Por muito tempo, a Sociedade Anônima do Futebol (SAF) foi apresentada como a solução estrutural para salvar clubes brasileiros historicamente sufocados por dívidas, administrações políticas instáveis e décadas de má gestão. A promessa envolvia profissionalização, transparência, governança corporativa e sustentabilidade financeira. No entanto, em 2026, dois dos principais projetos do país vivem uma realidade completamente diferente.
Atlético Mineiro e Botafogo de Futebol e Regatas, que se enfrentam neste domingo às 16h, na Arena MRV, pelo Campeonato Brasileiro, chegam pressionados não apenas pela necessidade de reação dentro de campo, mas também por uma grave deterioração financeira fora dele. Colados na tabela, ambos somam 17 pontos. Fora das quatro linhas, porém, compartilham um problema ainda maior: juntos, ultrapassam a marca de R$ 2 bilhões em dívidas.
Os balanços financeiros referentes a 2025 transformaram Atlético-MG e Botafogo em símbolos de um fenômeno crescente no futebol brasileiro: SAFs que apostaram em crescimento esportivo acelerado sem possuir capital sólido e receitas recorrentes suficientes para sustentar o nível de investimentos realizado.
O auge esportivo virou pressão financeira
O caso do Botafogo é emblemático. Em 2024, o clube carioca viveu um dos períodos mais gloriosos de sua história recente. Sob comando da SAF liderada por John Textor, o time conquistou a Libertadores e o Campeonato Brasileiro, consolidando-se como potência continental e exemplo de transformação esportiva.
Mas a escalada competitiva teve um preço alto.
A política agressiva de contratações, os investimentos elevados no elenco e o crescimento da folha salarial fizeram o custo operacional disparar. Ao mesmo tempo, o clube passou a depender fortemente da venda de jogadores para equilibrar o caixa.
Depois das negociações de Luiz Henrique, Igor Jesus e Thiago Almada no ano passado, outro nome importante da campanha histórica de 2024 está deixando o clube: o zagueiro Alexander Barboza foi vendido ao Sociedade Esportiva Palmeiras por R$ 18 milhões, parcelados em quatro pagamentos até o fim do próximo ano.
A situação financeira do Botafogo se tornou tão delicada que a primeira parcela, no valor de R$ 5,5 milhões, precisou ser antecipada para garantir o pagamento dos salários do elenco referentes ao mês de maio.
O episódio escancarou uma dependência preocupante de receitas extraordinárias para manter obrigações básicas em dia.
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| Foto Reprodução Editoria de Arte de O GLOBO |
Atlético-MG amplia custos e depende de novo aporte milionário
No Atlético-MG, a trajetória foi diferente, mas os efeitos se aproximam.
Após a transformação em SAF, controlada pela Galo Holding — grupo formado pelos empresários Rubens Menin, Rafael Menin, Ricardo Guimarães e Renato Salvador, conhecidos como “4Rs” — o clube iniciou uma ampla reestruturação financeira acompanhada de aportes significativos.
Mesmo assim, o Atlético manteve uma política de crescimento acelerado dos gastos no futebol.
As despesas operacionais e os custos relacionados ao elenco seguiram aumentando acima da capacidade de geração de caixa recorrente do clube. O resultado foi o avanço contínuo do endividamento.
Hoje, o Atlético possui uma dívida bancária superior a meio bilhão de reais e aguarda um novo aporte de aproximadamente R$ 500 milhões da própria Galo Holding para aliviar a pressão financeira e garantir estabilidade operacional à SAF.
Na prática, o clube ainda depende diretamente da injeção constante de recursos dos investidores para sustentar sua estrutura.
“Mentalidade do modelo associativo”
Para especialistas em finanças esportivas, os problemas enfrentados pelos dois clubes não significam necessariamente o fracasso da SAF como modelo, mas revelam falhas graves de implementação.
O economista Cesar Grafietti, integrante do conselho da Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol, afirma que Atlético-MG e Botafogo mantiveram práticas típicas do antigo modelo associativo brasileiro.
Segundo ele, ambos seguiram a lógica de gastar primeiro para conquistar resultados esportivos e somente depois tentar resolver os impactos financeiros.
— São duas gestões de SAF que permaneceram com a mentalidade equivocada do modelo associativo: gastar antes para conquistar títulos e depois ver o que fazer com a dívida. Mas chegou um deadline que não permite mais que os clubes continuem atrasando pagamentos. Eles passam a ser geridos por um fair play financeiro que controla isso — avalia.
Grafietti também aponta que muitos dirigentes brasileiros tentaram importar uma lógica europeia que não se sustenta economicamente no futebol nacional.
Na Europa, especialmente nas competições organizadas pela UEFA, a classificação para torneios como a Champions League gera receitas gigantescas, capazes de compensar investimentos pesados em elenco.
No Brasil, porém, a realidade é diferente.
— Todo mundo usa o exemplo europeu, de que conquistar vaga na Champions retorna o investimento. Mas lá se distribui dezenas de milhões de euros por ano. Aqui, a diferença de receita entre ser campeão e terceiro colocado é relativamente pequena — explica o economista.
Ou seja, o sucesso esportivo no futebol brasileiro ainda não produz receitas suficientes para sustentar folhas salariais extremamente elevadas e investimentos agressivos contínuos.
Fair play financeiro pressiona clubes endividados
O avanço do fair play financeiro no futebol brasileiro mudou radicalmente o ambiente para clubes acostumados a conviver com déficits recorrentes e atrasos de pagamentos.
