima, da 2ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro. A partir da publicação, os credores terão prazo de 15 dias (até 24/6) para apresentar eventuais contestações sobre os valores reconhecidos pela SAF.
A divulgação ocorre em um momento particularmente delicado para o clube, que enfrenta restrições esportivas impostas pela FIFA. O Botafogo acumula atualmente seis transfer bans por inadimplência junto a outras agremiações e encontra-se impedido de registrar novos jogadores enquanto não regularizar as pendências.
Dívidas com clubes dominam a lista
Os documentos revelam que a maior parcela das obrigações financeiras do Botafogo está relacionada à aquisição de direitos econômicos de atletas. Segundo a SAF, aproximadamente R$ 1,16 bilhão do passivo está ligado a operações de mercado envolvendo contratações realizadas nos últimos anos.
O maior credor individual identificado é a Major League Soccer (MLS), liga profissional dos Estados Unidos e do Canadá. O montante devido alcança R$ 191,9 milhões, valor relacionado principalmente às negociações dos jogadores Thiago Almada, ex-Atlanta United, e Santi Rodríguez, ex-New York City FC.
Logo atrás surge a GDA Luma Onshore Holdco LLC, empresa norte-americana que financiou operações do Botafogo durante a gestão de John Textor. A companhia aparece com créditos de R$ 186,8 milhões.
A presença da GDA ganha ainda mais relevância porque o grupo assinou recentemente um acordo vinculante para adquirir 90% das ações da SAF botafoguense, movimento que pode redefinir a estrutura societária do clube e influenciar diretamente os rumos da recuperação financeira.
Credores internacionais concentram grandes valores
A lista evidencia a forte dependência do Botafogo em relação ao mercado internacional de transferências. Entre os maiores credores aparecem tradicionais clubes europeus que negociaram atletas com o Alvinegro nos últimos anos.
O inglês Nottingham Forest figura com crédito superior a R$ 118,5 milhões, enquanto o português Benfica tem a receber R$ 66,2 milhões, principalmente em função da contratação do atacante Arthur Cabral.
Outras instituições estrangeiras também aparecem entre os principais credores:
Major League Soccer: R$ 191.949.717,50
GDA Luma Onshore Holdco LLC: R$ 186.821.250,00
Nottingham Forest: R$ 118.520.692,50
Benfica: R$ 66.272.760,00
Macquarie Bank Europe: R$ 63.374.896,37
Zenit: R$ 55.227.300,00
OL Brasil: R$ 48.537.898,03
Macquarie Bank London: R$ 45.344.520,00
Santos: R$ 40.318.573,90
Ludogorets: R$ 36.915.090,00
Udinese: R$ 33.923.402,16
Olympique Lyonnais: R$ 29.067.000,58
As cifras reforçam o nível de investimento adotado pela SAF nos últimos anos, especialmente após a chegada de John Textor ao controle do futebol alvinegro.
Ex-treinadores e jogadores também aparecem entre os credores
Além dos clubes e instituições financeiras, a lista inclui profissionais que trabalharam recentemente no Botafogo.
Alguns jogadores e treinadores na lista
Martin Anselmi: R$ 12.491.516,42
Igor Jesus: R$ 11.783.907,14
Nathan Fernandes: R$ 4.981.900,00
Thiago Almada: R$ 2.590.588,00
Diego Sacco: R$ 2.026.736,56 (preparador físico)
Pablo De Muner: R$ 1.935.966,34 (auxiliar)
Arthur Cabral R$ 1.650.000,00
Entre os casos mais chamativos está o do técnico argentino Martín Anselmi, desligado do cargo em março após uma passagem extremamente curta pelo clube. Mesmo permanecendo apenas cerca de três meses no comando da equipe, o treinador possui crédito estimado em aproximadamente R$ 12,5 milhões.
Também chama atenção a presença do atacante Igor Jesus, um dos destaques da histórica campanha que culminou com a conquista da Copa Libertadores. O jogador tem cerca de R$ 11,7 milhões a receber.
A relação inclui ainda atletas que integram o elenco atual. O atacante Arthur Cabral, contratado junto ao Benfica, aparece como credor de aproximadamente R$ 1,6 milhão.
Recuperação Judicial busca reorganização financeira
O processo de Recuperação Judicial representa uma tentativa do Botafogo de reorganizar suas finanças, preservar suas atividades esportivas e estabelecer um cronograma de pagamento para os credores.
Especialistas do setor avaliam que o tamanho do passivo exigirá negociações complexas e de longo prazo. O fato de boa parte das dívidas estar concentrada em clubes estrangeiros e instituições financeiras internacionais aumenta o grau de dificuldade para a construção de um plano que obtenha ampla aprovação.
Ao mesmo tempo, a possível entrada da GDA como controladora da SAF pode representar uma injeção de credibilidade e recursos para sustentar a reestruturação financeira.
Próximos passos
Com a publicação da lista, inicia-se agora uma etapa decisiva do processo. Durante os próximos 15 dias, credores poderão questionar valores, classificações ou omissões eventualmente identificadas nos documentos.
Somente após a consolidação definitiva do quadro geral de credores será possível avançar para as próximas fases da Recuperação Judicial, incluindo a apresentação e eventual aprovação do plano de pagamento.
Enquanto busca equilibrar as contas, o Botafogo enfrenta o desafio de manter a competitividade dentro de campo em meio a restrições impostas pela FIFA e ao peso de uma dívida que coloca o clube entre os casos mais emblemáticos de reestruturação financeira do futebol sul-americano.
