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John Textor ex-dono da SAF Botafogo, em Outubro, durante partida contra o Criciúma, no Maracanã pelo campeonato Brasileiro A 2024. Foto: Thiago Ribeiro/AGIF |
Ex-dono da SAF do Botafogo defendeu o treinador português horas antes de sua demissão e responsabilizou a atual gestão por decisões esportivas e pelo planejamento da viagem a Cusco
John Textor voltou a fazer duras críticas à condução do futebol do Botafogo. Em entrevista exclusiva à ESPN Brasil, concedida na noite de terça-feira (18/8), horas antes de o clube oficializar a demissão de Franclim Carvalho, o empresário norte-americano saiu em defesa do treinador português e classificou sua eventual dispensa como um erro.
A entrevista completa será publicada pela ESPN nos próximos dias. Segundo os trechos divulgados, Textor também responsabilizou a atual estrutura de comando da SAF por problemas que, na visão dele, culminaram no momento de instabilidade vivido pelo time. Em uma das declarações mais contundentes, o empresário afirmou que o Botafogo estaria sendo dirigido por uma “criança”, em referência a Eduardo Iglesias, atual diretor-geral da SAF.
Iglesias foi nomeado para o cargo em maio de 2026. Economista de 31 anos, ele já havia trabalhado na estrutura da SAF desde sua criação, passando por áreas relacionadas a planejamento financeiro e negociações de atletas.
Textor: demitir Franclim foi um erro
Na conversa com a ESPN, Textor afirmou que não teria demitido Franclim Carvalho e destacou a participação do português na comissão técnica de Artur Jorge, durante a temporada histórica de 2024, quando o Botafogo conquistou a CONMEBOL Libertadores e o Campeonato Brasileiro.
“Demitir o Franclim é um erro.”
Textor sustentou que o português não era apenas um auxiliar dentro da comissão de Artur Jorge, mas alguém diretamente envolvido nas decisões esportivas e na preparação da equipe.
Assista ao vídeo abaixo:
Segundo o empresário, Franclim participava das decisões durante as partidas, auxiliava nas substituições e comandava treinamentos. A avaliação de Textor é que o trabalho desenvolvido pela comissão técnica era coletivo e que Carvalho teve participação relevante na temporada mais vitoriosa da história recente do clube.
O próprio Botafogo, quando anunciou Franclim como treinador em abril, destacou que ele havia sido peça fundamental na comissão de Artur Jorge durante as conquistas da Libertadores e do Brasileiro de 2024. O clube também confirmou contrato até o fim de 2027.
Para Textor, portanto, a avaliação sobre o trabalho de Franclim não deveria ser feita apenas pelos resultados recentes.
O treinador assumiu a equipe em abril, depois de ter trabalhado como auxiliar de Artur Jorge. A contratação ocorreu em um período de forte turbulência institucional e esportiva no clube.
“Franclim recebeu uma mão de pôquer muito ruim”
Textor também direcionou críticas ao contexto em que Franclim trabalhou durante a temporada.
Na avaliação do norte-americano, o treinador recebeu um elenco fragilizado, enfrentou dificuldades provocadas por transfer bans e não teve à disposição todos os jogadores considerados fundamentais.
O empresário responsabilizou o Botafogo Social por, segundo sua versão, bloquear recursos e dificultar a montagem do elenco.
“Ele recebeu uma mão de pôquer muito ruim esse ano.”
Textor argumentou que a equipe passou a depender de jogadores muito jovens e enfrentou um cenário diferente daquele que havia marcado a temporada de 2024.
O empresário citou ainda a ausência de Danilo em determinado período e afirmou que, apesar das dificuldades, o Botafogo apresentou bons momentos em partidas recentes.
A crise financeira e as restrições no mercado de transferências já vinham sendo apontadas como um dos problemas enfrentados pelo clube em 2026. Reportagens também registraram a existência de transfer bans e a saída de diversos jogadores importantes do elenco que havia conquistado os títulos de 2024.
Derrota para o Cienciano vira alvo principal das críticas
A parte mais contundente da entrevista veio quando Textor analisou a goleada sofrida pelo Botafogo diante do Cienciano, no Peru.
O Alvinegro perdeu por 6 a 1 em Cusco, em partida pela CONMEBOL Sul-Americana, e o resultado se tornou um dos principais símbolos da crise esportiva que culminou na saída de Franclim.
Para Textor, porém, o problema não deveria ser atribuído exclusivamente ao treinador.
O empresário afirmou que o Botafogo deveria ter utilizado o conhecimento acumulado em partidas anteriores disputadas em altitude, citando experiências contra equipes como LDU, em Quito, e Nacional Potosí.
Segundo ele, o planejamento deveria ter levado o elenco antecipadamente para Cusco, permitindo um período de adaptação às condições de altitude.
Na visão de Textor, a preparação física e a aclimatação deveriam ter sido tratadas como fatores estratégicos para a partida.
Ele chegou a afirmar que, caso ainda estivesse no comando do clube, teria adotado um planejamento completamente diferente.
“Se eu fosse presidente do clube e tivesse feito o plano, a gente teria vencido a partida no Peru.”
Textor descreveu um projeto em que os jogadores viajariam com antecedência, treinariam na altitude e permaneceriam no local pelo período necessário para adaptação.
A ideia, segundo ele, seria aproveitar também o calendário para organizar uma preparação específica antes do confronto.
Ataque direto a Eduardo Iglesias
Foi nesse contexto que Textor fez a mais dura crítica à atual gestão da SAF.
Ao comentar a decisão sobre a logística da viagem ao Peru, o empresário citou diretamente Eduardo Iglesias e questionou a experiência do dirigente no comando de um clube de futebol.
