A disputa judicial entre Botafogo de Futebol e Regatas e o Olympique Lyonnais ganhou novos contornos e levanta questionamentos relevantes sobre a governança no modelo multiclubes. Em ação que tramita na Justiça, a SAF do Botafogo cobra cerca de R$ 745 milhões do Lyon, em um caso que expõe os riscos de estruturas financeiras compartilhadas e decisões centralizadas.
Segundo informações publicadas pelo jornalista Ancelmo Gois, no jornal ¨O Globo¨, nesta terça-feira 7 de abril de 2026, uma parte significativa desse valor — R$ 323 milhões — tem origem em um empréstimo contraído junto ao Banco XP Investimentos. O montante foi repassado integralmente ao clube francês, sem que houvesse o devido ressarcimento até o momento.
De acordo com a ação, a operação foi realizada dentro de um ambiente de confiança mútua e cooperação entre clubes que integram a Eagle Football Holdings, liderado pelo empresário John Textor. O modelo incluía um sistema de “cash pooling”(gestão centralizada de tesouraria), no qual recursos eram centralizados e redistribuídos entre as equipes do grupo.
“Além de promover diversas transferências de recursos financeiros obtidos mediante premiações, patrocínios e transações de jogadores, a SAF Botafogo também contraiu empréstimos com o objetivo único de repassar as referidas quantias ao Lyon”, destaca trecho da ação judicial. Um desses empréstimos foi formalizado por meio de uma Cédula de Crédito Bancário (CCB), no valor total de R$ 323.421.255,00, imediatamente transferido ao clube francês.
O contexto da operação revela um cenário preocupante: o dinheiro teria sido utilizado para socorrer o Lyon em meio a uma crise financeira severa, evitando inclusive um possível rebaixamento por questões administrativas no futebol francês. No entanto, o acordo previa que o clube europeu também assumisse os custos financeiros da transação — compromisso que, segundo o Botafogo, não foi cumprido.
Os juros da operação, que seguem sob responsabilidade da SAF alvinegra, já somam cerca de € 7,6 milhões (aproximadamente R$ 45 milhões). A inadimplência amplia ainda mais o impacto financeiro sobre o clube brasileiro.
A situação se agravou após mudanças estruturais no grupo. John Textor deixou o comando do Lyon, que também abandonou o modelo de caixa único. Com isso, cessaram os repasses que, segundo o Botafogo, deveriam equilibrar as contas entre os clubes.
Outro ponto que chama atenção — e reforça críticas ao modelo — é o peso do endividamento assumido pelo Botafogo. O valor do empréstimo (R$ 323 milhões) supera mais do que o dobro da receita total do clube registrada em 2022, que foi de R$ 141 milhões. Para analistas, trata-se de uma alavancagem agressiva e potencialmente temerária.
No feriado de Páscoa, o Botafogo ingressou com duas ações na Justiça do Rio de Janeiro, buscando recuperar valores referentes tanto ao empréstimo quanto a outros repasses realizados dentro da estrutura multiclubes. Somadas, as ações ultrapassam a marca de R$ 700 milhões.
o caso levanta dúvidas importantes: até que ponto modelos de gestão centralizada entre clubes, muitas vezes em diferentes países, são sustentáveis? E mais: quem responde quando decisões financeiras arriscadas acabam penalizando uma instituição em benefício de outra?
Enquanto a disputa segue nos tribunais, o episódio pode se tornar um marco no debate sobre transparência, responsabilidade fiduciária e limites operacionais no crescente universo dos conglomerados esportivos globais tanto no futebol quanto em outros esportes.
