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Franclim Carvalho em entrevista ao repórter Edson Viana, exibida pelo Globo Esporte - Foto Reprodução: TV GLOBO |
Discreto, analítico e avesso aos holofotes, Franclim Carvalho construiu sua reputação longe das câmeras. Durante anos, preferiu o banco de reservas aos microfones, o estudo dos adversários às manchetes e a preparação tática ao protagonismo. Hoje, porém, o treinador português ocupa o centro das atenções como comandante do Botafogo e começa a revelar publicamente a trajetória que o levou ao comando de um dos clubes mais tradicionais do futebol brasileiro.
Em entrevista exclusiva concedida ao GE e à TV Globo, para o repórter Edson Viana, realizada no domingo passado 2/8, a primeira desde que assumiu oficialmente o comando técnico do clube em abril de 2026, Franclim abriu espaço para falar não apenas sobre o presente alvinegro, mas principalmente sobre os caminhos que moldaram sua carreira, as referências profissionais que influenciaram sua forma de pensar o futebol e o episódio que considera um dos momentos mais marcantes de sua trajetória: a final da Copa Libertadores da América de 2024, quando ainda integrava a comissão técnica de Artur Jorge.
Naquela tarde de 30 de novembro de 2024, no Estádio Más Monumental de Núñez, em Buenos Aires, o Botafogo viveu uma das páginas mais emblemáticas de sua história. Logo nos primeiros segundos da decisão contra o Atlético Mineiro, a expulsão de Gregore obrigou a equipe carioca a disputar praticamente toda a final com um jogador a menos.
Para qualquer comissão técnica, seria um cenário capaz de desmontar meses de preparação. Para Franclim Carvalho e seus companheiros de banco, foi o momento em que planejamento, leitura tática e capacidade de adaptação precisaram falar mais alto do que qualquer improviso.
As imagens daquele jogo mostraram diversas conversas intensas entre Franclim e Artur Jorge. Na época, poucos sabiam exatamente o conteúdo das orientações. Dois anos depois, o treinador resolveu explicar pela primeira vez como nasceu uma das decisões estratégicas mais importantes daquela conquista.
Antes, porém, ele preferiu voltar ainda mais no tempo.
O início de uma carreira que começou antes do esperado
Ao contrário de muitos treinadores portugueses, Franclim Carvalho nunca imaginou construir uma longa carreira dentro das quatro linhas como jogador profissional.
Atuando como ponta direita, reconhece com bom humor que sua principal característica era a velocidade. A técnica, admite entre risos, estava longe de ser seu maior atributo.
A percepção de que enxergava o futebol melhor do que conseguia executá-lo acabou mudando completamente o rumo de sua vida.
Enquanto ainda disputava competições nas divisões inferiores de Portugal, começou a frequentar cursos para obtenção das licenças de treinador. Foi durante esse período que recebeu um convite que alteraria definitivamente seus planos.
Um dos instrutores responsáveis por sua formação ofereceu-lhe a oportunidade de iniciar imediatamente uma carreira como auxiliar técnico.
A decisão exigia abrir mão do sonho de seguir como atleta.
Franclim não hesitou.
Segundo ele, continuar jogando significaria permanecer em níveis modestos do futebol português. Já a carreira como treinador oferecia perspectivas muito maiores de crescimento profissional.
A escolha mostrou-se acertada.
Em poucos anos, deixou o futebol amador para ingressar em clubes profissionais, iniciando uma ascensão relativamente rápida dentro do cenário português.
O próprio treinador reconhece que teve sorte ao longo desse percurso, mas ressalta que as oportunidades só apareceram porque sempre esteve preparado para assumir responsabilidades maiores.
A experiência no Belenenses e o reencontro com Artur Jorge
O primeiro grande desafio surgiu em 2022.
Após trabalhar anteriormente como auxiliar no Belenenses, Franclim recebeu um convite inesperado para assumir a equipe principal em meio a um cenário extremamente delicado.
O clube enfrentava graves dificuldades esportivas.
Embora acreditasse que o desempenho da equipe durante sua gestão fosse suficiente para garantir a permanência na primeira divisão portuguesa, os resultados acumulados no primeiro turno acabaram comprometendo toda a temporada, culminando no rebaixamento.
Mesmo sem conseguir evitar a queda, a experiência consolidou uma certeza.
Seu futuro seria como treinador principal.
Pouco tempo depois surgiu um novo convite.
Artur Jorge, com quem já havia trabalhado anteriormente, iniciava um novo projeto no Braga e queria novamente Franclim ao seu lado.
A decisão foi tomada rapidamente.
Mais do que uma oportunidade profissional, tratava-se de uma questão de lealdade.
Franclim afirma que sempre deixou claro a dirigentes e intermediários que aceitaria ser auxiliar apenas de Artur Jorge.
A parceria entre os dois havia criado uma relação de absoluta confiança, tanto dentro quanto fora de campo.
Foi exatamente essa conexão que, posteriormente, abriria caminho para outro capítulo decisivo.
Quando Artur Jorge assumiu o Botafogo, Franclim também desembarcou no Rio de Janeiro.
Sem imaginar, naquele momento, que participaria diretamente da maior conquista da história recente do clube.
Dos bastidores ao protagonismo
Durante praticamente toda sua passagem como auxiliar, Franclim construiu fama de profissional extremamente participativo.
Longe da imagem tradicional do auxiliar que apenas observa os treinamentos, ele sempre recebeu autonomia dos treinadores com quem trabalhou.
Participava das análises.
Propunha ajustes.
Sugeriu mudanças táticas.
Organizava exercícios.
Interferia na preparação das partidas.
Segundo ele próprio, jamais teve receio de assumir responsabilidades.
Essa liberdade concedida por técnicos como Artur Jorge, Petit e Ulisses Morais acabou funcionando como um verdadeiro laboratório para o futuro.
