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John Textor - Foto: Thiago Rodrigues/AGIF |
O Tribunal Arbitral da Fundação Getúlio Vargas calculava ter uma definição sobre a saída de John Textor do comando da SAF do Botafogo nas próximas duas semanas, a pedido do clube social e da Eagle Bidco, sócios da empresa, que temiam que o Norte-americano se antecipasse e entrasse na Justiça do Rio com um pedido de recuperação judicial, oficializado nesta quarta-feira 22/4. No sábado 20/4, a Eagle enviou uma notificação nos autos do processo que tenta tirar Textor informando que ele não estava autorizado a entrar com o pedido. O Botafogo social concordou com o movimento. O que não adiantou.
Os sócios da SAF já previam que John Textor como dono da empresa também através de liminar na Justiça do Rio se movimentaria antes da Assembleia Geral Extraordinária que acontecerá no dia 27/4, no Estádio Nilton Santos. Em primeira chamada, o encontro foi adiado por ausência dos sócios, que já entendiam que a AGE foi convocada por Textor para informar sobre a recuperação judicial e se manter no comando administrativo, mesmo diante do caos financeiro.
Na visão da Eagle e do clube social, Textor tenta atrapalhar qualquer possibilidade de resolução do conflito a partir de sua saída da SAF, que poderia abrir a possibilidade de um acordo da Eagle com o Botafogo e a revenda para outro interessado, uma vez que existem negociações em andamento neste sentido. Com a perspectiva de que Textor não tivesse aprovada a diluição das ações da Eagle para contração de um novo empréstimo, segundo o Norte-americano de 25 milhões de dólares (R$128,5 milhões), não foi necessária nem a realização da Assembleia para o movimento na Justiça do Rio na direção da recuperação judicial.
A Eagle Bidco entende que na hora que Textor deixar a SAF o Botafogo ganhará valor e poderá se reorganizar através do recebimento de quantias em aberto entre os clubes da empresa, hoje sob gestão de um administrador judicial, a Cork Gully, que tenta encontrar novos compradores, assim como o Botafogo social. Representantes do clube não compareceram à Assembleia na segunda-feira justamente para tentar adiar o pedido de recuperação judicial, para que o Tribunal Arbitral, que compareceu e gravou a sessão, que nem sequer foi instaurada, elaborasse uma decisão a partir daí.
Eagle Holdings BidCo e Associativo não confiam mais em John Textor, que não deverá continuar como acionista majoritário, um caminho de afastamento já foi pavimentado pela Ares e Cork Gully.
A crise societária na SAF do Botafogo se intensificou de forma decisiva após um movimento considerado antecipado e unilateral pelo empresário John Textor. Sócios da empresa já haviam se mobilizado previamente na Justiça para barrar exatamente a medida que acabou sendo oficializada nesta quarta-feira: o pedido de recuperação judicial.
Nos bastidores, a leitura já era de que havia poucas chances de qualquer proposta desse tipo ser aprovada na Assembleia Geral Extraordinária marcada para o dia 27 de abril. Por isso, crescia a expectativa de que Textor se anteciparia — o que de fato ocorreu.
Arbitragem e tentativa de definição
O Tribunal Arbitral da Fundação Getúlio Vargas trabalhava com a previsão de definir, nas duas semanas seguintes, uma solução para a saída de Textor do comando da SAF. O processo foi impulsionado justamente pela Eagle Bidco e pelo Botafogo associativo, que temiam a judicialização prévia do tema — cenário que acabou se confirmando.
Assembleia esvaziada e estratégia de controle
Os sócios já previam que, como controlador da empresa, Textor buscaria também uma liminar na Justiça do Rio para reforçar sua posição antes da realização da AGE. A assembleia, marcada para o Estádio Nilton Santos, sequer foi instalada em primeira convocação por ausência deliberada dos sócios.
A interpretação dominante entre Eagle e clube social é que a AGE foi convocada por Textor com o objetivo de comunicar a recuperação judicial e, ao mesmo tempo, sustentar sua permanência no comando administrativo da SAF, apesar do cenário de grave crise financeira.
