A Eagle Holdings BidCo, rede multiclubes criada pelo programador e empresário Norte-americano John Charles Textor em 2021, atravessa, desde 2025, e se prolonga neste ano de 2026, um dos momentos mais delicados desde a sua criação. O grupo, que reúne equipes como o Botafogo, o RWDM Brussels e o Olympique Lyonnais, enfrenta pressões financeiras significativas devido a empréstimos feitos para viabilizar a compra do clube francês em 2022.
Fundos de investimentos como a Ares Management Corporation, onde Textor negociou com Mark Affolter, e a Iconic Sports de Jamie Dinan, aparecem no centro da disputa financeira e jurídica que pode resultar até mesmo na venda de clubes do conglomerado — incluindo o Botafogo.
Origem da dívida: a compra do Lyon em 2022
O ponto central da crise atual remonta à aquisição do Olympique Lyonnais em 2022. Naquele momento, o grupo de Textor adquiriu cerca de 77,49% do clube francês, num negócio avaliado em aproximadamente €900 milhões (R$5,3 Bilhões), incluindo as dívidas da gestão de Jean-Michel Aulas.
Para financiar a operação, a holding Eagle Football recorreu a empréstimos de grandes fundos de investimento, entre eles a Ares.
Em 2022, a Ares Management emprestou US$425 Milhões (R$2,1 Bilhão) ao grupo de Textor para viabilizar a compra do Lyon.
Parte da dívida foi paga posteriormente com a venda da participação de Textor no Crystal Palace F.C para Woody Johnson, mas cerca de €250 milhões (R$1,2 bilhão) ainda permanecem em aberto.
Segundo informações divulgadas pela ARES, a cobrança formal desse valor foi feita em 2026, com prazo curto para a quitação.
Caso o pagamento não seja realizado por John Textor, o fundo credor na Eagle BidCo possui cláusulas contratuais que permitem tomar controle de ativos do grupo ou forçar a venda de clubes.
Pressão dos credores: Ares e Iconic Sports
A pressão sobre Textor não vem apenas da Ares. Outro grupo de investidores, a Iconic Sports Management, também está envolvido em disputas financeiras e societárias relacionadas à Eagle Football.
Essa disputa envolve investidores ligados ao financiamento do projeto multiclubes e chegou à esfera judicial em tribunais comerciais da Inglaterra e do Reino Unido.
O fundo busca recuperar US$ 97 milhões + juros (R$508 Milhões), valor que foi emprestado à John Textor em 2022 para apoiar a estrutura financeira da operação envolvendo o Lyon e a expansão do projeto multiclubes.
O caso tramita na justiça comercial da Inglaterra e envolve magistrados de alto nível do sistema jurídico britânico.
O julgamento já conta com a participação de dois juízes de alto nível:
Sir Mark Pelling
Mr Andrew Baker
No dia 6 de março de 2026, o juiz Mr Andrew Baker participou remotamente de uma audiência preliminar relacionada ao caso e fará parte do julgamento completo da disputa judicial. Este processo ocorre desde 3 de Julho de 2025, vale ser mencionado, que John Textor esperava resolver essa disputa na justiça do estado da Flórida, nos EUA. Mas a Iconic Sports conseguiu levar a disputa para a Inglaterra e Reino Unido, nos tribunais de justiça de Londres.
Na últiam segunda-feira 9 de março: Houve um resumo público dos argumentos, que é um documento que sintetiza um caso jurídico, seus principais argumentos e a legislação pertinente, concebido para ser acessível ao público e à imprensa, visando promover a transparência na justiça do Reino Unido.
Ainda não existe uma data definida para este julgamento completo, pois o processo exige a presença de várias testemunhas. Devem depor representantes da Iconic Sports, além das testemunhas que serão escolhidas pela defesa de John Textor.
Textor perdeu na corte de apelação
No estágio atual do processo, a Iconic Sports possui vantagem jurídica.
Isso ocorre porque John Textor perdeu a fase anterior na Corte de Apelação da Inglaterra e País de Gales, onde tentava reverter decisões que permitiriam o avanço do caso para o julgamento completo. Em outras palavras, ele tentou fugir, pois sabe que o risco de derrota era altíssimo.
Na prática, a estratégia do empresário buscava evitar ou adiar o julgamento principal, o que poderia reduzir sua exposição legal e financeira. Com a derrota na corte de apelação, o processo agora segue para a etapa mais ampla, que envolverá análise detalhada de provas, contratos e depoimentos.
Essa derrota judicial aumentou a pressão sobre o empresário, já que um eventual resultado favorável à Iconic Sports pode gerar obrigações financeiras adicionais para a Eagle Football Holdings BidCo, além da coalização entre Ares Management Corporation e Iconic Sports.
O conflito gira em torno de:
controle acionário da Eagle Football
cumprimento de cláusulas financeiras
garantia de retorno aos investidores
Fontes indicam que, se Textor perder determinadas disputas judiciais ou falhar no pagamento das dívidas, os credores poderão assumir parte da holding ou exigir a venda de ativos estratégicos.
