Contratado pelo SBT para comentar a Copa do Mundo 2026, e ex-coordenador de scout do Fogão, Raphael Rezende no Charla, diz que Elenco de 2024 do Botafogo não era tão caro e se pagava pelo que gerou de receita, o caos financeiro veio em 2025 (VÍDEOS)


Raphael Rezende no Charla Podcast - Foto Reprodução



Raphael Rezende recentemente contratado pelo SBT, para ser um dos comentaristas durante a Copa Do Mundo 2026 para a equipe de transmissão de Tiago Leifert. Uma pergunta comum na mídia e vinda dos rivais é se “2024 valeu a pena?”, considerando os títulos da Libertadores e do Campeonato Brasileiro e a atual situação financeira e política do Botafogo. A questão, no entanto, não é tão simples e envolve mais fatores. Como explicou o ex-coordenador de scout, Raphael Rezende, em entrevista ao “Charla Podcast”. O profissional deixou claro que 2024 não foi o problema e comentou a estratégia de John Textor na SAF.


Assista abaixo: 




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– O John tinha uma questão, ele efetivamente mergulhou no projeto de cabeça. É claro, tanto que ele continua buscando estar dentro do clube de alguma forma. A megalomania influenciou positivamente quando, no ano seguinte (a 2023), ele dobra a aposta. A gente perde como perdeu em 23. E em 24 você tem um dono falando que vai ganhar o que não ganhou. “Vamos bancar o projeto, vamos seguir”. Num clube associativo, se você interpretar a reta final e é totalmente natural que se interprete a reta final de 23 como fracasso, pela forma como degringolou, sai todo mundo e começa tudo de novo. É o normal, o natural, né? E, bem ou mal, por mais que tenham chegado muitos jogadores novos, por mais que você tenha duas contratações de peso como Almada e Luiz Henrique, o grupo, o grosso do elenco, era formado pelos jogadores do ano anterior. E eles foram importantes no processo. Você tem o Marçal ali que esfria a reta final do jogo contra o São Paulo, arrumando uma briga com o banco de reservas. Você tem um Tchê Tchê batendo pênalti. Você tem o Danilo Barbosa. Enfim, jogadores que sustentavam por mais que não fossem tão mais fundamentais dentro da estrutura. O Tiquinho como sombra do Igor, o Eduardo ainda dentro do elenco. Os caras ficaram, né? Era um elenco muito robusto de 24. É claro que há muitas críticas ao que é esse fim de ciclo e ao que foi, principalmente, de 25 para a frente dentro do trabalho e ao John mais diretamente. Tem acertos e erros. Tem grandes acertos também. O salto do Botafogo de 22 a 24 é muito impressionante. E não dá para dizer que é o time de 24 que gera a situação atual. Porque tirando a situação do Almada, que segue em transfer ban e era uma discussão muito mais estranha com minúcias de dívida da MLS, enfim, que o John entra, mas o resto daquele elenco não era tão caro em termos de custo e se pagava pelo que gerou de receita, pelo que gerou de venda. Então, não é o time de 24, o time campeão, não é o time que gera as dívidas e o buraco financeiro que se identifica hoje, sabe?


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Não continuidade do trabalho após 2024


– O modelo de negócio já era voltado para isso, girar o máximo possível, pegando na baixa, vendendo na alta se você tiver o sucesso esportivo. Era esse o modelo desde sempre, que é como você consegue fazer a roda girar num ponto para enfrentar equipes que geram mais receita do que o Botafogo. Dá para fazer? Dá. Tecnicamente, o ideal é que você consiga conter ou amenizar esse desequilíbrio de o tempo todo estar mexendo no elenco e fomentar uma referência também para a torcida. Há cenários, na minha visão, e que a gente de certa forma brigou, conversou, enfim, pra tentar fazer acontecer na época. Como manutenção da comissão técnica, para um clube que o tempo todo vai ter entre e sai de jogadores. Se você tiver uma comissão, 24 foi o maior ano da história do clube, o ideal era você ter uma manutenção da comissão técnica para tocar o trabalho a partir de 2025, ainda mais tendo o Mundial de Clubes no horizonte. Porque o trabalho de 24 não se encerrava em 24, se encerrava em julho de 25. Até em termos de janela, você poderia esticar um pouco a corda e usar a janela do meio do ano, que é a principal europeia pós-mundial, jogadores valorizados, com o time mais pesado para jogar esse mundial. E com aquele trabalho que culminou com o título brasileiro e da Libertadores em 24, desenvolvido até o meio do ano de 25. Cara, para mim, isso era o mundo dos sonhos. Não era diretamente a minha área, mas uma visão minha, do que era o convívio, do que era o contato, eu acho que se o Artur Jorge tivesse sentido mais carinho pelo lado do Botafogo, ele teria permanecido. Eu acho porque o objetivo era muito marcante. Tanto que ele vai, financeiramente era um absurdo, acho que o Botafogo não tinha o papel de igualar a proposta financeiramente falando, e acho que nesses termos não faria sentido mesmo. Mas esportivamente ele sabe o que ele desperdiçou, que é o ano de 25, a disputa do mundial. E ele retorna par, um clube que tem capacidade de investimento, que também vai estar em evidência. Mas à época ele abre mão do projeto esportivo quando vai trabalhar no futebol do Catar. Ele gosta muito do Botafogo. A mudança de patamar degringolou de um jeito que não teria como fazer esse movimento. Vou fazer um contraponto do que aconteceu no Palmeiras, por exemplo, o Abel (Ferreira) chegou a ter um episódio de assinatura de pré-contrato no próprio Catar, e a Leila (Pereira) demove, paga multa e sustenta o treinador. Porque identifica que aquela comissão é fundamental no que são os resultados, no que são as conquistas do período recente.


