GDA Luma põe dinheiro, Gabriel de Alba é “milagreiro” para João Paulo Magalhães Lins, mas Social mantém poder no Botafogo, enquanto JP mira processos contra Textor e promete quinta maior folha salarial do Brasil


João Paulo Magalhães Lins, presidente do Botafogo, e Gabriel de Alba, dono da GDA, posaram juntos ontem 18/8 no Rio — Foto Reprodução Stories/JPML


Presidente do clube social detalha bastidores da reformulação do futebol, defende Bonamigo, Ronaldo Torres e Marcelo Salles, critica a antiga gestão de John Textor e exalta Gabriel de Alba; enquanto isso, torcida cobra projeto esportivo, reforços e uma participação mais efetiva do novo investidor


As mudanças anunciadas pelo Botafogo no departamento de futebol abriram uma nova frente de discussão dentro de um clube que já atravessa um dos períodos mais complexos de sua história recente.


A demissão de Franclim Carvalho, depois da goleada por 6 a 1 para o Cienciano, no Peru, foi acompanhada por uma reformulação da comissão técnica permanente. Paulo Bonamigo assumiu como coordenador técnico, Ronaldo Torres foi contratado para a preparação física e Marcelo Salles, conhecido como “Fera”, passou a integrar a comissão fixa como auxiliar técnico. Rodrigo Bellão, treinador do Sub-20, assumiu interinamente a equipe profissional e será o responsável pelo confronto de volta contra o Cienciano, nesta quinta-feira (20/8).


As três novas contratações têm um ponto em comum: trabalharam com João Paulo Magalhães Lins durante o período em que o atual presidente do Botafogo social esteve ligado ao Boavista.


A escolha, portanto, rapidamente passou a ser questionada por parte da torcida, especialmente pela idade de Bonamigo, 65 anos, e Ronaldo Torres, 68. João Paulo, porém, rejeitou a ideia de que idade seja sinônimo de desatualização e transformou a experiência dos profissionais no principal argumento para defendê-los.



Em entrevista ao “Canal do Manel”, na manhã desta quarta-feira (19/8), o dirigente detalhou pela primeira vez os critérios das escolhas e apresentou uma visão muito mais ampla sobre a intervenção do associativo no futebol.


Marcelo Salles é o primeiro nome defendido por João Paulo


João Paulo começou sua defesa por Marcelo Salles, justamente o profissional cuja contratação provocou menor resistência.


O dirigente destacou a longa trajetória do auxiliar e lembrou que Salles passou cerca de dez anos como auxiliar permanente no Flamengo, trabalhando com diferentes treinadores. Também citou suas experiências no Grêmio e no Vasco e sua participação em trabalhos de grande repercussão no futebol brasileiro.


Para João Paulo, o Botafogo não possuía um auxiliar técnico permanente com o perfil de Salles.


O presidente também destacou a experiência do profissional na parte técnica e sua capacidade de funcionar como elo entre treinador, jogadores e comissão.


A avaliação de João Paulo é que o Botafogo precisava de alguém que permanecesse na estrutura independentemente de mudanças no comando técnico.


Essa é uma das principais diferenças do modelo que o presidente pretende implementar: em vez de uma comissão inteiramente vinculada ao treinador, o clube passa a ter profissionais permanentes, que podem permanecer mesmo quando houver troca de técnico.


Ronaldo Torres: identificação com o Botafogo e experiência acumulada


A defesa de Ronaldo Torres seguiu uma lógica semelhante.


João Paulo ressaltou que Torres possui forte identificação com o Botafogo. Segundo o dirigente, ele chegou ao clube ainda muito jovem, aos 11 anos, construiu sua carreira dentro da instituição e participou de conquistas importantes.


Torres foi preparador físico do Botafogo campeão brasileiro de 1995 e também integrou trabalhos vencedores em outros clubes, acumulando experiências ao lado de treinadores como Muricy Ramalho.