A crise dentro da Eagle Football BidCo
O modelo criado por Textor consistia em um sistema de clubes conectados para gerar receita por meio de:
valorização e venda de jogadores
compartilhamento de estrutura esportiva
expansão comercial global
No entanto, o plano dependia fortemente de financiamento externo. Analistas apontam que a holding acumulou bilhões em dívidas, agravadas por atrasos financeiros e resultados esportivos irregulares em alguns clubes. Com a exceção do Botafogo, onde o técnico português Artur Jorge Gomes Torres Amorim foi predestinado, e àquele eclipse de 8 de abril de 2024 na América do Norte, deu uma força extra pro Botafogo, conhecido como o clube da estrela solitária, onde no ano épico de 2024, foi uma verdadeira constelação futebolística, num título histórico da Libertadores, e também do Tricampeonato Brasileiro.
Além disso, documentos e análises financeiras indicam que o grupo chegou a acumular dívidas superiores a £400 milhões de libras (2,7 bilhões), o que gerou grande pressão sobre a estrutura corporativa.
RWDM Brussels: o primeiro candidato à venda
O clube belga RWDM Brussels aparece como um dos ativos mais prováveis de serem vendidos.
Entre os fatores que pesam nessa possibilidade estão:
menor valor de mercado em comparação aos outros clubes
problemas financeiros locais
desempenho esportivo irregular
Em março de 2026, o RWDM chegou a sofrer perda de pontos na liga belga por dívidas não pagas, o que agravou a crise institucional.
Além disso, reportagens indicam que o próprio Textor já admite a possibilidade de venda do clube, caso surja uma proposta considerada adequada.
Botafogo também entra no radar de venda
A situação do Botafogo de Futebol e Regatas é mais complexa.
O clube mais tradicional do Rio De Janeiro, se tornou um dos principais ativos da Eagle Football desde a aquisição da SAF em 2022 e ganhou enorme valorização após as conquistas recentes, incluindo a Conmebol Libertadores de 2024 e o Brasileirão sob a gestão de Textor, mas com a predestinação do técnico Artur Jorge que havia sido apresentado em 6 de Abril de 2024, após vir do Sporting Clube De Braga de Portugal.
Apesar disso, analistas apontam que o Botafogo possui valor de mercado elevado valendo R$2 Bilhões de reais e poderia ser usado como ativo estratégico para quitar dívidas. Pois as dívidas são em reais, qualquer novo investidor que ganhe em dólares, euros e libras esterlinas, consegue quitar, e manter o clube forte novamente.
Caso a Ares execute cláusulas contratuais, existem três cenários principais:
Venda parcial da SAF
Textor poderia vender parte das ações do Botafogo a novos investidores para levantar capital.
Venda total da SAF
Caso a dívida se torne impagável, o clube poderia ser vendido integralmente a outro grupo empresarial.
Controle indireto pelos credores
Os fundos poderiam assumir controle da holding e, consequentemente, dos clubes.
Lyon já sofreu intervenção
O Olympique Lyonnais já passou por mudanças administrativas decorrentes da crise financeira.
Em 2025, Textor deixou o comando operacional do clube, e a empresária Michele Kang assumiu a presidência da equipe francesa.
Essa mudança foi interpretada por analistas como uma tentativa de reorganizar a governança da Eagle Football diante das pressões financeiras e regulatórias.
Ares já enfraqueceu controle de Textor
Em 2026, documentos corporativos indicaram que a Ares começou a reduzir o controle operacional de Textor sobre a Eagle Football, movimento que evidencia o grau de tensão entre credor e empresário.
Esse tipo de intervenção é comum em operações financeiras de alto risco quando:
há atraso de pagamentos
o credor perde confiança na gestão
existe risco de inadimplência
Impactos para o Botafogo
Se a crise escalar, os efeitos para o Botafogo podem incluir:
1. Mudança de controle da SAF
Novos investidores podem assumir o clube.
2. Redução de investimentos esportivos
A necessidade de cortar custos pode afetar contratações.
3. Venda de jogadores
Transferências podem ser usadas para gerar caixa.
4. Mudança na estratégia multiclubes
O projeto de integração entre Lyon, Botafogo e RWDM pode ser reduzido ou encerrado.
A situação financeira envolvendo John Textor, a Eagle Football Holdings e os fundos Ares Management e Iconic Sports Management coloca o futuro de alguns clubes do grupo em aberto.
Com bilhões de euros ainda em dívida, a venda de ativos como o RWDM Brussels — e eventualmente do Botafogo de Futebol e Regatas — passou a ser vista como uma possibilidade real no mercado do futebol internacional.
O projeto global idealizado por John Textor transformou o empresário em uma figura influente no futebol internacional. No entanto, o modelo depende de forte capacidade de financiamento e estabilidade jurídica.
Com dívidas relevantes, pressão de credores e processos judiciais em andamento, o futuro da Eagle Football permanece incerto.
A venda de clubes como o RWDM Brussels — e até mesmo do Botafogo de Futebol e Regatas — deixou de ser apenas especulação e passou a ser considerada uma possibilidade real caso a situação financeira do grupo não seja estabilizada.
