Ex-técnico do Botafogo em entrevista ao GE e TV GLOBO detona John Textor: ¨Incoerente, interferiu no trabalho e nas escalações, além de me demitir num Hotel Da Filadélfia, 1 dia depois de ter dito o treinador continua¨ (VÍDEOS)



Renato Paiva em entrevista para o Área Técnica com Roberto Maleson para o GE E TV GLOBO — Foto: Juliana Lima


Se Luís Castro, Bruno Lage, Tiago Nunes, Artur Jorge e Davide Ancelotti ficaram em silêncio ou não quiseram falar sobre os bastidores da SAF Botafogo, e principalmente como John Textor age, o ex-treinador do Botafogo ¨chutou o balde¨ e expôs as incoerências, interferências de John Textor, quando Renato Paiva foi técnico do Botafogo, período que durou 121 dias, de 27/02/2025 à 29/06/2025. Paiva ficou como técnico do Botafogo por apenas 4 meses e 2 dias. Na entrevista exclusiva ao GE e TV GLOBO. 



Português de nascimento, carioca de coração. Renato Paiva chegou ao Brasil pela primeira vez como treinador profissional no Bahia, se casou com uma brasileira e estabeleceu residência no Rio de Janeiro. Cansado de ficar em casa, Paiva deseja voltar ao trabalho, seja no Brasil ou fora do país. Após quase duas décadas lapidando talentos na base do Benfica, o treinador europeu abriu o jogo em uma conversa profunda e franca ao Área Técnica do GE, na redação da TV GLOBO no Rio De Janeiro.


Assista aos principais vídeos e trechos de impacto desta entrevista: 



O técnico ganhou os holofotes do mundo quando dirigiu o Botafogo na Copa do Mundo de Clubes e bateu o poderoso Paris Saint-Germain. Ele detalhou os bastidores da sinuosa relação com John Textor e não fugiu das polêmicas ao falar sobre o americano.


- Há uma entrevista do senhor que me despediu, onde diz que me despede porque eu traí os meus princípios. Eu nunca pude responder nem quis, mas eu vou dizer que eu fui despedido exatamente porque eu não traí os meus princípios. Porque essa pessoa quis interferir constantemente no meu trabalho e eu não deixei. E esse é o verdadeiro motivo do meu despedimento. Não é o Palmeiras. Não é a derrota no Mundial. Não é um beijo de três dias e depois despedido.


- Foi a oportunidade que ele encontrou para tomar uma decisão que na cabeça dele possivelmente já estava tomada por eu não permitir interferências no meu trabalho. Para mim é claro. 


 

Renato Paiva não poupou críticas para John Textor, na forma de administrar o Botafogo feita pelo programador e empresário Norte-americano. Ele lembrou o episódio em que recebeu ordens para não escalar o lateral Cuiabano de ponta, mesmo com o jogador performando bem na posição e com poucas opções no elenco para suprir a carência.


- Cuiabano começa a fazer gols. Cuiabano começa a ser o melhor em campo em vários jogos. E eu recebo um recado de que não posso colocar o Cuiabano de ponta. Porque o Cuiabano tem que ser vendido como lateral. E eu pergunto: este senhor está preocupado com o Botafogo? Cuiabano é o que desequilibra, é o que faz gols, é o que ajuda o time a ganhar. Esta preocupação deste senhor é com o torcedor do Botafogo? Com o prazer do torcedor do Botafogo de ver a sua equipe ganhar e jogar? Ou com outra coisa? É a pergunta que eu deixo no ar.




Episódio da demissão num hotel da Filadélfia/Pensilvânia, Estados Unidos


  
Renato Paiva em o terno nos ombros, após a eliminação do Botafogo contra o Palmeiras naquele sábado 28/06/2025, no Estádio Lincoln Financial Field na cidade da Filadélfia/Pensilvânia - Foto Stu Williamson/Reuters


Eliminado nas oitavas de final da Copa do Mundo de Clubes pelo Palmeiras, Renato Paiva foi desligado do cargo um dia depois. John Textor não gostou da postura do time diante do clube brasileiro, mas não havia dado sinais que a derrota iria motivar a demissão do técnico. Segundo Paiva, o americano deu um abraço nele e disse para seguir em frente após a queda no Mundial. O modo de conduzir o processo incomodou o comandante europeu.