Para João Paulo, a questão central não é quando essas conquistas aconteceram, mas o conhecimento adquirido ao longo da carreira.


“O que isso deu para ele? Experiência. O que está faltando no Botafogo? Pessoas experientes.”


O presidente afirmou que a preparação física do Botafogo já possui uma equipe numerosa, com sete ou oito profissionais, mas que a chegada de um profissional veterano pode acrescentar uma referência capaz de dialogar com os integrantes mais jovens.


A ideia, segundo ele, é criar um ambiente em que profissionais de diferentes gerações possam discutir decisões e oferecer contrapontos.


Bonamigo terá papel de “cabelo branco” na mesa de decisões


A contratação de Paulo Bonamigo é provavelmente a que mais simboliza a nova filosofia defendida pelo presidente.


Bonamigo foi jogador do Botafogo, treinador do clube e possui experiência internacional, inclusive com uma década de trabalho no mundo árabe.


João Paulo também destacou que o ex-treinador possui experiência em estruturas nas quais existe uma figura proprietária forte.


Esse aspecto, na visão do dirigente, seria particularmente relevante para o atual Botafogo, uma SAF em processo de transição para a GDA Luma.


Bonamigo, contudo, não chega para ser treinador.


Sua função será participar das discussões técnicas, oferecer experiência e atuar como uma espécie de contraponto dentro da estrutura.


“O cara não é um treinador, não, não está dentro do campo. O cara é um coordenador para fazer parte da mesa de debate. Cabelo branco, experiência.”


João Paulo também fez questão de lembrar que ele próprio tem 45 anos e, portanto, não considera a contratação de profissionais mais velhos uma questão geracional.


Na visão do presidente, justamente porque Bellão é jovem e parte importante da comissão também é jovem, haveria necessidade de incorporar profissionais experientes.


Bonamigo teria colocado o cargo à disposição


João Paulo revelou ainda um episódio que, segundo ele, demonstra o caráter de Bonamigo.


Após a repercussão negativa da contratação, o coordenador teria telefonado para o presidente e colocado o cargo à disposição caso sua presença estivesse prejudicando o clube.


Segundo João Paulo, Bonamigo teria afirmado que estava no Botafogo para ajudar e contribuir, e não para criar conflito.


O presidente acrescentou que o profissional sequer teria perguntado quanto receberia pelo trabalho antes de aceitar o convite.


Ronaldo Torres e Marcelo Salles também foram apresentados por João Paulo como profissionais que chegaram com a intenção de contribuir.


O dirigente pediu que a torcida não avalie os três apenas pela idade ou pelo vínculo profissional que tiveram com ele no Boavista.


Sua argumentação foi para que torcedores consultem jogadores e dirigentes que trabalharam diretamente com os profissionais antes de julgar suas capacidades.


A defesa é, portanto, baseada em três elementos: experiência, caráter e identificação com o Botafogo.


A filosofia de João Paulo: experiência contra a juventude


O discurso do presidente tem um eixo central.


Para João Paulo, o Botafogo passou a ter uma estrutura muito jovem em determinados setores e precisa adicionar profissionais capazes de oferecer contraponto, memória e experiência.


A expressão “cabelo branco”, utilizada pelo próprio dirigente, tornou-se uma espécie de síntese dessa filosofia.


Não se trata, segundo sua argumentação, de substituir os jovens, mas de colocá-los em contato com profissionais que já passaram por crises, títulos, vestiários e diferentes estruturas de futebol.


Essa justificativa ganha importância porque Rodrigo Bellão, de 32 anos, terá a responsabilidade de comandar o time profissional justamente em um dos momentos mais delicados da temporada.


O clube anunciou que Bonamigo, Torres e Salles se juntarão a Bellão e aos demais integrantes da comissão na preparação da equipe.


A goleada no Peru continua no centro da crise


A origem de toda essa movimentação está na derrota para o Cienciano.