Reorganização e atuação de administradores
A Eagle Bidco sustenta que a saída de Textor pode valorizar o Botafogo e permitir uma reorganização financeira mais eficiente. Isso incluiria o recebimento de valores pendentes entre clubes do grupo, hoje sob gestão de um administrador judicial, a Cork Gully, que também atua na busca por novos compradores.
Representantes do Botafogo associativo, inclusive, optaram por não comparecer à assembleia realizada na segunda-feira como estratégia para tentar adiar o avanço da recuperação judicial. O Tribunal Arbitral chegou a comparecer, registrar a sessão — que sequer foi formalmente instaurada — e deve utilizar esses elementos para embasar sua decisão.
Ruptura e caminho para afastamento
O cenário atual indica uma ruptura definitiva. Tanto a Eagle Holdings BidCo quanto o clube associativo já não confiam mais em John Textor, que dificilmente continuará como acionista majoritário da SAF.
Nos bastidores, o caminho para seu afastamento já foi pavimentado com participação de credores e consultorias especializadas, incluindo a Ares Management e a própria Cork Gully.
A expectativa agora gira em torno da decisão do Tribunal Arbitral, que poderá definir os próximos passos de uma disputa que deve impactar profundamente o futuro institucional, financeiro e esportivo do Botafogo.
A SAF do Botafogo informou à Justiça do Rio de Janeiro que possui cerca de R$ 1,4 bilhão em dívidas de curto prazo, dentro de um passivo total que chega a R$ 2,5 bilhões, além de patrimônio líquido negativo. Os dados fazem parte do pedido de recuperação judicial apresentado nesta terça-feira, ainda sob a gestão de John Textor, e que tramita na 2ª Vara Empresarial do estado.
De acordo com os advogados da SAF, o cenário financeiro é considerado crítico. Do total da dívida, aproximadamente R$ 400 milhões correspondem a débitos tributários. O documento também destaca a falta de recursos imediatos, inclusive para arcar integralmente com a folha salarial do mês seguinte.
Entre os R$ 2,5 bilhões de passivo, R$ 1,4 bilhão refere-se a compromissos de curto prazo, com vencimentos até o fim de 2026. Grande parte dessas obrigações está ligada à compra de jogadores junto a outros clubes. A inadimplência recorrente transformou o Botafogo em devedor frequente, resultando, por exemplo, em punições da FIFA que impedem o clube de registrar novos atletas.
O relatório também aponta uma deterioração acelerada do patrimônio líquido. Em 2023, o valor negativo era de R$ 28,8 milhões, saltando para R$ 174,2 milhões em 2024 e chegando a R$ 427,2 milhões em 2025. Já o prejuízo líquido no último ano foi de R$ 287 milhões, próximo dos R$ 300 milhões registrados no ano anterior.
O juiz Marcelo Mondego de Carvalho concedeu liminar autorizando o andamento da recuperação judicial, suspendendo cobranças e bloqueios nas contas do clube. A decisão também impede a rescisão unilateral de contratos de jogadores, mesmo diante de pendências trabalhistas.
A SAF relatou ainda atrasos de dois meses nos pagamentos de direitos de imagem ao elenco, situação que poderia levar atletas a acionarem a Justiça para romper contratos. Para evitar esse cenário, o clube solicitou a suspensão desse tipo de medida, o que foi aceito pela Justiça nesta quarta-feira (22/4).
Com a recuperação judicial, o Botafogo busca reorganizar suas finanças, proteger seus ativos e evitar a saída de jogadores. Em trecho da decisão, o magistrado determinou que fornecedores e atletas não rescindam contratos nem deixem de cumprir suas obrigações com base em dívidas sujeitas ao processo.
O juiz Marcelo Mondego Carvalho de Lima, que assina o despacho, cita que "faz-se necessária e imprescindível a manutenção dos contratos vigentes", deferindo que terceiros interessados se abstenham da promoção de eventuais rescisões. No entanto, ele afirma que "eventuais discussões oriundas ao negócio jurídico" deverão ser direcionadas ao juízo competente, se for o caso.
