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| John Textor, ex-presidente do OL e sua sucessora Michele Kang, em 17 de maio de 2024, após título da OL Lyonnes, equipe feminina do Lyon - Foto: Getty Images |
O programador e empresário norte-americano atua em duas frentes simultâneas: busca impedir avanço da recuperação judicial do Botafogo e move ação de mais de R$ 2 bilhões contra Michele Kang, acusando a dirigente de conspirar para afastá-lo do comando do Lyon.
John Textor ampliou sua ofensiva nos tribunais e nos bastidores do futebol internacional em uma estratégia que envolve, simultaneamente, a disputa pelo controle do Botafogo e uma batalha judicial bilionária nos Estados Unidos contra Michele Kang, atual principal acionista do Olympique Lyonnais.
Enquanto tenta reverter na Justiça sua saída da gestão da SAF alvinegra, o empresário norte-americano também busca convencer credores do Botafogo a rejeitarem o plano apresentado na Recuperação Judicial do clube. Paralelamente, entrou com uma ação na Justiça da Flórida cobrando pelo menos US$ 400 milhões — mais de R$ 2 bilhões na cotação atual — de Michele Kang, alegando que foi vítima de uma conspiração para perder o controle do Lyon.
Os dois movimentos evidenciam que Textor não pretende encerrar as disputas envolvendo seu grupo empresarial sem uma intensa batalha judicial.
Textor tenta barrar acordo da Recuperação Judicial do Botafogo
Segundo informações de bastidores ligadas ao clube associativo, John Textor vem mantendo contato diretamente com credores incluídos na Recuperação Judicial do Botafogo para convencê-los a não aderirem ao plano apresentado pela atual administração da SAF.
A argumentação do empresário é de que haveria recursos já captados, em parceria com o empresário grego Evangelos Marinakis, suficientes para quitar integralmente os débitos em condições consideradas mais vantajosas aos credores.
De acordo com essas informações, Textor afirma possuir aproximadamente R$ 1,5 bilhão reservado para liquidar as obrigações financeiras do clube, desde que consiga reassumir o controle da SAF.
Nos bastidores, porém, integrantes da atual gestão entendem que essa atuação acaba dificultando o andamento da Recuperação Judicial, já que a negociação depende da adesão dos credores ao plano aprovado pelo clube.
Segundo pessoas ligadas ao processo, representantes do Botafogo avaliam que os contatos feitos por Textor estariam retardando as negociações ao incentivar credores a aguardarem uma eventual mudança de controle da SAF.
Disputa pelo comando do Botafogo continua na Justiça
Mesmo afastado da administração cotidiana do clube, Textor segue buscando judicialmente recuperar o comando do Botafogo.
Enquanto isso, a gestão operacional da SAF já vem sendo conduzida pela GDA Luma, embora o processo definitivo de revenda da participação societária ainda dependa da conclusão de etapas formais junto ao clube associativo.
A disputa jurídica permanece em andamento e representa um dos principais capítulos da reestruturação societária vivida pelo Botafogo nos últimos meses.
A batalha agora também envolve o Lyon
Ao mesmo tempo em que trava disputas no Brasil, Textor abriu uma nova frente judicial nos Estados Unidos.
Na segunda-feira, o empresário protocolou uma ação na Justiça estadual da Flórida contra Michele Kang, pedindo uma indenização mínima de US$ 400 milhões, valor que pode superar essa quantia com juros, honorários advocatícios e demais custos processuais.
A ação foi revelada inicialmente pelo portal norte-americano Front Office Sports.
Segundo o processo, Textor apresenta sete acusações contra Kang, entre elas:
difamação;
ocultação fraudulenta;
conspiração civil;
fraude;
interferência indevida em relações empresariais.
Na petição, o empresário afirma que os prejuízos financeiros sofridos são "muito superiores" aos US$ 400 milhões inicialmente pleiteados.
A tese de Textor: uma "parceria amigável" que escondia um acordo secreto
A principal acusação apresentada por Textor sustenta que Michele Kang o convenceu a entregar o controle operacional do Lyon alegando que seria uma solução temporária e amigável diante da crise enfrentada pelo clube francês.