João Paulo não tentou amenizar o resultado. Pelo contrário, afirmou que o jogo foi muito ruim e criticou decisões tomadas pela comissão técnica.


Para o presidente, o confronto serviu como demonstração prática de que o Botafogo precisava de uma estrutura mais experiente.


A crítica não se restringiu ao resultado. João Paulo questionou mudanças na equipe e decisões tomadas durante a partida.


Esse diagnóstico está diretamente ligado à contratação de Bonamigo.


A intenção, segundo o dirigente, é ter uma pessoa capaz de participar da discussão antes que determinadas decisões sejam tomadas e oferecer uma visão diferente ao treinador.


O presidente diz estar enfrentando um problema muito maior que o futebol


O desabafo de João Paulo também deixou claro que sua atuação não está limitada ao futebol.


O presidente afirmou que o Botafogo recebeu uma estrutura com enormes problemas financeiros, jurídicos e administrativos.


Ele citou seis transfer bans, recuperação judicial, dívidas com clubes e ausência de recursos no caixa.


O dirigente também afirmou que o passivo tributário da SAF chegaria a aproximadamente R$ 500 milhões em impostos não pagos.


Essa informação deve ser tratada como declaração de João Paulo, e não como constatação independente de um passivo tributário dessa dimensão.


O discurso do presidente, contudo, procura estabelecer uma relação direta entre os problemas financeiros e a necessidade de interferência no futebol.


A tese é: se o associativo teve de participar da recuperação institucional e financeira do Botafogo, também precisa ter legitimidade para atuar quando entende que o futebol necessita de mudanças.


Danilo e Montoro são apresentados como símbolos dessa intervenção


João Paulo voltou a citar Danilo e Álvaro Montoro como exemplos de decisões tomadas para preservar o patrimônio esportivo.


O presidente lembrou que o Botafogo rejeitou uma proposta do Palmeiras por Danilo e afirmou que também trabalhou para impedir anteriormente uma negociação envolvendo Montoro.


Segundo João Paulo, ele recorreu à Justiça e conseguiu uma liminar que impediu a venda do jovem jogador durante a gestão anterior.


Na avaliação do presidente, essas decisões demonstrariam que o associativo não está simplesmente interferindo no futebol, mas tentando proteger ativos considerados estratégicos.


O ge já havia identificado a recusa da proposta por Danilo como um dos exemplos da crescente influência de João Paulo nas decisões do futebol durante a transição da SAF.


Gabriel de Alba é tratado como peça central


A relação entre João Paulo e Gabriel de Alba é outro elemento fundamental da nova estrutura.


O ge informou que Gabriel de Alba já exerce influência direta nos bastidores, embora o processo de transferência da SAF ainda estivesse em andamento no início de agosto. A reportagem apontou João Paulo e Eduardo Iglesias como elos importantes entre o clube e o empresário mexicano.


Agora, Gabriel de Alba já desembarcou no Rio e, segundo reportagem publicada em 18 de agosto, assinou contrato vinculante para se tornar acionista majoritário do Botafogo. A GDA Luma também já vinha realizando aportes financeiros para ajudar no fluxo de caixa e no pagamento de compromissos.


João Paulo, entretanto, foi muito além de simplesmente explicar a relação institucional.


Ele chamou Gabriel de “santo”, atribuiu ao empresário papel decisivo na sustentação financeira do Botafogo e afirmou que o investidor já teria colocado cerca de US$ 50 milhões no clube em 2026.


O número é uma declaração do presidente e não deve ser confundido com um balanço financeiro independente.


A fala revela, porém, a importância que João Paulo atribui ao empresário mexicano.


“Gabriel é um santo”: a defesa do novo investidor


João Paulo afirmou que o Botafogo estaria em situação muito pior se Gabriel de Alba não tivesse aparecido.


Segundo o dirigente, o empresário ajudou a pagar contas, resolver problemas e dar fôlego ao clube.