– Eu acho que para o nosso tipo de trabalho era ainda mais relevante. Que uma comissão vitoriosa num período tão curto, foram oito meses de trabalho, que ela pudesse alongar, permanecer e ser um dos esteios, uma das bases para esse clube que o tempo todo vai estar trocando pele, vai estar tendo entrada e saída de jogador. E o outro ponto que a gente brigou e esticou a corda o máximo que deu é a espinha dorsal. Se você tem jogadores que são referências técnicas e que não vão te dar uma pancada em termos de mercado numa saída, segura. Vende quem está em evidência e vale muito. Posso estar ou esquecendo alguém ou sendo injusto, enfim, o próprio caso do Barboza agora, o Gregore, que tinha um peso pessoal pelo que é o mercado, pelo que ele iria ganhar numa transferência, enfim, mas são jogadores que você teria que tentar amarrar o máximo possível, porque eles trazem estabilidade, têm um nível alto. E o entorno deles pode o tempo todo ser de entrada e saída. O esteio está mantido, a espinha dorsal da equipe está mantida E a gente foi perdendo isso a partir das questões financeiras. Dentro de 2025 e 2026 mais ainda. Você abre mão de um Marlon, que chegou livre lá atrás, virou uma liderança, para ter um retorno financeiro. Você abre mão do Savarino no mesmo sentido, também por questão de custo, de tamanho de folha, por tudo isso.


Influência de Eagle e Lyon


– Eu acho que ali já são as decisões técnicas não sendo o mais relevante, o preponderante na tomada de decisão. O clube está pressionado por outras questões, aí está falando da Eagle, do Lyon, algo que transcende o que era o nosso trabalho, de identificação, de permanência, de manutenção do grupo. O que a gente tentava influenciar era esse lado técnico. Naturalmente, se a gente pudesse só privilegiar decisões técnicas, o rumo teria sido diferente. Mas não foi a realidade que o clube se colocou naquele momento. Eu não acho nem que seja pelo clube pura e simplesmente, porque o time de 24, como eu falei, tirando a questão do Almada, não era um elenco tão pesado do ponto de vista do custo inicial para trazer esses jogadores. Então, nas vendas você equilibraria as contas do clube, até pelo que 2025 gerou de receita, participação no Mundial. 2025 esportivamente não foi espetacular, mas gerou o retorno do que foram os ganhos de 24. Para mim, o direcionamento é esse, sustentar o todo ficou muito pesado e aí acabou degringolando a ponto de ter que abrir mão de referências técnicas


Gestão de expectativa


– Eu acho que a adaptação não seria um incômodo, se a gente estivesse bem alinhado como clube, você anunciar, comunicar ao seu torcedor que bateu no teto, foi campeão da Libertadores, do Brasileiro, a gente agora vai reorganizar, vai dar um passo atrás, vai ter um período de investimento um pouco mais curto para estruturar novamente e alçar voos maiores. Cara, eu acho que o torcedor do Botafogo teria abraçado isso aí sem muito estresse. Mas como clube não foi o que aconteceu. Então a gente fez investimento, dobrou a aposta num contexto desfavorável, de mudanças contínuas de comissão. Passou um período do ano em 2025 sem treinador definido, influenciando o início da temporada. Eu acho que tem muitas questões se somando nesse contexto que foram gerando o problema que foi bater. É muito nítida a questão financeira, mas eu acho que ela também vem de decisões técnicas. As decisões técnicas acabam ficando relegadas a segundo plano porque o clube toma decisões ruins. E acho que essa falta de unidade, de um planejamento esportivo mais claro fez a gente chegar até o ponto-chave para mim. Se a gente está falando de espinha dorsal e manutenção da comissão, era a permanência do Artur (Jorge). Acho que teria tido um peso muito relevante para a sequência do trabalho. Mas acho que foi um processo. E aí a gente foi definhando nesse sentido, de não conseguir sustentar tecnicamente o que se acreditava.


