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Paulo Autuori em entrevista ao Charla Podcast durante a FutPro Expo 2026 - Foto Reprodução: Charla Podcast/Youtube |
O ex-técnico do Botafogo na sua brilhante primeira passagem de 12/07/1995 à 27/12/1995 vindo do Marítimo Club Sport Marítimo de Portugal, naquele ocasião, Paulo Autuori chegou meio que desacreditado, porém aprendeu bem na escola portuguesa, e aplicou o que viu lá, naquele Botafogo bicampeão brasileiro de 1995. Atualmente Paulo Autuori está sem clube, e não treina nenhum clube, após a passagem pelo Sporting Cristal (PER).
Assista abaixo:
Entre os relatos, surgiram histórias sobre a lesão de Donizete Pantera, a postura de Túlio Maravilha antes da decisão, o papel de Gonçalves, além das dificuldades enfrentadas pelo técnico Paulo Autuori em meio a salários atrasados e desconfiança geral de um técnico até então desconhecido no futebol brasileiro.
Donizete lesionado e a frase histórica de Túlio, o que Paulo Autuori disse:
Durante a conversa, os ex-integrantes da campanha relembraram que Donizete chegou à final lesionado e virou dúvida para a partida decisiva.
“Donizete Pantera, um craque. Donizete é subvalorizado, assim como o Túlio também, eu acho. Muita bola. E o Donizete se lesiona antes da final.”
O atacante estava com uma lesão considerada significativa e sua participação no jogo passou a ser discutida internamente dias antes da decisão.
“Ele lesionou e estava na dúvida. O jogo foi quarta, ia ser no domingo no Pacaembu. Ficou toda aquela dúvida porque sabíamos que ele estava com a lesão significativa.”
Segundo os relatos, a definição foi de que Túlio jogaria assumindo também parte das funções de Donizete.
Foi então que aconteceu uma das cenas mais emblemáticas daquela campanha.
“Na hora o Túlio chega para o Donizete e fala assim: ‘Hoje você é o Túlio e eu sou o Donizete.’”
A frase passou a simbolizar o espírito coletivo daquele elenco.
“Se você vê o jogo, você vê o que o Túlio fez. Então isso por si só já diz o que era aquele grupo em termos de abrir mão de qualquer coisa para o objetivo comum.”
O crescimento do Botafogo durante a campanha
Os jogadores também lembraram que o time cresceu emocionalmente a cada jogo importante da competição.
“Quando começou, jamais pensavam que poderia chegar lá.”
Segundo Autuori, partidas decisivas contra o Flamengo e o Goiás Esporte Clube fortaleceram a confiança do elenco.
“Essa equipe foi crescendo a cada momento importante, como esse jogo do Flamengo, o jogo do Goiás, que para mim também foi um gol do Chuchu, não foi do Túlio. Jogada do Chuchu.”
Cada resultado importante aumentava a convicção do grupo.
“Cada vez mais solidificava a nossa certeza de que nós íamos chegar à final. Ganhar ou não ninguém pode cravar no futebol.” recordou Paulo Autuori.
Apesar disso, Túlio mantinha uma confiança absoluta.
“Só o Túlio falou que ia ganhar mesmo. Ele falou isso antes do jogo.”
O Santos, Giovanni e a mudança tática decisiva
Outro ponto importante da entrevista foi a análise sobre o Santos Futebol Clube, adversário da final de 1995.
Os jogadores lembraram que o Santos vinha embalado após uma recuperação impressionante contra o Fluminense.
“A galera estava preocupada porque o Santos tinha virado contra o Fluminense. Tinha sido goleado no Maracanã e goleou lá.”
O principal destaque santista era Giovanni.
“Giovanni… Nossa.”
Durante o jogo contra o Fluminense, houve até uma situação curiosa envolvendo o técnico santista.
“No intervalo, o Cabralzinho não levou os jogadores para o vestiário porque o clima estava…”
Mas, segundo os relatos, uma decisão tática acabou ajudando o Botafogo na final.
“Ele deu também um presente para nós, porque no nosso jogo final ele tirou o Giovanni da posição que estava jogando, encostando, e botou ele de centroavante.”
A mudança reduziu o impacto do craque santista.
“Isso nos deu uma facilidade com o Giovanni jogando.”
