Matix Capital ligada a Danilo Caixeiro e Thairo Arruda, ex-diretores da SAF Botafogo, recebeu mais de R$ 33 milhões de ¨bicho¨, 7 meses antes de sua saída, revelam documentos


Danilo Caixeiro e Thairo Arruda em 2021 - Foto Reprodução


Pagamentos à Matix Capital ocorreram entre julho e novembro de 2025, enquanto clube enfrentava dificuldades financeiras e acusações de inadimplência


Documentos obtidos pelo Portal LeoDias em parceria com o Canal do Manel, em matéria assinada por João Victor, levantam novos questionamentos sobre a gestão financeira da SAF do Botafogo durante o segundo semestre de 2025. Segundo a reportagem, uma empresa ligada ao então CEO do clube, Thairo Arruda, recebeu mais de R$ 33,7 milhões em pagamentos provenientes dos cofres da SAF entre julho e novembro daquele ano, meses antes de sua saída oficial do cargo, ocorrida apenas em fevereiro de 2026.


Os documentos incluem notas fiscais, comprovantes bancários e referências contratuais que, segundo a publicação, demonstrariam a realização de nove pagamentos à Matix Capital Ltda., empresa que tem como sócios Thairo Arruda e o empresário Danilo Caixeiro.


As revelações surgem em um contexto delicado para o clube carioca. Durante o mesmo período em que os pagamentos teriam sido efetuados, o Botafogo enfrentava dificuldades financeiras, atrasos em compromissos e acusações de calotes envolvendo outras agremiações do futebol brasileiro.


O que mostram os documentos


De acordo com a documentação analisada pela reportagem, os valores pagos à Matix Capital foram classificados sob diferentes rubricas contratuais.


Entre as descrições presentes nas notas fiscais estariam:


Multa rescisória equivalente a seis meses;

Bônus garantidos;

Bônus coletivo do elenco, conhecido no futebol como "bicho";

Exercício de opção de venda de ações.


A maior parcela dos recursos, entretanto, estaria relacionada ao chamado "exercício de opção de venda de ações", mecanismo contratual que teria representado aproximadamente R$ 27,8 milhões do total pago.


Os comprovantes bancários analisados pela reportagem indicariam que ao menos R$ 25,7 milhões foram efetivamente transferidos pela SAF do Botafogo para a Matix Capital entre os dias 16 de julho e 21 de novembro de 2025.


Outro elemento apontado pelos documentos é a existência de um "Termination and Release Agreement" — um contrato de rescisão e quitação mencionado nas notas fiscais, mas que nunca teria sido divulgado publicamente.


Rescisão antes da saída


Um dos aspectos mais controversos revelados pela reportagem é o fato de que parte significativa dos pagamentos teria sido justificada como verbas rescisórias, embora Thairo Arruda tenha permanecido formalmente no comando executivo do Botafogo até fevereiro de 2026.


A diferença temporal entre os pagamentos e a efetiva saída do executivo levanta questionamentos sobre a natureza contratual das operações e sobre a estrutura utilizada para sua execução.


Especialistas em governança corporativa ouvidos por diversos veículos em situações semelhantes costumam apontar que operações envolvendo executivos e empresas ligadas à administração exigem elevado grau de transparência e documentação robusta para evitar potenciais conflitos de interesse.


A recompra das ações


Outro ponto central da controvérsia envolve um aditamento contratual firmado em março de 2025.


Segundo a reportagem, o documento previa que a recompra das ações pertencentes à Matix Capital seria uma obrigação da Eagle Football Holdings, grupo controlado pelo empresário norte-americano John Textor.


Contudo, os documentos indicariam que os pagamentos foram realizados diretamente pela SAF do Botafogo, com a justificativa de que o clube efetuava a quitação "por conta da Eagle".


Na prática, isso significaria que recursos da operação do Botafogo teriam sido utilizados para cumprir uma obrigação originalmente atribuída à controladora.


A situação ganha relevância adicional porque, segundo a documentação citada, o aditivo teria sido assinado por John Textor representando simultaneamente a Eagle Football e a própria SAF do Botafogo.


Direito de venda de ações


Os documentos também revelariam que Thairo Arruda e Danilo Caixeiro possuíam direito contratual para vender ações ordinárias da SAF.


Segundo a reportagem, ambos teriam direito a alienar 200 ações cada um, totalizando 400 ações ordinárias.


A cláusula constaria de um aditivo contratual firmado entre as partes e serviria como fundamento para parte dos pagamentos realizados posteriormente.


A existência desse mecanismo é considerada um dos pontos centrais para compreender a composição dos mais de R$ 33 milhões transferidos à Matix Capital.


Contrato em euros


Além dos valores relacionados às ações, a Matix Capital também teria garantido outro benefício financeiro relevante.


A reportagem afirma que um aditivo firmado em março de 2025 concedia à empresa o direito de receber 60 mil euros mensais retroativos a fevereiro de 2024.


Dependendo da cotação aplicada ao período, a cláusula poderia representar milhões de reais adicionais em compromissos assumidos pela estrutura da SAF.