Quando finalmente recebeu o convite para assumir o Botafogo como treinador principal, a mudança de função representou muito mais uma alteração na exposição pública do que propriamente na rotina de trabalho.
A diferença, explica, passou a estar principalmente na dimensão das responsabilidades.
Além das decisões técnicas, vieram as cobranças da diretoria, a relação direta com os jogadores, a necessidade de responder diariamente às expectativas da torcida e o contato constante com a imprensa.
Mesmo assim, garante que nunca encarou a transição como algo traumático.
A ideia de se tornar treinador principal sempre esteve presente desde os primeiros anos de sua carreira.
Agora, a missão era transformar anos de aprendizado silencioso em liderança à frente de um dos maiores clubes do continente.
Um treinador de campo em busca de uma identidade própria
Ao assumir o comando do Botafogo, Franclim Carvalho sabia que a maior mudança não seria apenas no cargo, mas na forma como seria observado.
Durante anos, ele esteve ao lado dos treinadores, analisando partidas, sugerindo alternativas e participando das decisões sem carregar sozinho o peso da responsabilidade pública. Como treinador principal, cada escolha passou a ter seu nome diretamente associado.
Para o português, entretanto, a adaptação aconteceu de maneira natural.
A liderança sempre esteve presente em sua maneira de trabalhar.
Franclim explica que, como auxiliar técnico, teve a oportunidade de atuar com grande liberdade. Diferentemente de profissionais que apenas executam ordens, ele sempre buscou participar ativamente da construção das equipes.
Essa postura foi fundamental para que chegasse preparado ao momento de assumir um clube da dimensão do Botafogo.
Segundo ele, a principal diferença está no relacionamento diário.
O auxiliar costuma ser visto pelos jogadores como alguém mais próximo do processo de preparação. Já o treinador é quem precisa tomar decisões difíceis: escolher titulares, deixar atletas fora da lista, administrar expectativas e, muitas vezes, contrariar interesses individuais em benefício do coletivo.
É justamente nesse ponto que Franclim tenta construir sua marca.
Ele defende uma relação baseada na sinceridade.
Para o treinador, uma verdade difícil no momento certo é melhor do que uma mensagem confortável que pode gerar problemas no futuro.
Essa filosofia, segundo ele, é aplicada diariamente no vestiário do Botafogo.
“Olho no olho” é uma expressão que resume sua maneira de comandar.
Mesmo reconhecendo que é impossível agradar todos os jogadores de um elenco numeroso, acredita que o treinador precisa buscar justiça, transparência e coerência nas decisões.
“A cada cabeça, a sua sentença”: a influência portuguesa e a construção de um estilo próprio
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Franclim Carvalho sorrindo durante entrevista ao GE exibida parcialmente pelo Globo Esporte - Foto Reprodução: TV GLOBO |
Uma das frases que melhor define a visão de Franclim Carvalho vem de Portugal:
“A cada cabeça, a sua sentença.”
O ditado significa que cada pessoa possui sua própria forma de enxergar situações e tomar decisões.
Para o treinador do Botafogo, essa ideia também representa a construção de sua identidade profissional.
Ele não pretende ser uma cópia de nenhum técnico.
Ao longo da carreira, absorveu características de diferentes profissionais, mas entende que cada treinador precisa encontrar seu próprio caminho.
Entre suas principais referências estão os nomes com quem trabalhou diretamente.
Artur Jorge aparece naturalmente como uma das maiores influências.
A relação construída durante anos de parceria fez com que Franclim acompanhasse de perto não apenas os jogos, mas também a rotina de treinamentos, preparação tática, gestão de grupo e tomada de decisões.
Além de Artur, cita experiências com Petit e Ulisses Morais como fundamentais para sua formação.
O português também destaca a importância de observar diferentes escolas de futebol.
Para ele, o treinador precisa estar em constante evolução porque o futebol muda diariamente.
Estratégias que funcionam hoje podem ser superadas amanhã.
Por isso, ele vê o trabalho de treinador como um processo permanente de estudo.
O futebol como um jogo de estratégia
Franclim Carvalho demonstra uma visão extremamente analítica sobre o futebol.
Para ele, o treinador precisa estar sempre preparado para responder às mudanças do adversário.
O português lembra experiências contra equipes que apresentavam modelos diferentes de jogo, como o Sporting de Rúben Amorim, que revolucionou o futebol português ao utilizar frequentemente uma estrutura com três zagueiros.
A adaptação tornou-se uma necessidade.
Ele também cita o trabalho de Sérgio Conceição no Porto, treinador conhecido por apresentar variações táticas constantes durante as temporadas.
Esses exemplos reforçam uma ideia central para Franclim:
O futebol é um jogo de estratégia permanente.
Um duelo de decisões.
Um confronto entre ideias.
Por isso, ele afirma que dificilmente estará completamente satisfeito com sua evolução como treinador.
A busca pela melhora nunca termina.
Criatividade acima da rigidez
Apesar de valorizar organização e disciplina tática, Franclim Carvalho não acredita em um futebol excessivamente preso a sistemas.
Especialmente no Brasil, onde reconhece uma relação diferenciada dos jogadores com a bola.
Para ele, limitar completamente a criatividade dos atletas seria desperdiçar uma das maiores características do futebol brasileiro.
O treinador entende que existem momentos e regiões do campo onde o jogador precisa ter liberdade para arriscar.
Mas essa liberdade precisa estar acompanhada de responsabilidade.
A ideia é simples:
O atleta pode tentar uma jogada individual, mas precisa compreender quando insistir e quando simplificar.
Ele utiliza Matheus Martins como exemplo.
Segundo Franclim, jogadores ofensivos possuem naturalmente uma característica de risco.
Eles erram porque tentam.