 

- Ele tem todo o direito em despedir-me. Ficou muito feio como fez. Porque nós perdemos o jogo com o Palmeiras, vamos para o hotel, ele fala com o grupo, almoça, despede-se ao meu lado, estava a falar com o Cláudio Caçapa, ele vem, despede-se e diz-me: “keep going coach, keep going (o treinador continua/vamos em frente treinador, vamos em frente)” . Eu jamais me esqueço. Um abraço e “keep going coach. (o treinador continua/vamos em frente treinador)”



Paiva orienta jogadores durante a pausa para hidratação em Botafogo x Palmeiras no Estádio Lincoln Financial Field — Foto: Carl Recine - FIFA/Getty



Esse episódio ocorreu no sábado no dia 28 de junho após a derrota por 1 a 0 para o Palmeiras, na Filadélfia. No dia seguinte, um ônibus com parte da delegação do Botafogo seguiu para Nova York para aproveitar a folga. Renato Paiva ficou no hotel, mas os diretores estavam com o grupo na emblemática e histórica cidade do Nordeste dos EUA.


A programação, porém, foi interrompida por uma reviravolta: Textor havia mudado de ideia e decidido demitir o treinador. Ele ordenou o retorno imediato ao hotel para que a decisão fosse comunicada. A missão coube aos diretores Alessandro Brito e Léo Coelho, que só informaram Paiva sobre o desligamento após o jantar com a delegação.



- E é quando eles me informam do que tinha acontecido. Ele não despede ninguém. Ele manda despedir. Portanto, tem todo o direito de me despedir. Agora, como as coisas são feitas. É aquilo que dói. Em vez do "keep going coach", ias a uma sala e dizias: "olha, eu não gostei do jogo do Palmeiras, eu não gosto do teu penteado, eu não gosto de como é que te vestes, eu sou o dono, vamos acabar o contrato". Hoje, eu sei que ele me queria despedir. Mas depois, mandar os outros fazerem isso?



John Textor dando beijo no rosto de Renato Paiva após a vitória histórica do Botafogo contra o PSG, no Estádio Rose Bowl, pela segunda rodada do Super Mundial De Clubes 2025 em 19/06/2025 - Foto/Reprodução: DAZN



- Ao final disso tudo e quando para todo o mundo uma pessoa te beija em direto (ao vivo) é de propósito. Porque esse beijo podia-se ter dado no balneário (vestiário). Eu estou a ser entrevistado em direto no final do jogo para todo o mundo e aparece alguém para me dar um beijo. Esse beijo podia ter sido no balneário. Foi para todo o mundo ver. As pessoas a perguntar que tipo de situação foi esta? Se eu fiz alguma coisa, se agredi alguém, se não sei o quê, percebe? Portanto, este tipo de situação fala muito mais dele do que de mim e do meu trabalho.



Carinho pelo Botafogo

Apesar dos entreveros com ainda o dono da SAF alvinegra, John Charles Textor, Renato Paiva declarou que o Botafogo foi a equipe que mais o marcou a nível pessoal pelos relacionamentos com cada um no convívio diário. Ele ressaltou a qualidade humana e profissional de todas as pessoas do clube.


 

- Sem exceção, as pessoas com quem eu trabalhei no Botafogo são do nível superior. Em questões pessoais e profissionais, o Botafogo foi a equipa que mais me marcou e também foi a equipa onde eu senti mais a minha saída.


Ele se emocionou ao lembrar da manhã seguinte à demissão, quando foi tomar café da manhã no hotel onde a delegação inteira estava, e recebeu aplausos de todos de pé.


- Há coisas que tu não consegues esquecer e vais levar para a vida. Esta é uma daquelas que eu vou levar para o caixão. É ver um grupo de pessoas gigante manifestar o teu carinho e o teu respeito. Em pé, bater palmas. Eu falei com eles, com muita dificuldade. Mas, quando eu falo de Botafogo parte negativa, eu falo de uma pessoa. Uma pessoa. Eu quero que isso fique bem claro. Nem torcida, porque torcida tem a liberdade de decidir o que gostas, o que você não gosta, é 8/80, seja aquilo que for. É subjetivo.