Gonçalves e o clima do velho Maracanã
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Túlio Maravilha também marcou um gol no primeiro jogo da Final do Brasileirão de 1995 no Estádio Maracanã raíz - Foto: Jornal do Sports |
O zagueiro Gonçalves também foi lembrado por sua confiança antes da decisão.
“Aí o Gonçalves falou: ‘Vamos ganhar lá.’”
Os ex-jogadores ainda destacaram a atmosfera do antigo Estádio do Maracanã.
“Era diferente o Maracanã do que é hoje. Era o velho Maraca.” pontuou Autuori.
Paulo Autuori relembra dificuldades e união do grupo
O técnico Paulo Autuori afirmou que aquele foi um dos títulos mais especiais de sua carreira.
“Todos os títulos são marcantes, mas ali… eu cheguei desacreditado completamente, o que é natural.”
O treinador lembrou das dificuldades estruturais encontradas quando chegou ao clube.
“Quando eu chego no Botafogo, nós treinávamos no Caio Martins atrás do gol, porque o campo estava reformando.”
Segundo ele, o ambiente positivo começou a ser criado justamente naquele período.
“Acho que ali começou a se criar um clima legal.”
Autuori destacou ainda que o Botafogo não era tratado como favorito em nenhuma competição.
“Naquele ano não era minimamente considerado favorito para os títulos.”
Além disso, o clube vivia dificuldades financeiras.
“Salários atrasados. Aí é brincadeira.”
“Você precisa de unidade”
Para Paulo Autuori, a principal força daquele elenco foi a união construída ao longo da competição.
“Você tem que ter uma unidade do teu grupo para conseguir isso.”
Segundo ele, esse comprometimento coletivo foi sendo criado diariamente.
“Isso foi sendo construído durante o campeonato.”
O treinador explicou que a relação entre discurso e prática era fundamental.
“Se você fala uma coisa para fora e não faz dentro, você está morto como treinador.”
Autuori também destacou a importância de cuidar emocionalmente dos jogadores que não atuavam.
“A preocupação que você tem que ter com aqueles que não jogam. Você tem que dispensar a mesma atenção com esses caras.”
Ao comparar com o futebol atual, ele afirmou que a gestão de elenco se tornou ainda mais complexa.
“Hoje a gente fala G1, G2 e G3. G1 são os que jogam, G2 os que entram no jogo e o G3 os que nem relacionados vão estar.”
E concluiu:
“Está complicado para treinador.”
A conquista do Campeonato Brasileiro de 1995 pelo Botafogo de Futebol e Regatas pela segunda vez, continua sendo uma das histórias mais emblemáticas do futebol nacional. Não apenas pelo título em si, mas pelo contexto improvável de uma equipe desacreditada, com salários atrasados, elenco considerado limitado e um grupo que encontrou na união sua principal força.
Nesta entrevista repleta de bastidores e lembranças emocionantes, integrantes daquele time revelaram detalhes da campanha histórica — incluindo um episódio simbólico antes da decisão contra o Santos, envolvendo Túlio Maravilha e Donizete Pantera.
A lesão de Donizete e a frase que virou símbolo da campanha
Donizete, um dos grandes destaques do Botafogo naquela temporada, sofreu uma lesão antes da final do Brasileiro. A dúvida sobre sua condição física aumentava a tensão às vésperas da decisão, que seria disputada no Pacaembu.
Segundo relatos do elenco, a preocupação era enorme porque o atacante vinha sendo decisivo ao longo da competição. Ainda assim, o ambiente interno mostrava um comprometimento raro.
Foi então que aconteceu uma cena que virou retrato da mentalidade daquele grupo.
Antes da partida, Túlio se aproximou de Donizete e disse:
“Hoje você é o Túlio e eu sou o Donizete.”
A frase resumiu o espírito coletivo daquela equipe. Em vez da disputa por protagonismo, havia um entendimento claro de que o objetivo maior estava acima de qualquer vaidade individual.
Quem assistiu à partida percebeu exatamente isso em campo. Túlio atuou de maneira sacrificada, se movimentando intensamente e assumindo funções diferentes para compensar as limitações físicas do companheiro.