O papel do treinador não seria eliminar essa característica, mas ensinar o momento correto para cada decisão.
O mesmo pensamento vale para Montoro.
O jovem jogador, segundo o treinador, possui qualidade diferenciada e personalidade para assumir responsabilidades, mas ainda precisa aprender a administrar melhor determinadas escolhas durante as partidas.
A missão da comissão técnica é proteger esses talentos sem retirar deles aquilo que os torna diferentes.
Ataque, intensidade e coragem como princípios
Uma das características mais claras da filosofia de Franclim Carvalho é a intenção ofensiva.
Ele acredita que equipes com qualidade precisam assumir protagonismo.
Essa mentalidade já estava presente quando trabalhou no Braga e voltou a aparecer no Botafogo.
Na visão do treinador, quando o elenco oferece jogadores capazes de decidir partidas, o caminho natural é buscar o ataque.
Ele lembra que o Botafogo de 2024 tinha um grupo ofensivo extremamente qualificado, com jogadores como Luiz Henrique, Thiago Almada, Igor Jesus e Savarino.
Para ele, aquele elenco combinava perfeitamente com uma proposta agressiva.
Essa característica também esteve presente na histórica final da Libertadores.
Mesmo com um jogador a menos desde o início, a equipe não abandonou completamente sua identidade.
A escolha foi reorganizar a estrutura, mas manter jogadores capazes de decidir.
O desafio de comandar um elenco apaixonado
No Brasil, Franclim encontrou uma realidade diferente da vivida em Portugal.
A relação entre clube e torcida chamou sua atenção.
Ele reconhece que o torcedor brasileiro vive o futebol de maneira intensa e emocional.
Essa paixão, segundo ele, é uma das grandes riquezas do país, mas exige equilíbrio dos profissionais.
O treinador afirma que também possui um lado emocional forte, mas entende que sua função exige controle.
O técnico precisa sentir a importância do momento, mas também precisa pensar com racionalidade.
No Rio de Janeiro, essa intensidade ficou ainda mais evidente.
Mesmo sendo uma pessoa reservada, Franclim relata que tem recebido carinho dos torcedores.
Ainda assim, mantém uma rotina extremamente focada.
Sua vida se resume praticamente ao Botafogo:
Centro de treinamento, casa e preparação.
Pouco tempo para lazer.
Poucas aparições públicas.
Tudo em função do trabalho.
A rotina de dedicação absoluta ao Botafogo
Franclim Carvalho admite que a profissão exige sacrifícios pessoais.
Morando sozinho no Brasil, tenta aproveitar os períodos de pausa para visitar Portugal e estar próximo da família.
Mas reconhece que o futebol ocupa praticamente todo seu tempo.
Sua rotina começa cedo e termina tarde.
Ele destaca a importância da comissão técnica nesse processo.
Profissionais como Luís Filipe, seu auxiliar, e Alfie Assis, analista que já estava no Botafogo em 2024, fazem parte de uma engrenagem que funciona diariamente.
O treinador reconhece que o trabalho exige dedicação integral.
Para ele, o Botafogo não é apenas uma profissão.
É um compromisso.
O DIA EM QUE FRANCLIM CARVALHO ENTROU PARA A HISTÓRIA DO BOTAFOGO: O AJUSTE TÁTICO NA FINAL DA LIBERTADORES DE 2024
O conselho vindo do banco que ajudou a reorganizar o campeão continental
Antes de ser o comandante principal do Botafogo, Franclim Carvalho viveu um dos momentos mais importantes de sua trajetória profissional justamente no papel de auxiliar técnico.
A cena aconteceu em uma tarde que entrou definitivamente para a história do clube.
Era sábado, 30 de novembro de 2024. O palco era o Estádio Más Monumental de Núñez, em Buenos Aires. De um lado, o Botafogo. Do outro, o Atlético Mineiro. Em disputa, o título da Copa Libertadores da América.
O jogo mal havia começado quando uma expulsão mudou completamente o roteiro da decisão.
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Gregore em pisão voadora contra Fausto Vera na Final da Libertadores 2024, com Thiago Almada e Igor Jesus observando ao fundo, no Estádio Mâs Monumental em 30/11 - Foto: Agustin Marcarian/Reuters |
Nos primeiros 33 segundos da partida, Gregore recebeu cartão vermelho, após voadora em Fausto Vera, deixando o Botafogo com apenas dez jogadores em campo durante praticamente toda a final.
O cenário parecia indicar uma necessidade imediata de recuo.
Muitos esperavam uma equipe completamente defensiva, tentando apenas sobreviver.
Momento emblemático e histórico, 3 minutos e 30 segundos depois da expulsão de Gregore, na final da Libertadores 2024, foi Franclim Carvalho na época como auxiliar técnico que passou instruções táticas, para Artur Jorge.
— Gazeta Botafogo ⭐📰 (@agazetabotafogo) April 2, 2026
📸TV GLOBO | 30/11/2024 às 17h05 daquela tarde de Sábado. pic.twitter.com/v2MXiBlYpy
Tem coisas que não se explicam no Botafogo. E nós sabemos disso. Relembre o momento emblemático de Franclim Carvalho e João Cardoso orientando Artur Jorge na primeira final da Libertadores do Botafogo em 30/11/2024. Um dos momentos que garantiram o título inédito.
— Gazeta Botafogo ⭐📰 (@agazetabotafogo) April 2, 2026
🎥TV GLOBO https://t.co/9HdU0pIft3 pic.twitter.com/TMJRt5Qii6
Mas a comissão técnica liderada por Artur Jorge tomou outra decisão.
E Franclim Carvalho teve participação direta nesse processo.
Anos depois, já como treinador principal do Botafogo, revelou os bastidores nesta entrevista, sobre a conversa que chamou atenção dos torcedores, nas imagens transmitidas durante a partida AO VIVO naquela ocasião.