Quem autorizou os pagamentos


Segundo a documentação analisada pelo Portal LeoDias, os pagamentos teriam sido autorizados por Anderson Santos, então diretor financeiro (CFO) do Botafogo.


Santos permaneceu no clube entre 2023 e 2026 e deixou a instituição em abril deste ano, também em meio ao período de reestruturação financeira vivido pela SAF.


Antes de sua passagem pelo Botafogo, o executivo participou do processo de transformação do Vasco da Gama em SAF durante a venda do controle do clube para a 777 Partners.


A Matix Capital também atuou naquele processo, participando das negociações envolvendo a estrutura societária do clube cruzmaltino.


Danilo Caixeiro também deixa o Botafogo


As revelações ocorreram no mesmo momento em que veio a público a saída de Danilo Caixeiro da estrutura do Botafogo.


Sócio de Thairo Arruda na Matix Capital, Caixeiro ocupava o cargo de diretor de operações (COO) da SAF e era considerado um dos principais executivos ligados à gestão de John Textor.


Nos bastidores, sua influência teria aumentado após a saída de Thairo Arruda do comando executivo.


A trajetória da dupla está diretamente conectada à chegada de Textor ao futebol brasileiro. Foi justamente a Matix Capital que apresentou ao empresário Norte-americano, John Charles Textor, que queria comprar inicialmente o América Mineiro, a oportunidade de aquisição do Botafogo em 2022, quando ele buscava um clube para integrar sua rede internacional de equipes.


A reformulação da SAF após a era Textor


A sucessão de desligamentos ocorrida após a saída de John Textor do controle da SAF do Botafogo reforça a percepção de que o clube atravessa uma profunda mudança administrativa e institucional.


Entre os principais nomes que deixaram a estrutura de gestão estão:


Thairo Arruda ❌ Ex-CEO;

Alexandre Costa ❌ Ex-COO;

Anderson Santos ❌ Ex-diretor de Finanças (CFO);

Jonas Marmello ❌ Ex-Vice-Presidente Executivo;

Alessandro Brito ❌ Ex-Gestão Esportiva;

Danilo Caixeiro ❌ Ex-Diretor de Operações da Eagle Football Holdings e posteriormente COO e CEO da SAF, assumindo maior protagonismo após o pedido de demissão de Alexandre Costa e de Thairo Arruda. 


A saída de Danilo Caixeiro ganha relevância adicional por sua ligação societária com Thairo Arruda na Matix Capital, empresa que aparece no centro das revelações sobre pagamentos superiores a R$ 33,7 milhões realizados pela SAF do Botafogo durante o segundo semestre de 2025.


Com a saída de praticamente todos os principais executivos que participaram da implementação do projeto liderado por John Textor desde 2022, resta atualmente apenas um número reduzido de integrantes da antiga estrutura de comando.


Nos bastidores do clube, observa-se que apenas Léo Coelho e Deive Bandeira permanecem como remanescentes mais identificados com a administração anterior. Caso também deixem seus cargos futuramente, a SAF concluiria uma renovação praticamente completa de sua alta gestão, abrindo espaço para a formação de uma nova diretoria e para uma nova fase administrativa na história do Botafogo.


Para analistas de governança esportiva, a amplitude das mudanças evidencia o encerramento de um ciclo iniciado com a transformação do clube em SAF e pode representar uma tentativa de reorganização institucional após os desafios financeiros, administrativos e políticos enfrentados nos últimos meses.


Questões de governança e transparência


As informações reveladas pela reportagem colocam em evidência temas relacionados à governança corporativa dentro do modelo SAF.


Especialistas observam que operações envolvendo:


Executivos da administração;

Empresas ligadas a dirigentes;

Pagamentos de bônus e rescisões;

Recompras de ações;

Obrigações entre controladora e subsidiária;


costumam exigir elevados padrões de transparência para preservar a confiança de investidores, torcedores e credores.


As informações divulgadas até o momento se baseiam nos documentos obtidos pela reportagem. Eventuais esclarecimentos adicionais por parte do Botafogo, da Eagle Football, de John Textor, de Thairo Arruda, de Danilo Caixeiro e dos demais envolvidos poderão contribuir para o entendimento completo das operações financeiras apontadas.


O que permanece sem resposta


Entre os principais questionamentos que permanecem abertos estão:


Por que verbas classificadas como rescisórias foram pagas meses antes da saída oficial do executivo?

Qual o teor integral do "Termination and Release Agreement" mencionado nas notas fiscais?

Por qual motivo a SAF efetuou pagamentos que, segundo o aditivo contratual, seriam obrigação da Eagle Football?

Houve aprovação formal dos órgãos de governança para todas as operações?

Os pagamentos estavam compatíveis com a situação financeira enfrentada pelo clube naquele momento?


Enquanto essas perguntas aguardam esclarecimentos, a revelação dos documentos representa um dos episódios mais relevantes envolvendo a gestão da SAF do Botafogo desde sua aquisição por John Textor em 2022.

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