Um time que cresceu nos momentos decisivos
Os relatos apontam que o Botafogo foi se fortalecendo emocionalmente a cada jogo importante da campanha. Vitórias marcantes contra rivais como Clube de Regatas do Flamengo e Goiás Esporte Clube aumentaram a confiança do elenco.
Internamente, os jogadores começaram a acreditar que a chegada à final era possível — mesmo que, no início da temporada, isso parecesse improvável.
Um dos momentos mais lembrados foi justamente o crescimento psicológico da equipe. A sensação era de que cada obstáculo superado consolidava ainda mais a convicção de que aquele grupo poderia disputar o título nacional.
Ainda assim, havia cautela. Muitos no elenco evitavam afirmar que seriam campeões. O futebol, como destacaram os próprios personagens da campanha, nunca permite garantias absolutas.
Mas Túlio pensava diferente.
Segundo os relatos, ele afirmava publicamente que o Botafogo seria campeão — algo que poucos tinham coragem de dizer naquele momento.
A preocupação com o Santos e o “presente” tático da final
Do outro lado estava um Santos embalado por uma campanha impressionante. A equipe paulista vinha de uma recuperação histórica diante do Fluminense, revertendo uma derrota pesada e avançando de forma contundente.
O atacante Giovanni era a principal ameaça santista e vivia fase espetacular.
Nos bastidores, integrantes do Botafogo admitiram que havia preocupação com o desempenho do camisa 10. Porém, uma mudança tática feita pelo técnico santista acabou facilitando a vida do time carioca.
Segundo os relatos, Giovanni vinha atuando mais recuado, organizando as jogadas e causando enormes dificuldades aos adversários. Na decisão, entretanto, ele foi deslocado para uma função mais avançada, como centroavante.
A alteração reduziu sua influência na criação das jogadas e permitiu ao Botafogo controlar melhor o jogo.
O velho Maracanã e a atmosfera da decisão
Outro trecho marcante das lembranças de Autuori envolve o antigo Estádio do Maracanã.
Os jogadores destacaram a atmosfera única do “Velho Maraca”, completamente diferente do estádio moderno atual. A descida para o gramado, a pressão das arquibancadas e o ambiente popular do estádio criavam um cenário quase intimidador.
Naquele contexto, o zagueiro Gonçalves também teve papel importante ao reforçar a confiança do elenco antes da decisão.
Paulo Autuori relembra desconfiança e salários atrasados
O técnico Paulo Autuori também relembrou as dificuldades enfrentadas durante a campanha.
Segundo ele, quando chegou ao Botafogo, o cenário era extremamente complicado. O clube treinava no Estádio Caio Martins, muitas vezes em condições improvisadas, enquanto o campo principal passava por reformas.
Além disso, o elenco convivia com salários atrasados e pouca confiança externa.
Autuori destacou que o time não era tratado como favorito em nenhuma competição. A construção da campanha aconteceu gradualmente, baseada principalmente na formação de um ambiente forte internamente.
O treinador ressaltou que a unidade do grupo foi determinante para o sucesso.
“Gestão de pessoas”: o segredo daquele Botafogo
Ao analisar o trabalho realizado em 1995, Autuori afirmou que o principal desafio de um treinador vai muito além da parte tática.
Para ele, a gestão humana era o verdadeiro diferencial daquele elenco.
O técnico explicou que o grupo era constantemente testado emocionalmente. Qualquer incoerência entre discurso e prática poderia destruir a confiança dos jogadores.
Segundo Autuori, o treinador precisava tratar com atenção não apenas os titulares, mas também aqueles que ficavam no banco ou sequer eram relacionados.
Ele comparou essa realidade com o futebol atual, em que os elencos são divididos informalmente em grupos:
G1: os titulares;
G2: os reservas utilizados com frequência;
G3: os jogadores pouco aproveitados ou fora das listas de jogos.
Na visão do treinador, administrar esses diferentes níveis de participação se tornou ainda mais complexo no futebol moderno.
O legado do time bicampeão de 1995
A campanha do Botafogo no Brasileiro de 1995 permanece viva justamente porque transcende o resultado esportivo.
Foi a história de um elenco desacreditado que encontrou força na coletividade, na lealdade interna e na confiança construída ao longo da caminhada.