Assista ao trecho abaixo exibido na edição de hoje do GLOBO ESPORTE, que teve a apresentação de Duda Dalponte:
Franclim Carvalho revela à Edson Viana que até os 23 anos era um ponta-direita rápido,não técnico; contou sua expectativa sobre o Botafogo,e o que fez de diferente após a expulsão de Gregore na Final da Libertadores 2024, como auxiliar de Artur Jorge.
— Gazeta Botafogo ⭐📰 (@agazetabotafogo) August 7, 2026
🎥 TV Globo | Globo Esporte pic.twitter.com/fh7YSvbvcf
Segundo Franclim, o papel do auxiliar naquele momento foi justamente oferecer uma visão diferente da partida.
Enquanto o treinador principal vive o jogo de maneira mais intensa, o auxiliar costuma observar com uma distância maior, identificando espaços, comportamentos do adversário e possíveis ajustes.
Era necessário tomar uma decisão.
O Botafogo tinha duas possibilidades:
Retirar um jogador ofensivo e colocar um atleta de marcação, ou manter em campo jogadores capazes de decidir a partida.
A escolha não era simples.
A difícil decisão: defender sem abandonar a identidade
Naquele elenco, o Botafogo possuía quatro atacantes considerados fundamentais:
Luiz Henrique;
Thiago Almada;
Igor Jesus;
Savarino.
Para Franclim, retirar qualquer um deles representava abrir mão de uma característica que havia levado a equipe até aquela final.
Cada um daqueles jogadores poderia decidir o confronto em um único lance.
A alternativa encontrada foi reorganizar a equipe sem abrir mão dos principais nomes ofensivos.
Em vez de simplesmente trocar ataque por defesa, a comissão técnica buscou um equilíbrio.
O objetivo era defender melhor sem transformar o Botafogo em uma equipe completamente passiva.
Franclim explica que conversou com Artur Jorge e com o restante da comissão.
As ideias foram apresentadas.
A decisão final, naturalmente, cabia ao treinador principal.
E Artur Jorge aprovou o ajuste.
Marlon Freitas: a peça fundamental na reorganização
Um dos nomes mais importantes naquele momento foi Marlon Freitas.
Segundo Franclim, o volante teve uma leitura de jogo fundamental para executar a estratégia pensada pela comissão técnica.
O jogador entendia rapidamente as orientações e conseguia transmitir aos companheiros aquilo que precisava ser feito dentro de campo.
Na prática, Marlon passou a exercer uma função ainda mais estratégica.
Ele ajudou a formar uma estrutura defensiva mais sólida, ocupando espaços próximos à linha defensiva e permitindo que a equipe mantivesse jogadores ofensivos capazes de ameaçar o Atlético Mineiro.
A ideia era clara:
Não abandonar completamente o ataque.
Não perder a capacidade de contra-atacar.
Não permitir que o adversário dominasse todos os espaços.
O Botafogo precisava sobreviver, mas também precisava continuar sendo o Botafogo que havia chegado até aquela decisão.
A leitura sobre o Atlético Mineiro
Outro ponto destacado por Franclim foi a análise do modelo de jogo do adversário.
O Atlético Mineiro atuava com três defensores e dois jogadores abertos pelos lados do campo.
A comissão técnica precisava encontrar uma maneira de equilibrar essa estrutura.
Com um jogador a menos, o Botafogo precisava proteger as laterais, controlar a superioridade numérica do adversário e evitar que o Atlético criasse situações constantes de perigo.
A solução foi reorganizar o posicionamento.
A equipe passou a defender com mais jogadores atrás da linha da bola, mas sem abrir mão dos atletas mais talentosos no setor ofensivo.
Era uma estratégia baseada em leitura de jogo.
Mais do que simplesmente resistir, era necessário entender como resistir.
“Não é mais fácil jogar com dez”
Franclim faz questão de destacar um ponto:
Jogar com um atleta a menos durante uma final de Libertadores não é uma vantagem.
A ideia de que uma equipe pode crescer emocionalmente nessa situação, segundo ele, não corresponde à realidade.
A dificuldade foi enorme.
O Botafogo precisou controlar ansiedade, administrar desgaste físico e manter concentração durante praticamente toda a partida.
Cada decisão tinha peso histórico.
Um erro poderia custar o título.
Uma escolha equivocada poderia comprometer todo o trabalho realizado durante a temporada.
Por isso, ele considera aquele momento uma demonstração da força coletiva da comissão técnica e dos jogadores.
A equipe conseguiu se adaptar sem perder completamente sua identidade.
A sugestão de atacar: uma característica pessoal de Franclim
A participação de Franclim naquele jogo também revelou uma característica que acompanha sua carreira:
A coragem de atacar.
Mesmo diante de situações adversas, ele acredita que equipes com qualidade precisam manter personalidade.
A sugestão de buscar o jogo contra o Atlético Mineiro não foi apenas uma decisão daquele momento.
Era uma extensão de uma ideia que ele carrega como treinador.
Segundo Franclim, quando possui jogadores capazes de decidir, sua tendência é sempre incentivar a equipe a assumir protagonismo.
Ele cita o trabalho realizado no Braga e no próprio Botafogo como exemplos.
A mentalidade é baseada em uma frase simples:
Ir para cima.
Atacar.
Criar.
Fazer gols.
Para ele, uma equipe vencedora precisa respeitar o adversário, mas não pode perder sua própria identidade.
A influência daquele momento na carreira
A final da Libertadores de 2024 representou uma espécie de confirmação para Franclim Carvalho.
Ainda como auxiliar, ele pôde participar de uma decisão que exigia liderança, conhecimento tático e capacidade de reação.
Foi um momento em que deixou de ser apenas um observador.
Sua opinião ganhou peso dentro da comissão.