Seleção ideal




Renato Paiva comandou diversos craques ao longo da sua trajetória no futebol. O ge convidou o técnico para montar o seu 11 ideal entre os jogadores que foram seus atletas. Ele escalou vários portugueses que comandou no Benfica, montou um ataque com três centroavantes e disse que outros dois jogadores teriam vaga nesse time: o meia Cauly, ex-Bahia, e o volante Matheus Pereira, ex-Fortaleza.


Bate-pronto

No quadro, o convidado dá respostas curtas e rápidas sobre tópicos de sua carreira no futebol. Paiva revelou arrependimento ao deixar o Bahia e por não ter aceito uma proposta do LAFC quando estava no Del Valle. Ele ainda elogiou Lucho Acosta e disse que Savarino é um atleta difícil de comandar, graças à personalidade forte.


Maior amigo do futebol? Meu agente e a minha comissão técnica.

Jogo mais marcante da carreira de treinador? Botafogo 1 x 0 PSG.

Título mais importante? Liga Equatoriana de 2021.

Derrota mais dolorida? Grêmio 1 (4 x 3) 1 Bahia, pelas quartas da Copa do Brasil de 2023.

Qual o maior clássico que você passou? Benfica x Sporting. Ou um Benfica x Porto, decisão de títulos, mesmo na base, é jogo pesado. Aqui, Botafogo x Flamengo. Botafogo x Fluminense. São clássicos pesados.

Maior craque que você treinou? Bernardo Silva, João Félix e Paulinho que está no Toluca.

Maior craque que você enfrentou? Vitinha e Arrascaeta.

Melhor jogador no Brasil hoje? Lucho Acosta.

Jogador mais resenha de vestiário que se acomodou? Cuiabano. Distanciado.

Jogador que mais dava trabalho de comandar? O Savarino, pela personalidade dele. Personalidade forte, difícil entrar nas ideias do Savarino.

Jogador líder de vestiário que mais te ajudou? Marlon Freitas e Cristian Pellerano.

Principal jogador que você revelou? Revelar é claríssimo. É o Pacho, do PSG.


Adaptação ao Brasil e cultura brasileira


- A questão da cultura brasileira vem da infância. Em Portugal, eu nasci em 70. Anos 70, 80 e 90, a cultura brasileira tinha uma influência muito forte em Portugal, através da música e através das novelas. Depois, mais à frente, começaram a haver novelas portuguesas, mas até lá só havia novelas brasileiras. Posso lhe dizer, por exemplo, que a Gabriela Cravo e Canela, o último episódio, parou o Parlamento Português.


- Depois, a minha chegada ao Brasil, quando entro no Benfica, faço parte da base e scouting paralelo e a parte do scouting com a América do Sul e, portanto, eu via tudo o que era Argentina, Brasil, Uruguai, Colômbia, Libertadores, Sul-Americana. Portanto, também a minha ligação cultural a partir daí com o futebol brasileiro ficou muito forte. Depois, saí do Benfica, todo o meu percurso acabou por me trazer ao Bahia. Foi a primeira experiência no Brasil como treinador profissional e depois acabei por casar com uma brasileira e morar no Rio. E esse é um bocadinho do porquê o Rio. O Rio por quê?


- Por questões familiares, obviamente, eu poderia viver em Portugal, mas optei por viver no Rio. Por questões de que, de fato, eu comecei a perceber porque é que lhe chamam Cidade Maravilhosa porque é uma cidade que te oferece imensas coisas positivas. Eu não vou falar da questão da segurança porque toda a gente sabe isso, mas isso é uma parte e, às vezes, infelizmente, muito visível e esquece de outras coisas que são absolutamente extraordinárias aqui. Não só em termos paisagísticos, em termos culturais, em termos gastronômicos, portanto, em termos sociais. E daí, a nossa opção por ficar a viver no Rio de Janeiro.


