A disputa pelo controle da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) do Botafogo ganhou um novo capítulo nesta sexta-feira, 23 de outubro de 2026. O empresário norte-americano John Textor voltou a afirmar que é o proprietário de 90% das ações da empresa que administra o futebol alvinegro e confirmou que pretende levar o caso ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), em Brasília, nas próximas semanas.
A movimentação ocorre após uma decisão da Justiça da Flórida, nos Estados Unidos, inicialmente proferida em setembro e considerada definitiva em relação à Eagle Football Holdings BidCo na quinta-feira, 22 de outubro. O entendimento judicial acolheu a tese apresentada por Textor de que o contrato de venda das ações da SAF Botafogo não foi concluído porque o pagamento previsto no acordo não teria sido realizado.
John Textor, o programador e empresário considera que a decisão reforça seu direito sobre a participação acionária e pretende buscar seu reconhecimento perante a Justiça brasileira. Entretanto, a situação societária do Botafogo no Brasil continua sendo objeto de controvérsia, e a decisão americana não altera automaticamente os registros e atos societários realizados no país.
O anúncio acontece exatamente dois anos após uma das noites mais marcantes da história recente do clube: em 23 de outubro de 2024, o Botafogo goleou o Peñarol por 5 a 0, no Estádio Nilton Santos, pelo jogo de ida da semifinal da Copa Libertadores. A campanha terminou com a conquista inédita do torneio continental pelo Glorioso, em 30 de novembro daquele ano.
Agora, enquanto a torcida recorda o período de glórias esportivas, os bastidores do clube voltam a ser dominados por uma batalha jurídica que pode ter consequências importantes para o futuro administrativo e financeiro da SAF.
A decisão americana e a alegação de falta de pagamento
O ponto central da disputa está no contrato firmado em 11 de novembro de 2022, pelo qual Textor buscou transferir à Eagle Football Holdings Bidco uma participação de 90% na SAF Botafogo.
Segundo a versão sustentada pelo empresário, a operação não chegou a ser efetivamente concluída porque a contraprestação financeira prevista no acordo não foi paga. Com esse argumento, Textor acionou a Justiça da Flórida para obter uma declaração de nulidade do contrato e o reconhecimento de que continuava sendo o titular das ações.
Em 17 de setembro de 2026, a decisão judicial foi divulgada publicamente com resultado favorável ao empresário. O tribunal declarou o contrato nulo desde a origem (ab initio), por entender, nos termos da decisão, que o pagamento não foi realizado no prazo devido e não poderia mais ser efetuado. Também declarou Textor proprietário de 90 mil ações ordinárias da Classe B da SAF Botafogo, correspondentes a 90% do capital social e do capital votante considerado no processo.
Na quinta-feira, 22 de outubro, surgiu o novo desdobramento: segundo declaração apresentada pelo advogado de Textor nos Estados Unidos, o prazo para a Eagle Bidco contestar a decisão terminou em 19 de outubro sem que fosse apresentado recurso. Com isso, a sentença passou a ser tratada como definitiva em relação à empresa.
Textor sustenta que nem a Eagle nem o Botafogo conseguiram reverter o entendimento judicial. A consequência, na interpretação defendida por ele, é que o contrato de transferência das ações não produziu os efeitos pretendidos e que sua condição de proprietário deve ser reconhecida.
É importante, contudo, distinguir o alcance da decisão da interpretação apresentada pelo empresário. O julgamento foi proferido à revelia da Eagle BidCo, que não apresentou defesa naquele processo, e a decisão não resolve automaticamente todas as controvérsias societárias existentes no Brasil. O próprio documento judicial mantém o processo aberto quanto a outros pedidos relacionados aos demais réus.
Brasília no horizonte: por que Textor pretende recorrer ao STJ
A próxima etapa anunciada por Textor será no Brasil. O empresário pretende buscar, perante o Superior Tribunal de Justiça, o reconhecimento da decisão proferida nos Estados Unidos, na tentativa de dar eficácia jurídica nacional ao entendimento que considera favorável à sua reivindicação sobre a SAF Botafogo.
A estratégia representa uma mudança importante no foco da disputa. Depois de obter uma decisão declaratória na Flórida, Textor precisa enfrentar a questão de como esse pronunciamento estrangeiro poderá repercutir no ordenamento jurídico brasileiro e na estrutura societária atualmente existente.
