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John Textor durante jogo entre Portugal e Espanha em 6 de Julho pelas Oitavas De Final da Copa Do Mundo 2026 no Estádio AT&T em Arlington, Texas, EUA - Foto: Sebastian Frej/Getty Images |
Na segunda parte da entrevista exclusiva à ESPN do Brasil em 18 de agosto, o empresário norte-americano John Textor reafirmou seu desejo de retomar o controle da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) do Botafogo e apresentou um panorama detalhado de sua atual situação jurídica e visão sobre o clube.
Assista ao vídeo abaixo:
Afastamento e batalha judicial
Textor foi afastado do comando da SAF do Botafogo em 23 de abril, por decisão do Tribunal Arbitral da Fundação Getúlio Vargas (FGV), sediado no Rio de Janeiro, órgão responsável pelo julgamento da disputa envolvendo o controle do clube. Apesar do desgaste, o magnata declarou estar "farto" das batalhas judiciais, mas enfatizou que não desistirá:
“Eu sou o dono deste clube [...] Posso estar farto, mas não desisto. Eu nunca desisto”, afirmou com convicção durante a entrevista de uma hora.
Atualmente, ele possui ações judiciais em andamento em três países: Inglaterra, Estados Unidos e Brasil, buscando retomar o controle do grupo Eagle Bidco, que detém 90% das ações da SAF do Botafogo. Segundo Textor, já houve avanços significativos no Reino Unido e nos EUA, e agora aguarda os trâmites da Justiça brasileira.
Posicionamento sobre GDA Luma e Botafogo Social
John Textor negou que o grupo GDA Luma tenha controle sobre a SAF do Botafogo, classificando-o apenas como um "credor" do clube. Essa declaração busca esclarecer rumores e acusações que circulavam sobre a influência do grupo na gestão do Glorioso.
Além disso, o empresário fez críticas contundentes ao Botafogo Social, atualmente liderado por João Paulo Magalhães, seu antigo aliado que hoje não mantém qualquer relação com ele. Textor declarou:
“Eu não me comunico mais com o JP (Magalhães). Eu mal o reconheço...”
Esse distanciamento evidencia as rupturas internas e os conflitos nos bastidores da administração do clube.
Relação afetiva com o Botafogo e apoio da torcida
Emocionado, Textor falou sobre seu vínculo com o Botafogo, que considera seu "grande clube de coração". Ele relatou encontros com torcedores alvinegros, que demonstram saudade e apoio fervoroso:
“As pessoas me abraçam. Elas ainda choram, assim como eu choro com elas quando conversamos sobre as ótimas experiências que tivemos e os grandes fracassos e sucessos que vivenciamos.”
Esse aspecto emocional evidencia a paixão de Textor pelo clube e sua motivação para tentar retornar ao comando da SAF.
Plano para voltar ao comando da SAF
Embora não tenha revelado todos os detalhes, John Textor afirmou ter um plano traçado para reassumir o controle da SAF do Botafogo. Sua estratégia se apoia nas ações judiciais em curso e na mobilização do apoio da torcida, além de deixar claro que sua determinação é inabalável:
“Eu não desisto.”
John Textor segue firme na sua luta para retomar o comando da SAF do Botafogo, enfrentando batalhas judiciais complexas e conflitos internos, mas contando com o apoio emocional da torcida e sua própria determinação para, enfim, reassumir o controle do clube que tem no coração.
Confira abaixo alguns dos principais trechos da entrevista com John Textor:
ESPN: O que o senhor tem feito nesse tempo afastado do Botafogo?
John Textor: Provavelmente eu deveria aproveitar mais o tempo livre, mas não... Aproveito tudo o que faço na vida. Faço muitas coisas no futebol, claro, mas sempre tive uma vida muito além do futebol. Consigo continuar a frequentar e assistir a muitos jogos .Eu vou aos jogos das categorias de base e tento aproveitar essa época do ano nas Bahamas. Tem muita pesca. É uma época ótima no verão.
ESPN: Como você enxerga o papel da GDA Luma no Botafogo após sua saída?
JT: Há muita coisa que não sabemos, porque o Clube Social é quem administra a organização. Atualmente, não temos muita visibilidade das finanças do clube. Entendo que muitas das informações divulgadas pela imprensa vazam diretamente do Clube Social, então é preciso levar isso em conta. Mas veja bem, o papel deles [GDA Luma] é o de credor. O clube está em processo de recuperação judicial, então a GDA e meus amigos da Hutton Capital, a meu pedido em fevereiro, investiram US$ 25 milhões. O Gabriel (de Alba, proprietário da GDA) contribuiu com 50% desse valor e meus amigos da Hutton com a outra metade. Houve também um aporte adicional proveniente do processo de recuperação judicial, na forma de um empréstimo. Então, neste momento, eles [GDA Luma] são apenas credores.
Acho que há muita especulação sobre eles estarem administrando o clube e que serão os novos donos. Sabe, não é assim que funciona... A Eagle Bidco reivindica a propriedade. Eu defendi seriamente a minha reivindicação de propriedade. Estou me saindo muito bem nos tribunais do Reino Unido. Eu também tenho uma decisão favorável nos Estados Unidos. É só uma questão de tempo até o Brasil reconhecer minha participação acionária no clube. E a GDA merece receber de volta os empréstimos que fez, mas não merece ser dona do clube. Certamente que não, até que fechem um acordo comigo ou invistam capital próprio, o que historicamente não fazem. Eles são uma instituição financeira.