Relação com o mar


- Eu tenho uma relação com o mar. Eu mudei-me com 12 anos para uma cidade, por causa do emprego do meu pai, para uma cidade que é Setúbal, que é uma cidade de pesca junto ao mar, que tem praia. E um dos meus passatempos preferidos era quando podia ir para o pé do mar, fosse praia, fosse caminhar, fosse até ver. Porque Setúbal tem uma Serra da Arrábida, um ponto alto do país, onde toda a vista que tu tens, paisagem, é mar. Então, muitas das vezes, é uma zona até de reflexão, para tirar as fotos e etc. Então, a ligação com o mar ofereceu-me muitos momentos de reflexão na minha vida.


- Muitas das vezes, até sozinho. Tu e o mar, tu e o silêncio, tu e a natureza. Parece um pouco filosófico, mas cada um sabe o impacto que tem. De fato, o meu impacto nesse aspecto foi muito grande. Quando vou para o Bahia, em Salvador, uma das coisas que eu tentei conseguir foi ter uma casa a dois minutos da praia, num condomínio. Eu todos os dias chegava do trabalho às 17 horas. A primeira coisa que eu fazia era ir para a praia. E, muitas das vezes, estava na praia sozinho. Então, a ligação com o mar é fantástica. Eu não consigo explicar o porquê, mas sei que me sinto sempre muito bem junto ao mar.


Início da carreira de treinador


- Eu comecei a especializar-me, a fazer cursos e no Vitória de Setúbal aparece o Carlos Carvalhal. Vai treinar o Vitória de Setúbal, quando eu estava a ler a tese de formatura dele na Faculdade de Motricidade Humana sobre periodização tática. Aquele autor do livro vem treinar o clube onde tu estás, eu imediatamente pedi a autorização para assistir aos treinos. Ele imediatamente abriu as portas, e eu passei a acompanhar os treinos diariamente.


- Tudo aquilo que eu estava a ler na teoria, comecei a entender o sentido quando tu conectas a prática com a teoria. A partir daí, o bicho do treino começou a crescer. Setúbal é a cidade do José Mourinho, com o qual eu joguei futsal. E o José, muitas das vezes também dizia, por eu ser capitão e tal: "tens uma liderança porreira, eu acho que devias investir também na área do treino".


As saídas de Luiz Henrique, Almada e opções no banco de reservas



 

- Eu faço sempre duas análises do meu trabalho no Botafogo. A subjetiva e a objetiva. A objetiva são números e fatos. Doa a quem doer. E quais são? Invicto em casa. Só um empate com o São Paulo, onde o goleiro do São Paulo foi o melhor jogador em campo de longe. Fizemos da nossa casa uma fortaleza. Quando saímos para o Mundial, tínhamos a segunda melhor defesa da Série A. Só o Flamengo tinha menos gols sofridos que nós. Estávamos a seis pontos do Flamengo. Estávamos vivos na Libertadores. Estávamos vivos na Copa do Brasil.


- Único pecado, para mim, de fato, o Botafogo fora de casa. O Botafogo fora de casa não conseguiu resultados. Tivemos algumas derrotas. Todas fora, com uma curiosidade, todas por um gol. Clássicos. Não perdemos nenhum. Não perdemos nenhum clássico. É um fato.


- Depois, vamos à parte subjetiva do tema e vamos à novela do retranqueiro. Porque é uma novela que de um jeito a um determinado senhor largar a alguns amigos da internet para depois ter uma justificação para me despedir. Vamos então. "O Paiva era retranqueiro, porque jogava com três volantes." Tem que me explicar em que lado do mundo jogar com três volantes significa ser retranqueiro. Essa é a primeira coisa que tem que me explicar.


- Uma equipa retranqueira, num jogo decisivo de Libertadores, fica com um jogador a menos aos 20 minutos! Tem 80 minutos pela frente para jogar com um jogador a menos. Está 0 a 0. É o último jogo da fase de grupos. Ou ganhas ou és eliminado. E um treinador retranqueiro, o que é que faz? Perde um zagueiro. O que é que ele faz a seguir? Tira alguém da frente e mete um zagueiro. Acho eu! É o normal que qualquer treinador faria. O que é que eu fiz? Puxei o Gregore do meio para zagueiro, zagueiro adaptado, e disse ao Gregore: “Gregore, sem bola és zagueiro, com bola és médio, nós temos que compensar esta deficiência.”


