Justiça do Rio mantém John Textor longe da recuperação judicial do Botafogo, mas briga pelo futuro da SAF contra a GDA Luma continua através de liminar aplicado na Cork Gully, disputa segue em Londres

 


John Textor, ex-controlador da SAF Botafogo durante aquecimento antes da partida do Fogão contra a Chapecoense no Estádio Nilton Santos pela Copa Do Brasil 2026 | Foto: Thiago Ribeiro/AGIF


A Justiça do Rio de Janeiro rejeitou, nesta terça-feira (8/9), o pedido apresentado por John Textor para acompanhar, como “parte interessada”, o processo de recuperação judicial da SAF do Botafogo. A decisão foi tomada pelo juiz Marcelo Mondego de Carvalho Lima, da 2ª Vara Empresarial do Rio, responsável pelo processo de recuperação da companhia.


O pedido tinha como objetivo permitir que Textor tivesse acesso e ciência de atos e documentos da recuperação judicial que, segundo ele, pudessem afetar suas pretensões sobre a propriedade e o controle da SAF.


A negativa representa mais um revés para o empresário norte-americano na disputa que envolve o futuro societário do Botafogo. Na avaliação apresentada pelo juízo, Textor não figura atualmente como sócio da SAF, e eventuais controvérsias relacionadas à sociedade ou às pretensões do empresário devem ser discutidas nas instâncias competentes, sejam elas judiciais ou arbitrais. 


Textor questiona transferência das ações para a Eagle Bidco

A tentativa de ingressar no processo de recuperação judicial está relacionada a uma disputa paralela travada por Textor em outras instâncias.


O empresário sustenta que a transferência de 90% das ações da SAF do Botafogo para a Eagle Football Holdings Bidco não teria sido devidamente quitada. Por isso, busca judicialmente a rescisão do contrato que formalizou a transferência.


A tese é particularmente relevante porque, se a pretensão de Textor prosperasse, poderia haver consequências sobre a própria estrutura societária que atualmente envolve a SAF.


Foi justamente esse argumento que levou o norte-americano a pedir acesso ao processo de recuperação judicial. A intenção era acompanhar de perto qualquer movimentação que pudesse alterar a estrutura de capital ou a composição acionária da empresa.


Entre os eventos que Textor pretendia acompanhar estavam possíveis alterações na composição acionária, aumentos de capital, diluição de participação, entrada de novos investidores, conversão de créditos em ações e operações de financiamento que contivessem algum componente societário.


Na prática, o empresário buscava evitar que decisões tomadas dentro da recuperação judicial produzissem efeitos sobre uma disputa de propriedade que ele afirma ainda estar em andamento.


Recuperação judicial segue sem Textor como parte

A decisão do juiz não resolve o mérito da controvérsia sobre quem tem direito às ações da SAF. O que foi rejeitado é a tentativa de Textor de participar formalmente daquele processo específico de recuperação judicial.


Essa distinção é importante.


A discussão sobre a validade ou eventual rescisão da transferência das ações continua sendo uma questão própria, que deverá ser decidida nas ações judiciais ou procedimentos arbitrais correspondentes. A recuperação judicial, por sua vez, segue seu curso sem que Textor tenha sido reconhecido como parte interessada.


O entendimento adotado pelo juiz é que o empresário não pode utilizar sua disputa societária paralela para obter posição processual dentro da recuperação judicial da companhia da qual não consta atualmente como sócio. 


SAF entrou em recuperação judicial em maio

A recuperação judicial da SAF do Botafogo foi deferida em maio deste ano pela 2ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro, justamente sob a condução do juiz Marcelo Mondego de Carvalho Lima.


O processo foi aberto em meio a uma grave crise financeira da estrutura empresarial do futebol alvinegro. Segundo informações divulgadas na época, o passivo sujeito à recuperação judicial era de aproximadamente R$ 1,286 bilhão. 


A recuperação judicial tem como objetivo organizar as dívidas sujeitas ao processo e criar condições para a reestruturação financeira da empresa, preservando sua atividade e permitindo que credores participem das etapas previstas pela legislação.


Em agosto, a Justiça do Rio publicou o edital da recuperação judicial, dando aos credores prazo para apresentar habilitações ou divergências em relação aos valores relacionados no processo. Para atuar na administração e fiscalização da recuperação, foram nomeados a Preserva-Ação Administração Judicial e o escritório Marcello Macêdo Advogados. 


Mudança de comando afastou Textor da estrutura do Botafogo

O cenário atual é muito diferente daquele existente quando Textor comandava diretamente a SAF.


O empresário perdeu espaço na estrutura de controle da Eagle Football, holding que concentrava seus investimentos no futebol, depois que credores acionaram mecanismos previstos na legislação britânica. A Cork Gully foi nomeada administradora da Eagle Bidco, em um movimento relacionado à disputa com credores do grupo. 


No próprio Botafogo, a situação também mudou de maneira significativa.


Em abril, por determinação do juiz Marcelo Mondego, a SAF passou a ter um interventor judicial. Inicialmente, o cargo foi ocupado por Durcesio Mello e, posteriormente, passou a Eduardo Iglesias. 


