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John Textor então Presidente e Dono do Lyon em Janeiro de 2025 - Foto: Icon Sport |
Durante 4 anos e 2 meses, John Charles Textor foi apresentado como o empresário que revolucionaria o futebol mundial através de um modelo inédito de clubes integrados na Eagle Football Holdings. No Brasil, o chamado "Botafogo Way" (Jeito Botafogo) prometia transformar o Botafogo em uma referência mundial de gestão, utilizando inteligência de mercado, análise de dados, intercâmbio de atletas e um sistema financeiro compartilhado entre clubes de diferentes países, e um padrão de jogo bem estabelecido.
A narrativa era sedutora.
A realidade, porém, revelou-se muito diferente.
Hoje, o grupo construído por Textor encontra-se praticamente desfeito. O Lyon deixou seu controle após a aquisição do clube por Michele Kang, enquanto o Botafogo caminha para a conclusão da venda de sua SAF para a GDA Luma. O RWDM Brussels também entrou no processo de alienação de ativos conduzido pelos administradores judiciais da Eagle Football, a Cork Gully LLP.
O que nasceu como uma ambiciosa rede global de futebol termina como um estudo de caso sobre os limites da expansão financiada por dívida.
O sonho da Eagle Football
Quando John Textor assumiu o controle do Botafogo em 2022, o discurso era claro.
O clube seria apenas uma peça dentro de uma estrutura internacional composta por Lyon, RWDM Brussels e outros ativos estratégicos.
Jogadores circulariam entre os clubes.
Os departamentos de scouting (monitoramento/olheiros) seriam integrados.
As receitas cresceriam exponencialmente.
O Botafogo deixaria de pensar como um clube brasileiro para atuar como uma multinacional do futebol.
Foi nesse contexto que surgiu a expressão "Botafogo Way", apresentada como uma filosofia moderna de gestão esportiva.
Depois do predestinado técnico Artur Jorge Gomes Torres Amorim, e Michael Gerlinger como diretor global da Eagle Football em 2024, terem feito um excelente trabalho. Durante aquele tempo, o projeto pareceu funcionar.
O Botafogo voltou a disputar títulos importantes, conquistou protagonismo continental com a conquista da Libertadores e recuperou sua imagem esportiva, ao vencer o Tricampeonato Brasileiro.
Mas os resultados dentro de campo escondiam uma realidade financeira cada vez mais delicada, que iria acontecer em 2025.
O caixa único que virou problema
A Eagle Football operava com uma lógica pouco convencional.
Na prática, diferentes ativos do grupo compartilhavam operações financeiras, empréstimos internos e movimentações de caixa.
Enquanto havia crescimento e novos financiamentos, o sistema permanecia sustentável.
Quando o crédito diminuiu, toda a estrutura começou a sofrer pressão simultaneamente.
As dificuldades enfrentadas pelo Lyon passaram a afetar diretamente outras empresas do grupo.
As cobranças entre Botafogo e Lyon tornaram-se públicas.
Credores passaram a exigir garantias adicionais.
A administradora Cork Gully LLP assumiu papel central na reorganização dos ativos, colocando clubes à venda para reduzir o elevado endividamento da estrutura.
Lyon: o ponto de ruptura
A situação do Lyon tornou-se o maior símbolo da crise.
Após meses de dificuldades financeiras, Michele Kang assumiu o controle acionário do tradicional clube francês.
O acordo prevê nova capitalização, reorganização das dívidas e a saída definitiva da influência direta de John Textor sobre o Olympique Lyonnais.
Mais do que uma simples mudança de proprietário, trata-se do reconhecimento de que o modelo anterior havia perdido capacidade de sustentação financeira.
O clube francês inicia agora um processo de reconstrução completamente independente da Eagle Football.
Botafogo: uma nova etapa
No Brasil, a consequência mais significativa deverá ocorrer nos próximos dias.
A SAF do Botafogo possui contrato vinculante para aquisição de 90% das ações pela GDA Luma, encerrando a era Textor no controle do futebol alvinegro.
A expectativa da nova administração é estabilizar a situação financeira, resolver passivos herdados da antiga estrutura e permitir que o clube volte a operar com autonomia administrativa.
Também permanecem em discussão questões envolvendo repasses financeiros entre Botafogo e Lyon, que deverão ser negociadas diretamente entre a nova gestão brasileira e Michele Kang.
RWDM Brussels: outro ativo à venda
Na Bélgica, o RWDM Brussels representa mais uma consequência da desestruturação da Eagle Football.
Sem capacidade para manter a estratégia de múltiplos clubes sob uma única administração altamente alavancada, a reorganização conduzida pelos administradores judiciais incluiu o clube belga entre os ativos colocados no mercado.
O objetivo tornou-se simples: reduzir dívidas e preservar valor para credores.
Quando a ambição encontrou a insolvência
A história recente de John Textor ilustra um fenômeno recorrente no futebol moderno.
A expansão acelerada baseada em financiamento externo pode produzir crescimento rápido, mas também amplia exponencialmente os riscos quando o fluxo de capital diminui.
O projeto Eagle Football dependia de confiança do mercado, refinanciamentos constantes e valorização permanente dos ativos.
Quando esses elementos deixaram de existir, a estrutura mostrou-se vulnerável.
A insolvência não surgiu de uma única decisão equivocada.
Ela foi resultado de sucessivas apostas em crescimento contínuo.
O legado
Seria injusto afirmar que tudo fracassou.
Sob Textor, o Botafogo recuperou competitividade esportiva, voltou ao cenário internacional e viveu um dos períodos mais relevantes de sua história recente.
Entretanto, os resultados esportivos não impediram o desgaste institucional provocado pela fragilidade financeira do grupo controlador.
Hoje, o que permanece é uma lição importante para o futebol global.
Projetos de multipropriedade podem gerar eficiência operacional.
Mas nenhuma estratégia resiste quando a engenharia financeira passa a depender mais da expansão permanente do que da geração sustentável de caixa.
Conclusão
O chamado "Botafogo Way" nasceu como símbolo de inovação.
Terminou como um experimento interrompido pelas limitações da própria estrutura que o sustentava.
Com Michele Kang reconstruindo o Lyon e a GDA Luma assumindo o comando do Botafogo, encerra-se oficialmente um dos capítulos mais ambiciosos — e mais controversos — da história recente do futebol internacional.
A trajetória de John Textor deixa uma pergunta que permanecerá relevante para investidores e dirigentes:
Até que ponto a ambição pode impulsionar o crescimento antes de se transformar em vulnerabilidade financeira?
Porque, no fim, a linha que separa visão empresarial e insolvência costuma ser muito mais estreita do que parece.