ESPN: Então o senhor tem de fato a intenção de retomar o poder da SAF do Botafogo e acredita que isso vai acontecer?
JT: Os tribunais brasileiros podem ser muito estranhos nos mercados locais, e as relações locais têm muita influência sobre as ações no Rio de Janeiro. Mas, no fim das contas, por mais louco que o Brasil possa parecer às vezes, os tribunais sempre acertam no final. Eu nunca recebi dinheiro da Eagle pelas minhas ações. Eu tinha o direito de prorrogar o prazo para que a Eagle me pagasse por essas ações. Eles nunca o fizeram. Obviamente, eles entraram em processo de recuperação judicial. Não há tribunal no país, não há conta bancária no país... Nunca haverá qualquer prova de que fui pago pelas minhas ações na Botafogo. Portanto, não haverá nenhuma decisão judicial que declare que não sou o proprietário dessas ações.
Então, quando você me pergunta se eu vou voltar... A resposta é que sou o proprietário dessas ações! Os tribunais acabarão por reconhecer isso. O que o Clube Social está tentando fazer agora é dizer: "Isso não importa". Podemos rasgar os contratos e eles podem alegar violações do contrato. Todo mundo sabe que isso não é verdade. Nós aparecemos, eu apareci. A Eagle é minha empresa há um tempo. Nós financiamos o clube integralmente. Cumprimos todas as parcelas. Não se pode reescrever a história. Ressuscitamos um clube que não tinha operações, não tinha qualquer chance de sucesso competitivo. Transformamos o clube em um campeão. Levamos o clube ao estrelato mundial, figurando entre os cinco melhores do mundo. Portanto, é realmente ridículo que um clube social vá a um tribunal algum dia e diga: "O Textor não cumpriu o que prometeu".
Todo mundo sabe que eu fiz isso. Então, a ideia de que você pode simplesmente rasgar contratos, ignorar o Estado de Direito, não é ruim apenas para Botafogo, é ruim para o país. A Lei da SAF foi promovida para incentivar o investimento estrangeiro, para converter, quando apropriado, esses clubes sociais em corporações para atrair investimentos. Se é tão fácil para os clubes sociais ignorarem o estado de direito, alegarem inadimplências, iniciarem campanhas difamatórias e dizerem que pessoas boas são más, quem vai investir no Brasil? Por que alguém investiria dinheiro no futebol brasileiro? Por que investir no Botafogo quando aqueles que se dizem protetores do clube são tão rápidos em quebrar um contrato? Eles querem trocar de dono tão rápido quanto trocam de técnico...
Então, veja bem, eu acho que o futebol brasileiro... Acho que eu dei minha contribuição. Acho que posso ajudar. Sempre pensei isso, não só no Botafogo, mas no Brasil todo. Nosso caminho para ganhar Copas do Mundo começa na base, desde as categorias de base até as franquias profissionais, culminando na seleção. Então, se o futebol brasileiro quer melhorar, toda a sociedade deve se levantar contra essa corrupção que acontece quando esses clubes sociais simplesmente mudam de ideia e dizem: "Vamos retomar o controle do nosso clube".
Eles pegaram meu dinheiro, transformaram o Botafogo em uma SAF, e eu o transformei em um campeão. Eles precisam respeitar isso, pelo bem do Botafogo e pelo bem do Brasil.
ESPN: Mas o senhor realmente deseja voltar ao poder no Botafogo ou prefere ter paz de espírito? Pela maneira que fala, parece estar cansado de tantas disputas...
JT: Para mim, paz de espírito seria conquistar o segundo, o terceiro, o quarto, o quinto título da Libertadores. Isso sim é paz. Acho que 2023 foi muito, muito mais difícil do que 2026. Acho que o que enfrentamos em 2023 foi a compreensão de que nosso projeto estava funcionando, que conseguimos construir algo a partir da 2ª divisão, apesar de todas as dificuldades financeiras. Conseguimos investir em instalações e na equipe. E talvez tenhamos tido o melhor início da história do futebol brasileiro, ao menos do primeiro turno (do Brasileirão). E aí tudo desmoronou...
Aconteceram coisas dentro e fora de campo. Fui muito transparente sobre isso. Aceitei esses desafios. Os jogadores confiaram em mim para assumir esses desafios. Eles cuidavam das coisas em campo, eu cuidava das coisas fora de campo. Havia manipulação de resultados. Foi muito real. Todo mundo se esquece do que aconteceu naquele ano. Mas acabamos tendo um senhor que admitiu ter se envolvido em manipulação de resultados contra o nosso time e outros. Ele foi condenado a 13 anos de prisão. Ninguém está falando sobre isso. Continuam dizendo que eu estava louco...
Eu estava preocupado com o clube. Estava preocupado com o campeonato, com o país. Eu estava preocupado com a integridade do jogo. E 2023 talvez tenha sido a pior experiência da minha vida, a segunda metade da temporada. Eu sabia, depois daquilo, que o fracasso é um grande professor, como eu disse outro dia. E essas coisas realmente te tornam mais forte. Eu sabia. O Alessandro (Britto) sabia. O clube de futebol sabia. Seríamos campeões graças à experiência de 2023. Tínhamos isso em mente. Nossos torcedores, não. Eles queriam me expulsar. Queriam expulsar todo mundo.