Nos próximos meses, decisões judiciais e negociações com investidores deverão definir se Textor conseguirá manter o controle de seu projeto multiclubes ou se parte de seu império no futebol precisará ser vendida para equilibrar as contas.
Briga com empresários de Lucas Perri e Adryelson que jogaram pelo Botafogo e Lyon, somam R$ 20 Milhões de prejuízo
Enquanto enfrenta disputas internacionais, John Textor também lida com processos judiciais no Brasil envolvendo a SAF do Botafogo de Futebol e Regatas.
A sociedade anônima responsável pela gestão do futebol do clube foi acionada por um grupo de empresários em 13 processos judiciais, que somam cerca de R$ 20 milhões em cobranças relacionadas a comissões de transferências.
Segundo Textor, em entrevista exclusiva ao ge, todas as ações foram movidas por um único escritório de advocacia, que representa os empresários envolvidos. Para o dirigente, a estratégia teria sido usada para pressionar a diretoria do clube.
“Eu vou falar genericamente sobre isso. Os empresários por trás disso, os irmãos, que me dou bem com um deles e com o outro não, penso que fizeram um processo manipulativo. Porque foi criado como múltiplas ações, quando é apenas uma disputa. Foi feito de um jeito para nos envergonhar e colocar pressão em nós”, afirmou Textor.
Os empresários mencionados por Textor são os irmãos Eduardo Cornacini e Leonardo Cornacini, agentes que representam diversos jogadores do futebol brasileiro. Entre os atletas ligados aos irmãos estão o zagueiro Adryelson e o goleiro Lucas Perri, que tiveram passagens importantes pelo Botafogo.
O processo judicial tramita desde 2 de maio de 2025 e ainda não possui data marcada para a primeira audiência entre as partes.
Após uma nota oficial divulgada pelo clube sobre o caso, o escritório de advocacia responsável pelas ações afirmou que poderia abrir um novo processo por difamação contra o Botafogo.
Textor critica atuação de intermediários no futebol
Durante a entrevista, Textor também criticou o papel de intermediários em negociações de transferências, afirmando que muitas vezes empresários reivindicam participação em negociações nas quais não tiveram envolvimento direto.
Segundo ele, em alguns casos um clube procura outro diretamente para negociar um jogador, mas acaba sendo obrigado a envolver um agente externo.
“Um clube vai até o outro dizendo ‘eu quero comprar o seu jogador’, sem nenhum empresário envolvido. E quem recebe a ligação responde: ‘tudo bem, mas para fazer negócio com a gente você precisa falar com esse empresário’. Era entre os clubes, por quê?”
Textor também afirmou que a introdução de terceiros em negociações pode abrir espaço para práticas pouco transparentes no mercado.
“Envolver uma terceira parte é uma forma de um presidente dizer ‘eu te arrumei uma compensação’. Eu particularmente fico muito ofendido com a introdução de uma terceira parte, ou de um empresário que se diz parte do que não é.”
Disputa societária pelo comando da SAF
Além das disputas financeiras, o próprio controle da SAF do Botafogo também está sendo debatido judicialmente.
Disputa societária pelo comando da SAF
Em 10 de março de 2026, um documento foi anexado ao processo que discute o comando da empresa na Justiça do Rio de Janeiro. Nele, a SAF afirma que não se opõe à extinção da decisão judicial que manteve John Textor no comando do clube, desde que as determinações atuais permaneçam válidas até que o caso seja analisado por arbitragem.
A disputa envolve a empresa Eagle Football Holdings e a Eagle Bidco, estrutura ligada ao grupo e representada por advogados contratados pela Ares Management.
Na semana anterior, os advogados da Eagle Bidco argumentaram que o conflito deve ser resolvido exclusivamente por arbitragem, agora que o Tribunal Arbitral foi oficialmente constituído.
A SAF respondeu que não discorda da arbitragem, mas pediu que todas as decisões atualmente em vigor permaneçam válidas até que o Tribunal Arbitral reavalie o caso.
Trecho do documento apresentado à Justiça afirma:
“A SAF Botafogo não se opõe à extinção da presente cautelar pré-arbitral, desde que seja ressalvado, expressamente, a manutenção dos efeitos da decisão proferida até reapreciação da matéria pelo Tribunal Arbitral.”
A arbitragem é um órgão autônomo com poder jurisdicional, capaz de emitir decisões com efeitos jurídicos semelhantes aos de tribunais estatais. Trata-se de um mecanismo frequentemente utilizado em disputas empresariais internacionais.
Possível mudança no controle do Botafogo
Caso a Justiça aceite o pedido apresentado pela Eagle Bidco, a liminar que atualmente mantém John Textor no comando da SAF pode deixar de valer.
Nesse cenário, o empresário poderia ser afastado temporariamente da estrutura administrativa do Botafogo de Futebol e Regatas até que o Tribunal Arbitral tome uma decisão definitiva.
Se isso acontecer, a Eagle teria poder para:
convocar uma Assembleia Geral de acionistas
nomear novos integrantes do Conselho de Administração da SAF
indicar novos diretores estatutários para comandar o futebol do clube.
Até o momento, a Justiça ainda não respondeu ao pedido protocolado pela Eagle na semana anterior.