- Artur e Igor, na frente os dois, dois caras rápidos, agudos, para dar trabalho ali àquela gente, né? E depois, ali três no meio, onde eu encontrei o Cuiabano mais o Savarino e o Marlon, ficaram ali os três no meio, porque, era 0 a 0, estava fora. Ou arriscas, eu não posso ir nunca para casa a dizer: devia ter arriscado e não arrisquei. Eu não tinha outra hipótese, era aquela. E, portanto, eu quero ver quantos treinadores retranqueiros fazem isto. Nós fizemos 1-0, podíamos ter feito 2-0 até o 3-0, praticamente eles não têm oportunidades de gol e nós ganhamos esse jogo.


- Esta história dos três volantes serem retranqueiros e eu pergunto: como é que joga o Botafogo hoje? Três zagueiros, né? Não é retranqueiro? Com três zagueiros? Não é! Porque eu fui campeão no Del Valle, com três zagueiros. Mas isto é só para desmistificar esta teoria. Tu podes, com três zagueiros, ser uma equipa muito ofensiva. E com três volantes também ser muito ofensiva.


- Aqui o tema não foi este. Aqui o tema é claro. Há uma entrevista do senhor que me despediu, onde diz que me despede porque eu traí os meus princípios. Eu nunca pude responder nem quis, mas eu vou dizer que eu fui despedido exatamente porque eu não traí os meus princípios. Porque essa pessoa quis interferir constantemente no meu trabalho e eu não deixei. E esse é que é o verdadeiro motivo do meu despedimento. Não é o Palmeiras. Não é a derrota no Mundial. Não é um beijo de três dias e depois despedido.


 
John Textor cumprimentando Renato Paiva no desembarque da delegação do Botafogo antes da partida contra o Palmeiras, nos arredores do Estádio Lincoln Financial Field em 28/06/2025 - Foto: Vítor Silva/Botafogo

- Ah, futebol brasileiro. Não, não é futebol brasileiro. Isto não é futebol brasileiro. Isto é decisão de uma pessoa que não é brasileira. Não é o futebol brasileiro, que isto fique bem claro.

- Não há uma pessoa que tenha trabalhado comigo em nenhum clube que possa dizer que o Renato é um ditador e que o Renato não é democrático em escutar as pessoas. Eu escuto. E muitas das vezes mudo. Neste caso, não mudei.


- Quando eu coloco o Cuiabano de ponta. É lateral. Houve uma lesão. Eu fiquei sem pontas. O Telles muito bem. Cuiabano tem boas condições para ser ponta e vou apostar no Cuiabano de ponta. Cuiabano de ponta. O que é que começa a acontecer? Cuiabano começa a fazer gols. Cuiabano começa a ser o melhor em campo em vários jogos. E eu recebo um recado de que não posso colocar o Cuiabano de ponta. Porque o Cuiabano tem que ser vendido como lateral. E eu pergunto: este senhor está preocupado com o Botafogo? O Cuiabano é o que desequilibra, é o que faz gols, é o que ajuda o time a ganhar. Esta preocupação deste senhor é com o torcedor do Botafogo? Com o prazer do torcedor do Botafogo de ver a sua equipa ganhar e jogar? Ou com outra coisa? É a pergunta que eu deixo no ar.


Jogo de cintura com as interferências


- O meu jogo de cintura é escutar todos. Todos. Todas essas informações ou recados, como eu lhe chamo, nunca me foram ditos olhos nos olhos, nem por telefone. Foi via diretores. Eu vou dar este exemplo. Maracanã. Flamengo e Botafogo. O time vai para o aquecimento e entram dois diretores que precisavam falar comigo. Ah, teve que sair toda a gente da sala, ficámos só os três.


- Então, traziam-me a informação de que o senhor tinha ligado, que íamos jogar com três volantes no Maracanã: Allan, Marlon e o Gregore. E que o Allan não era jogador para aquele jogo. Porque já tem muita idade, não sei o quê, mais um volante e tínhamos que ser mais ofensivos. Nós estávamos altamente desfalcados. Veja bem como é que são as coisas. Tínhamos de ser mais ofensivos e eu estava a jogar com Igor Jesus e Rwan Cruz. Dois noves.