O STJ tem competência para processar e julgar pedidos de homologação de decisões judiciais estrangeiras. Esse procedimento permite avaliar se uma decisão proveniente de outro país reúne os requisitos necessários para produzir efeitos no Brasil.
A homologação, porém, não equivale a uma nova análise irrestrita de todo o mérito da causa. O tribunal examina os requisitos jurídicos aplicáveis ao reconhecimento da decisão estrangeira, e a extensão de seus efeitos depende do conteúdo do pronunciamento e das circunstâncias do caso.
No caso do Botafogo, a questão é particularmente sensível porque a disputa não se limita à relação contratual entre Textor e a Eagle Bidco. Ela também envolve atos societários praticados no Brasil, alterações na distribuição das ações e conflitos relacionados ao controle da empresa.
Por isso, a ida a Brasília não deve ser interpretada como uma retomada automática do comando da SAF. O que Textor pretende obter é o reconhecimento jurídico necessário para sustentar sua posição perante as instituições brasileiras e nos demais procedimentos relacionados à disputa.
Botafogo sustenta posição diferente e já alterou a estrutura acionária
A decisão americana não encerrou o conflito no Brasil. Quando o pronunciamento da Flórida foi divulgado em setembro, o Botafogo manifestou entendimento de que a decisão não teria validade jurídica automática no país e demonstrou não considerar que o resultado, por si só, alterasse a estrutura de controle da SAF.
Além disso, o clube associativo adotou medidas societárias que modificaram a distribuição acionária. Conforme as informações divulgadas sobre o caso, o Botafogo acionou uma cláusula de subscrição e passou a deter 51% das ações da SAF, enquanto a participação atribuída à Eagle ficou em 49%. A empresa também entrou em um processo de emissão de novas ações, acrescentando outra frente de discussão ao conflito.
Esse cenário ajuda a explicar por que a declaração de propriedade obtida por Textor nos Estados Unidos não encerrou a disputa. Enquanto o empresário se apoia no julgamento da Flórida para sustentar que a transferência original nunca se concretizou, os atos societários realizados no Brasil apontam para uma estrutura acionária que ele pretende contestar.
Há, portanto, duas questões relacionadas, mas distintas: de um lado, a validade do contrato firmado entre Textor e a Eagle Bidco; de outro, os efeitos que a decisão estrangeira poderá produzir diante dos registros, das deliberações societárias e dos procedimentos brasileiros.
O resultado de uma dessas frentes não resolve necessariamente, de forma imediata, todas as questões da outra.
O papel da Eagle Football e de Gabriel de Alba
A Eagle Football Holdings está no centro do conflito porque foi a empresa envolvida no acordo de transferência das ações que Textor agora tenta invalidar. A discussão ganhou novos contornos com a participação de outros agentes ligados à estrutura de controle do futebol alvinegro.
Em suas manifestações públicas, Textor também voltou a cobrar que a GDA Luma e Gabriel de Alba respeitem a decisão americana e deixem de interferir, segundo sua interpretação, nos direitos de propriedade que reivindica sobre a SAF Botafogo.
O empresário apresentou essa exigência como parte de sua estratégia para fazer valer o pronunciamento judicial. A cobrança, no entanto, não representa, por si só, uma determinação da Justiça brasileira contra a GDA Luma ou Gabriel de Alba.
A relação entre os diferentes envolvidos torna o caso mais complexo. A Eagle Bidco é a parte diretamente relacionada ao contrato de compra e venda questionado na Flórida, enquanto a GDA Luma e os agentes ligados à atual estrutura de controle aparecem no contexto mais amplo da disputa pelo comando da SAF.
O julgamento americano, portanto, precisa ser analisado dentro desse conjunto de relações jurídicas, sem confundir o reconhecimento de direitos reivindicados por Textor com uma eventual mudança imediata na administração do clube.
O que pode acontecer nas próximas semanas?
A iniciativa anunciada para o STJ poderá abrir uma nova fase da disputa. O principal objetivo de Textor será obter o reconhecimento da decisão estrangeira e estabelecer como ela poderá repercutir juridicamente no Brasil.
Os próximos desdobramentos dependerão da documentação apresentada, da análise dos requisitos de homologação e das possíveis questões levantadas pelos demais envolvidos. Também será necessário considerar a relação entre o pronunciamento americano e os procedimentos societários que já estão em andamento no país.