A experiência também reforçou uma convicção que já existia:
Ele estava preparado para assumir o papel de treinador principal.
Poucos meses depois, a oportunidade chegaria.
O Botafogo confiaria a ele a missão de comandar o clube em uma nova fase.
E o homem que ajudou a ajustar a equipe em uma das maiores decisões da história alvinegra agora tinha a responsabilidade de construir sua própria história no banco de reservas.
A aposta na base, a gestão de talentos e o equilíbrio entre juventude e experiência
Ao assumir o comando do Botafogo, Franclim Carvalho encontrou um elenco formado por jogadores experientes, atletas de mercado internacional e uma geração de jovens talentos que pediam espaço. Para o treinador português, o desafio não é simplesmente lançar jogadores da base, mas criar o ambiente correto para que eles possam evoluir sem queimar etapas.
A filosofia de Franclim passa por uma ideia clara: os jovens precisam estar próximos do elenco principal, absorver conhecimento e competir por oportunidades reais.
“Os jovens nos dão uma coisa que eu gosto muito, que é andamento em treino. Intensidade de trabalho, capacidade de trabalho, pressão. Isso, para mim, é muito importante na equipe, e eles me dão isso. Depois, têm qualidade”, explicou o treinador.
A visão do técnico é de equilíbrio. Ele não acredita em uma equipe formada apenas por jovens, mas também não vê sentido em manter atletas promissores afastados quando demonstram capacidade para contribuir.
“Eu tenho dito que nós não vamos ter um Botafogo em campo com 11 atletas da base até o final de 2026. Não vai acontecer. Mas temos que criar condições para lançá-los. Eles vão responder, porque têm qualidade”, afirmou.
Para Franclim, o processo de formação precisa respeitar o momento de cada atleta. O treinador entende que cada jogador tem uma evolução diferente e que o papel da comissão técnica é identificar quando o atleta está preparado para enfrentar o nível de exigência do futebol profissional.
Entre os jovens que ganharam espaço está o atacante Lucas Emanuel, que chamou atenção pela capacidade de finalização e pela personalidade mesmo com pouca idade.
Franclim revelou que o jogador o faz lembrar de um atleta com quem trabalhou anteriormente, o português Vitinha, que se destacou no Braga e posteriormente foi negociado com o futebol europeu.
“Ele tem muita coisa idêntica ao Vitinha. Finaliza bem, trabalha muito, está sempre correndo. Apesar de ter 17 anos, ele não se amedronta”, analisou.
O treinador também destacou a importância de não acelerar processos.
“Ainda falta muita coisa para ser um jogador do time principal do Botafogo numa Série A. Vai continuar trabalhando com a gente. A chegada do Danilo não significa que o Lucas vai voltar para a base. Ele é um jogador que é para estar conosco, mas precisamos cumprir etapas”, explicou.
Danilo Pereira e a mentalidade que Franclim procura no elenco
Um dos assuntos abordados pelo treinador foi a chegada de Danilo Pereira, atacante que retornou ao futebol brasileiro após trajetória na Europa. Para Franclim, mais importante do que a qualidade técnica é a mentalidade apresentada pelo jogador.
O técnico revelou que, antes mesmo de estrear, Danilo demonstrou preocupação em entender exatamente o modelo de jogo da equipe.
“Quando acertamos e eu falei com ele, em algumas horas ele me perguntou: ‘Mister, não tem um vídeo para eu ver o que você pede aos atacantes?’ Fiz o vídeo chegar até ele. Ele estava preparado para todas as posições”, contou.
Para Franclim, essa atitude mostrou o desejo do jogador de se adaptar rapidamente.
“Isso mostra a fome e a vontade que ele veio. Os jogadores têm que vir com fome, com vontade de representar o Botafogo”, afirmou.
O treinador explicou que não busca apenas atletas conhecidos ou com grande currículo. Ele procura jogadores comprometidos com o projeto.
“Eu não quero jogadores que venham para o Botafogo pensando apenas no dinheiro ou porque o clube ganhou em 2024. Quero jogadores que tenham vontade de representar o Botafogo”, disse.
Segundo Franclim, Danilo poderia ter permanecido no futebol europeu, mas escolheu um novo desafio.
“O mais confortável para ele era ficar na Europa. Tinham várias oportunidades. Vir para o Brasil exige adaptação, mudança de vida, principalmente porque ele já tem filhos. Ele veio preparado e com vontade de vir, e isso foi muito importante”, destacou.
O futebol como estratégia: liberdade para criar e responsabilidade para competir
Uma das características mais marcantes do trabalho de Franclim Carvalho é a tentativa de unir organização tática e liberdade individual.
O português acredita que o jogador brasileiro possui uma relação especial com a bola e que o treinador não deve limitar essa criatividade.
“Eu não quero castrar esse lado da criatividade, porque acho que o futebol mundial está entrando muito por aí. O jogador brasileiro tem uma relação única com a bola”, afirmou.
Ao mesmo tempo, ele entende que liberdade precisa estar acompanhada de responsabilidade.
Segundo o treinador, existem momentos em que o atleta precisa compreender o risco da decisão tomada.
“Há zonas do campo em que podem arriscar mais e outras em que não podem. Temos regras. Não quero tirar aquilo que faz um jogador ser diferente, mas precisamos equilibrar”, explicou.
Essa ideia aparece especialmente com jogadores jovens e ofensivos, como Matheus Martins e Montoro.
Franclim reconhece que jogadores desse perfil podem perder bolas tentando criar, mas prefere trabalhar a tomada de decisão em vez de retirar a característica ofensiva.
“Se o jogador perde três bolas seguidas, às vezes precisamos pedir uma ou duas jogadas mais simples para recuperar confiança. Depois ele volta a arriscar, porque essa é a característica dele”, explicou.