A GDA Luma, de fato, já vinha participando financeiramente da reconstrução. Em julho, houve um aporte divulgado de US$ 15 milhões para pagamento de dívidas, fluxo de caixa e investimentos na janela.


O Botafogo também divulgou um plano estratégico de 100 dias, iniciado em maio, com metas de auditoria financeira, revisão de contratos, redução de despesas, redefinição de diretrizes de contratações e política salarial, além de manutenção de atletas considerados estratégicos. O documento oficial também agradeceu o apoio financeiro e institucional de Gabriel de Alba.


Portanto, existe uma base documental para afirmar que a GDA já participa financeiramente e institucionalmente da transição.


A questão que permanece para a torcida é outra: qual será o projeto esportivo de longo prazo quando essa transição estiver concluída?


João Paulo explica por que se considera responsável pela transição


O presidente também explicou por que decidiu sair do silêncio.


Segundo João Paulo, ele passou meses trabalhando nos bastidores para construir a transição e preparar a chegada do novo investidor.


Ele afirmou que seu CPF está vinculado às responsabilidades assumidas pelo clube e que, em caso de problemas, também poderá sofrer consequências pessoais.


A declaração mostra o tamanho da responsabilidade que João Paulo atribui à própria função.


Ao mesmo tempo, reforça um ponto que precisa ser acompanhado pela torcida: o presidente do associativo está ocupando um espaço cada vez maior na condução dos assuntos relacionados à SAF.


O ge já havia apontado que João Paulo acompanha temas relevantes e ganhou importância por sua relação direta com Gabriel de Alba.


O ataque de João Paulo a John Textor


Em um dos momentos mais duros da entrevista, João Paulo atacou diretamente John Textor.


O presidente responsabilizou o antigo controlador por deixar o Botafogo com dívidas bilionárias e praticamente sem recursos disponíveis.


Também contestou a narrativa de Textor sobre uma tentativa de aumento de capital que teria sido bloqueada.


As acusações são parte da disputa pública entre o atual comando do associativo e o antigo controlador da SAF.


É importante separar, entretanto, as acusações de João Paulo das conclusões jurídicas definitivas. Existem disputas societárias, financeiras e judiciais envolvendo a antiga gestão, mas declarações de uma das partes não equivalem automaticamente à comprovação das irregularidades alegadas.


O próprio Botafogo já adotou medidas societárias contra a Eagle Football. Em julho, o clube acionou mecanismo que poderia reduzir a participação da holding e abrir caminho para a venda das ações à GDA Luma. A documentação divulgada em reportagem da GDA descreveu as acusações feitas pelo Botafogo contra operações da antiga gestão, enquanto a equipe de Textor afirmou permanecer tranquila quanto à regularidade dos atos praticados.


Botafogo prepara processos contra Textor


João Paulo também confirmou que o Botafogo pretende ingressar com processos criminais contra John Textor.


O presidente falou em uma série de possíveis crimes, mas não apresentou, na entrevista, detalhes suficientes para que essas acusações possam ser tratadas como fatos comprovados.


A existência de eventual investigação, denúncia ou processo criminal deverá ser acompanhada pelos documentos oficiais e pelo andamento das autoridades competentes.


O ponto político, entretanto, é inequívoco: a atual direção não pretende encerrar a disputa com a antiga gestão apenas no campo administrativo.


A transição ainda não significa que tudo esteja resolvido


Apesar do discurso de reconstrução, o Botafogo continua enfrentando problemas esportivos.


O clube perdeu por 6 a 1 para o Cienciano no jogo de ida e precisa construir uma reação histórica no Nilton Santos.


A demissão de Franclim foi confirmada e Bellão assumirá interinamente.


A situação no Campeonato Brasileiro também exige atenção, e a prioridade imediata precisa ser estabilizar o desempenho da equipe.