Paulo Autuori elogiou a escola de técnicos portugueses
Paulo Autuori relembra trajetória internacional, influência portuguesa e bastidores com Abel Ferreira, José Mourinho e Luís Castro
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Paulo Autuori foi técnico do Marítimo entre 1993 à Junho de 1995 |
Antes de ter ido para o Marítimo, Autuori também treinou o Nacional da Madeira (1987-1989) e o Vitória de Guimarães entre 1990 à 1993.
Com mais de 51 anos dedicados ao futebol, o técnico Paulo Autuori abriu o jogo sobre sua trajetória internacional, a evolução dos treinadores portugueses e os bastidores de nomes que hoje brilham no futebol mundial, como José Mourinho, Abel Ferreira e Luís Castro. Para Bruno Cantarelli e Beto Júnior, na sequência de sua entrevista ao Charla Podcast durante a FutPro Expo 2026, em Fortaleza/Ceará.
Em uma conversa recheada de histórias, reflexões e memórias, Autuori detalhou seus 27 anos de trabalho fora do Brasil, falou sobre o preconceito contra técnicos brasileiros no exterior e explicou como acompanhou de perto a transformação da escola portuguesa de treinadores.
“São 51 anos de bola”
Ao ser questionado sobre sua vasta experiência internacional, Paulo Autuori relembrou a dimensão de sua trajetória no futebol.
“Acho que você é o treinador brasileiro que mais teve essa experiência internacional.”
Autuori respondeu:
“É, o Paulo por mais tempo, pelo menos. Trabalhei 27 anos fora do Brasil comentaram Cantarelli e Beto Júnior. Completei esse ano 51 anos de bola.”
O treinador explicou que sua caminhada começou cedo, ainda em 1975, na Associação Atlética Portuguesa, tradicional Portuguesa da Ilha do Governador.
“Desde 75 comecei cedo na Portuguesa do Rio de Janeiro. Portuguesa da Ilha, minha queridinha portuguesa.”
Segundo ele, ao longo dessas cinco décadas, praticamente não houve interrupções na carreira.
“Sem parar. Fiquei três meses parado porque forcei uma barra para dar um tempo mesmo.”
Dos 51 anos de futebol, 27 foram dedicados ao trabalho fora do Brasil.
Qatar, Peru e o trabalho de base
Autuori relembrou sua passagem pelo futebol do Catar, onde trabalhou tanto em clubes quanto na seleção nacional.
“Entre coordenação e direção, diretamente como treinador, seleção do Peru, seleção do Catar.”
O técnico revelou que permaneceu quase sete anos no país árabe.
“Fiquei quase sete anos porque fui para um clube e fiquei quatro anos e meio nesse clube.”
Durante a passagem, destacou um aspecto que considera fundamental em sua filosofia de trabalho: a valorização das categorias de base.
“Uma das coisas que eu sempre gostei de fazer: todos os clubes que eu passei, sem exceção, coloquei algum jogador da base para jogar. Sangue do clube.”
Segundo ele, essa prática não era comum no futebol catari.
“No Al-Rayyan eu fiz isso. Não era normal no Catar colocar jogador jovem para jogar.”
O trabalho chamou atenção da federação local.
“Aí me convidaram para a seleção olímpica. Depois fui para a principal.”
Autuori explicou ainda que nunca recebeu convites diretamente para seleções sem antes construir trabalhos sólidos em clubes.
“Jamais saí direto para uma seleção. Foram os trabalhos que fiz que me levaram a ser convidado.”
A experiência no Peru
No Peru, o treinador também construiu sua trajetória a partir de clubes.
“Trabalhei no clube e fui para o Peru.”
Segundo ele, a oportunidade surgiu durante o centenário do Club Alianza Lima.
“Era o centenário do Alianza. Eram 100 anos, tinham que ganhar.”
O trabalho deu resultado.
“As coisas correram bem. Ganhamos.”
Depois disso, voltou ao Brasil, mas logo recebeu convite do Sporting Cristal para um projeto de reconstrução.
“O Cristal me convida para um projeto de dois anos. Não ganhava campeonato havia seis anos.”
Mais uma vez, os resultados apareceram rapidamente.
“As coisas correram bem também. Ganhamos.”
Ao fim da temporada, veio o convite da seleção peruana.
“A federação me convida. E o Cristal entendeu e me liberou.”