Então, se eu conseguir lidar com 2023, eu consigo lidar agora com essa questão corporativa entre mim e a GDA, a falta de parceria, o que eu acredito ser desonestidade, o clube social... Tudo isso é brincadeira no mundo dos negócios de alto risco. 2023 foi difícil. 2026 não será. Então, sim, estou no Brasil. Adoro o Brasil. Estou lá pelo país. Estou lá pelo futebol, Botafogo. Sim, posso estar farto, mas não desisto. Nunca desisto.
ESPN: Voltando ao tema da GDA Luma, o senhor conhece o Gabriel de Alba? Acredita que ele tem capacidade de administrar a SAF neste momento?
JT: Gostaria de abordar seu primeiro comentário. Não acho que ele esteja administrando o clube. Acho que, se você analisar bem as manchetes dos últimos meses, quantas vezes viu o Clube Social divulgando notícias dizendo que ele assinaria os documentos (da SAF) nesta semana? Que ele se tornaria o proprietário nesta semana? Dizem que é o fim da "era Textor" e que agora é a nova "era GDA". Já ouvimos falar disso há meses...
Ele [Gabriel de Alba] não possui as ações. Ele não tem direito de ser o proprietário das ações. Ele não pode fazer nada quanto ao fato de eu ser o proprietário das ações. Eu sou o dono deste clube. A Eagle Bidco nem sequer está se defendendo nesta ação porque nunca pagou pelas ações. Eles não compareceram ao tribunal na semana passada, quando obtive a liminar do juiz em Londres. Também não compareceram à audiência nos Estados Unidos, onde estou anulando os contratos pelos quais transfiro as ações para a Eagle, porque não fui pago por elas.
O que o Clube Social faz é continuar manipulando os torcedores, dando a entender que tudo já acontece, que ele [Gabriel] já está no comando. Eu converso com pessoas do clube. Ele não está no comando de nada. Ele é um credor. Tenho certeza de que ele tem opiniões fortes. Ele é uma fonte de renda futura por meio de empréstimos. Ainda não sabemos se ele vai investir um capital considerável, mas não, ele não está administrando nada no momento.
Eduardo (Iglesias), um jovem muito inexperiente do nosso departamento de futebol, de alguma forma se tornou CEO de um dos maiores clubes do mundo. Isso nunca deveria ter acontecido. O Clube Social não tem a menor condição de gerir um clube de futebol. Eles já provaram isso. Isso não deveria ter acontecido. Então, acho que não devemos aceitar tão facilmente essa versão oficial de que ele já está no comando. Acho que é isso que a mídia quer que você acredite.
Se eu o conheço pessoalmente? Sim, o conheci ao longo de alguns meses. Na verdade, acho que o conheci há uns dois anos, se não me engano. Passei a conhecê-lo melhor, a gostar dele. Chegamos a conversar sobre... Fizemos até mesmo umas viagens divertidas juntos, viagens de amigos, como se costuma dizer. E, sabe, Gabriel e eu vamos ter uma conversa séria no futuro, e espero que seja uma conversa pessoal e não um processo judicial.
Veja bem: ele traiu a sociedade. Ele declarou publicamente que queria ser sócio. Temos documentos por escrito que detalham nossa parceria; seríamos sócios em regime de 50%-50% no Botafogo. Eu o convidei para elaborar um plano. Era um plano maior. Era para pagar a dívida com Ares. Era para restaurar a capitalização de todo o Eagle, porque o sistema de multiclubes foi o que permitiu ao Botafogo se reerguer do ponto de vista esportivo. Foi assim que recrutamos atletas. Foi assim que ganhamos um campeonato. Então ele foi convidado e se comprometeu a investir US$ 150 milhões. Ao invés disso, investiu US$ 12,5 milhões... Ao invés de comprar a posição na Ares e obter o controle total da Eagle, que seria a maneira correta de fazer isso, ele disse: "Bem, deixe-me investir uma pequena quantia no Botafogo para ajudar". E eu disse: "Ótimo". Era dezembro, falei: "Vamos fazer isso. Vamos enviar dinheiro para o Botafogo para que possamos ter uma boa janela de transferências".
Quando ele investiu a quantia menor, depois de concluir a documentação, ele não estava pronto para fechar o negócio até o final da janela de transferências. E ele não conseguiu os US$ 150 milhões, ele conseguiu US$ 12,5 milhões. Eu tive que pedir emprestado a alguns amigos e consegui US$ 12,5 milhões. Então, os US$ 25 milhões que entraram eram para ser um empréstimo-ponte de curto prazo. É até chamado de empréstimo-ponte. E o Gabriel ia quitá-lo trazendo mais US$ 50 milhões de capital, capital próprio. Isso nunca aconteceu.
Portanto, as promessas de parceria foram quebradas. As promessas de financiamento foram quebradas. Ficou muito claro que eu precisava continuar a angariar fundos de outras fontes, algo que sempre fiz muito bem. Mas, no fim das contas, Gabriel decidiu que seria melhor para ele ser sócio do Clube Social, porque um grupo muito pequeno dentro do clube, por razões próprias, simplesmente não queria que eu continuasse em Botafogo. É por isso que ele agora está do outro lado dessa discussão.
ESPN: E como o senhor descreveria hoje sua relação com o Clube Social? Ainda fala com o João Paulo Magalhães?