Esse é justamente o ponto que preocupa parte da torcida: enquanto o clube enfrenta uma crise esportiva, as discussões administrativas continuam ocupando enorme espaço.


A janela ainda está aberta — e a cobrança por reforços permanece


João Paulo afirmou que o Botafogo pretende ter uma das cinco maiores folhas salariais do Brasil sob a GDA Luma.


Também declarou que existe investimento mínimo anual previsto para atletas e que a estrutura deve permitir um elenco competitivo.


O dirigente ainda afirmou que a janela não havia terminado e pediu que o torcedor “sonhe” com possíveis novidades.


A informação oficial da CBF é que a segunda janela de transferências de 2026 vai de 20 de julho a 11 de setembro. Portanto, em 19 de agosto, ainda há tempo para novas movimentações no mercado.


Até o momento, entretanto, a estratégia de contratações da segunda metade da temporada foi marcada principalmente por apostas e jogadores de custo mais controlado. A imprensa esportiva registrou seis reforços e descreveu a estratégia como parte da retomada de uma política de mercado mais cautelosa durante a recuperação financeira.


Isso cria uma contradição que a direção terá de enfrentar.


Se o Botafogo pretende efetivamente disputar títulos e construir uma das maiores folhas do país, será preciso transformar a promessa de investimento em decisões concretas.


A torcida terá de se unir — mas também cobrar


O momento exige união dos botafoguenses.


O ambiente interno está extremamente deteriorado, e o clube precisa evitar que a crise administrativa se transforme em uma crise esportiva irreversível.


A prioridade imediata é clara: afastar o risco de aproximação do Z4, recuperar confiança e reorganizar o time.


Não existe espaço para uma guerra permanente entre grupos internos enquanto o time precisa competir.


Ao mesmo tempo, união não significa ausência de cobrança.


O torcedor pode apoiar Bellão, os jogadores e a nova comissão técnica e, simultaneamente, exigir respostas de quem administra o clube.


A pergunta central que João Paulo precisa responder não é apenas quem será o próximo auxiliar, preparador físico ou coordenador.


A pergunta é: qual é o projeto do Botafogo para os próximos anos?


O problema poderia ter sido atacado durante a pausa da Copa


A grande discussão de bastidor é sobre planejamento.


A pausa provocada pela Copa do Mundo ofereceu ao Botafogo uma oportunidade extraordinária para reorganizar sua estrutura, definir o comando técnico, mapear necessidades do elenco e preparar a segunda metade da temporada.


O próprio clube afirmou que seu plano de 100 dias envolvia justamente redefinir diretrizes de gestão, scout, contratações e política salarial.


Por isso, a sequência atual desperta questionamentos.


A sensação de parte da torcida é que decisões estruturais estão sendo tomadas quando a temporada já entrou em uma fase crítica.


A janela permanece aberta até 11 de setembro, mas o tempo para corrigir problemas esportivos é muito menor.


O Botafogo não pode esperar a conclusão de toda a reorganização societária para começar a organizar o futebol.


Gabriel de Alba precisa sair do papel de investidor distante


É nesse ponto que a participação de Gabriel de Alba se torna fundamental.


A presença financeira da GDA é conhecida. A influência nos bastidores também já foi registrada pela imprensa. O próprio Botafogo afirma existir alinhamento permanente com o investidor.


Mas, para a torcida, existe uma diferença entre ser um investidor que coloca dinheiro e ser o responsável por um projeto esportivo claramente apresentado.


Gabriel de Alba desembarcou no Rio, conheceu instalações e funcionários e tinha programação para acompanhar o jogo contra o Cienciano.


O próximo passo, portanto, é comunicação.


Fotos e aparições protocolares podem demonstrar presença física, mas não substituem uma mensagem clara sobre o futuro do Botafogo.


Se a GDA Luma pretende comandar a SAF, a torcida precisa conhecer a visão do controlador para futebol, categorias de base, mercado, comissão técnica, infraestrutura, orçamento e competitividade.