Textor afirmou que Iglesias “nunca dirigiu um clube de futebol” e “nunca comandou um negócio” antes de assumir a posição de liderança na SAF.
Na sequência, fez uma comparação direta com sua própria passagem pelo Botafogo e afirmou que o dirigente teria assumido uma posição equivalente à que ele próprio ocupava anteriormente.
A declaração mais forte veio ao final do raciocínio:
“Não há continuidade nenhuma, não há conhecimento institucional aplicado, não há liderança nenhuma, porque você tem uma criança comandando o Botafogo.”
A fala representa uma escalada nas críticas de Textor à atual administração do clube.
O conflito entre o empresário e a nova estrutura de poder da SAF já vinha se tornando público. Em maio, após a nomeação de Iglesias, a SAF publicou uma nota com críticas à gestão de Textor, enquanto o empresário continuou contestando decisões relacionadas ao controle da empresa.
Em junho, inclusive, houve decisões judiciais e societárias conflitantes envolvendo o controle da SAF. O clube social e a Eagle ratificaram Iglesias na condução da empresa, enquanto Textor afirmava ter recuperado poderes de liderança.
“Franclim foi jogado debaixo do ônibus”
Textor também criticou a postura da diretoria diante da goleada sofrida no Peru.
Para ele, a responsabilidade por um resultado dessa magnitude deveria ser compartilhada entre comissão técnica, jogadores e estrutura administrativa.
O empresário afirmou que o treinador acabou sendo colocado como principal responsável por uma derrota que, em sua avaliação, refletiria falhas institucionais.
“Isso não é liderança!”
Na visão de Textor, dirigentes como Eduardo Iglesias, João Paulo Magalhães e Carlos Augusto Montenegro deveriam ter aparecido publicamente para assumir a responsabilidade pelo momento do clube.
O empresário classificou a situação como um abandono do treinador.
“Você não pode abandonar o treinador aos abutres.”
Textor ainda afirmou que Franclim tem potencial para se tornar um grande treinador em outro clube caso deixe o Botafogo.
A demissão acabou acontecendo
Apesar da defesa pública de Textor, o Botafogo confirmou a saída de Franclim Carvalho na noite de terça-feira (18).
A demissão ocorreu depois de uma sequência de resultados negativos, entre eles a goleada por 6 a 1 para o Cienciano, pela Sul-Americana, e a derrota por 1 a 0 para o Vitória, pelo Campeonato Brasileiro.
A última partida de Franclim foi justamente contra o Vitória, fora de casa.
Em sua passagem pelo comando do Botafogo, o português terminou com 10 vitórias, sete empates e cinco derrotas, antes de ser desligado.
Para o confronto de volta das oitavas de final da Sul-Americana, marcado para quinta-feira (20/8), o time será comandado interinamente por Rodrigo Bellão, treinador do sub-20.
A saída de Franclim também provocou mudanças na comissão técnica permanente.
Paulo Bonamigo, ex-treinador do Botafogo em 2004, assumirá a função de coordenador técnico. Ronaldo Torres ficará responsável pela preparação física, enquanto Marcelo Salles, o Fera, será o novo auxiliar-técnico permanente.
Bastidores: aumento salarial faz multa de Franclim chegar a cerca de R$ 6 milhões
Além da repercussão esportiva e política provocada pela demissão, a saída de Franclim Carvalho também terá impacto financeiro para o Botafogo.
Segundo informação de bastidores apurada pela ESPN Brasil, o clube terá de pagar aproximadamente 1 milhão de euros, valor equivalente a cerca de R$ 6 milhões, ao treinador português.
A quantia está relacionada ao acordo firmado entre as partes e considera valores que Franclim teria direito a receber até o final de 2026, além de parcelas como o 13º salário.
O valor da multa aumentou depois que o treinador recebeu um reajuste salarial.
De acordo com a apuração, Franclim havia recusado uma proposta do Vasco, em junho. Depois da permanência do português no Botafogo, a diretoria concedeu um aumento salarial.
Com a atualização dos vencimentos, a quantia necessária para a rescisão passou a ficar próxima de 1 milhão de euros.
O contrato original de Franclim com o Botafogo tinha validade até o final de 2027, conforme anunciado oficialmente pelo clube em abril.
A situação cria uma conta expressiva para o Botafogo justamente em um momento de dificuldades financeiras e de disputas relacionadas ao controle da SAF.
Uma demissão em meio à crise institucional
A saída de Franclim ocorre, portanto, em um cenário que vai muito além dos resultados dentro de campo.
De um lado, o clube tenta reorganizar sua estrutura esportiva após uma sequência de atuações ruins e resultados negativos. De outro, a SAF continua envolvida em uma disputa societária que colocou John Textor e os atuais responsáveis pela administração em lados opostos.
Textor, que esteve diretamente ligado à transformação do Botafogo campeão de 2024, segue fazendo críticas públicas à condução do clube. A atual administração, por sua vez, já havia rompido publicamente com o empresário e defendido uma nova estrutura de gestão.
Nesse ambiente, a demissão de Franclim ganhou uma dimensão maior do que a simples troca de treinador.
Para Textor, o português foi responsabilizado por um problema que deveria ser encarado como institucional. Para a atual gestão, porém, a sequência de resultados negativos acabou levando à decisão de mudança no comando técnico.
O próximo capítulo será escrito dentro de campo, com Rodrigo Bellão à frente da equipe contra o Cienciano, enquanto fora dele permanecem as disputas pelo controle e pela condução da SAF.
A declaração de Textor sobre Eduardo Iglesias, ao afirmar que há uma “criança comandando o Botafogo”, tornou-se o principal símbolo da entrevista e expõe novamente a dimensão do conflito entre o antigo gestor e a atual estrutura de poder do clube.