JT: Eu não me comunico mais com o JP. Eu mal o reconheço... No início dessa aventura, o (Carlos Augusto) Montenegro e o Durcésio Mello me pediram para apoiá-lo indiretamente. Então, acho que me esforcei bastante para ajudá-lo a ser eleito. Eu gostaria de não ter apoiado. Há muitas outras pessoas no Clube Social que, na minha opinião, merecem mais. E lamento muito ter dado meu apoio, porque, na época em que ele estava concorrendo à presidência, acho que meu apoio era provavelmente muito importante para ele. Ele deixou bem claro para as pessoas que eu tinha o apoio dele e que o ajudei a ser eleito.
Acho importante entender, porém, que, quando você fala da sua relação com o Clube Social e da sua relação com o JP ou Montenegro, são duas coisas diferentes. O Clube Social, creio eu, tem cerca de 250 membros no Conselho Deliberativo. Essas pessoas não foram devidamente informadas sobre o que estava acontecendo em julho de 2025, quando tivemos nossos primeiros desentendimentos reais com meus sócios na Eagle. Elas não foram informadas sobre pelo menos três momentos críticos em que eu cheguei com quantias significativas de dinheiro e o JP fez tudo o que pôde para atrasar, atrapalhar ou bloquear meu investimento.
O Clube Social geralmente gere as coisas através de opiniões das redes sociais. Eles recebem os feedbacks da imprensa, mas, principalmente, das redes sociais. Não estão recebendo boas informações do JP neste período. E, portanto, as decisões tomadas para bloquear a entrada de dinheiro meu, do (empresário grego Evangelos) Marinakis ou do (agente anglo-iraniano) Kia (Joorabchian) no clube foram tomadas por um grupo muito pequeno de pessoas ligado ao Carlos Montenegro. E o ego dele ficou ferido. Sinto muito. Fiz tudo o que pude para incluí-lo na diversão e na glória do nosso clube. Mas, por motivos pessoais, ele decidiu que queria o clube de volta ou que eu saísse.
No próprio Clube Social, acho que muitas daquelas pessoas teriam continuado a me apoiar de forma geral. Estavam recebendo boas informações? Acho que confiavam em mim. Mas você tem um grupo de 20, 30 ou 40 pessoas que se reúnem na casa do JP, tudo organizado pelo Montenegro. E ele reúne todas as apresentações dos diferentes investidores que querem apoiar o clube. Ficou claro que ele já tinha decidido fechar esse acordo com a GDA. Ele não apoiaria nada que viesse de mim, do Marinakis... Não quero me estender muito, mas acho que os torcedores precisam saber que não existe um Conselho Deliberativo bem informado no Clube Social que toma as decisões. É um pequeno grupo de pessoas que assumiu o controle das decisões do clube. Eles nem sequer realizaram uma votação com todo o Conselho Deliberativo, como fizeram quando fui eleito.
Se vocês se lembram dos vídeos daquele grande momento na sede, foram 98% dos votos do Conselho Deliberativo que me deram o controle do clube. E acho que retribuí essa promessa e essa confiança com campeonatos. Mas houve apenas uma votação de 10 pessoas, ou algo assim, que decidiu ficar com a GDA.
Então, acho que ainda tenho uma chance de ter um relacionamento muito bom com o Clube Social. Conversei com muitos deles e com os torcedores, sempre há uma parcela dos torcedores que não entende o que está acontecendo. Eles estão muito chateados com você. Eles têm uma visão de curto prazo. Mas, é claro, acredito que posso manter a confiança da base de fãs em geral apenas com base na minha experiência, no meu comprometimento e na minha ética de trabalho.
ESPN: Falando sobre a torcida do Botafogo, o senhor ainda recebe mensagens de torcedores? Como é seu relacionamento hoje? O senhor sente que querem sua volta ou que ficaram felizes com sua saída?
JT: Você trabalha na mídia e entende que a turba enfurecida vive principalmente no Twitter, nas redes sociais. Existe uma parcela muito maior de pessoas que amam o clube. Eles têm vidas ocupadas com outras coisas. Vão trabalhar todos os dias. Consomem diferentes tipos de mídia. Eles podem ter outros interesses. Amam o seu clube tanto quanto a turba enfurecida que se encontra nas redes sociais. E isso é verdade na vida em geral.
Já vimos isso acontecer nas redes sociais em todas as formas de discurso público, da política aos esportes, passando por questões da vida e da moda. Por isso, nunca me preocupo muito com o que essa fina camada de pessoas acredita. Vou aos shoppings aonde as pessoas fazem compras, vou a restaurantes... As pessoas me abraçam. Elas ainda choram, assim como eu choro com elas quando conversamos sobre as ótimas experiências que tivemos e os grandes fracassos e sucessos que vivenciamos.
Veja bem: se você é presidente dos Estados Unidos, você tem muita sorte se conseguir atingir 40% de aprovação, mas ainda assim precisa fazer o seu trabalho. O mesmo vale para o chefe de qualquer outro país. Liderar é uma tarefa solitária. Então, se você fica se preocupando com o que pensam os 10% ou 20% que estão revoltados, você não deveria estar neste ramo. Mas, se você acha que pode fazer um bom trabalho para a grande maioria das pessoas que apoiam este clube, são cinco, seis, sete milhões de pessoas. São muitas, muitas mais que consideram o Botafogo um clube que amam porque seus pais o amavam. Talvez eles tenham ido para outro clube...