Botafogo ainda pode se reerguer


– Eu não vejo como terra arrasada. Você tem um clube numa situação financeira muito delicada, mas em termos de trabalho, de qualidade individual, o elenco já não é tão numeroso, mas ainda tem qualidade. Tem a questão do Barboza para administrar, mas você tem uns nomes ali que são interpretados talvez como um fracasso na escolha, na chegada esportiva, que eles têm para entregar. O (Arthur) Cabral é um nome desses. Definitivamente, ele é um goleador, tem capacidade de finalização, pé direito, pé esquerdo, cabeça, enfim,m as aí entram questões que transcendem a escolha específica. Por exemplo: se você tem dois, três treinadores ao longo do ano, e quando você faz um movimento na janela o seu treinador quer um 9 fixo de área, você traz um 9 fixo de área, e um mês depois o treinador não está lá, e o que entra não quer um 9 fixo de área, o 9 que é mais posicional vai sofrer. Porque não se encaixa no modelo do cara que chegou. E isso acontece no futebol brasileiro o tempo todo. E jogador que tem para dar certo num contexto X Não entrega no Y e é espinafrado né? Só que, cara, é super comum. E é por isso que eu bato na tecla do projeto esportivo. Ele é mais relevante para que essas questões não aconteçam. Ou sejam minimizadas. Acontecer, vai acontecer Ninguém vai acertar todas, vai? Tem jogador que não vai se adaptar, que não vai entregar, que vai ser considerado fracasso. Faz parte do processo. Mas minimizar isso. É você deixar o mais estável possível. A estabilidade dentro desse processo é muito importante para que esses caras se encaixem no trabalho em si. Só que se o trabalho muda a cada três meses que trabalho é esse?


– E por isso que eu falo que apesar do ano de 2025 não ter sido tão bom e 26 parecer ainda pior, eu ainda acho que tem de onde tirar. Eu acho que ainda é possível ser competitivo, porque existe trabalho com as pessoas que estão no dia a dia. O Botafogo que cai para a segunda divisão, o Botafogo que volta da segunda divisão, o Botafogo que é campeão da Libertadores e do Brasileiro, basicamente, eu posso falar para vocês assim, vou chutar um número, vai parecer aleatório, 80% das pessoas no dia a dia do staff são as mesmas. É dar condição, dar a melhor condição possível, é decisão de chefia estratégica, para que as pessoas tenham condição de apresentar o melhor trabalho possível. O analista de desempenho, o roupeiro, quem quer que seja. O supervisor, todo mundo envolvido no jogo, nessas conquistas, estava envolvido na draga, cara. Quando eu falo todo mundo, eu estou generalizando, tem um ou outro que entrou, saiu, mas são pessoas que já estavam lá e que não tinham como entregar um trabalho yalvez 5% maior, 7% maior. Seria suficiente para mudar a cara do clube? Não seria, depende de investimento, depende de estrutura, depende de oferecer condições melhores. As pessoas já estavam lá e era um clube que quando eu cheguei se falava muito isso “Caramba, você vai ver como que aqui as pessoas se dão bem, se relacionam, como funciona o ambiente”. E era fato, era construído pelas pessoas no dia a dia, porque se tinha muito pouco antes da SAF em termos de estrutura, mas as pessoas já estavam lá.


John Textor


– Essa dualidade é difícil. Você viver nos extremos não é o ideal, porque ele dobra a aposta o tempo todo. Segue agora, nessa discussão de proposta de reassumir o clube, segue nesse sentido. Eu acho que sem ele esse salto de 22 a 24 não teria acontecido, porque passa um pouco por essa questão da megalomania, de acreditar, de dobrar a aposta. Mas você tem que estar embasado, de alguma forma, em cumprir com aquilo que você se comprometeu. Que seja internamente, como sempre foi cumprido, com os jogadores, funcionários, mas também com o que você se compromete em termos de compra de jogador, as intermediações, as contas de maneira geral do clube. Se eu fosse falar de erros e acertos, e eu estou muito distante dessa tomada de decisão, dessa ponta do processo, mas talvez o passo do Lyon tenha sido maior do que era indicado no momento. Ele já era um clube que vinha se endividando ano a ano, ele assumiu um clube que já rodava no vermelho, com um investimento muito pesado e comprometendo as ações que ele tinha na Eagle. E aqui eu não estou falando como um insider, isso é notícia pública, até porque eu não convivia nesse processo a ponto de influenciar ou algo do tipo. Mas eu acho que talvez tenha sido um passo maior do que o melhor dos mundos naquele momento. E esse peso de ter que bancar o funcionamento da Eagle num momento de alta, de sucesso esportivo do Botafogo, mas o Lyon ainda rodando no vermelho Eu acho que teve um peso que não era possível administrar. E aí ele sendo executado pela Ares ele perde o controle do que eram as ações dele, o controle do que era o funcionamento dos clubes.

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