Um vídeo recente de Gabriel de Alba explicando diretamente seu projeto teria um peso muito diferente de fotografias de reuniões e aparições institucionais.


Sem essa comunicação, inevitavelmente surgirá a percepção de que o investidor é apenas uma figura financeira distante, enquanto o associativo concentra a exposição pública e as decisões do cotidiano.


Essa é uma questão legítima de governança e transparência, e não uma afirmação de que Gabriel de Alba seja efetivamente um “dono decorativo”.


O risco de uma SAF com investidor e pouca identidade pública


A transição da Eagle Football para a GDA Luma precisa significar mais do que trocar o nome do controlador.


John Textor saiu de cena, e a mudança de controle era necessária diante da crise que envolveu a antiga estrutura. Mas a substituição do investidor, por si só, não garante uma nova era.


O torcedor precisa saber o que vem depois.


Se Gabriel de Alba será o controlador majoritário, sua participação precisa ser percebida também no projeto esportivo.


Caso contrário, a narrativa pode acabar invertida: Gabriel coloca recursos, enquanto João Paulo aparece como principal voz, principal articulador e principal rosto das decisões.


Isso pode criar uma percepção de que a nova SAF é apenas uma extensão financeira do projeto do associativo.


E essa não deveria ser a finalidade de uma SAF.


A estrutura precisa ter governança definida, responsabilidades claras e autonomia profissional.


João Paulo precisa entender que o protagonismo também traz cobrança


João Paulo Magalhães Lins tem 45 anos e, como ele próprio ressaltou, não pode ser responsabilizado por décadas de problemas do Botafogo.


Mas, a partir do momento em que assume protagonismo nas decisões atuais, também passa a responder politicamente por elas.


Não é possível reivindicar legitimidade para decidir e, ao mesmo tempo, rejeitar a cobrança decorrente das decisões.


O presidente tem razão ao lembrar que o associativo participou da recuperação do clube, ajudou a solucionar transfer bans e buscou investidores.


Mas isso não encerra a discussão.


O torcedor precisa saber o que virá depois da crise.


O que será feito com o futebol?


Qual será o orçamento?


Quem será responsável pelas contratações?


Qual será o papel de Eduardo Iglesias?


Qual será a autonomia de Léo Coelho?


Qual será a função de Bonamigo?


Qual será a política para a base?


Quanto a GDA pretende investir por temporada?


Quais posições serão reforçadas?


Qual será a meta esportiva para 2027?


Essas são perguntas que não podem ser respondidas apenas com a frase de que “o Botafogo está sendo reconstruído”.


Dois meses depois, a pergunta permanece


João Paulo esteve nos Estados Unidos durante a Copa do Mundo e trabalhou diretamente no escritório de Gabriel de Alba em Nova York, segundo relatos publicados na época.


A aproximação entre os dois não é recente.


Por isso, a torcida pode legitimamente perguntar por que, depois de tantos meses de articulação, o projeto esportivo ainda parece estar em fase de montagem justamente quando o time enfrenta uma emergência competitiva.


A situação não precisa ser interpretada como prova de incompetência ou má-fé.


Mas exige explicações.


O Botafogo precisa saber quem manda, quem decide e qual é o plano.


“Os jogadores estão feridos e querem responder”


João Paulo afirma acreditar na reação dos jogadores.


O presidente disse que o elenco está ferido pela goleada no Peru e quer dar uma resposta no jogo de volta.


É uma mensagem importante para o vestiário, mas o futebol não funciona apenas com discurso.


O Botafogo precisa mostrar intensidade, organização e capacidade competitiva.


Depois de uma derrota por 6 a 1, a torcida não exige apenas vontade. Exige futebol.


E esse é justamente o ponto mais delicado da atual crise: enquanto os dirigentes discutem governança, dívidas, investidores e estrutura, os jogadores precisam resolver dentro das quatro linhas um problema que não pode esperar.


