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Marcelo Claure e Ana Blanquart - Foto Reprodução FII 7 Institute TV/Youtube |
Durante entrevista concedida à Ana Blanquart, âncora da TV da FII Institute, para a FII PRIORITY Rio de Janeiro, em 11 de maio de 2026, o empresário e investidor boliviano-americano Marcelo Claure que já revelou que irá comprar um clube brasileiro, em alusão a SAF Botafogo, reforçou sua visão otimista sobre o futuro da América Latina, classificando a região como uma das áreas mais promissoras do mundo para investimentos, inovação e crescimento econômico sustentável.
Conhecido por sua atuação global nos setores de tecnologia, telecomunicações, investimentos e infraestrutura, o amigo de Gabriel de Alba, e sócio na GDA LUMA, Claure afirmou que grande parte de seus negócios nasce diretamente de sua paixão pela América Latina e pela convicção de que o continente vive um momento histórico de transformação econômica.
Assista a entrevista abaixo:
*Legendas em português no Padrão Youtube
O que disse Claure em entrevista à Ana Blanquart:
Até que ponto todos os seus negócios nascem da sua paixão pela América Latina?
Sempre fui um grande admirador da América Latina por causa da quantidade de oportunidades que existem nesta parte do mundo. Antes de investir em países, gosto de entender qual é a situação macroeconômica. E costumo dizer publicamente que, mesmo que os latino-americanos tentem estragar tudo, eles não vão conseguir, porque existem muitos ventos soprando a favor da América Latina.
O mundo precisa de minerais críticos para cumprir os grandes compromissos que assumimos até 2050 relacionados às emissões líquidas de carbono. E a América Latina é o principal ou o segundo maior produtor desses recursos. Eu chamo a região de “superpotência das supercommodities”. Temos lítio, ferro, prata, estanho. Então, acho isso extremamente poderoso.
O mundo está crescendo de 7 para 9 bilhões de pessoas. Alguém terá que alimentar o planeta. E o Brasil hoje é um dos maiores produtores de alimentos do mundo, líder em soja, carne bovina e muito mais.
Além disso, a atual disputa política entre China e Estados Unidos posicionou o México como uma oportunidade de nearshoring para investidores. Hoje, pela primeira vez na história, o México se tornou o maior parceiro comercial dos Estados Unidos.
E, por fim, a América Latina tem escala. São 660 milhões de pessoas com uma renda per capita sólida, superior a US$ 20 mil por pessoa.
Quando juntamos tudo isso, sou um enorme defensor do futuro da América Latina. Sempre classifico a região como um dos poucos lugares do mundo onde existem mais oportunidades do que capital disponível. É por isso que amo a América Latina e sou apaixonado pelo futuro deste continente.
Mas como você lida com toda a incerteza econômica e instabilidade?
Bem, isso é justamente o que torna tudo interessante, certo? Muitas pessoas dizem: “Meu Deus, instabilidade política”. Mas acredito que existe mais instabilidade política nos Estados Unidos, na Europa Ocidental, em Israel e em outros lugares.
As pessoas esquecem que praticamente todos os líderes da América Latina foram eleitos democraticamente. Já alternamos governos de esquerda e de direita em muitas ocasiões, mas sempre respeitando as constituições e a vontade popular.
Portanto, não tenho nenhum problema em relação à chamada instabilidade política.
Outro tema sempre citado sobre a América Latina é a moeda. Se observarmos o comportamento das moedas latino-americanas nos últimos cinco anos, em muitos casos elas tiveram desempenho melhor do que moedas de mercados considerados mais maduros.
A América Latina foi a primeira região a elevar taxas de juros. O Brasil, especialmente, foi um dos primeiros a começar a reduzir os juros. As moedas se valorizaram e, como recebemos muito mais investimento estrangeiro direto, isso fortalece ainda mais as moedas locais.
Não vejo isso mudando. Como já disse, na minha opinião, estes são os anos dourados da América Latina.
E, sinceramente, os latino-americanos são excelentes empresários porque tiveram que atravessar períodos turbulentos, hiperinflação e diversas crises ao longo da história. Agora que as coisas estão mais estáveis, acredito que isso permite que esta parte do mundo brilhe.