A construção de um treinador que ainda busca evolução
Mesmo com experiências importantes como auxiliar técnico e agora como treinador principal, Franclim Carvalho mantém uma postura de aprendizado constante.
Ele acredita que o futebol é uma disputa permanente de ideias e adaptações.
“Dificilmente vou estar perto do que eu quero ser enquanto treinador de estratégia, porque o futebol está sempre mudando. Temos que estar em constante evolução”, afirmou.
O português acompanha diferentes escolas de futebol e busca referências em treinadores que marcaram sua trajetória.
Entre os profissionais que mais influenciaram sua carreira estão Artur Jorge, Petit, Ulisses Morais e outros treinadores com quem trabalhou em Portugal e no exterior.
Mas Franclim sabe que sua identidade precisa ser construída a partir das próprias convicções.
“A cada cabeça, a sua sentença”, costuma dizer, lembrando o ditado português que representa a ideia de que cada treinador possui sua própria maneira de interpretar o jogo.
Agora, no Botafogo, ele tenta transformar suas experiências acumuladas em uma filosofia própria: uma equipe agressiva, competitiva, organizada e capaz de revelar novos talentos.
Um treinador que começou como ponta direita, encerrou a carreira cedo, encontrou no banco de reservas sua verdadeira vocação e hoje vive o maior desafio profissional da carreira.
No clube onde ajudou a escrever uma das páginas mais importantes da história recente — a conquista da Libertadores de 2024 — Franclim Carvalho agora tenta construir a sua própria história como comandante.
Franclim Carvalho revela referências, explica evolução do Botafogo e projeta desafios na temporada
Entre Artur Jorge, Mourinho, Abel Ferreira e a construção de uma identidade própria
Franclim Carvalho chegou ao comando do Botafogo carregando uma bagagem construída em diferentes funções dentro do futebol. Antes de assumir o protagonismo como treinador principal, passou anos observando, aprendendo e absorvendo métodos de profissionais com diferentes estilos.
Na entrevista ao GE, o treinador português explicou que não possui apenas uma referência única. Para ele, o futebol é construído a partir da soma de experiências, ideias e comportamentos de diversos técnicos.
“Eu gosto de muitos treinadores, porque acho que nós conseguimos beber muita coisa de diferentes técnicos”, afirmou.
Franclim destacou principalmente aqueles com quem trabalhou diretamente, pela convivência diária e pela possibilidade de observar não apenas os jogos, mas todo o processo de preparação.
“Uma coisa é nós vermos o treinador no jogo. Outra coisa é vermos o treinador nos treinos durante a semana: como pensa, como prepara, qual é a ideia. Isso é totalmente diferente”, explicou.
Entre os nomes mais importantes na formação do treinador estão Artur Jorge, Petit, Ulisses Morais e José Viterbo.
A relação com Artur Jorge aparece como uma das mais marcantes. Foram anos trabalhando lado a lado, dividindo decisões, análises e estratégias, especialmente durante a passagem vitoriosa pelo Botafogo em 2024.
Mas Franclim também citou treinadores que admira pela forma de comunicação, liderança e identidade de jogo.
Um deles é Rúben Amorim, atualmente um dos nomes mais respeitados do futebol português.
Para Franclim, Amorim trouxe uma mudança importante na maneira como os treinadores se comunicam.
“O Rúben não fazia isso, na maioria das vezes. Acho que isso é importante por respeito ao trabalho de vocês da imprensa, para evitar notícias que não condizem com a verdade, e também para trabalharmos com clareza para os torcedores”, comentou.
A transparência, segundo ele, precisa existir tanto nos momentos positivos quanto nos períodos de dificuldade.
“Não é só quando está tudo bem que temos que abrir o livro”, afirmou.
Os treinadores que marcaram gerações e a força do futebol português
Franclim também mencionou nomes que considera fundamentais na história recente do futebol.
O português citou José Mourinho como um dos maiores símbolos da escola portuguesa.
“José Mourinho foi o ícone dos ícones, principalmente em Portugal, mas em termos mundiais também teve um impacto muito grande”, afirmou.
Outro treinador lembrado foi Jorge Jesus, pela capacidade de criar equipes facilmente identificáveis.
Segundo Franclim, algumas equipes carregam uma assinatura muito clara de seus comandantes.
Também destacou Abel Ferreira, pelo trabalho realizado no Brasil.
Para o técnico do Botafogo, a trajetória de Abel no Palmeiras merece reconhecimento pela estabilidade, conquistas e manutenção de competitividade.
“Não vou dizer que é único, mas hoje em dia é histórico porque é diferente. A estabilidade, o tempo, a conquista de títulos, as vendas”, analisou.
Franclim comparou o Palmeiras de Abel ao FC Porto, clube conhecido pela mentalidade competitiva.
“O Palmeiras é o Porto do Brasil. É uma equipe muito voltada para competir, para defender sua identidade”, afirmou.
O diagnóstico de Franclim: onde o Botafogo precisa evoluir
Ao avaliar os primeiros meses de trabalho, Franclim Carvalho apontou um ponto específico como principal área de evolução: a construção inicial das jogadas.
Para o treinador, melhorar a saída de bola será fundamental para que o Botafogo consiga controlar mais partidas.
“Nós temos que melhorar muito com a bola na primeira fase de construção, porque isso é que vai nos permitir controlar o jogo com a bola durante mais tempo”, explicou.
Ele citou dificuldades apresentadas contra equipes que pressionaram alto, como o Cruzeiro.
Segundo Franclim, a responsabilidade pela evolução é coletiva.
“Vocês podem falar das características dos zagueiros, dos volantes, dos goleiros, dos laterais, do que quiserem. Eu acho que é muita responsabilidade minha, nossa, da comissão”, afirmou.