- E eu disse a eles: e se o Allan for o melhor em campo? Vão-me dizer alguma coisa? E eles disseram-me: “Renato, nós vimos a semana de trabalho. O que tu pensaste, em função dos jogadores que tens, para nós está ótimo. É só para te preparares, porque pode haver uma chamada sobre este tema.” Ok. Sabe quem foi o melhor em campo? O Allan. Disseram-me alguma coisa depois, esse senhor? Não. Isto é o funcionamento da arrogância de quem manda.



- Há uma justificação para tudo o que eu faço. E a maior parte das justificações vêm do treino. Eu fui criticadíssimo pelo início de... E acho que foi aí que o torcedor do Botafogo ganhou ranço comigo, por causa do Patrick de Paula, da utilização do Patrick de Paula. Eu gostava de convidar os torcedores do Botafogo, nesse momento, a ir assistir aos treinos. Ver o Patrick de Paula treinar. Como é que tu és treinador? Tens um cara que treina melhor que os teus colegas ou num nível muito alto e depois não o escalas para jogar?


 

- Havia ranço com o Patrick de Paula. E depois paguei o ranço. Mas eu estava a fazer o meu trabalho. Porque o que o torcedor quer que o treinador seja honesto, que a equipa treine e que ele meta aos melhores. E naquele momento ele era dos melhores. E quando ele deixou de ser dos melhores, ele saiu da equipa. Essa que é a verdade. Ele não saiu da equipa porque houve pressão.


- Vou-me relembrar. Carabobo em casa. 0 a 0. Intervalo, 0 a 0. E aquilo não saía do 0 a 0. E o Carabobo todo lá atrás. E eu, bem, o que é que eu vou fazer? As convicções que tu tens. E eu sabia que isto ia acontecer. O que é que eu decidi? Fazer uma substituição ofensiva. Tirei o Gregore, meti quem? O Patrick de Paula. Tirei o Gregore, um mais defensivo, meti o Patrick de Paula. Foi a primeira vez que o Nilton Santos me chamou burro. Foi essa. Lembro-me perfeitamente. Mas eu disse, ok, eu sou burro, mas esta é a minha convicção, do conhecimento do jogo, do treino, dos jogadores, do adversário, é o que eu quero fazer. Preciso de alguém que remata de fora, não estamos a conseguir entrar, o Patrick remata muito bem de longe.


- Primeiro gol quem faz? Patrick de Paula. E depois tu já deixas de ser burro. Passas a ser um gênio. Depois vem aquela frase do nunca critiquei. Só que essa frase do nunca critiquei, que é uma frase que nós dizemos a brincar, deixa mágoa em muita gente profissional de futebol. Por exemplo, no Bahia, nem podiam ouvir falar no Everaldo. O 9. Mas conosco foi o melhor marcador. A seguir veio o Ceni, foi o melhor marcador.


A maior vitória da história do Botafogo, foi contra o PSG recordou Renato Paiva


O Botafogo venceu o PSG em duelo entre campões da Libertadores e Champions League(Foto: Frederic J. Brown / AFP)

- E há uma coisa que o torcedor de Botafogo não pode negar. Vai ficar na história deles, vai ficar na minha história, vai ficar na história deste grupo, que é a vitória sobre o Paris Saint-Germain. Eu não tenho dúvidas nenhumas que este jogo do PSG foi a maior alegria que nós demos ao torcedor do Botafogo em 2025. Não tenho dúvidas nenhumas disso. Como não tenho dúvidas nenhuma dizer que é uma das vitórias mais gigantes da história do Botafogo. E do futebol brasileiro.

- Por exemplo, vou cometer uma inconfidência. No final do jogo Botafogo e Palmeiras, a presidente Leila veio falar comigo, veio dizer que era uma pena uma equipa brasileira eliminar outra equipa brasileira. Podiam ter seguido as duas e disse-me uma coisa: quero agradecer-lhe como brasileira o que vocês, Botafogo, fizeram pelo futebol brasileiro. Eu, como brasileira e presidente do Palmeiras, quero agradecer isto que vocês fizeram.