Naquele momento, o Lyon havia sido rebaixado administrativamente pela DNCG, órgão responsável pelo controle financeiro do futebol francês, por problemas relacionados às finanças do clube. A decisão acabaria sendo posteriormente revertida em recurso.
Segundo Textor, autoridades do futebol francês teriam sinalizado que sua saída da presidência e da função de CEO facilitaria uma solução favorável ao Lyon perante a DNCG.
Ele afirma que aceitou deixar os cargos acreditando tratar-se de uma reorganização temporária.
A acusação de um "conselho paralelo"
O centro da ação judicial é a alegação de que Michele Kang já havia negociado secretamente um acordo paralelo com a gestora de crédito Ares antes mesmo da saída de Textor.
Segundo o empresário, esse acordo teria criado um chamado "shadow board" — ou "conselho paralelo" — responsável por tomar decisões estratégicas sobre o Lyon sem passar pelos órgãos oficiais de governança.
Na ação, Textor afirma que:
esse conselho teria realizado aproximadamente 30 reuniões em cinco meses;
no mesmo período, o conselho oficial da empresa realizou apenas duas reuniões;
ele só teria descoberto a existência dessa estrutura meses depois de deixar o comando do clube;
a informação teria chegado por meio de um denunciante ("whistleblower").
Suposta estratégia para tomar o controle do Lyon
Segundo a narrativa apresentada por Textor, o objetivo desse conselho paralelo seria enfraquecer financeiramente a Eagle Football Holdings até colocá-la em situação de insolvência.
Com isso, investidores ligados ao grupo poderiam adquirir posteriormente o Lyon por um valor significativamente inferior ao de mercado.
A Eagle Football Holdings acabou entrando em processo de reestruturação financeira sob administração da empresa britânica Cork Gully.
Na ação, Textor também afirma que Michele Kang e outros envolvidos teriam cometido atos que poderiam caracterizar:
corrupção privada;
abuso de poder corporativo;
apresentação de demonstrações financeiras incorretas;
divulgação de informações falsas ou enganosas.
Ele ressalta que tais condutas, caso comprovadas, poderiam configurar crimes segundo a legislação francesa.
Queixa criminal também foi apresentada na França
Antes mesmo da ação nos Estados Unidos, Textor já havia apresentado uma queixa criminal confidencial perante o Parquet National Financier (PNF), órgão francês especializado em crimes financeiros.
Segundo o empresário, o objetivo é investigar a conduta de Michele Kang e de outros envolvidos na negociação que culminou na perda do controle do Lyon.
Michele Kang rebate as acusações
Em nota enviada ao Front Office Sports, um porta-voz de Michele Kang afirmou que todas as acusações apresentadas por John Textor são infundadas.
Segundo a manifestação:
"As alegações são infundadas e totalmente sem mérito, e esta queixa representa a mais recente tentativa de John Textor de desviar a atenção de seus próprios delitos. Michele Kang continua focada no sucesso e na recuperação de longo prazo do Olympique Lyonnais e responderá pelos canais legais apropriados."
Lyon também move medidas judiciais
O confronto entre as partes ganhou novos capítulos recentemente.
Em junho, o Eagle Football Group informou ter apresentado uma denúncia criminal na França contra um investigado identificado apenas como "X". Fontes ouvidas pelo Front Office Sports afirmam que esse investigado seria o próprio John Textor.
Segundo o grupo francês, uma auditoria interna encontrou centenas de transações financeiras consideradas suspeitas realizadas entre maio de 2023 e junho de 2025.
Duas disputas, uma mesma estratégia
Os movimentos recentes mostram que John Textor adotou uma estratégia simultânea em diferentes jurisdições.
No Brasil, busca impedir o avanço da Recuperação Judicial do Botafogo enquanto tenta recuperar judicialmente o controle da SAF, defendendo possuir recursos suficientes para quitar integralmente as dívidas do clube em melhores condições para os credores.
Na Europa e nos Estados Unidos, procura responsabilizar Michele Kang pela perda do comando do Lyon, alegando que foi vítima de uma operação articulada para afastá-lo da gestão da Eagle Football Holdings e reduzir o valor de seus ativos.
Com processos em andamento no Brasil, França e Estados Unidos, o futuro das empresas ligadas a John Textor permanece condicionado às decisões judiciais que deverão ser tomadas nos próximos meses.
