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Luís Castro e Vítor Severino - Foto/Reprodução: Cortes Duda Garbi -Youtube |
O primeiro técnico da SAF Botafogo entre março de 2022 à Junho de 2023, Luís Manuel Ribeiro de Castro, conhecido como Luís Castro, o técnico português de 64 anos, atualmente no Grêmio, após passagens pelo Al-Nassr (Arábia Saudita) e Al-Wasl (Emirados Árabes Unidos). No Assado para... durante o podcast, de Duda Garbi, Castro falou sua visão sobre como estava o Botafogo em 2022, e contou sobre sua saída do comando técnico do Botafogo, ao lado do auxiliar técnico Vítor Severino.
Assista aos vídeos abaixo:
Da precariedade estrutural à mentalidade vencedora: como começou a reconstrução do Botafogo
O técnico português Luís Castro fez um amplo relato sobre sua passagem pelo Botafogo, detalhando os bastidores da transformação que ajudou a iniciar no clube alvinegro e que, posteriormente, serviria de base para as conquistas da Conmebol Libertadores e do Brasileirão em 2024.
Ao recordar sua chegada ao Rio de Janeiro, Luís Castro descreveu um cenário muito diferente daquele que o torcedor vê atualmente. Segundo ele, a estrutura encontrada pela comissão técnica estava longe dos padrões internacionais.
“Não existe isso na Europa. Não existe isso em outros países”, afirmou ao lembrar dos primeiros dias de trabalho.
O treinador contou que uma das primeiras perguntas feitas ao chegar ao clube foi sobre a localização do centro de treinamento. A resposta surpreendeu a todos.
“Chegamos ao Botafogo e perguntamos: onde está o centro de treinamento? Não havia. Não tinha.”
Naquele momento, o clube ainda estava iniciando sua transformação sob a gestão da SAF liderada por John Textor. As grandes aquisições, os investimentos em infraestrutura e os reforços que viriam posteriormente ainda não faziam parte da realidade do clube.
Apesar disso, Castro destaca que encontrou algo extremamente valioso.
“Havia muito compromisso, havia muito comprometimento e havia muita gente querendo a mesma coisa.”
O desafio de mudar a mentalidade de um clube marcado por dificuldades
Para Luís Castro, a maior missão não era apenas melhorar o futebol apresentado dentro de campo, mas alterar a cultura interna de uma instituição que vinha de anos difíceis.
O Botafogo havia acabado de retornar à Série A após passagem pela Série B e iniciava sua trajetória como Sociedade Anônima do Futebol.
Segundo o treinador, implantar uma mentalidade vencedora foi um dos trabalhos mais complexos de sua carreira.
“Foi difícil instalar uma coisa que é fundamental: a mentalidade vencedora. Queremos ganhar sempre.”
Ele explica que esse processo exige tempo, especialmente quando se trata de um clube que vinha acumulando traumas esportivos.
“Era um Botafogo que tinha sofrido muito. Essas coisas não mudam da noite para o dia.”
Sem CT, sem vestiários e sem estrutura: a busca por um local para trabalhar
Castro relembrou que o elenco treinava em um campo anexo ao Estádio Nilton Santos, em condições que considerava inadequadas para um clube da grandeza do Botafogo.
“Não tinha condições.”
A comissão técnica passou semanas procurando alternativas.
“Andamos procurando vários locais para treinar, já às portas do Campeonato Brasileiro.”
A solução acabou surgindo em um espaço que mais tarde se tornaria parte fundamental da estrutura do clube.
“Acabamos por chegar ao Lonier.”
Mesmo ali, a situação estava longe do ideal.
“Não tínhamos vestiários. Não tínhamos refeitório. Não tínhamos departamento médico. Não tínhamos onde instalar equipamentos. Não tínhamos praticamente nada.”
Foi nesse cenário que começou a construção da nova estrutura.
“Começamos ali a construir as coisas.”
A profecia de John Textor e a conquista da Libertadores
Durante a entrevista, Castro relembrou uma frase dita por John Textor ainda nos primeiros anos da SAF.
Segundo ele, o empresário norte-americano acreditava firmemente que o Botafogo conquistaria a Libertadores.
“Ele dizia que o Botafogo seria campeão da Libertadores.”
A previsão parecia distante naquele momento, mas acabou se concretizando anos depois.
“Passados três anos, conseguiu.”
Para Castro, o título não surgiu por acaso, mas foi consequência de um longo processo iniciado muito antes.
As sequências de derrotas que quase abalaram o projeto
Nem tudo foram avanços durante a reconstrução.