Entre os pontos que podem ganhar importância estão:
O reconhecimento da decisão estrangeira: a possibilidade de a sentença da Flórida produzir efeitos jurídicos no Brasil.
A validade do contrato de 2022: a discussão sobre a alegada falta de pagamento e as consequências para a transferência das ações.
A estrutura acionária da SAF: os efeitos das medidas de subscrição e da emissão de novas ações sobre a distribuição do capital.
O controle administrativo do clube: a repercussão dos desdobramentos judiciais sobre a governança e a condução da empresa que administra o futebol alvinegro.
Esses pontos não significam que haverá uma decisão definitiva sobre todas as questões nas próximas semanas. O anúncio de Textor estabelece sua intenção de avançar judicialmente no Brasil, mas o resultado e o prazo dos procedimentos dependerão das etapas legais aplicáveis.
Dois anos após a goleada sobre o Peñarol, Botafogo volta a viver um momento decisivo fora de campo
A coincidência de datas dá um significado especial ao anúncio de John Textor. Em 23 de outubro de 2024, o Botafogo venceu o Peñarol por 5 a 0 no primeiro jogo da semifinal da Libertadores, em uma atuação que colocou o clube muito perto da decisão continental e marcou uma das noites mais emblemáticas de sua trajetória recente.
A equipe confirmou a classificação no confronto de volta, apesar da derrota por 3 a 1, e posteriormente conquistou a Libertadores pela primeira vez, ao derrotar o Atlético-MG por 3 a 1 na final, em 30 de novembro de 2024.
Aquele período ficou associado ao crescimento esportivo do clube e à gestão liderada por Textor. Dois anos depois, entretanto, o cenário é marcado por uma disputa sobre propriedade, investimentos e governança empresarial.
O conflito atual não apaga os resultados conquistados em campo, mas coloca em discussão a estrutura que administra o futebol do Botafogo. A definição sobre quem detém os direitos acionários e quais decisões podem produzir efeitos no Brasil é relevante para a estabilidade da gestão, o planejamento financeiro e a organização institucional da SAF.
Para os torcedores, a expectativa é que os procedimentos judiciais tragam clareza sobre o controle do clube e reduzam a incerteza nos bastidores. Até lá, as declarações de Textor, a posição do Botafogo e os atos das autoridades judiciais continuarão sendo elementos centrais para compreender a evolução do caso.
O que Textor publicou no Twitter/X:
U.S. Court Decision to award SAF Ownership to John Textor is Final, No longer subject to Appeal On October 22, 2026, the landmark US judgment of September 17 has now been declared Final, and the court expressly declared John Textor to be the owner of 90,000 Class B shares representing 90% of Botafogo SAF’s total and voting capital. The Florida court declared the November 2022 share purchase agreement between John Textor and Eagle Bidco to be ‘void ab initio’, ruling that the agreement was never completed because the consideration was not paid and could no longer be paid. The judgment is final as to Eagle Bidco which, contrary to published reports, was represented by counsel in both the U.S. and the United Kingdom. Attorneys for both SAF Botafogo and Eagle Bidco offered memos of judicial notice and protest in both Florida and England, however neither party provided direct evidence to counter Textor’s principal argument that the agreement, intended to have been made and formed in Florida, was never completed. John Textor’s US counsel has executed a sworn affidavit confirming that Eagle Bidco’s deadline to appeal expired on October 19 and that no appeal was filed. The affidavit confirms that the judgment is final as to Eagle Bidco. Textor is pursuing the necessary measures to seek recognition of the judgment before Brazil’s Superior Court of Justice (STJ). Further, Textor has again made demand on GDA Luma and Gabriel de Alba (both based in the US) to respect the authority and decision of the US court, and ‘cease and desist’ from any and all interference with the ownership interests of Mr. Textor and, more broadly, the ownership interests in SAF Botafogo. John Textor and his expanded partnership of leading European football owners and executives look forward to reestablishing the global reputation of Botafogo once again as a shining example of the best of football in Brazil.