A nova era precisa ser mais do que uma troca de dono


A GDA Luma pode representar um novo capítulo para o Botafogo.


O grupo já participa da transição, realizou aportes e, segundo as informações divulgadas pelo clube e pela imprensa, possui influência no planejamento.


Mas uma nova era não começa apenas quando a documentação societária é concluída.


Ela começa quando existe um projeto.


O Botafogo precisa transformar dinheiro em estrutura, estrutura em elenco, elenco em desempenho e desempenho em competitividade.


Também precisa transformar a comunicação de bastidor em transparência para o torcedor.


Gabriel de Alba precisa falar.


João Paulo precisa explicar.


A SAF precisa apresentar seu projeto.


E o futebol precisa entregar resultados.


Conclusão: união, cobrança e uma resposta que não pode mais esperar


O Botafogo chega ao jogo contra o Cienciano mergulhado em uma crise que ultrapassa o futebol.


Há uma disputa de narrativas entre passado e presente, uma transição societária, problemas financeiros, uma nova comissão técnica, um treinador interino, um investidor recém-chegado e uma torcida desconfiada.


John Textor deixou uma estrutura marcada por enormes conflitos e passivos, segundo as acusações do atual comando. A GDA Luma surge como alternativa de reconstrução e já colocou dinheiro no clube. João Paulo Magalhães Lins ganhou protagonismo na transição e assumiu publicamente a defesa das decisões tomadas.


Agora começa a parte mais difícil.


Fazer funcionar.


Todos os botafoguenses precisam entender que o momento exige união. Não é hora de transformar cada decisão em uma nova guerra interna. O ambiente já está ruim demais e a luta esportiva, neste momento, é pela estabilidade e pela distância do Z4.


Mas união não significa silêncio.


João Paulo precisa ser cobrado pelo projeto que está construindo.


Gabriel de Alba precisa deixar de ser apenas um nome associado a aportes financeiros e aparições institucionais e apresentar, de maneira direta, qual Botafogo pretende construir.


A GDA Luma precisa demonstrar que veio para ser controladora de uma SAF profissional, com projeto, governança e planejamento — e não apenas uma fonte de recursos enquanto o associativo continua concentrando o protagonismo público.


A janela de transferências ainda está aberta até 11 de setembro de 2026.


Portanto, ainda existe tempo para reforçar o elenco.


Mas o relógio está correndo.


A temporada não espera a resolução de todas as disputas societárias. A bola continua rolando. O Z4 não espera. A torcida não pode esperar indefinidamente por um projeto.


E é justamente por isso que a próxima etapa precisa ser diferente.


O Botafogo não precisa apenas de um coordenador técnico, um preparador físico ou um auxiliar permanente. Precisa de clareza de comando, planejamento esportivo, reforços compatíveis com suas ambições, transparência na relação entre SAF e associativo e uma identidade para o futuro.


A saída de John Textor encerrou um ciclo que precisava ser encerrado. A chegada da GDA Luma pode abrir outro.


Mas trocar o controlador não basta.


Se Gabriel de Alba realmente pretende conduzir o Botafogo a um novo patamar, precisa aparecer, falar com o torcedor e colocar o projeto na mesa.


Se João Paulo Magalhães Lins pretende continuar exercendo o protagonismo que conquistou na transição, precisa aceitar que protagonismo também significa responsabilidade e cobrança.


E se o Botafogo pretende voltar a ser protagonista no futebol brasileiro, precisa começar pelo básico: organizar a casa, proteger o elenco, reforçar o time onde for necessário e parar de permitir que a crise administrativa consuma a temporada esportiva.


A resposta contra o Cienciano será apenas o primeiro teste.


A verdadeira prova será saber se, depois de toda essa turbulência, o Botafogo finalmente conseguirá transformar a reconstrução em um projeto de clube — e não apenas em mais um capítulo de sua interminável crise.

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