A regulamentação que vem sendo estruturada pela Confederação Brasileira de Futebol pretende ampliar o controle sobre salários atrasados, dívidas fiscais, compromissos financeiros e capacidade de pagamento dos clubes.
Na prática, o sistema reduz a tolerância histórica do futebol brasileiro com inadimplência.
O Botafogo já sente os efeitos desse novo cenário. O clube sofreu um transfer ban imposto pela FIFA devido a pendências financeiras, limitando a inscrição de novos jogadores.
A tendência é que as exigências aumentem nos próximos anos, obrigando os clubes a adaptar seus modelos operacionais ou enfrentar sanções esportivas e administrativas.
O problema não é a SAF, dizem especialistas
Apesar da crise vivida por Atlético-MG e Botafogo, especialistas rejeitam a ideia de que a SAF seja, por si só, responsável pelos problemas.
O advogado especializado em direito desportivo Cristiano Caús afirma que o modelo oferece instrumentos mais robustos de governança, controle e transparência em comparação ao antigo sistema associativo.
— Ele tem uma proteção maior para que isso não aconteça. Há regras de governança e transparência melhores que na associação. O problema é gestão — afirma.
Segundo Caús, muitas SAFs brasileiras nasceram em meio ao desespero financeiro dos clubes, sem tempo adequado para estruturação de compliance, análise de investidores e desenvolvimento de planejamento de longo prazo.
O risco real de falência
Um dos aspectos mais sensíveis envolvendo as SAFs ainda é pouco debatido no futebol brasileiro: diferentemente das associações civis tradicionais, empresas podem falir.
Embora exista a possibilidade de Recuperação Judicial, as SAFs possuem natureza empresarial e finalidade lucrativa. Isso significa que elas não se beneficiam das mesmas medidas políticas e governamentais historicamente utilizadas para socorrer clubes associativos.
Na prática, o mercado passa a exigir responsabilidade financeira real.
E justamente por isso Atlético-MG e Botafogo se tornaram casos emblemáticos de um futebol brasileiro que tenta se modernizar, mas ainda carrega antigos vícios administrativos.
O duelo que simboliza uma era de incertezas
O confronto deste domingo na Arena MRV representa mais do que uma disputa por recuperação no Campeonato Brasileiro Série A 2026.
Atlético-MG e Botafogo entram em campo como retratos de uma transformação inacabada do futebol nacional.
Clubes que há pouco tempo eram apresentados como exemplos de modernização, competitividade e gestão profissional agora convivem com aumento explosivo das dívidas, dificuldades de fluxo de caixa, dependência de vendas de atletas e pressão crescente por equilíbrio financeiro.
O Botafogo foi o segundo clube que mais gastou com futebol em 2025, com R$ 1,1 bilhão, atrás apenas do Palmeiras (R$ 1,2 bilhão) e à frente de Flamengo (R$ 1,04 bilhão) e Corinthians (R$ 938 milhões), mostra estudo feito pela “Sports Value”.
O levantamento põe o Botafogo na terceira posição no ranking de receitas totais em 2025, com faturamento de R$ 1,388 bilhão, atrás somente de Flamengo (R$ 2,089 bilhão) e Palmeiras (R$ 1,696 bilhão).
Puxado por venda de jogadores e premiação – o clube disputou o Super Mundial de Clubes da Fifa -, o Glorioso teve um salto de 97% na receita em um ano. Com a venda de atletas, o Botafogo faturou R$ 753 milhões, o maior valor do Brasil no ano passado.
Por outro lado, o Botafogo viu sua dívida total atingir R$ 1,57 bilhão, um aumento de 81% em um ano, ficando atrás apenas de Corinthians (R$ 2,447 bilhão) e Atlético-MG (R$ 2,29 bilhão). Cruzeiro (R$ 1,571 bilhão) e Palmeiras (R$ 1,149 bilhão) completam o Top 5.
Os números sustentam que o principal problema para a dívida do Botafogo ter aumentado tanto não foram os títulos de 2024, como tem propagando diversos jornalistas, mas sim o alto (e comprovadamente equivocado) gasto de 2025, além da quebra do modelo de caixa único com a briga societária na Eagle Football.
Diretos de TV
O Botafogo faturou R$ 160,7 milhões com direitos de TV do Campeonato Brasileiro em 2025, valor que fica próximo ao Palmeiras (R$ 170,6 milhões), segundo números divulgados nos balanços dos clubes.
O “Blog do Rodrigo Mattos”, do “UOL Esporte“, fez um levantamento, com a ressalva de que muitos clubes não fizeram o detalhamento do direito de TV só do Brasileirão em seus balanços referentes ao ano passado.
Sexto colocado na edição de 2025, o Botafogo faturou mais do que Cruzeiro (3º) e Grêmio (9º). Flamengo (campeão) e Corinthians (13º) lideram a lista, com uma diferença de apenas R$ 200 mil entre eles.
Receitas de TV no Brasileiro-2025:
Flamengo: R$ 204 milhões
Corinthians: R$ 203,8 milhões
Palmeiras: R$ 170,6 milhões
BOTAFOGO: R$ 160,7 milhões
Cruzeiro: R$ 143 milhões
Grêmio: R$ 131,4 milhões
As SAFs mudaram o futebol brasileiro. Mas os acontecimentos recentes mostram que investimento sem sustentabilidade pode transformar rapidamente projetos vencedores em estruturas financeiramente vulneráveis.
E no novo cenário regulatório do futebol nacional, sustentado pelo avanço do fair play financeiro, a margem para erros administrativos parece cada vez menor.