Acho que tenho milhões de torcedores do Botafogo que apreciam meu trabalho, que confiam em mim, que gostariam de me ver de volta. E eles me dizem isso constantemente. Infelizmente, seu trabalho na mídia mudou. Agora você precisa cobrir a notícia do momento, a polêmica, a raiva, o que está no ar, e tudo isso é julgado pelas redes sociais. E eu não acho que essa seja a lente da verdade. Acho que é simplesmente o rumo que a mídia tomou.
ESPN: Nossa reportagem teve acesso aos números da recuperação judicial do Botafogo e os valores de dívida são assustadores. O clube pode entrar novamente nos trilhos ou chegou a um ponto que é impossível retornar?
JT: Em primeiro lugar, há muita informação circulando sobre o nível de endividamento. Como você sabe, o clube aumentou significativamente o endividamento dos jogadores sob minha gestão, assim como o valor do elenco. Então, acho que as pessoas recebem informações muito ruins quando lhes são apresentados os valores brutos da dívida.
Eu gostei da direção que estávamos tomando em relação ao balanço patrimonial. Deixe-me explicar o porquê. Não estou sugerindo que jogadores sejam ativos, certo? Jogadores são seres humanos. Mas o direito de ter esse jogador jogando pelo seu clube, isso é um contrato, isso é um ativo. Agora, se você administra uma loja de brinquedos e está se preparando para o Natal, e sabe que será um ótimo Natal e que o Papai Noel estará distribuindo brinquedos pelo mundo todo, você acumula dívidas. É uma linha de crédito de um banco. E você enche suas prateleiras com brinquedos e estoque porque sabe que terá um Natal movimentado e precisa estar preparado, já que 80% da sua receita virá em alguns meses.
Esse é um exemplo extremo de como usar dívida para gerar ativos. É o seu estoque, porque é assim que você gera receita. Então, em um clube de futebol, você precisa ter muito cuidado para não fazer isso, porque se você contrair muitas dívidas comprando jogadores e esses jogadores se lesionarem ou talvez não joguem tão bem, o valor do seu elenco não aumentará tanto quanto a sua dívida. Isso é bastante arriscado. E é algo que clubes de futebol em todo o mundo precisam considerar: o risco de contrair dívidas com jogadores para adquirir esse elenco.
Mas, se você é um grupo com várias equipes e aproveita as disparidades naturais no valor dos jogadores, como, por exemplo, comprar jogadores na América do Sul, os direitos de jogadores incríveis, por um valor consideravelmente menor na América do Sul do que você conseguiria vendê-los na Europa, na Inglaterra ou em outras partes do mundo. Bem, é isso que um grupo de clubes pode fazer, e era isso que estávamos fazendo. Obtivemos, em toda a Eagle Football, um lucro de 270 milhões de euros entre abril de 2023, quando assumi o comando do Lyon, e então tivemos a capacidade de contratar jogadores melhores na América do Sul e em outros lugares, porque podíamos prometer um caminho a seguir. Eu dizia: "Depois de nos ajudar a ganhar um campeonato no Brasil, você pode seguir para o seu próximo passo".
Os jovens querem ir para a Europa. E então, sabe, mais de 260 milhões de euros de lucro com a migração de jogadores, não com a compra e venda de jogadores. Estou falando de tirar alguém de uma academia, seja da academia do Lyon ou do Botafogo, prepará-lo e qualificá-lo para jogar, provar que ele é bom o suficiente para ganhar campeonatos pelo Botafogo ou por outro clube, e então transferi-lo para mercados que pagarão mais por ele.
É triste ver nossos jogadores favoritos deixarem o Brasil, mas veja o que fizemos. Usamos o contrato multiclubes para trazer Tiago Amada, Igor Jesus e Luiz Henrique, porque os contratamos com esse tipo de contrato. Então, acumulei uma dívida enorme com jogadores, como uma fábrica de brinquedos, porque sabia que meu Natal seria ótimo e que conseguiria vender todo esse estoque. Então, ao provar que esses eram atletas incríveis, ao vê-los vencer no Brasil, ganhar a Libertadores, derrotar o melhor time do mundo, eu aumentei o valor do elenco, não apenas para esses jogadores principais, mas para todo o elenco. Se o valor do seu elenco aumenta mais do que sua dívida com outros clubes, e você está lucrando 260 milhões de euros ao longo de dois anos, bem, por que você pararia de fazer isso? Porque algum idiota no Clube Social não entende a matemática que você quer usar?
Os grupos multiclubes são como um banquinho de três pernas. Quer dizer, eles parecem muito bons e ainda estão, mas se você tirar uma das pernas debaixo do banco e vê-lo tombar, dá para perceber que qualquer coisa fica feia. Então, a dívida com os jogadores precisa ser analisada levando em conta o valor do elenco.
Agora, vamos falar sobre a dívida com o Clube Social. Assumimos a dívida do Clube Social e começamos a pagá-la, pagá-la, pagá-la. Então, a dívida que assumimos para o clube social, nós os livramos do endividamento. A dívida que tínhamos em outras áreas, agentes, impostos, esse tipo de coisa, tivemos um problema porque, enquanto o dinheiro estava fluindo para a França e deveria retornar, tínhamos um parceiro na Eagle que queria dividir o multiclube no meio do processo. A culpa não foi do clube social, foi da (presidente do Lyon) Michelle Kang, foi do Ares. Eles queriam acabar com o multiclube.
