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John Textor a figurinha carimbada dos problemas na Eagle Holdings (Foto: Mauro PIMENTEL / AFP) |
O conflito financeiro entre Olympique Lyonnais e Botafogo de Futebol e Regatas ganhou novos capítulos nesta terça-feira (12/5), após o clube francês divulgar um relatório financeiro explosivo envolvendo a rede multiclubes Eagle Football, então comandada por John Textor.
No documento, o Lyon afirma ter €126 milhões — cerca de R$ 727 milhões na cotação atual — a receber do Botafogo e admite já considerar parte significativa do valor como potencialmente irrecuperável devido ao “risco de inadimplência” identificado na SAF carioca.
A revelação aprofunda a crise institucional e financeira dentro do conglomerado Eagle Football e expõe divergências graves entre os clubes administrados pela holding.
O documento expõe ainda uma situação considerada grave internamente pelo Lyon: segundo o clube, John Textor teria emitido garantias financeiras em nome do clube francês e da Eagle Football Holdings BidCo sem consentimento prévio da diretoria francesa para cobrir dívidas assumidas pelo Botafogo e pelo RWDM Brussels.
A revelação aprofunda a crise dentro da rede multiclubes Eagle Football e evidencia o colapso da parceria financeira construída entre os clubes desde 2022.
Lyon admite risco de não recuperar dívida do Botafogo
No relatório financeiro divulgado nesta terça-feira, o Lyon afirma que os créditos ligados ao Botafogo passaram a representar um elevado risco de inadimplência.
O clube francês registrou perdas contábeis de aproximadamente R$ 728 milhões relacionadas aos valores que tem a receber da SAF carioca.
O trecho divulgado pelo Lyon afirma:
“A depreciação, a amortização e provisões líquidas totalizaram R$ 915 milhões em 31 de dezembro de 2025, contra R$ 275 milhões em 2024, incluindo particularmente cerca de R$ 727 milhões em perdas por impairment sobre créditos a receber relacionados ao risco de inadimplência identificado em partes relacionadas.”
Além disso, o Lyon reconheceu uma depreciação estimada em cerca de R$ 496 milhões, indicando que acredita não conseguir recuperar integralmente os valores neste momento.
Na prática, o relatório demonstra que o clube francês já trabalha contabilmente com a possibilidade de calote parcial dentro da estrutura financeira da Eagle Football.
Textor teria usado o Lyon como garantidor de empréstimos do Botafogo
Outro ponto explosivo do documento envolve duas garantias financeiras atribuídas a John Textor.
Segundo o Lyon, as operações foram realizadas sem conhecimento prévio da diretoria francesa e não haviam sido divulgadas em demonstrações financeiras anteriores.
O clube afirma que as garantias foram emitidas em nome da OL SASU — subsidiária do Lyon — para assegurar obrigações financeiras do Botafogo.
Primeira garantia
A primeira operação teria sido emitida em março de 2024 em favor de uma empresa de factoring ligada a um clube que negociou um jogador com o Botafogo.
Embora o relatório não revele o nome do atleta ou da equipe envolvida, o documento sugere que o Lyon foi colocado como avalista indireto da transação.
Segunda garantia
Já a segunda garantia, datada de abril de 2025, é considerada ainda mais delicada.
Segundo o Lyon, a OL SASU foi colocada como fiadora de um empréstimo contratado diretamente pela SAF Botafogo.
O relatório descreve a operação da seguinte forma:
“Com base nas informações atualmente disponíveis, trata-se aparentemente de uma garantia sob legislação inglesa assinada pela OL SASU em favor da mesma instituição financeira da operação anterior, desta vez atuando como credora do Botafogo SAF.”
O empréstimo citado tinha valor máximo inicial de aproximadamente R$ 173 milhões, enquanto o credor reservou-se o direito de exigir até cerca de R$ 85 milhões diretamente do Lyon.
Botafogo também cobra R$ 745 milhões do Lyon na Justiça
Apesar das acusações feitas pelo clube francês, o Botafogo também move uma ofensiva judicial contra o Lyon.
Em abril, a SAF ingressou com duas ações na Justiça do Rio de Janeiro cobrando mais de R$ 745 milhões do clube francês.
Segundo o Botafogo, os valores se referem a empréstimos internos, transferências financeiras e operações realizadas dentro do sistema integrado de caixa da Eagle Football.
O clube carioca afirma que o Lyon rompeu unilateralmente o acordo de colaboração financeira firmado entre os integrantes da rede multiclubes e deixou de realizar repasses considerados fundamentais para o fluxo de caixa da SAF.
Botafogo afirma ter ajudado a salvar o Lyon da crise
O modelo de colaboração financeira começou após o Botafogo entrar oficialmente na Eagle Football em 2022.
Naquele mesmo ano, a rede adquiriu o Lyon, que atravessava uma das maiores crises financeiras de sua história, enfrentando risco de insolvência e forte pressão bancária.
Segundo o Botafogo, recursos enviados pelo clube brasileiro ajudaram diretamente na recuperação financeira do Lyon, que posteriormente conseguiu evitar o rebaixamento e garantiu vaga na Europa League.
Ao mesmo tempo, o sistema compartilhado da Eagle Football também teria contribuído para o crescimento esportivo do Botafogo, culminando nas conquistas da Libertadores e do Campeonato Brasileiro de 2024.
Ruptura interna abalou a Eagle Football
A relação entre os clubes começou a ruir após conflitos internos entre acionistas da Eagle Football.
De acordo com o Botafogo, a nova presidência do Lyon rompeu unilateralmente o acordo financeiro firmado entre os integrantes da rede.
A interrupção dos repasses afetou diretamente o planejamento da SAF Botafogo, dificultando renovações contratuais e operações no mercado de transferências.
A crise gerou ainda consequências esportivas: no fim de 2025, o Botafogo sofreu punição da Fifa e ficou impedido temporariamente de registrar novos jogadores.
Enquanto isso, o Lyon também acumula pendências financeiras com outro integrante da Eagle Football, o RWDM Brussels, em uma dívida estimada em cerca de R$ 69 milhões.
— Essa garantia assegura o mesmo empréstimo como um suposto crédito, cedido em garantia pelo Botafogo ao mesmo beneficiário, relacionado a valores devidos em razão de transferências de jogadores entre Botafogo e OL que nunca chegaram a ocorrer.
O clube francês também afirma não ter sido notificado de quaisquer disputas legais contra o Botafogo na Justiça do Rio. Em abril, a Justiça determinou que o Lyon pagasse R$ 122 milhões em até três dias.

