Documentos e contratos obtidos pelo ¨O GLOBO¨ revelam operações financeiras de alto valor realizadas entre o Botafogo e o Lyon, dentro do grupo Eagle, sob o comando de John Textor. Nessas transações, o alvinegro vendia direitos econômicos de atletas ao clube francês, que pagava parcelado, enquanto o Botafogo antecipava os recebimentos à vista junto a instituições financeiras, com desconto, e repassava boa parte desses valores ao próprio Lyon. Dessa forma, a dívida das transferências passava a ser do clube francês com os bancos.
A prática de antecipação de valores, comum no futebol para gerar liquidez, foi utilizada para apoiar o fluxo de caixa do Lyon, que enfrentava risco de rebaixamento pelo órgão fiscalizador francês, a DNCG. O modelo não se restringiu ao caso do atacante Igor Jesus — alvo de ação judicial na Inglaterra, conforme noticiado pela Bloomberg —, mas também envolveu atletas como Luiz Henrique, Thiago Almada, Savarino e Jair. Destes, apenas Almada chegou a atuar pelo Lyon.
Segundo os documentos, o Lyon acumulou dívidas que somam 125,2 milhões de euros (cerca de R$ 758 milhões), incluindo até vendas do goleiro Lucas Perri ao Leeds-ING e do atacante senegalês-sueco Amin Sarr ao Hellas Verona-ITA, transações intermediadas pelo Botafogo com antecipações de recursos.
Em uma operação, a SAF do Botafogo chegou a oferecer a mesma parcela da venda de Luiz Henrique como garantia a duas instituições financeiras. Ao detectar o problema, exerceu cláusula de recompra em um dos contratos e evitou a irregularidade.
Em uma das operações, a SAF do Botafogo chegou a dar a mesma parcela da venda de Luiz Henrique como garantia para duas instituições financeiras. Ao perceber o problema, exerceu uma cláusula de recompra em um dos contratos e evitou a concretização da possível irregularidade.
Questionado pela reportagem, a SAF do Botafogo, através de nota (veja a íntegra ao fim), argumentou que os clubes da Eagle operavam com gestão centralizada de jogadores e finanças, o que teria contribuído para conquistas esportivas. Afirmou ter transferido "cerca de 146 milhões de euros" ao Lyon e recebido 42 milhões em contrapartida, “dentro de mecanismos financeiros complexos que serão detalhados na esfera judicial”. A SAF Botafogo ainda garante ter valores que permanecem "em disputa" com o Lyon e "pretende fazer valer essas reivindicações em um tribunal competente".
— Mantenho minha confiança na nossa estratégia de negócios multiclubes, que permitiu ao Botafogo se tornar campeão do Brasil, da América do Sul e indicado à Bola de Ouro. Sem essas transações, nada disso teria sido possível— disse John Textor ao GLOBO.
Operações detalhadas: Luiz Henrique e Almada
Luiz Henrique
O atacante, protagonista nas conquistas da Libertadores e do Brasileirão de 2024, foi um dos primeiros a ser negociado nesse modelo. Em julho de 2024, Botafogo e Lyon venderam 50% dos direitos econômicos de Luiz Henrique por 14,2 milhões de euros (R$85,2 milhões), divididos em duas parcelas de 7,1 milhões de euros (R$43,4 milhões). O Botafogo antecipou, via fundo GCS, 11,6 milhões de euros à vista (R$70,9 milhões), com desconto. Em setembro, o Lyon comprou os 50% restantes pelo mesmo valor, e o Botafogo antecipou apenas a terceira parcela. A quarta parcela seguia pendente.
Thiago Almada
Em 10 de outubro de 2024, um mês após sua estreia, Almada foi vendido ao Lyon por cerca de 27 milhões de euros (R$162 milhões), em quatro parcelas escalonadas até 2027. Em janeiro de 2025, enfrentando dificuldades financeiras e pressão por atrasos salariais, o Botafogo fez novo empréstimo de 29,7 milhões de euros (R$181,6 milhões) junto ao Macquarie Bank, usando como garantia receitas futuras das vendas de Luiz Henrique e Almada.
Ao detectar que a terceira parcela de Luiz Henrique já havia sido oferecida como garantia ao fundo GCS, o Botafogo exerceu cláusula de recompra, recuperando o ativo e evitando irregularidade. Posteriormente, fez nova antecipação usando valores de Almada, recebendo 11,5 milhões de euros (R$70,3 milhões), mas transferindo a maior parte ao Lyon, que passava por grave crise financeira.
Em maio de 2025, devido a sanções da DNCG que impediam o Lyon de registrar novos jogadores, os direitos de Almada retornaram ao Botafogo pelo mesmo valor de 27 milhões de euros, também em quatro parcelas. Dois meses depois, o meia foi vendido ao Atlético de Madrid, por 21 milhões de euros (cerca de R$ 135 milhões), o valor pode chegar a 30 milhões de euros (cerca de R$ 194 milhões) com bônus e metas.