No modelo de negócios de um grupo com várias equipes, a ocorrência de dívidas para aumentar o endividamento dos jogadores e, consequentemente, o valor do elenco, pode-se dizer: "Bem, o Botafogo nunca teve dívidas com jogadores nesse nível". Mas eles também nunca tiveram um elenco com esse valor, com jogadores que podem ser vendidos por um lucro significativo, enquanto, ao mesmo tempo, estamos contratando mais jogadores e ganhando troféus.
Portanto, se alguém quiser se sentar e ter um debate matemático, analisar o balanço patrimonial, o fluxo de caixa e discutir como teria sido 2026 se não fosse por essa interrupção, eu me colocarei diante de qualquer pessoa, apresentarei esses cálculos e direi que a recuperação judicial nunca deveria ter acontecido. Isso jamais teria acontecido.
O Clube Social, em três momentos distintos - em janeiro, abril e junho -, bloqueou o investimento em dinheiro. Isso teria evitado a recuperação judicial. Isso teria evitado novos transfer bans. Teríamos quitado nossos impostos. Mas Montenegro não queria que ficássemos.
A prova está nos documentos. Ele [Montenegro] pode falar o que quiser diante da mídia. O 'Rei do Rebaixamento' pode me chamar de 'Rei das Mentiras'. Tudo bem... Mas eu entrego documentos a jornalistas. Eu forneço contratos. Forneço extratos bancários. Forneço comprovantes de transferência bancária. Comprovo meus números.
Vamos falar sobre isso... Na última semana de janeiro, quando cheguei ao Brasil esperando ver a estreia da temporada contra o Cruzeiro, tínhamos 60 milhões de euros que entrariam no balanço patrimonial. O maior saldo em caixa da história do nosso clube estaria lá no balanço patrimonial na última semana de janeiro. E isso está bem documentado. Então, não sei por que as pessoas não estão denunciando?
O Clube Social chegou a entrar com um processo na Justiça e pediu o bloqueio de todas as transações de jogadores do Textor e o bloqueio de todas as suas transações financeiras. Está registrado. Você pode ver por si mesmo. Eles foram ao tribunal. Então, por que eles fariam isso? Porque na quarta-feira à noite, antes daquele jogo, membros da nossa equipe de gestão foram à casa do JP com um grupo seleto dessas pessoas do Clube Social próximas ao Montenegro e se aproveitaram se aproveitaram do fato de que Eagle e Textor estavam em uma "briga de família". E eles bloquearam o capital de entrar e votaram por uma recuperação judicial, que é a maior vergonha da história deste clube.
Nós reconstruímos o Botafogo desde a Série B. Levamos o clube de volta à Série A. Fomos campeões brasileiros, campeões da Libertadores. Todos viram o que fizemos contra o PSG. Foi uma celebração não apenas para o Botafogo, mas para o Brasil. Então, eles impediram a entrada desses 60 milhões de euros e votaram pela falência. Em nenhum momento recebi um e-mail dizendo: "John, estamos pensando em nos reunir para deliberar sobre uma recuperação judicial do clube que você administra". Isso foi um golpe conduzido por membros da gestão e do Clube Social.
Eles queriam a falência. Barraram o capital, provocaram o desastre e depois colocaram a culpa no "gringo". Enquanto isso, a imprensa publica uma história atrás da outra sobre esta ou aquela transação, sobre este ou aquele jogador. Como não estou no Brasil todos os dias, não consigo responder a esse fluxo constante de informações. Mas qualquer jornalista que queira ver os documentos e entender como o capital foi bloqueado pode consultar os registros judiciais ou me procurar diretamente.
Em abril, pensei: "Tudo bem, o dinheiro da GDA entrou. Ótimo, há US$ 25 milhões disponíveis". Pelos termos do aporte, esse valor deveria ser convertido em participação societária, exatamente como me haviam prometido. Então ofereci mais US$ 25 milhões. Convoquei uma assembleia de acionistas. O clube social sequer apareceu para votar. Havia US$ 25 milhões disponíveis em abril de 2026, e novamente eles foram bloqueados. Tive de recorrer à Justiça para anular uma decisão arbitral que me retirava do Conselho.
Em junho, o juiz determinou meu retorno à gestão. Voltei. Na tarde de 26 de junho, convoquei uma reunião do Conselho. O tribunal havia decidido que eu reassumia a gestão, o cargo de CEO, a função estatutária e o controle do Conselho. Naquele dia, aprovamos uma resolução para receber US$ 50 milhões em dívida conversível, que depois se transformaria em participação acionária. O dinheiro viria da organização de Evangelos Marinakis, com apoio de Kia Joorabchian. Também aprovamos mais US$ 50 milhões em financiamento do tipo debtor-in-possession, uma modalidade utilizada quando uma empresa já está em recuperação judicial. Ou seja, eram US$ 100 milhões de dólares de capital novo em 26 de junho.
O que o clube social fez? Entrou em pânico! Convocou uma assembleia extraordinária com os administradores da Eagle no Botafogo. E, em 29 de junho, em vez de aceitar o dinheiro, retirou-me do conselho e bloqueou novamente o aporte.
O que mais me incomoda é a acusação de que fui responsável pelos transfer bans. Se aqueles 60 milhões de euros tivessem entrado na conta no final de janeiro de 2026, a primeira punição teria sido resolvida. Nenhum novo transfer ban teria acontecido. Os impostos teriam sido pagos. Os jogadores teriam seguido normalmente. E ainda estaríamos contratando atletas para fortalecer o time.