Preparação para o jogo contra o PSG


- Tinha uma ideia muito clara do PSG. Eu reuni um conjunto de jogos onde o PSG foi testado de diferentes formas. Tem a final da Copa da França, que é uma final onde joga contra um time da segunda divisão, portanto é claramente favorito, e eu sabia que tipo de contexto o PSG ia encontrar ali. Vi os dois jogos com o Arsenal na Champions, porque sabia que em Londres o PSG não ia ser equipa dominadora o tempo todo e, portanto, eu queria ver o PSG nessas condições. Vi o PSG na final da Champions, que era uma final contra uma equipa italiana e queria perceber qual era o envolvimento disso e ainda vi mais dois jogos de campeonato, um com o Marselha. Jogo também grande e um com uma equipa um bocadinho mais cá de baixo que foi o Reims, salvo erro.


- Fiz esse estudo em diferentes contextos de Paris Saint-Germain, como era os comportamentos da equipa e depois acrescentei o 4 a 1 ao Atlético de Madrid, já no Mundial de clubes. Eu tinha que me preparar para os momentos em que ia ter bola. O que é que faz o Paris Saint-Germain e o que não tendo bola, o que é que faz o Paris Saint-Germain. A partir daí, eu fui passando aos jogadores que era possível. Eu disse-lhes que era possível porque eu acreditava e eu tenho a certeza que quando transmito isso aos jogadores em vídeo, no treino em campo, em reuniões individuais, eu tenho a certeza que eles acreditaram.


- Eu consegui passar crença aos jogadores porque estava ali tudo no vídeo na preparação. Então o que é que eu lhes disse basicamente? Meus amigos, possivelmente não vamos ter tanto a bola como queremos. O que é que temos que fazer quando tivermos bola? É muito importante o momento em que nós conseguimos ganhar a bola ao Paris Saint-Germain. Esse momento é vital para nós não a perdermos outra vez, ou seja, tirar a bola imediatamente daquela zona por causa da reação pós-perda do PSG e, a partir daí, se nós conseguirmos tirar essa bola nessa primeira vaga de pressão, nós vamos encontrar muitos espaços e com jogadores rápidos, a gente pode matá-los. E foi assim que aconteceu o gol.


- Portanto, o momento defensivo, que foi o que trabalhámos mais de fato para esse jogo foi o momento que nós trabalhámos mais nos três treinos que tivemos. Nós defendemos em 4-3-3, com o Igor e os dois pontas (Savarino e o Artur) ajudando, mas fechados por dentro um triângulo e depois mais dois jogadores aqui o Marlon e o Allan e o Gregore atrás deles. Triângulo invertido. Um triângulo normal e um triângulo invertido. Objetivo: povoar o corredor central. Os meias do PSG não podiam jogar no corredor central. Estudo do PSG: uma das equipas na Europa, que menos cruzava para a área, tinha uma média entre 6 a 9 cruzamentos para a área por jogo. Muito pouco.


- Então meus amigos, onde eles fazem mal é no corredor central. É em jogadas de envolvimento de combinação, progressão, terceiro homem, pivô com o 9. Nós não vamos deixar que isso aconteça. Vamos levá-los para onde? Para a zona incômoda, então vamos levá-los para fora. Quando a bola caía no corredor exterior, direito ou esquerdo, o meu lateral saltava. Quando a bola saltasse fora, o meu lateral imediatamente ia fazer com o lateral deles. Deixava a linha, perdíamos um jogador na linha defensiva, entrava o Gregore, ou seja, nunca perdíamos.


- O Palmeiras ser muito melhor que o Botafogo nesse jogo não significa que o treinador do Botafogo tenha que ser mau ou tenha que ser retranqueiro. Não. Há uma equipa de um lado e uma equipa do outro. Há uma estratégia e outra estratégia. E naquele dia, o Palmeiras foi melhor que o Botafogo. Ponto. A minha consciência quando as pessoas me dizem retranqueiro, que o Palmeiras... preparou o jogo do Palmeiras... isto é que dói. Preparou o jogo do Palmeiras igual com o do PSG, mas estavam lá para ver? É que é uma mentira absoluta.


Relação com Textor após derrota para o Palmeiras


- As ações dele falam por ele. Na entrevista diz que me despede porque eu traí os meus princípios e porque devíamos ter ganho ao Atlético de Madrid e ao Palmeiras. Somos muito melhores, muito melhores foi o termo que ele utilizou, que o Atlético de Madrid e o Palmeiras, e não éramos. Muito melhores não éramos. Éramos do mesmo nível. Portanto, eu volto a dizer a mesma coisa.