O treinador revelou que o Botafogo enfrentou duas sequências de quatro derrotas consecutivas em sua gestão.
“Foram momentos muito difíceis.”
Além das derrotas no Campeonato Brasileiro, houve também campanhas estaduais marcadas por turbulências e pressão intensa.
“Foi um estadual muito sofrido, muito agitado.”
Mesmo assim, ele guarda lembranças curiosas daqueles períodos.
A virada histórica que terminou em festa no aeroporto
Um dos episódios mais marcantes relatados por Castro aconteceu em uma partida disputada em Porto Alegre.
O Botafogo jogava com um atleta a menos desde os primeiros minutos de partida e foi para o intervalo perdendo por 2 a 0.
Segundo ele, alguns integrantes da delegação receberam uma informação preocupante.
“Disseram que a torcida estava indo para o aeroporto.”
A interpretação era clara: haveria protestos na chegada da equipe.
Mas a história tomou um rumo inesperado.
Mesmo em inferioridade numérica, o Botafogo reagiu e venceu a partida por 3 a 2.
“Foi uma virada extraordinária.”
Quando a delegação desembarcou, a surpresa foi ainda maior.
“As mesmas centenas de pessoas que saíram para protestar foram para apoiar.”
Segundo Castro, os torcedores receberam a equipe como se ela tivesse conquistado um título.
“Havia festa, bandeiras, aplausos. Parecia que tínhamos ganho um troféu.”
Para ele, esse episódio simboliza a essência do futebol brasileiro.
“Isso é o futebol brasileiro. Essa emoção única.”
A relação com as torcidas e os limites da crítica
Castro também refletiu sobre o comportamento das torcidas.
O português afirmou compreender manifestações coletivas em estádios, mesmo quando direcionadas contra treinadores e jogadores.
“O estádio é o coração do torcedor.”
Segundo ele, quando uma torcida inteira protesta durante uma partida, isso faz parte do futebol.
“É uma forma de manifestação.”
No entanto, ele faz uma distinção importante.
“O que eu não tolero é a ofensa direcionada.”
Para o treinador, existe uma grande diferença entre vaias coletivas e agressões pessoais.
“Uma coisa é o estádio inteiro cantar contra você. Outra é alguém te encontrar na rua e te ofender pessoalmente.”
Ele considera que críticas fazem parte da profissão, mas acredita que o respeito deve ser preservado.
“As pessoas podem ser criticadas com respeito.”
A saída do Botafogo e a proposta do Al-Nassr
Outro tema central da entrevista foi sua saída para o Al-Nassr.
Até hoje, a transferência gera debates entre torcedores botafoguenses.
Castro reconhece que a saída foi polêmica, mas rejeita qualquer interpretação de deslealdade.
“Foi tudo feito de forma muito correta.”
Segundo ele, desde o início houve total transparência nas negociações.
“Nunca saí de lugar nenhum sem que quem liderava o clube estivesse de acordo.”
O treinador revelou que conversou diretamente com John Textor e com a administração do Botafogo.
“Expliquei exatamente o que estava acontecendo.”
De acordo com ele, o Al-Nassr estava disposto a pagar a multa rescisória prevista em contrato.
“O Botafogo entendeu perfeitamente.”
Naquele momento, restavam apenas seis meses para o fim de seu vínculo contratual.
Cristiano Ronaldo influenciou sua contratação?
Castro também abordou uma das maiores especulações da época: o suposto papel de Cristiano Ronaldo em sua ida para a Arábia Saudita.
Ele esclareceu que não foi procurado diretamente pelo craque português.
“Nós não fomos abordados pelo Cristiano.”
Segundo o treinador, o contato inicial partiu de outra pessoa ligada ao Al-Nassr.
A proposta foi apresentada formalmente ao Botafogo.
Ainda assim, reconhece que Cristiano teve influência na decisão final do clube saudita.
“Acho que ele colocou o visto positivo.”
O papel da imprensa na amplificação da polêmica
Para Castro, a repercussão de sua saída acabou fugindo do controle.
Ele acredita que a combinação entre a liderança do Botafogo no Brasileirão e a presença de Cristiano Ronaldo no Al-Nassr potencializou enormemente a cobertura da imprensa.
“O futebol é extremamente apetitoso para a mídia.”
E acrescentou:
“Quando entra Cristiano Ronaldo na história, tudo cresce ainda mais.”
Segundo ele, chegou a acreditar que seria possível deixar o clube mantendo a compreensão de todas as partes envolvidas.