“Fui treinador de seleção do terceiro mundo do futebol”
Ao falar sobre o mercado internacional, Autuori fez uma análise franca sobre o espaço ocupado por técnicos brasileiros fora da elite europeia.
“Eu fui treinador de seleção do terceiro mundo do futebol.”
Apesar da expressão forte, ele explicou que tratava apenas da realidade estrutural do futebol nesses países.
“Não vamos fugir da realidade. Isso para mim está muito claro.”
O treinador também comentou as dificuldades históricas dos brasileiros para entrar no mercado europeu.
A transformação dos treinadores portugueses
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Abel Ferreira, José Mourinho e Luís Castro - Foto Reprodução |
Durante a entrevista, Autuori explicou que acompanhou de perto a evolução da escola portuguesa de treinadores.
Segundo ele, houve uma transformação profunda na maneira como o futebol passou a ser estudado em Portugal.
“Eu vivi a transição dos treinadores portugueses de uma altura mais empírica para o que é hoje, acadêmico.”
Para ele, o ponto de virada aconteceu quando as universidades começaram a se aproximar do futebol.
“O que aconteceu foi que as universidades abriram os portões para o futebol e começaram a pensar o futebol.”
Autuori destacou que sempre acreditou que o jogo precisava ser interpretado também pelo contexto humano e social.
“Você não pode pensar o futebol sem entender a parte social e antropológica.”
Segundo ele, compreender o ambiente onde se trabalha é essencial.
“Você tem que saber onde está inserido e ter repertório para variar a maneira como quer aplicar as coisas.”
Mourinho, periodização tática e a escola portuguesa
Ao abordar a evolução metodológica do futebol português, Autuori citou a famosa “periodização tática”, conceito associado ao professor Vítor Frade.
“Começou com Vítor Frade.”
Ele explicou que, segundo o próprio criador do método, ninguém consegue aplicar a teoria em sua forma absolutamente pura.
“Ninguém implementa a periodização tática na origem pura porque é impossível.”
O treinador também falou sobre o crescimento da influência de José Mourinho nesse processo.
“O Mourinho começou a dar visibilidade.”
Autuori revelou ainda bastidores curiosos da relação entre universidades portuguesas e Mourinho.
“Havia uma rivalidade da Universidade do Porto com a de Lisboa. O Mourinho é mais ligado ao professor Manuel Sérgio.”
“Conheci o Mourinho tradutor”
Autuori contou que conheceu Mourinho antes mesmo de ele se tornar treinador famoso.
“Conheci o Mourinho quando ele era tradutor.”
O português trabalhou como intérprete do técnico inglês Bobby Robson.
“Ele foi tradutor do Bob Robson no Barcelona.”
Segundo Autuori, foi nesse período que Mourinho começou a entrar de vez no futebol profissional.
A chegada a Portugal e a influência de Marinho Peres
Autuori também relembrou o início de sua trajetória em Portugal ao lado de Marinho Peres.
“Eu fui para Portugal em 86.”
Na época, ele trabalhava nas categorias de base do Botafogo.
“No primeiro semestre de 86 eu estava no juvenil do Botafogo.”
A mudança aconteceu após convite de Marinho para trabalhar como auxiliar técnico.
“Fui para lá com o Marinho como auxiliar dele.”
Segundo Autuori, a parceria foi determinante para sua formação profissional.
“Aprendi muito com ele.”
O projeto no Nacional da Ilha da Madeira
Depois da experiência como auxiliar, surgiu a chance de assumir o Clube Desportivo Nacional.
“O Nacional da Ilha da Madeira nunca tinha estado na primeira divisão.”
Inicialmente, o plano era um projeto de dois anos.
“Só que no primeiro ano a gente subiu.”
A partir dali, sua carreira como treinador principal ganhou força internacionalmente.
Abel Ferreira estreando contra o Porto
Durante a entrevista, Autuori revelou bastidores da chegada de Abel Ferreira ao futebol profissional.
“O Abel foi comigo. Fui buscar no Penafiel.”
Segundo ele, foi o responsável por promover a estreia do atual treinador do Palmeiras.
“O Abel conta no livro dele que fiz ele estrear contra o Porto.”
Autuori relembrou o diálogo antes da partida.
“Chamei ele na sala e falei: ‘Quer jogar? Está preparado? Então vai jogar.’”