— John Textor (@Textor44) October 23, 2026
“Decisão da Justiça dos EUA que concede a Propriedade da SAF a John Textor é Final, Não Mais Sujeita a Recurso
Em 22 de outubro de 2026, a decisão histórica dos EUA de 17 de setembro foi agora declarada Final, e o tribunal declarou expressamente John Textor como proprietário de 90.000 ações da Classe B, representando 90% do capital total e de voto da SAF Botafogo. O tribunal da Flórida declarou o acordo de compra de ações de novembro de 2022 entre John Textor e Eagle Bidco como ‘nulo ab initio’, decidindo que o acordo nunca foi concluído porque a contraprestação não foi paga e não poderia mais ser paga.
A disputa ainda está longe de uma solução automática
John Textor encerra a sexta-feira, 23 de outubro de 2026, reafirmando que considera sua a participação de 90% na SAF Botafogo e anunciando que pretende buscar o reconhecimento da decisão americana perante o STJ, em Brasília.
A sentença vinda de Palm Beach/Flórida representa um resultado favorável à tese apresentada pelo empresário, especialmente no que diz respeito à alegação de que o contrato de transferência das ações não foi concluído por falta de pagamento. A declaração de definitividade em relação à Eagle BidCo acrescenta um novo elemento à estratégia jurídica de Textor.
Entretanto, o quadro brasileiro permanece complexo. O Botafogo já adotou medidas societárias que alteraram a distribuição acionária, e o reconhecimento de uma decisão estrangeira depende do procedimento jurídico apropriado. Não há, portanto, base para afirmar que a ida de Textor a Brasília garantirá, por si só, sua volta imediata ao comando da SAF.
O próximo capítulo será determinado pela tramitação dos procedimentos no Brasil e pela forma como as decisões judiciais se relacionarão com os atos societários existentes.
Dois anos depois da histórica goleada sobre o Peñarol, o Botafogo volta a enfrentar um momento decisivo — desta vez, longe dos gramados. O desfecho poderá influenciar não apenas a disputa pelo controle da SAF, mas também os rumos administrativos e financeiros de uma das fases mais marcantes da história recente do clube.
Impasse societário expõe críticas à condução do Clube Social e à atuação de Gabriel de Alba
A continuidade da disputa pelo controle da SAF Botafogo também alimenta questionamentos sobre a atuação do Clube Social e do empresário Gabriel de Alba, apontado como um dos agentes envolvidos na atual configuração de poder. Entre as críticas dirigidas à condução do processo está a percepção de que as medidas adotadas até aqui não foram suficientes para apresentar um caminho claro de reconstrução institucional e financeira para o futebol alvinegro.
Nesse contexto, a participação de Gabriel de Alba no entendimento com o clube associativo também passou a ser questionada por críticos da atual estrutura. O acordo e seus desdobramentos são vistos por esse grupo como parte de um arranjo que ampliou o conflito societário, sem oferecer, até o momento, uma solução definitiva para a disputa pelo controle da SAF.
Outro ponto de preocupação é a perspectiva de que mudanças mais profundas sejam adiadas até o encerramento da recuperação judicial. Embora a conclusão desse processo possa representar uma etapa importante para a reorganização financeira, ela não substitui, por si só, a necessidade de um planejamento estratégico de longo prazo.
A principal crítica é a ausência de um plano central de reconstrução que apresente objetivos concretos, prioridades de investimento, medidas de reorganização administrativa e metas financeiras para os próximos anos. Sem uma estratégia claramente definida, a recuperação judicial corre o risco de ser tratada como um ponto de chegada, quando deveria integrar um projeto mais amplo de reestruturação.
O impasse também reforça a incerteza sobre quem terá autoridade para conduzir esse planejamento. Enquanto John Textor tenta fazer valer nos tribunais brasileiros a decisão obtida nos Estados Unidos, o clube associativo e os demais agentes ligados à estrutura societária permanecem envolvidos em uma disputa que ultrapassa a discussão sobre a titularidade das ações.
O desafio do Botafogo, portanto, não se limita à definição de quem controla a SAF. Também envolve a apresentação de um projeto sustentável para o futuro do futebol, com responsabilidades bem definidas, segurança jurídica e planejamento financeiro compatível com os objetivos esportivos do clube.
Até que essas questões sejam esclarecidas, a disputa societária continuará sendo um fator de incerteza para a governança da SAF. A conclusão da recuperação judicial poderá contribuir para a reorganização das contas, mas a reconstrução institucional exigirá decisões concretas, transparência e um plano estratégico que vá além da espera pelo encerramento do processo.