O mesmo vale para os US$ 25 milhões de abril. O mesmo vale para os US$ 100 milhões de 26 de junho.
Portanto, eu não apenas reconstruí uma organização de futebol. Não apenas trouxe jogadores que Montenegro e outros dizem que eu vendi. Não apenas melhorei a infraestrutura, o Centro Aquático e o centro de treinamento. Eu transformei o Botafogo em um projeto que as pessoas querem integrar. E trouxe mais dinheiro saudável para a mesa do que a GDA colocou em toda essa operação.
Por isso, o Clube Social precisa responder a essas perguntas perante o público. E, eventualmente, terá de respondê-las diante de um juiz. Eu só gostaria que os jornalistas dedicassem tempo para ler os documentos e me perguntar qualquer coisa. O que eles têm é uma narrativa de mídia. O que eu tenho é documentação.
ESPN: Qual seu grande arrependimento na administração do Botafogo? Ou o senhor não se arrepende de nada?
JT: Bem, existe um arrependimento que as pessoas acham que eu deveria ter, e eu tenho, mas não pelos mesmos motivos. E existe outro arrependimento sobre o qual quero falar, algo mais ligado à nossa própria estrutura.
Meu primeiro arrependimento são os parceiros que trouxe para a Eagle. Eu estava tão ansioso para adquirir um parceiro europeu dentro do modelo multiclubes, em benefício do Botafogo e dos demais clubes do grupo, que fui rápido demais ao aceitar capital de investidores que, no fim das contas, não estavam alinhados com nossa visão. Trouxe investimentos da Ares e de Michelle Kang. Eles nunca sequer assistiram a um jogo no Brasil. Não sei como isso é possível. Temos um projeto extraordinário no Brasil, tanto como país quanto por meio do Botafogo. Então como é possível que eu tenha trazido 500 milhões em capital para um grupo multiclubes cuja força motriz, e provavelmente o primeiro campeão desse grupo, seria o Botafogo, e meus parceiros nunca tenham ido a uma partida do clube?
Portanto, meu arrependimento é que a ambição que eu tinha por esse modelo, que nos levou a conquistar títulos, também me levou a trazer parceiros que não compartilhavam nossa visão de longo prazo. Esse é meu primeiro arrependimento...
Eu não me arrependo de ter enviado dinheiro para o Lyon. Sabe por quê? Porque, no ano anterior, era o Lyon que estava enviando dinheiro para nós. Quando esse sujeito, o Montenegro, diz a todos que o clube preferido de John era o da França, bem, todo mundo no Brasil sabe que meu clube do coração é o Botafogo. Qualquer pessoa ingênua o bastante para acreditar que eu me importava mais com um clube francês do que com o Botafogo está simplesmente ignorando a realidade. Eu me importava com todas as comunidades ligadas aos clubes do grupo, mas o clube do meu coração sempre foi o Botafogo. Todo mundo sabe disso.
Também não me arrependo da forma como movimentamos recursos entre os clubes, porque as pessoas estão relatando isso de forma incorreta. Foram transferidos 146 milhões de euros para o Olympique Lyonnais em diferentes momentos e ao longo de um período extenso. E isso depende até de onde você decide começar a contar, porque antes desses 146 milhões muito dinheiro vinha da França para o Botafogo.
Mas vamos usar os números que estão sendo divulgados pela imprensa. Sim, 146 milhões de euros foram enviados nessa direção. Mas 42 milhões voltaram para o outro lado. Isso levaria alguém a concluir que o clube francês nos deve cerca de 104 milhões de euros. Essa é a conta que se ouve por aí. Só que isso não é verdade...
O que aconteceu é que o Lyon comprou participações econômicas em jogadores que atuavam pelo Botafogo e ajudou a financiar a contratação desses atletas. Quando esses jogadores são vendidos, parte dos direitos pertence ao Botafogo e parte pertence ao clube francês. Portanto, é preciso reconhecer o valor que o clube francês colocou nessas operações e também considerar o dinheiro que o Botafogo recebeu quando esses atletas foram negociados. Estou falando de vendas como as de Thiago Almada, Luiz Henrique, Igor Jesus e Savarino.
Se você considerar os 82 milhões de euros que recebemos em caixa e descontá-los daqueles 104 milhões supostamente devidos, o saldo real cai para algo em torno de 20 milhões de euros que a França ainda teria a pagar ao Brasil. Então, quando alguém diz que John amava mais o clube da França do que o clube do Brasil, lembrem-se de uma coisa: esses jogadores que vieram ajudar a conquistar a Libertadores não teriam vindo se estivéssemos oferecendo apenas um projeto de clube único. Nós oferecemos um plano de carreira dentro de uma rede multiclubes. Foi por isso que eles vieram. Foi por isso que conquistamos o título.
Portanto, não permitam que ninguém diga que o problema foi simplesmente que enviamos dinheiro para fora e que isso levou à falência. Estamos em recuperação porque o Clube Social votou pela falência. Eles queriam retomar o controle do clube e bloquearam os recursos que resolveriam esses problemas.