“Depois percebi que já não havia forma de controlar aquilo.”
O orgulho pela construção realizada
Apesar das críticas recebidas na época, Castro afirma que guarda enorme carinho pelo Botafogo.
“Foi a minha porta de entrada no futebol brasileiro.”
Mais do que títulos, ele acredita que seu legado foi estrutural.
“Não seremos lembrados pelos títulos.”
Segundo ele, os troféus serão associados a outros treinadores, especialmente a Artur Jorge.
“Nós seremos lembrados pela construção.”
A amizade que permaneceu
Um dos pontos mais emocionantes da entrevista foi o relato sobre as relações construídas dentro do clube.
Castro afirmou manter contato com funcionários de diversos setores.
“Desde a rouparia até à administração.”
Ele também revelou que mantém amizade com John Textor.
“Falamos até hoje.”
O treinador citou mensagens trocadas com ex-funcionários e dirigentes botafoguenses, demonstrando que os laços permaneceram intactos.
“Isso também é um troféu.”
Cristiano Ronaldo: o profissional mais rigoroso que já treinou
Ao falar sobre Cristiano Ronaldo, Castro foi categórico.
“Ele é diferente em todos os níveis.”
Segundo o treinador, o sucesso do astro português não é resultado de acaso.
“Nada acontece por acaso.”
Castro descreve Cristiano como um exemplo máximo de disciplina.
“A alimentação é alimentação. O treino é treino. O descanso é descanso. O sono é sono.”
Ele afirma nunca ter visto o jogador relaxar durante uma atividade.
“Cristiano quer ganhar tudo.”
Seja um treino reduzido, um exercício técnico ou um simples jogo recreativo, o comportamento é o mesmo.
“Ele compete para vencer.”
A obsessão pelos detalhes
Um dos relatos mais impressionantes envolve a busca incessante pela perfeição.
Castro contou que Cristiano frequentemente solicita vídeos para analisar lances específicos dos treinamentos.
“Quer saber se estava em impedimento. Quer saber se o timing foi correto.”
Até mesmo durante treinamentos de pênaltis o atacante busca aperfeiçoamento.
“Ele observa o movimento do pé, a postura corporal e cada detalhe técnico.”
O segredo da longevidade
Segundo Castro, a explicação para a extraordinária carreira de Cristiano está justamente nessa obsessão positiva.
“Ele persegue a perfeição diariamente.”
Além disso, destaca sua capacidade de adaptação.
Ao longo da carreira, Cristiano deixou de ser apenas um ponta veloz para se tornar um dos maiores finalizadores da história.
“Ele foi se reinventando.”
A influência sobre os companheiros
Castro afirma que o comportamento de Cristiano impacta diretamente o restante do elenco.
“Os jogadores observam e seguem o exemplo.”
Mesmo próximo dos 40 anos, o português continua servindo de referência.
“Ele foi o maior artilheiro do mundo naquele ano.”
O que faz um jogador chegar ao topo?
Nos momentos finais da entrevista, Luís Castro e seus auxiliares refletiram sobre a formação de atletas.
Para eles, a principal diferença entre jovens promessas e jogadores de elite está na mentalidade.
“É muito mais fácil treinar os melhores.”
Segundo Castro, atletas de alto nível sabem quem são, entendem suas responsabilidades e possuem espírito crítico para evoluir.
Ele defende que a capacidade de suportar pressão precisa ser desenvolvida desde as categorias de base.
“O desejo de vencer deve ser construído desde cedo.”
A técnica, a tática e o físico podem ser aprimorados ao longo dos anos.
Mas a mentalidade vencedora, segundo ele, começa a ser formada ainda na infância.
“Quando um jogador chega ao profissional, já precisa saber lidar com a pressão de jogar diante de quarenta mil pessoas e com a obrigação de vencer.”
A entrevista de Luís Castro oferece um raro mergulho nos bastidores de uma das maiores reconstruções recentes do futebol brasileiro. Entre campos improvisados, falta de estrutura, derrotas dolorosas, viradas memoráveis e decisões controversas, o treinador português defende que ajudou a estabelecer os alicerces do Botafogo moderno.
Ao mesmo tempo, seus relatos sobre Cristiano Ronaldo revelam o cotidiano de um atleta cuja busca pela excelência continua sendo referência mundial. Para Castro, tanto no caso do Botafogo quanto no do craque português, a fórmula do sucesso é a mesma: trabalho diário, disciplina absoluta e uma mentalidade inabalável de vitória.