Apesar disso, o treinador acredita que outras fases do jogo já apresentam uma identidade mais consolidada.
“Da segunda fase até a zona de finalização, nós já somos uma equipe com um processo bem consolidado. Dá para ver o que nós queremos fazer”, avaliou.
Ele destacou também avanços defensivos e na reação após a perda da bola.
“Sem a bola, estamos melhores. Somos uma equipe mais paciente quando temos que ser, e uma equipe mais pressionante quando temos que ser”, disse.
As derrotas que servem como aprendizado
Franclim evitou fazer uma avaliação definitiva do trabalho neste momento da temporada, mas reconheceu que algumas derrotas deixaram marcas.
O treinador citou três resultados que ainda incomodam:
derrota para o Remo nos minutos finais;
derrota para o Bahia atuando com um jogador a menos;
derrota para a Chapecoense, considerada por ele uma atuação abaixo do padrão desejado.
“Eu faço questão de que os meus jogadores não esqueçam essa derrota, porque tivemos um primeiro tempo muito abaixo e diferente da cara que queremos mostrar”, afirmou.
Para o português, o campeonato será decidido apenas no final.
“Eu tenho dito aos jogadores: não olhem para a tabela. Isso é uma maratona longa”, explicou.
O objetivo é construir uma nova fase do Botafogo.
“Queremos ser reconhecidos como uma equipe competitiva, um clube cumpridor e que vai orgulhar o seu torcedor”, declarou.
Sul-Americana: respeito ao Cienciano e atenção total ao desafio da altitude
Com a proximidade do confronto pela Copa Sul-Americana, Franclim destacou que a preparação será especial, principalmente pela altitude.
O treinador lembrou da experiência em Quito, quando comandou o Botafogo pela primeira vez em 2024.
“A altitude foi uma dificuldade tremenda. Agora são mais de 3 mil metros. É muito diferente, muito difícil”, explicou.
Para ele, o contexto muda completamente o jogo.
“Podemos começar com os mesmos 11 e o Cienciano com os mesmos 11. O jogo será completamente diferente devido às características que o rodeiam”, afirmou.
O treinador reforçou que o Botafogo não pode entrar em campo acreditando ser favorito.
“Não podemos olhar para o Cienciano com desrespeito ou pensar que somos favoritos, porque isso temos que mostrar lá dentro”, disse.
Danilo: um jogador que muda a estrutura do Botafogo
Franclim não economizou elogios ao falar sobre Danilo Pereira.
O treinador considera o atacante um jogador capaz de alterar completamente a dinâmica da equipe.
“Temos um Botafogo com o Danilo e um Botafogo diferente sem o Danilo”, afirmou.
Para ele, o mesmo acontece com outros jogadores importantes, como Montoro e Medina.
“São jogadores que mudam a nossa forma de jogar”, explicou.
Franclim destacou principalmente a mentalidade do atleta.
“É um garoto de 25 anos. Tem uma personalidade muito característica e dá uma alegria diferente ao nosso grupo”, disse.
Na visão do treinador, Danilo tem potencial para atuar em alto nível internacional.
“Acho que o Danilo tem capacidade para estar entre os melhores”, afirmou.
Montoro e o desafio de transformar talento em números
Outro jovem analisado pelo treinador foi Montoro.
Franclim revelou que o meia possui características que chamam atenção de clubes e observadores, mas ainda precisa evoluir em alguns aspectos.
“É um jogador para quem muita gente olha. Muitos clubes, olheiros e agentes”, afirmou.
O principal ponto de evolução, segundo ele, está na finalização.
“Um jogador como o Montoro tem que ter mais gols. Na posição em que joga, precisa marcar mais”, explicou.
Para Franclim, aumentar os números ofensivos será importante também para valorizar o atleta no mercado.
A disputa no gol e a valorização da base
O Botafogo passou por mudanças na posição de goleiro, e Franclim explicou que não trabalha com uma divisão fixa entre competições.
“Eu não tenho goleiro do Brasileiro e goleiro das Copas. Gosto de ter os melhores lá dentro”, afirmou.
O treinador elogiou a disputa entre Warleson e Gabriel, destacando que a concorrência aumenta o nível do elenco.
“Ninguém pode adormecer porque sabe que está acima dos outros”, disse.
Franclim também reforçou sua filosofia de utilizar atletas formados no clube.
Sobre o jovem Cleber Lucas, explicou que a intenção é criar espaço para que jogadores da base possam crescer.
“Não faz sentido um clube como o Botafogo ter um terceiro goleiro com 24, 25 anos. Temos que ter um goleiro com 19 ou 20 anos”, afirmou.
Para o treinador português, a formação de talentos faz parte do futuro do clube.
A sinceridade como marca: Franclim prefere a verdade ao discurso fácil
Desde que assumiu o comando do Botafogo, Franclim Carvalho adotou uma postura que considera fundamental para sua maneira de trabalhar: a transparência.
O treinador português entende que a comunicação com imprensa, torcida e jogadores precisa ser baseada em clareza, mesmo quando as respostas não são as mais agradáveis.
Essa característica, segundo ele, foi influenciada por treinadores que marcaram sua trajetória, principalmente pela forma como lidam com pressão e responsabilidade.
Para Franclim, não basta aparecer quando o momento é positivo. O treinador acredita que a liderança também é demonstrada nos períodos de dificuldade.
“Não é só quando está tudo bem que temos que abrir o livro”, afirmou.
A ideia é criar uma relação de confiança. Internamente, com os jogadores; externamente, com o torcedor.
O português entende que o futebol brasileiro possui uma intensidade emocional diferente, principalmente pela relação entre clubes e arquibancadas.
No Botafogo, essa conexão ganhou ainda mais peso após a conquista da Libertadores de 2024, um momento histórico que elevou as expectativas sobre todos que fazem parte do clube.