- Foi a oportunidade que ele encontrou para tomar uma decisão que na cabeça dele possivelmente já estava tomada por eu não permitir interferências no meu trabalho. Para mim é claro. Porque ganhas do PSG, dá-te um beijo, diz-te na cara que é o dia mais feliz da vida dele.


- E passado uns dias acontece aquilo, né? Portanto, para mim ou o senhor não bate bem, ou é instável e passado 10 dias faz o que faz. Nem é 10 dias, são 7 dias. Ou então, para mim é aquilo que eu digo. Várias interferências em que eu entendi, escutei, mas entendi fazer as coisas como a minha cabeça, o meu trabalho diário me mandava fazer. É inesperado? Totalmente.


- O despedimento é uma história... Ele tem todo o direito em despedir-me. Ficou muito feio como fez. Porque nós perdemos o jogo com o Palmeiras, vamos para o hotel, ele fala com o grupo, almoça, despede-se ao meu lado, estava a falar com o Cláudio Caçapa, ele vem, despede-se e diz-me: “keep going coach, keep going”. Eu jamais me esqueço. Um abraço, “keep going coach.” Sábado. Foi embora. Domingo havia um ônibus, estávamos em Filadélfia, havia um ônibus marcado para ir para Nova Iorque, que é ali super perto. Era um dia livre para todos. Eu fiquei no hotel e quase toda a gente foi para Nova Iorque.


- No domingo. Ao meio da tarde, os diretores começam a receber chamadas do Textor, onde é que eles estavam. "Estamos em Nova Iorque, viemos aqui". Então, tem que apanhar um Uber e ir para Filadélfia para despedir o Paiva. E eles chegaram ao hotel, jantamos, porque eles... É que eles nem tiveram coragem de dizer antes do jantar. Jantamos. Um jantar normal. Acabou o jantar. Quando eu me vou levantar, o Alessandro e o Leo dizem-me “professor, precisávamos falar consigo.” E eu pensei que fôssemos falar dos jogadores ou de planificação agora quando regressássemos para o Brasil.


- E é quando eles me informam do que tinha acontecido. Ele não despede ninguém. Ele manda despedir. Portanto, tem todo o direito de me despedir. Agora, como as coisas são feitas. É aquilo que dói. Em vez do keep going coach, ias a uma sala e dizias: olha, eu não gostei do jogo do Palmeiras, eu não gosto do teu penteado, eu não gosto de como é que te vestes, eu sou o dono, vamos acabar o contrato. Tudo bem, é a nossa vida.


- Hoje, eu sei que ele me queria despedir. Mas depois, mandar os outros fazer isso? Para mim, foi completamente inesperado. E como eu disse publicamente: ao final disso tudo e quando para todo o mundo uma pessoa te beija em direto (ao vivo) é de propósito. Porque esse beijo podia-se ter dado no balneário (vestiário). Eu estou a ser entrevistado em direto no final do jogo para todo o mundo e aparece alguém para me dar um beijo.


- E passado sete dias faz o que faz, implica que da China, do Egito, da Hungria, países que eu me estou a lembrar, para não falar de Portugal, não é? Tinha para aí 500 mensagens no meu telefone. As pessoas a perguntar, que tipo de situação foi esta? Se eu fiz alguma coisa, se agredi alguém, se não sei o quê, percebe? Portanto, este tipo de situação fala muito mais dele do que de mim e do meu trabalho.



Futuro do Renato Paiva


- Treinar, treinar. Não sei se no futebol brasileiro, México, sei lá, Europa. Tive quase o com pé na Europa e tive quase com pé no Chile também. Mas aquilo que eu quero é treinar. Já estou há algum tempo em casa. Eu tive uma sondagem de uma equipa do Brasil. No início da época. Não fui. Mas pronto, vou esperar que apareça um projeto em que eu entenda que é o timing bom para ir, que é um campeonato bom para ir, que é um clube bom para ir. E o que eu quero é treinar. Já estou cansado de estar em casa (risos).

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