Veja a movimentação do dinheiro antecipado das vendas de Luiz Henrique e Almada
| Jogador | Valor (€) original da operação | Valor (€) recebido pelo Botafogo | Valor (€) transferido para o Lyon |
| Luiz Henrique | 14,2 milhões | 11,6 milhões | 10 milhões |
| Thiago Almada | 11,6 milhões | 9,1 milhões | 8,8 milhões |
| Ambos | 29,7 milhões | 26,8 milhões | 26,3 milhões |
| Total | 55,5 milhões | 47,5 milhões | 45,1 milhões |
Caso Igor Jesus
O atacante foi vendido ao Lyon por 35 milhões de euros (R$210 milhões). O Botafogo antecipou 31,4 milhões de euros (R$192 milhões) via fundo PRPF LLC e repassou 18,4 milhões de euros (R$112,5 milhões) ao Lyon. O clube francês não pagou uma parcela de 14,3 milhões de euros (R$87,4 milhões) ao fundo, gerando a ação judicial revelada pela Bloomberg. Posteriormente, Igor Jesus foi vendido ao Nottingham Forest-ING por 19 milhões de euros, 16 milhões (R$116,1 milhões) abaixo do valor usado na operação com o Lyon.
| Jogador | Valor (€) original da operação | Valor (€) recebido pelo Botafogo | Valor (€) transferido para o Lyon |
| Igor Jesus | 35 milhões | 31,4 milhões | 18,4 milhões |
Savarino e Jair
O meia e o zagueiro foram vendidos ao Lyon por 7,6 milhões de euros (R$46,4 milhões) e 20,9 milhões de euros (R$127,7 milhões), respectivamente. O Botafogo antecipou 21,8 milhões de euros (R$133,2 milhões de reais) e repassou 12,5 milhões de euros (R$76,3 milhões ao Lyon) . Nenhum dos dois chegou a jogar pelo clube francês; Savarino seguiu para o Fluminense e Jair para o Nottingham Forest, que pagou 23 milhões de euros (140,5 milhões) imediatamente, incluindo outras negociações do Botafogo.
Lucas Perri e Amin Sarr
O goleiro Lucas Perri foi vendido ao Leeds-ING e o atacante Amin Sarr ao Hellas Verona-ITA, ambos com 50% dos direitos ainda ligados ao Botafogo. As antecipações somaram cerca de 6,2 milhões de euros (R$37,8 milhões), dos quais 5 milhões de euros (R$30,5 milhões) caíram nos cofres alvinegros.
Fluxo total de dinheiro
Somando as operações com Luiz Henrique, Almada, Igor Jesus, Savarino, Jair, Perri e Sarr, foram antecipados 125,2 milhões de euros (aproximadamente R$ 758 milhões). Desse montante, 100,7 milhões de euros (R$ 609,4 milhões) ficaram com o Botafogo e 76 milhões de euros (R$ 460 milhões) foram repassados ao Lyon, que assumiu a posição de devedor operacional das transações.
Leia a nota completa da SAF Botafogo:
“Antes do descumprimento dos acordos de empréstimo interclubes, legalmente vinculantes, pela atual administração do Olympique Lyonnais, os clubes da Eagle Football operavam com uma gestão centralizada de suas atividades esportivas - tanto no que diz respeito a jogadores quanto às finanças - o que contribuiu para grandes conquistas de todas as equipes.
Os detalhes dos nossos acordos de gestão de caixa são bastante complexos e serão apresentados de forma mais completa no foro jurídico adequado. Em síntese, a SAF Botafogo efetuou transferências de cerca de 146 milhões de euros ao Olympique Lyonnais e recebeu, em contrapartida, 42 milhões de euros.
A SAF Botafogo também arrecadou receitas significativas relacionadas às transferências de jogadores cujos direitos podem pertencer ao OL, embora tais valores permaneçam em disputa com os balanços publicados pelo OL. A SAF Botafogo pretende fazer valer essas reivindicações em um tribunal competente, sendo que os valores líquidos esperados são significativamente favoráveis à SAF Botafogo”.
Apesar da riqueza de detalhes revelados nos documentos, a nota emitida pela SAF do Botafogo soa como um “enxuga gelo”: palavras cuidadosamente escolhidas para minimizar responsabilidades, sem esclarecer de fato a complexidade e os riscos das operações. Ao enfatizar conquistas esportivas e números bilionários transferidos ao Lyon, a SAF tenta transformar uma operação financeira altamente arriscada em argumento de legitimidade, ignorando que parte do dinheiro do clube carioca acabou beneficiando diretamente uma entidade estrangeira em crise financeira, enquanto deixava atletas e credores em situação vulnerável.
A postura de John Textor, ao manter a narrativa de que tudo fazia parte de uma estratégia multiclubes, levanta questões éticas e de transparência. Enquanto celebra títulos e indicações individuais, a gestão expõe o Botafogo a litígios, inadimplências e dependência de mecanismos financeiros complexos que não são explicados publicamente. Para críticos do mercado financeiro esportivo, a operação se assemelha a um jogo de roleta financeira, onde o clube brasileiro assume riscos enormes e o Lyon se torna o beneficiário de um fluxo de caixa imediato.
Em resumo, por trás da pompa de números astronômicos e conquistas em campo, fica claro que a estratégia de Textor e da SAF do Botafogo priorizou lucros e transferências internacionais em detrimento da segurança financeira e da transparência do clube, deixando torcedores e investidores questionando se a glória esportiva vale os riscos envolvidos.
Com informações O GLOBO