Então você acredita que o poder global está migrando do Norte Global para o Sul Global?
Totalmente. Existem muitos fatores que comprovam isso. Temos uma população jovem e crescente na América Latina. Acho que mais de 40% da população tem menos de 25 anos, assim como acontece na Arábia Saudita, Índia e outros países.
Quando você visita esta parte do mundo, percebe energia, paixão e pessoas querendo crescer. Enquanto isso, outras regiões do mundo desaceleraram o crescimento. Em vários lugares haverá problemas porque existirão mais pessoas acima de 65 anos do que crianças abaixo de 5 anos.
Adoro o que está acontecendo no Sul Global e acredito que o futuro do poder mundial está migrando para esta parte do planeta, não apenas em termos de crescimento econômico.
Se observarmos os mercados financeiros globais, o Oriente Médio assumiu um papel extremamente relevante — Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Catar.
E adoro o que está acontecendo. Em vez de investirem apenas em fundos tradicionais de private equity dos Estados Unidos, agora vemos esses fundos soberanos investindo diretamente.
O fato de estarmos aqui no FII Brasil é prova disso. Nunca imaginaríamos a Arábia Saudita trazendo a principal conferência de investimentos para um lugar como o Brasil.
Não poderia estar mais feliz com tudo o que está acontecendo aqui.
Você pode falar um pouco mais sobre as oportunidades bilaterais entre Arábia Saudita, Brasil e outros países latino-americanos?
Acredito que existe uma enorme sintonia entre os dois países.
Tive a sorte de participar da última visita do presidente Lula à Arábia Saudita e tivemos uma ótima oportunidade de passar um tempo com o príncipe herdeiro.
Existe química entre os dois países. Ambos possuem grandes aspirações e não querem mais ocupar posições secundárias no cenário global.
O Brasil pode se tornar, se as coisas continuarem assim, a sexta maior economia do mundo. Portanto, não há razão para sermos tratados como cidadãos de segunda classe.
Os dois países têm enormes ambições de liderança.
Adoro a maneira como o Reino está pensando em inteligência artificial. A Arábia Saudita precisa do Brasil para segurança alimentar, minerais críticos e fontes de energia capazes de abastecer data centers.
E o Brasil também pode aprender muito com a Arábia Saudita.
Vejo uma enorme quantidade de sinergias. Já vimos investimentos fenomenais de empresas sauditas em companhias brasileiras, como a Minerva e outras.
O mais bonito é que o Brasil tem muito a contribuir para a Arábia Saudita, e a Arábia Saudita também tem muito a oferecer ao Brasil.
O Brasil é um país altamente industrializado. A Arábia Saudita precisa de indústrias.
As melhores parcerias surgem quando dois parceiros precisam um do outro e possuem boa química. E o que tenho visto é exatamente isso: muita sintonia, bons projetos e dois países que querem continuar prosperando.
Por que você decidiu participar do movimento FII?
Adoro tudo o que o FII representa. Acho que é uma conferência de investimentos de altíssimo nível.
É ótimo viajar pelo mundo participando de conferências e encontrar pessoas parecidas com você. Acho que muitos outros eventos perderam isso.
Adoro a ambição. Adoro a escala.
Quem imaginaria que teríamos mais de 1.500 pessoas e que as inscrições para o FII Brasil seriam encerradas três meses antes do evento?
No começo estávamos nervosos. Hoje não poderíamos estar mais satisfeitos, porque temos não apenas os melhores líderes brasileiros — a conferência foi aberta pelo presidente do país —, mas também investidores da China, Coreia, Oriente Médio, Europa, Estados Unidos e outras regiões da América Latina.
É isso que torna a família FII tão especial.
Conversei hoje com alguém que viajou mais de 30 horas desde Xangai para estar aqui na conferência. É impressionante.
A China olha para a América Latina como a próxima fronteira por uma razão muito simples.
As empresas chinesas enfrentam dificuldades para entrar nos Estados Unidos e na Europa. A Índia também impôs barreiras. Então, de repente, a América Latina se torna extremamente atrativa.
Existem muitas semelhanças entre China e América Latina. Gosto de dizer que a América Latina é muito parecida com a China, mas com metade do tamanho e cerca de cinco anos atrás em termos de implementação tecnológica.