O técnico também contou que cobrava muito dos laterais, especialmente no aspecto de posicionamento e leitura de jogo.
“Eu pegava muito no pé dele.”
Luís Castro e a obsessão pelo trabalho
Outro nome citado foi Luís Castro.
“O Castro era jogador quando o Marinho era treinador.”
Segundo Autuori, Luís Castro já demonstrava dedicação extrema ao futebol naquela época.
“Ele era um cara muito preocupado em entender as coisas, inteligente.”
Para o treinador brasileiro, o sucesso atual do português não acontece por acaso.
“Ele não faz o trabalho que faz à toa.”
Elogios e críticas a Abel Ferreira
Autuori também comentou o estilo intenso de Abel Ferreira à beira do campo.
“Exagera algumas coisas de reclamação.”
Mas fez questão de destacar o nível do trabalho realizado pelo treinador português.
“A quantidade de títulos dele… isso aí é obra. Não é para qualquer um.”
Paulo Autuori também falou do seu principal título na carreira, o Mundial de Clubes 2005 vencido pelo São Paulo com gol de Mineiro contra o badalado Liverpool de Steven Gerrard, Fernando Morientes, Xabi Alonso e outras estrelas.
O título mundial do São Paulo Futebol Clube sobre o Liverpool FC em 2005 segue como uma das maiores páginas da história do futebol brasileiro. Mais de duas décadas depois, os bastidores daquela conquista continuam revelando detalhes impressionantes sobre estratégia, desgaste físico, inteligência tática e superação.
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Rogério Ceni eleito o melhor jogador do Mundial De Clubes 2005 da FIFA, cumprimenta Steve Gerrard, vice-campeão e segundo melhor jogador daquele torneio em 18/12/2005 - REUTERS/Issei Kato |
Nesta entrevista, relembrando a campanha histórica, o técnico Paulo Autuori falou de detalhes de como o São Paulo conseguiu neutralizar um Liverpool considerado praticamente imbatível naquele momento da temporada europeia.
Um São Paulo exausto antes da final
Autuori explicou que o elenco tricolor chegou ao Japão extremamente desgastado fisicamente. Segundo ele, alguns atletas acumulavam quase 80 partidas na temporada.
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A defesaça de Rogério Ceni após cobrança de falta de Steven Gerrard que garantiu o título, do São Paulo contra o Liverpool no Estádio Yokohama - Foto/Reprodução FIFA |
O treinador lembrou que o goleiro Rogério Ceni chegou à decisão com impressionantes 82 jogos disputados, considerando também amistosos. Isso porque o São Paulo havia iniciado o ano sob o comando de Emerson Leão no Campeonato Paulista antes da chegada de Autuori.
Jogadores como Fabão, Diego Lugano, Júnior, Mineiro, Josué e Danilo também acumulavam uma sequência pesada de partidas.
Enquanto isso, o Liverpool chegava muito mais descansado com jogadores já tendo feito a pré-temporada europeia. Autuori destacou que a equipe inglesa vinha de uma sequência defensiva impressionante e praticamente não sofria gols, num sistema defensivo composto por Steve Finnan, Jamie Carragher, Sami Hyypiä e Stephen Warnock.
A leitura tática que desmontou o Liverpool
Mesmo reconhecendo a força do time inglês, Autuori afirmou que enxergava espaços claros para o São Paulo explorar.
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Paulo Autuori então técnico do São Paulo em 18/12/2005 - Foto Reprodução: TV GLOBO |
Segundo ele, o Liverpool defendia de forma extremamente compacta, mas sem grande intensidade física na pressão. Foi aí que surgiu a chave do plano brasileiro.
O treinador contou que conversou diretamente com Cicinho, Júnior e Mineiro, apontando que eles seriam fundamentais para quebrar a primeira linha de marcação inglesa.
A estratégia consistia em atrair a pressão adversária para então acelerar as jogadas pelos espaços deixados às costas do meio-campo e da última linha defensiva do Liverpool.
Autuori explicou que, quando os laterais ou volantes do Liverpool saíam para pressionar, os jogadores do São Paulo tinham capacidade técnica para “escapar” da marcação e criar superioridade numérica imediatamente.
Esse movimento abriu o caminho para o gol do título.
