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John Textor durante a final da Recopa Sul-Americana, no camarote Firezone do Estádio Nilton Santos, em 27/02/2025 - Foto: Mauro Pimentel/AFP |
Os bastidores que antecederam o afastamento provisório de John Textor, em 23/4 do comando da SAF do Botafogo revelam uma sequência intensa de movimentos jurídicos, políticos e administrativos que ajudam a explicar como o dirigente tentou — e ainda tenta — preservar sua ¨influência¨ sobre o clube.
A cronologia dos acontecimentos, marcada por decisões controversas e disputas com sócios e órgãos arbitrais, mostra uma estratégia agressiva para manter o controle da SAF mesmo diante de resistências internas e questionamentos legais. Além do uso de ¨disfarce¨ ao ter assistido Botafogo x Internacional, no último sábado 25/4, no Estádio Mané Garrincha, em Brasília/DF.
Pressão interna e tentativa de controle direto
Momentos antes de ser oficialmente afastado do cargo de acionista majoritário, no dia 23 de abril, Textor esteve no Centro de Treinamento (Espaço Lonier) do Botafogo para conversar diretamente com jogadores. O gesto não foi casual: já havia sinais de insatisfação no elenco e o risco concreto de saída de atletas após o pedido de recuperação judicial.
A movimentação evidencia uma tentativa de conter danos imediatos no ambiente esportivo, ao mesmo tempo em que o dirigente enfrentava um cenário cada vez mais adverso nos bastidores jurídicos.
O pedido de recuperação judicial e o conflito com a FGV
No dia 22/4, Textor comunicou ao Tribunal Arbitral da Fundação Getulio Vargas que havia protocolado, na véspera, o pedido de recuperação judicial da SAF.
A decisão foi tomada mesmo após alertas de que a medida contrariava determinações da própria Câmara de Mediação da FGV. Para avançar com o plano — que tinha aprovação preliminar, mas não definitiva — seria necessária autorização dos sócios por meio de uma Assembleia Geral Extraordinária (AGE).
Esse ponto se tornou central no conflito: pela legislação, decisões como pedido de recuperação judicial ou confissão de falência são prerrogativas da assembleia de acionistas.
Resistência dos sócios e intervenção da Eagle Bidco
A Eagle Bidco, que representa a estrutura societária ligada ao controle do clube, já havia sinalizado resistência. Por meio do fundo de investimentos da Ares Management e da seguradora Cork Gully — nomeada administradora judicial —, Textor foi desautorizado antes mesmo da realização da Assembleia Geral Extraordinária desta segunda-feira 27 de Abril de 2026 até então marcada para às 11h da manhã no Estádio Nilton Santos.
Embora o entendimento interno fosse de que a recuperação judicial poderia ser inevitável, havia discordância sobre a forma e o timing da decisão, além da permanência de Textor à frente do processo.
O clube associativo, por sua vez, optou por não se manifestar formalmente nem participar da assembleia.
Afastamento antecipado e novos conflitos
Diante da sequência de atos considerados irregulares — incluindo decisões classificadas como irreversíveis — o Tribunal Arbitral determinou o afastamento imediato de Textor, sem ouvir previamente a defesa da SAF.
A definição está prevista para ocorrer até o dia 29/4, quando a Câmara de Mediação da FGV deverá reavaliar o caso.
O dia 29 de abril de 2026 se tornou o ponto de inflexão na crise que envolve John Textor e o comando da SAF do Botafogo. Após uma sequência acelerada de decisões jurídicas, disputas com acionistas e movimentos considerados irregulares, o dirigente pode ser afastado de forma definitiva do controle da empresa que administra o futebol do clube.
A data marca a reavaliação do caso pela Câmara de Mediação da Fundação Getúlio Vargas, após o afastamento provisório determinado no último dia 23 — decisão tomada sem ouvir previamente a defesa da SAF, justamente pela gravidade e urgência dos atos praticados.
Contrato polêmico e concentração de poder em assinaturas
Outro elemento que agravou a situação foi a revelação, também no dia 21/4, de um contrato potencial de venda das ações da SAF. O documento chamou atenção porque Textor aparece assinando por três partes distintas:
a própria SAF do Botafogo
a Eagle Bidco (detentora de 90% das ações)
a Eagle Football Group
A situação levantou questionamentos sobre conflito de interesses e concentração excessiva de poder nas mãos do dirigente.
Tentativa de manter controle mesmo após afastamento
Mesmo após a decisão de afastamento, o Conselho de Administração da SAF se reuniu com Textor e nomeou Durcesio Mello como CEO interino.
A medida foi interpretada como uma tentativa de evitar um vácuo de poder na gestão, mas também gerou nova controvérsia por não ter passado pelo Tribunal Arbitral. A Eagle Bidco já indicou que pretende contestar a legalidade dessa decisão.
Presença simbólica e bastidores políticos
Enquanto o cenário institucional permanecia instável, Textor manteve presença simbólica no ambiente do clube. Ele viajou para Brasília/DF para acompanhar a partida contra o Internacional, no Estádio Mané Garrincha.
Na ocasião, o dirigente assistiu ao empate em 2 a 2 de forma discreta, alternando entre arquibancadas e camarotes, acompanhado da oficial de ligação do clube, Mayara Bordin.
Um clube à espera de definição
O Botafogo chega ao dia 29 cercado de incertezas:
uma SAF em disputa interna
decisões jurídicas em aberto
acionistas em conflito
e impactos diretos no futebol
AGE cancelada e novo foco de conflito
A crise ganhou um novo capítulo com o cancelamento da AGE que seria realizada nesta segunda-feira, 27 de abril. A assembleia havia sido convocada por Textor justamente para tentar legitimar suas decisões, mas foi suspensa pelo Tribunal Arbitral da FGV.
Mesmo após um pedido de reconsideração apresentado pela SAF na última sexta-feira, a arbitragem não se manifestou — o que, na prática, manteve a proibição da realização da reunião.
Na AGE então marcada, Textor pretendia aprovar um aporte de US$ 25 milhões (cerca de R$ 128,5 milhões) por meio da emissão de novas ações. A proposta, no entanto, enfrentava resistência direta tanto da Eagle Bidco quanto do clube associativo, que não concordavam com os termos nem com a condução do processo.
Mais do que a permanência ou não de John Textor, o julgamento representa um teste para o modelo de governança das SAFs no Brasil. O desfecho poderá redefinir não apenas o comando do clube, mas também os limites de atuação de investidores no futebol nacional.
O que acontecer na Câmara de Mediação da FGV pode encerrar a era Textor no Botafogo — ou prolongar uma crise que já ultrapassou os bastidores e se tornou estrutural.