Quanto dinheiro seria necessário para conduzir o clube adequadamente durante o próximo ano? Seria preciso um volume normal de vendas de jogadores, algo entre 25 e 30 milhões de euros, além de aproximadamente mais 25 milhões de euros em recursos adicionais. E, nesse ponto, depois de atravessar os anos de prejuízo, o clube já estaria operando com fluxo de caixa positivo. O clube está saudável. Essa foi uma falência tática, desenhada para devolver o controle a determinadas pessoas. E todos eles votaram por isso naquela quarta-feira à noite, antes do jogo contra o Cruzeiro.
Então, perguntem a eles... Peço aos jornalistas que sejam curiosos e investiguem as verdadeiras razões por trás disso. Este não é um clube que deveria ter entrado em recuperação judicial. Jamais deveria ter pedido recuperação.
Existe uma narrativa segundo a qual eu estaria tentando interferir nesse processo. E isso é verdade. Estou tentando interferir porque acredito que todos os clubes que nos venderam jogadores precisam receber integralmente aquilo que lhes é devido. Que clube aceitará nos vender jogadores no futuro se não pagarmos nossas obrigações? Quem confiará em nós se utilizarmos a recuperação judicial como uma estratégia e prejudicarmos toda a indústria do futebol? A marca Botafogo será forte o suficiente para conquistar outro campeonato se ninguém quiser fazer negócios conosco? Não. Ninguém vai querer negociar com o clube.
Por isso, a recuperação judicial deveria acabar. Devemos pagar nossas dívidas. Deveriam permitir que eu aportasse dinheiro de verdade no clube, e não esse capital da GDA estruturado como empréstimo com possibilidade de assumir o controle da operação. A GDA não é um investidor de longo prazo focado em participação societária. Eles fazem muitas promessas. Chegam, geram manchetes positivas, o sujeito [Gabriel de Alba] parece rico, fala português. Mas isso não representa um plano de longo prazo de um investidor de verdade, alguém que compreenda o futebol. E ele não deveria assumir o controle do clube.
ESPN: O senhor fala abertamente sobre a necessidade de vender atletas para manter o fluxo de caixa ordenado. Considera que o Botafogo acertou ao manter o Danilo ou crê que ele deveria ter sido negociado com o Palmeiras?
JT: (Vender Danilo) É uma decisão individual. Quando a gente analisa, é claro que os torcedores nunca aceitam isso, mas o fato é que nós fazemos acordos com os jogadores quando queremos trazê-los para o Botafogo. É por isso que os jogadores aceitam voltar da Premier League, voltar do Betis, voltar da MLS, voltar dos Emirados (Árabes). É assim que a gente consegue contratar esses grandes jogadores. E, quando a gente os contrata, eles não estão em regime de servidão, eles não são nossos escravos. Isso acabou há muito tempo. Então, quando você traz um jogador como o Luiz Henrique da Europa, você faz um acordo com ele para tentar recuperar a carreira dele, colocá-lo uma posição melhor, talvez chegar à Seleção Brasileira, ser visto e, quem sabe, voltar à Europa em seguida. Esse é o plano de vida.
Quanto ao fato dos jogadores brasileiros terem vontade de jogar na Europa, não fui eu que criei esse fenômeno. A água corre para onde deve correr. Esses atletas querem jogar no Brasil, querem ser campeões no Brasil, mas também querem jogar na Premier League... Quando o Danilo teve a lesão e estava se recuperando, nós oferecemos a oportunidade a ele, mas parecia que não era o bastante. No fim, conseguimos convencê-lo a vir, mas sabíamos que ele iria voltar (à Europa) em algum momento. Quando ele veio jogar para nós, ele estava recuperado e conseguiu chegar à Seleção. Ele mostrou seu melhor futebol para nós.
Mas aí chega um momento durante o verão, ou no final do ano, em que você tem que trabalhar com o atleta sabendo que ele tem a oportunidade de voltar à Europa. E aí você tem que fazer um acordo com o jogador. É como eu digo: você tem que ser um campeão para os atletas antes de ser um campeão para os torcedores. E, se os atletas que estão na indústria confiarem no Botafogo, então a gente vai conseguir contratar cada vez mais nomes melhores.
Então, não dá para falar que o "Textor é um c*** porque ele se livrou dos nossos jogadores favoritos". Eu sou o cara que trouxe seus jogadores favoritos para o clube! Nós fizemos os acordos com o Igor Jesus, com o Luiz Henrique, com o Montoro, com o Almada, com o Danilo. O acordo era: "Ajudem o Botafogo e nós vamos ajudar vocês".
Então, vou responder essa pergunta (sobre Danilo) de uma forma genérica. Não vou dizer o que o Botafogo deveria ou não fazer com o Danilo, mas estou te explicando como nosso programa de recrutamento funciona. Eu consegui trazer jogadores incríveis e ganhar campeonatos fazendo acordos com esses jogadores. Eles devem confiar a carreira deles a você. E, se você quiser manter o jogador, tem que fazer um cheque mais gordo.
GDA (Luma), pare de ficar emprestando dinheiro e faça investimentos em capital social. Eu colocava dinheiro como capital social. Todas as minhas ofertas sempre foram para colocar capital social. Então, o que eu faria ano após ano nesse clube seria trazer os melhores jogadores do mundo que eu conseguisse encontrar. Eu os venderia de volta para a Europa quando estivessem prontos e depois traria mais. Nós tínhamos um plano de ganhar campeonatos anos após ano diversas vezes. Estava funcionando, e eu gostaria muito de ter uma nova chance de provar que meu plano estava certo.
