O clube francês de elite Olympique Lyonnais da cidade de Lyon, na região de Ródano-Alpes, na França, enfrenta uma ação judicial de US$ 63 milhões para quitar uma dívida ligada à transferência do brasileiro Igor Jesus, aumentando ainda mais o escrutínio sobre as finanças e a estrutura de propriedade da equipe.
Uma subsidiária da gestora de crédito MC Credit Partners LP entrou com o processo em Londres em fevereiro, cobrando US$ 43,1 milhões de principal, além de US$ 6,5 milhões em taxas por inadimplência e juros não pagos que correm a 10% ao mês, segundo documento judicial visto pela Bloomberg.
O time da Ligue 1 está sendo processado pela PRPF LLC após um acordo reestruturado pela transferência de Jesus, vindo do Botafogo, clube “irmão” do Lyon. O pagamento da primeira parcela, previsto para novembro passado, não foi realizado. Ambos os clubes pertencem à Eagle Football Holdings, fundada pelo empresário John Textor.
A disputa evidencia os desafios enfrentados por reguladores e credores num cenário em que investidores criam redes multi-clubes, usando jogadores como ativos financeiros e negociando-os entre equipes do mesmo grupo. A Eagle Football já enfrenta seu maior credor, a Ares Management Corp., após sucessivas perdas financeiras.
Segundo o advogado Philip Scott, do escritório Walker Morris, um calote desse porte pode fazer credores repensarem sua atuação no mercado de recebíveis de transferências.
O caso também joga luz sobre o balanço do Lyon, que quase foi rebaixado devido às perdas financeiras e ao alto endividamento. A empresária Michele Kang, nascida na Coreia do Sul, substituiu Textor na presidência no ano passado e ajudou o clube a lidar com o risco de punições do regulador financeiro francês.
Transferência problemática e fantasma
De acordo com o processo, Lyon e Botafogo firmaram um acordo em outubro de 2024 pela transferência de Igor Jesus por €35 milhões (R$211,4 milhões), divididos em duas parcelas de €17,5 milhões (R$105,7 milhões). A primeira deveria ter sido paga dois dias após a assinatura — o que não aconteceu.
Inicialmente, Igor Jesus iria jogar pelo Olympique Lyonnais, mas a transferência acabou não se concretizando — caracterizando uma “transferência fantasma”. O jogador acabou indo para o Nottingham Forest posteriormente pela quantia de €20 milhões (R$ 128 milhões). Fontes indicam que Textor via o empresário Evangelos Marinakis como uma espécie de fiador para seus negócios mal estruturados, depois de várias alavancagens e operações de alto risco, e por isso manteve o negócio com a expectativa de usar garantias de terceiros em caso de problemas.
Depois disso, o Botafogo buscou levantar capital e recorreu à PRPF para antecipar os valores. O acordo foi reestruturado em dezembro de 2024: o Lyon passou a dever US$ 43,1 milhões (R$ 221,1 milhões), a serem pagos em três parcelas anuais até 2027. O clube brasileiro então transferiu o direito de receber esses valores ao fundo, que passou a ser o credor direto.
Inicialmente, Igor Jesus iria para o Lyon, mas a transferência foi bloqueada pelo regulador francês (DNCG), devido a uma proibição de contratações. Posteriormente, o jogador acabou sendo vendido ao Nottingham Forest.
O caso também mostra como o mercado de financiamento de recebíveis — ligado a transferências e direitos de TV — cresceu rapidamente no futebol, apesar do risco financeiro do setor. Agora, a PRPF busca recuperar o valor total após o Lyon não pagar a primeira parcela e não regularizar a dívida dentro do prazo de 30 dias.
Os advogados do Lyon afirmaram em janeiro que responderiam até 26 de fevereiro, mas a PRPF rebateu dizendo que não havia justificativa para levar mais de seis semanas para responder a uma cobrança simples.
Complemento (outras informações relevantes)
Além dessa ação específica, o imbróglio entre Lyon e Botafogo é ainda maior. O clube brasileiro também cobra valores milionários relacionados a outras transferências envolvendo jogadores como Igor Jesus, Jair Cunha e Luiz Henrique.
O Botafogo alega que aceitou vender atletas por valores abaixo do mercado e até cedeu jogadores sem custos para ajudar o Lyon a cumprir exigências financeiras e evitar sanções na França. Agora, cobra reembolso que pode ultrapassar €60 milhões (cerca de R$ 400 milhões).
Essas operações fazem parte do modelo de caixa único da Eagle Football Holdings, no qual os clubes do grupo atuariam de forma integrada — algo que hoje é alvo de disputas judiciais e críticas, especialmente após transferências que não chegaram a se concretizar devido a restrições regulatórias.
Há ainda questionamentos sobre “transferências fantasmas”, já que alguns jogadores foram vendidos ao Lyon no papel, tiveram os créditos antecipados a fundos financeiros, mas nunca chegaram a atuar pelo clube foram eles (Luiz Henrique, Savarino e Igor Jesus) — deixando a equipe francesa com a obrigação de pagar por atletas que não utilizou.
No conjunto, o caso expõe uma crise mais ampla dentro da rede de clubes de Textor, envolvendo dívidas cruzadas, disputas internas e um modelo financeiro cada vez mais pressionado.
Com informações Bloomberg