Em junho, uma Assembleia Geral Extraordinária do Botafogo também deliberou pela destituição de Textor e de outros integrantes ligados à antiga estrutura de seu conselho de administração. 


Disputa pelo futuro da SAF

A briga judicial de Textor acontece paralelamente a uma profunda transformação na estrutura acionária do Botafogo.


Durante o processo de transição, a Eagle Bidco deixou de representar uma posição incontestável na condução do futuro da SAF. O clube associativo acionou uma cláusula de bônus de subscrição e passou a reivindicar uma participação majoritária na companhia, movimento que também abriu caminho para a possível entrada da GDA Luma.


Segundo informações divulgadas em julho, o Botafogo afirmou que Textor teria praticado atos que, na visão do clube, seriam prejudiciais à SAF e relacionados à destinação de recursos que deveriam compor o investimento previsto na aquisição. O empresário e sua equipe rejeitaram as acusações e afirmaram que os registros das operações realizadas durante sua gestão demonstrariam a regularidade dos atos. 


A estrutura acionária, portanto, tornou-se um dos principais pontos de tensão entre as partes.


A GDA Luma e a tentativa de mudança de controle

A GDA Luma, ligada ao empresário Gabriel de Alba, apareceu como potencial nova controladora da SAF durante o processo de reorganização.


Em junho, Botafogo e GDA haviam avançado em direção a uma futura transferência de controle. Textor, porém, contestou a operação e afirmou que havia processos judiciais no Reino Unido e nos Estados Unidos questionando a propriedade das ações. 


O processo acabou sendo marcado por novos obstáculos envolvendo a Cork Gully, administradora da Eagle Bidco.


Reportagens publicadas posteriormente indicaram que negociações para a transferência das ações para a GDA Luma chegaram a enfrentar impasses relacionados a dívidas do Lyon com o Botafogo e a despesas jurídicas. 

G

Gazeta Botafogo

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O episódio demonstra por que o pedido de Textor para acompanhar a recuperação judicial tinha importância estratégica: qualquer operação de capital, entrada de investidor ou alteração societária poderia ter reflexos sobre a disputa que ele mantém fora do processo.


Liminar na Justiça britânica

Além da disputa no Brasil, Textor também mantém uma frente de batalha no Reino Unido.


O empresário conseguiu uma medida judicial que, segundo as informações apresentadas no contexto da disputa, interfere na possibilidade de a Cork Gully conduzir determinadas operações envolvendo a participação na SAF do Botafogo.


A existência de processos em diferentes jurisdições tornou o caso particularmente complexo, pois a discussão sobre a propriedade das ações da SAF passou a envolver simultaneamente questões societárias, contratuais, financeiras e de insolvência.


A Cork Gully, por sua vez, foi colocada na posição de administrar a Eagle Bidco e avaliar os interesses de seus diferentes stakeholders. A própria Eagle Football afirmou, quando da nomeação da administradora, que a Cork Gully deveria considerar os interesses de todos os envolvidos, incluindo acionistas e credores. 

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Eagle Football


O que muda com a decisão desta terça-feira

A decisão de Marcelo Mondego não significa que John Textor perdeu definitivamente qualquer possibilidade de discutir a propriedade das ações da SAF.


O ponto central é outro: ele não poderá participar da recuperação judicial do Botafogo simplesmente com base na existência de sua disputa societária paralela.


Isso mantém separados dois conflitos diferentes.


De um lado, está a recuperação judicial, destinada à reorganização financeira da SAF e à negociação com seus credores. De outro, estão as ações e procedimentos nos quais Textor questiona a transferência das ações para a Eagle Bidco e busca fazer valer sua própria interpretação sobre a propriedade da companhia.


Essa separação é relevante porque impede que a recuperação judicial seja transformada automaticamente em uma extensão da disputa societária de Textor.


Próximos capítulos

Com Textor afastado formalmente do processo de recuperação judicial, a SAF do Botafogo segue sua trajetória de reestruturação sob o comando definido pelo processo judicial e pelos atuais atores societários.


A companhia terá de avançar na reorganização de suas obrigações financeiras, enquanto a disputa sobre a composição acionária permanece em outras frentes.


Para Textor, a decisão significa que o empresário terá de continuar defendendo suas pretensões nos processos próprios, sem acesso privilegiado aos atos e documentos da recuperação judicial.


Para o Botafogo, por outro lado, o despacho reforça a separação entre a recuperação financeira da SAF e as disputas que envolvem a antiga estrutura de controle.


O resultado final, contudo, ainda dependerá dos demais processos judiciais e arbitrais em andamento. A decisão desta terça-feira fecha uma porta dentro da recuperação judicial, mas não encerra a batalha maior pelo passado, presente e futuro das ações da SAF Botafogo. 



A matéria acima incorpora as informações fornecidas e as atualiza com o que foi publicado sobre a decisão de 8 de setembro de 2026, evitando apresentar como definitiva uma disputa societária que ainda está em outras instâncias.

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