Então, empresas chinesas que desenvolveram fintechs, inteligência artificial, logística e plataformas tecnológicas de enorme sucesso enxergam a América Latina como a chance de reproduzir o mesmo filme que viveram na China.
E, finalmente, você deve lembrar que o símbolo do FII no ano passado foi a bússola.
Sim. Você é um homem muito ocupado, mas para onde sente que sua bússola está apontando agora?
Ela está me levando a investir em negócios que realmente me dão prazer.
Hoje tenho uma nova métrica. No início da minha carreira, tudo era baseado em retorno sobre patrimônio. Hoje falo em retorno sobre E² — equity e enjoyment, ou seja, patrimônio e prazer.
Sinto-me privilegiado por ser uma das pessoas que realmente ama o que faz.
E tenho a sorte de investir em grandes empreendedores e excelentes gestores, além de poder contribuir com mais de 30 anos de experiência ajudando essas pessoas a expandirem suas empresas.
Ana: Muito obrigado.
Claure: Obrigado.
América Latina: recursos estratégicos e potencial incomparável
Ao explicar por que mantém forte foco na região, Claure ressaltou que a América Latina reúne vantagens únicas em um cenário global marcado pela transição energética, crescimento populacional e reorganização geopolítica.
Segundo ele, antes de investir em qualquer país, busca compreender profundamente o cenário macroeconômico e os vetores estruturais de crescimento. Nesse contexto, afirmou que a América Latina possui “ventos favoráveis” praticamente impossíveis de serem revertidos.
Claure destacou que o mundo dependerá cada vez mais dos chamados minerais críticos para cumprir metas globais de neutralidade de carbono até 2050. Nesse cenário, a América Latina se posiciona como uma verdadeira “superpotência de commodities”, graças à abundância de recursos como lítio, ferro, prata e estanho.
Além disso, enfatizou o papel estratégico do Brasil como potência agroindustrial global. Segundo ele, com a população mundial crescendo continuamente, o planeta precisará ampliar drasticamente sua produção de alimentos — e o Brasil já ocupa posição de liderança mundial na produção de soja, carne bovina e outros produtos agrícolas.
Outro ponto mencionado foi a crescente relevância do México diante das tensões comerciais entre China e Estados Unidos. Claure observou que o fenômeno do nearshoring transformou o país em uma plataforma estratégica para investidores internacionais e destacou que o México se tornou recentemente o maior parceiro comercial dos Estados Unidos.
Para o investidor, a combinação entre recursos naturais, população de 660 milhões de pessoas e renda per capita sólida transforma a América Latina em um dos poucos lugares do mundo “onde existem mais oportunidades do que capital disponível”.
“Sou extremamente apaixonado pelo futuro deste continente”, afirmou.
Resiliência econômica e estabilidade institucional
Questionado sobre as frequentes percepções de instabilidade econômica e política na região, Claure minimizou as preocupações e argumentou que muitas vezes há uma visão distorcida sobre a América Latina.
Segundo ele, vários países latino-americanos demonstraram estabilidade democrática significativa nas últimas décadas, com alternância de governos de esquerda e direita ocorrendo dentro de marcos constitucionais e processos eleitorais legítimos.
Claure chegou a afirmar que, atualmente, há sinais de maior instabilidade política em regiões tradicionalmente consideradas mais estáveis, como Estados Unidos e Europa Ocidental.
No campo econômico, o empresário destacou o comportamento positivo de moedas latino-americanas nos últimos anos, especialmente após os ciclos de aumento e redução de juros liderados por países como o Brasil.
Ele observou que o aumento do investimento estrangeiro direto fortaleceu as moedas da região e ajudou a consolidar um ambiente mais previsível para negócios.
Na avaliação do investidor, os empresários latino-americanos desenvolveram uma capacidade única de adaptação após décadas enfrentando hiperinflação, crises cambiais e turbulências econômicas. Agora, em um ambiente relativamente mais estável, a região estaria pronta para “brilhar”.
A ascensão do Sul Global
Durante a conversa, Claure também afirmou acreditar claramente em uma mudança gradual do centro de poder econômico global do Norte para o Sul Global.