O peso da torcida do Botafogo e a responsabilidade de representar o clube
Franclim Carvalho reconhece que trabalhar no futebol brasileiro exige uma adaptação cultural.
Em Portugal, a relação entre treinador e torcedor possui características diferentes. No Brasil, segundo ele, a paixão é mais intensa e presente no cotidiano.
O treinador, que prefere uma rotina discreta entre Centro de Treinamento e casa, admite que ainda está aprendendo a lidar com essa exposição.
“Não fico muito à vontade, nem é a minha praia. Sou mais o treinador de campo”, explicou.
Apesar do perfil reservado, Franclim entende que a proximidade com a torcida faz parte da profissão.
Ele valoriza o carinho recebido dos botafoguenses e reconhece a força emocional que o torcedor transmite.
“O torcedor brasileiro é muito apaixonado e nós temos que tentar ter uma cabeça fria para gerir as emoções”, afirmou.
Para o treinador, o segredo está em equilibrar paixão e racionalidade.
“Não retirar por completo essa paixão, porque ela faz falta, mas conseguir desviar um pouco e ser mais cabeça fria”, explicou.
A rotina de um treinador totalmente dedicado ao Botafogo
A vida de Franclim Carvalho no Rio de Janeiro é marcada pela dedicação quase integral ao futebol.
O português revelou que sua rotina é basicamente dividida entre o clube e a preparação dos jogos.
“É CT, casa, casa, CT. Nós temos muito trabalho”, contou.
A escolha por uma vida mais reservada está diretamente ligada ao desejo de entregar o máximo profissionalmente.
O treinador admite que essa dedicação acaba sacrificando momentos pessoais, principalmente com a família que permanece em Portugal.
“Minha família acaba sendo os elementos mais prejudicados com isso, mas sempre olhei muito para a profissão”, afirmou.
Quando consegue uma pausa, principalmente em datas FIFA, procura retornar ao país natal para estar próximo dos pais e dos sobrinhos.
“Enquanto minha família estiver bem, eu também estou bem”, disse.
No Botafogo, Franclim encontrou uma rotina intensa, mas também um ambiente que considera capaz de preencher sua vida profissional.
A relação com o elenco: cobrança, confiança e olho no olho
Uma das preocupações do treinador é construir uma relação próxima com os jogadores.
Franclim acredita que um técnico precisa cobrar, mas também precisa criar um ambiente de confiança.
Ele defende que uma verdade difícil é melhor do que uma falsa tranquilidade.
“É melhor ouvir uma verdade dura do que uma mentira suave, porque mais à frente isso vai nos trazer problemas”, afirmou.
O treinador entende que comandar um grupo numeroso exige equilíbrio.
Com cerca de 30 atletas no elenco, nem todos terão o mesmo espaço, mas todos precisam sentir respeito.
“É impossível nós sermos justos. Mas temos que procurar sermos os mais justos possíveis”, explicou.
Essa filosofia vem da experiência como auxiliar técnico.
Segundo Franclim, o auxiliar possui uma relação diferente com o jogador porque normalmente não carrega diretamente a responsabilidade pelas escolhas de escalação.
Quando passa a ser treinador principal, essa dinâmica muda.
“O jogador olha para nós de forma diferente. Quando somos técnicos, é: ‘eu não joguei por causa de você’”, analisou.
Por isso, ele considera essencial manter uma comunicação aberta.
A influência de Artur Jorge e a conexão construída em 2024
A trajetória de Franclim Carvalho está diretamente ligada a Artur Jorge.
Antes de assumir o Botafogo como treinador principal, ele foi auxiliar na comissão que comandou o clube no histórico ano de 2024.
A conquista da Libertadores ficou marcada não apenas pelo título, mas também pela capacidade de adaptação da equipe em momentos decisivos.
Na final contra o Atlético-MG, em Buenos Aires, no Estádio Monumental de Núñez, o Botafogo precisou jogar praticamente toda a partida com um jogador a menos após a expulsão de Gregore.
A comissão técnica encontrou soluções para manter o time competitivo, preservar jogadores ofensivos e reorganizar o sistema defensivo.
Franclim lembra daquele momento como um exemplo de trabalho coletivo.
Segundo ele, a função do auxiliar é justamente oferecer uma visão diferente durante a partida.
“Enquanto auxiliares, é mais fácil termos uma visão diferente durante o jogo. Estamos mais na retaguarda, não estamos vivendo tanto o jogo quanto o técnico principal”, explicou.
A decisão final sempre pertence ao treinador principal, mas as ideias são construídas em conjunto.
Naquela final, a sugestão foi manter a estrutura ofensiva com os principais jogadores em campo.
A escolha envolveu risco, mas também confiança no modelo de jogo.
O resultado entrou para a história do Botafogo.
O legado de 2024 e a nova missão de Franclim
Agora como treinador principal, Franclim Carvalho tenta construir uma nova fase.
Ele carrega a memória de um dos maiores momentos da história recente do clube, mas sabe que o passado não garante resultados futuros.
A missão é transformar a conquista em uma base permanente de crescimento.
O treinador acredita que o Botafogo precisa manter uma identidade: competitividade, organização, coragem ofensiva e valorização de talentos.
“Vamos querer ser reconhecidos como uma equipe competitiva, um clube cumpridor e que vai orgulhar o seu torcedor”, declarou.
A frase resume o objetivo de Franclim: criar um Botafogo capaz de competir em alto nível, sem abandonar suas características.
Um técnico que começou como jogador de pouca projeção, encontrou seu caminho fora das quatro linhas, aprendeu ao lado de grandes treinadores e agora escreve sua própria história.
No clube onde ajudou a conquistar a América, Franclim Carvalho busca agora um desafio ainda maior: transformar conhecimento acumulado em uma identidade vencedora.
Com informações GE