O gol histórico de Mineiro
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Carlos Luciano da Silva, o Mineiro do São Paulo FC comemora o seu gol, enquanto Momo Sissouko olha para o lado Foto: Reuters |
Aos 27 minutos do primeiro tempo, o volante Carlos Luciano ¨Mineiro¨ da Silva apareceu de surpresa se infiltrando na retaguarda da marcação de Jamie Carragher e Sami Hyypiä após grande jogada construída pelo lado direito.
Autuori revelou que imaginava justamente uma infiltração surpresa de Mineiro ou Josué naquele setor. O que ele não esperava era a genialidade da assistência de Aloísio Chulapa.
O treinador brincou dizendo que “baixou o Ronaldinho Gaúcho” em Chulapa no momento do passe decisivo, fazendo referência à assistência de trivela que desmontou a defesa do Liverpool.
O lance terminou com Mineiro finalizando para marcar o único gol da decisão e eternizar seu nome na história do clube.
Rogério Ceni teve atuação histórica
Se o ataque foi eficiente, a defesa são-paulina precisou resistir à enorme pressão inglesa durante boa parte da partida.
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O mato-grossense de Sinop, Rogério Ceni estava numa noite inspirada em Tóquio - Foto: Reuters |
Autuori destacou que Rogério Ceni realizou uma das maiores atuações de sua carreira. O goleiro foi decisivo com várias defesas difíceis, garantindo o placar até o apito final.
Além disso, o treinador elogiou o desempenho aéreo de Fabão, Lugano e Edcarlos, fundamentais para neutralizar as bolas levantadas na área.
O São Paulo havia treinado especificamente para enfrentar o jogo aéreo inglês, especialmente pela possibilidade de utilização de atacantes fortes fisicamente como Peter Crouch, que entrou apenas no decorrer da partida.
A força coletiva do elenco campeão
Durante a conversa, Autuori também fez questão de destacar a importância de Luizão na campanha da Copa Libertadores da América de 2005.
O treinador relembrou uma conversa que teve com o atacante ao chegar no São Paulo. Na ocasião, pediu que Luizão retomasse a intensidade e a movimentação que apresentava nos tempos de Vasco da Gama.
Autuori citou especialmente a atuação do atacante diante do River Plate no Monumental de Núñez, em Buenos Aires.
Segundo o treinador, Luizão roubou uma bola no campo defensivo com um carrinho e ainda apareceu segundos depois na área adversária para finalizar a jogada — um exemplo perfeito da entrega física e tática daquele elenco.
A vitória sobre o campeão europeu
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Milan Baroš, Steven Gerrard, John Arnie Riise e Xabi Alonso na linha de frente comemorando o quinto título do Liverpool da Champions League - Foto Reprodução: Getty Images |
O Liverpool chegava ao Mundial embalado pelo histórico título da Liga dos Campeões da UEFA de 2004–05, conquistado na memorável virada contra o AC Milan em Istambul onde o Milan vencia por 3 a 0, tomou o empate de 3 a 3 e perdeu nas penalidades para o Liverpool por 3 a 2, com uma atuação memorável de Jerzy Dudek, naquela noite de 25 de Maio de 2005.
Comandado por Rafael Benítez, o clube inglês era apontado como amplo favorito.
Mas o São Paulo conseguiu executar um jogo praticamente perfeito: compacto, inteligente, disciplinado e extremamente competitivo.
Ao recordar o pós-jogo, Autuori revelou que Benítez deixou o gramado irritado, chutando garrafas de água após a derrota.
O Mundial que eternizou uma geração
A conquista no Japão consolidou um dos maiores times da história do São Paulo. Aquele elenco campeão mundial contava com jogadores que se tornariam ídolos eternos da torcida tricolor.
Além de Rogério Ceni, Lugano, Fabão, Mineiro e Josué, o time ainda tinha nomes como Cicinho, Júnior, Danilo, Aloísio Chulapa, Amoroso e Luizão.
Mais do que vencer o campeão europeu, o São Paulo mostrou que organização tática, leitura de jogo e força coletiva podiam superar qualquer diferença financeira ou estrutural.
O título de 2005 permanece até hoje como a última conquista mundial de um clube brasileiro diante de um europeu — e uma das maiores exibições estratégicas já produzidas por um time sul-americano em uma final intercontinental. Encerrou Autuori.