Ele destacou fatores demográficos como um dos motores dessa transformação, ressaltando que mais de 40% da população latino-americana possui menos de 25 anos — característica compartilhada por economias emergentes como Arábia Saudita e Índia.
Enquanto diversas economias desenvolvidas enfrentam envelhecimento populacional e desaceleração do crescimento, Claure vê nos países do Sul Global uma combinação de juventude, energia empreendedora e desejo de expansão econômica.
O investidor também chamou atenção para o crescimento da influência financeira do Oriente Médio, especialmente da Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Catar.
Segundo ele, fundos soberanos do Golfo deixaram de investir apenas indiretamente por meio de gestoras ocidentais e passaram a realizar investimentos globais de maneira direta e estratégica.
Nesse contexto, Claure afirmou que a realização da FII PRIORITY no Brasil simboliza exatamente essa nova dinâmica global de investimentos.
Sinergia entre Brasil e Arábia Saudita
Um dos principais temas abordados na entrevista foi o fortalecimento das relações econômicas entre Brasil e Arábia Saudita.
Claure revelou ter participado da visita oficial do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao reino saudita e afirmou ter percebido forte “química” entre os dois países e suas lideranças.
Segundo ele, tanto Brasil quanto Arábia Saudita compartilham a ambição de ocupar posições de protagonismo global nas próximas décadas.
O investidor destacou que a Arábia Saudita necessita do Brasil em áreas estratégicas como:
segurança alimentar;
fornecimento de minerais críticos;
fontes de energia para alimentar futuros data centers e infraestrutura tecnológica.
Por outro lado, afirmou que o Brasil também pode aprender com o modelo saudita de desenvolvimento econômico, industrialização acelerada e investimentos em inteligência artificial.
Claure citou ainda investimentos sauditas já realizados em empresas brasileiras, incluindo operações ligadas ao setor alimentício e industrial.
Para ele, as melhores parcerias internacionais surgem quando dois países possuem necessidades complementares e objetivos alinhados — algo que enxerga claramente na relação entre Brasil e Arábia Saudita.
FII PRIORITY: o novo eixo dos investimentos globais
Ao comentar sua participação na FII PRIORITY, Claure elogiou o evento e afirmou que a iniciativa se consolidou como uma das mais importantes conferências globais de investimentos.
Ele destacou a capacidade do fórum de reunir líderes empresariais, investidores e autoridades de diversas partes do mundo em torno de temas ligados a inovação, desenvolvimento econômico e cooperação internacional.
Claure celebrou especialmente o sucesso da edição brasileira da FII, que ultrapassou 1.500 participantes e atraiu representantes da China, Coreia do Sul, Oriente Médio, Europa, Estados Unidos e América Latina.
Segundo ele, o crescente interesse chinês pela América Latina também reflete uma mudança estratégica global. Claure afirmou que empresas chinesas enfrentam maiores barreiras de entrada nos mercados americano e europeu e, por isso, passaram a enxergar a América Latina como uma nova fronteira de expansão.
Ele comparou o atual estágio tecnológico latino-americano ao da China de aproximadamente cinco anos atrás, o que permitiria a empresas chinesas replicarem na região modelos bem-sucedidos de fintechs, logística, inteligência artificial e plataformas digitais.
Uma nova filosofia de investimento
No encerramento da entrevista, Marcelo Claure revelou que sua visão sobre investimentos mudou ao longo dos anos.
Se no início da carreira sua principal métrica era o “retorno sobre patrimônio”, hoje ele afirma seguir uma filosofia que chama de “retorno sobre E²” — em referência a “equity” (patrimônio) e “enjoyment” (prazer).
Segundo Claure, atualmente busca investir apenas em negócios que realmente aprecia e nos quais possa contribuir ativamente com sua experiência acumulada ao longo de mais de três décadas.
O empresário afirmou sentir-se privilegiado por trabalhar ao lado de grandes empreendedores e gestores, ajudando empresas a crescerem globalmente enquanto mantém entusiasmo genuíno pelos projetos que lidera.
A entrevista consolidou Marcelo Claure como uma das vozes mais otimistas em relação ao futuro econômico da América Latina, especialmente em um momento em que o mundo passa por profundas mudanças geopolíticas, tecnológicas e financeiras.
