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Ex-controlador da SAF Botafogo, John Charles Textor - (Foto: Thiago Ribeiro/Agif/Gazeta Press) |
O ambiente político e administrativo do Botafogo voltou a entrar em ebulição nesta terça-feira (24/6). Embora o empresário Norte-americano John Textor tenha afirmado que está retomando o controle da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) alvinegra após uma decisão judicial favorável, uma Assembleia Geral realizada virtualmente reafirmou Eduardo Hahn Iglesias como responsável pela gestão da companhia.
O episódio evidencia o cenário de disputa jurídica e societária que envolve o controle do futebol botafoguense e amplia a divergência de interpretações entre Textor, o clube social e os representantes da Eagle Football Holdings BidCo Limited.
Assembleia ratifica Iglesias no comando
A reunião contou com a participação de 100% do capital votante da SAF, representado pelo clube social do Botafogo, detentor de 10% das ações, e pela Eagle BidCo, controladora dos outros 90%.
Durante a Assembleia, foi ratificada a decisão do juiz Marcelo Mondego de Carvalho Lima, da 2ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro, que havia determinado a permanência de Eduardo Iglesias como administrador societário único da SAF.
Nos bastidores, o entendimento predominante entre os participantes da reunião é que a recente decisão favorável a Textor não teria força para revogar atos posteriores relacionados ao processo de recuperação judicial da SAF.
A avaliação é que existem decisões judiciais posteriores e deliberações societárias que mantêm válida a estrutura administrativa atualmente em vigor, com Iglesias à frente da operação.
Bastidores apontam continuidade da gestão atual
Fontes ligadas ao processo afirmam que, na prática, o funcionamento cotidiano da SAF não sofreu alterações após a decisão que beneficiou Textor.
Relatos internos indicam que Eduardo Iglesias continua conduzindo as principais decisões administrativas e financeiras do clube, enquanto não houve qualquer transição efetiva de comando.
Pessoas envolvidas diretamente nas discussões sustentam que a estratégia adotada por Textor estaria provocando insegurança jurídica em um momento considerado crucial para o futuro societário da SAF.
Segundo essa visão, a multiplicação de disputas judiciais poderia dificultar a chegada de novos investidores interessados no projeto do clube.
Clube social prepara ofensiva jurídica
O clima entre as partes também se deteriorou nos bastidores.
Fontes ligadas ao clube social revelam que está em preparação uma ação criminal contra John Textor. A medida buscaria responsabilizar o empresário por decisões tomadas durante sua gestão à frente da SAF.
Embora os detalhes da eventual ação ainda não tenham sido divulgados oficialmente, o movimento amplia o nível de tensão entre os grupos que disputam influência sobre os rumos do futebol botafoguense.
João Paulo segue nos Estados Unidos e reforça confiança na venda para a GDA Luma
Enquanto a disputa jurídica segue nos tribunais, o presidente do clube social, João Paulo Magalhães, permanece nos Estados Unidos acompanhando de perto as negociações envolvendo o futuro da SAF alvinegra.
Nos últimos dias, o dirigente participou de reuniões em Nova York com Gabriel de Alba e advogados da GDA Luma, grupo que assinou contrato vinculante para aquisição das ações da SAF atualmente controladas pela Eagle.
Segundo pessoas próximas às tratativas, o encontro serviu para alinhar os últimos detalhes da operação e discutir os próximos passos para a conclusão da venda.
João Paulo demonstrou confiança de que o processo está avançando e voltou a descartar qualquer possibilidade de retorno de John Textor ao comando do futebol botafoguense.
— Ele não volta. Já temos uma AGE com a Eagle. Ele só quer tumultuar — afirmaram lideranças do Botafogo Social.
O dirigente também declarou que "as coisas estão andando" e que "podemos ter novidades em breve", em referência ao andamento das negociações envolvendo a transferência do controle acionário da SAF.
Nos bastidores, a expectativa segue sendo de que a venda para a GDA Luma seja concluída nas próximas semanas, consolidando o alinhamento entre o clube social e a Eagle BidCo.
João Paulo ainda reforçou que pretende permanecer nos Estados Unidos até que todos os detalhes estejam resolvidos.
Segundo interlocutores, o presidente do Botafogo só retornará ao Brasil quando houver uma definição sobre a conclusão da operação envolvendo a venda das ações da SAF.
Paralelamente às negociações da venda, também estão em andamento conversas com o Olympique Lyonnais para o reembolso de valores que o clube francês ainda deve ao Botafogo, tema considerado relevante para a reorganização financeira da SAF durante o processo de transição societária.
A posição defendida pelo clube social é de que as decisões da recuperação judicial, a ratificação de Eduardo Iglesias pela Assembleia e o avanço das negociações com a GDA Luma tornam inviável qualquer tentativa de retorno imediato de Textor ao comando da SAF, apesar das recentes manifestações do empresário e de sua interpretação sobre as decisões judiciais.
Venda para a GDA segue como prioridade
Internamente, a Assembleia foi interpretada como mais um passo no alinhamento entre o clube social e a Eagle BidCo.
A expectativa continua sendo a conclusão da venda das ações para a GDA, grupo que já assinou contrato vinculante para aquisição da participação atualmente controlada pela Eagle.
Pessoas próximas às negociações acreditam que a operação poderá ser concluída nas próximas semanas, consolidando uma nova estrutura de controle para a SAF.
Textor reage e promete investimento imediato
Apesar da posição adotada pela Assembleia, John Textor apresentou uma interpretação completamente diferente do cenário.
Em nota enviada à imprensa, o empresário afirmou que a Justiça determinou sua reintegração à liderança da SAF e declarou que já iniciou contatos com executivos e advogados para reorganizar a administração do clube.
Além disso, anunciou a intenção de promover um investimento imediato de US$ 25 milhões (aproximadamente R$ 130 milhões) na SAF.
Segundo Textor, esse aporte inicial seria posteriormente complementado por mais US$ 50 milhões (cerca de R$ 261 milhões) provenientes de uma grande organização europeia do futebol.
Somados, os investimentos alcançariam US$ 75 milhões, valor equivalente a aproximadamente R$ 391 milhões na cotação atual.
Em sua manifestação, o empresário também acusou dirigentes do clube social de interferirem em negociações com potenciais financiadores da SAF.
Textor afirmou que pretende agir para interromper o que classificou como tentativas de obstrução ao financiamento do clube e defendeu uma mudança de postura por parte da direção do associativo.
Tribunal de Justiça esclarece alcance da decisão
Poucas horas após as declarações de Textor, o Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro emitiu um esclarecimento considerado decisivo para a interpretação do caso.
O desembargador Luiz Eduardo Canabarro esclareceu que a decisão que suspendeu parcialmente os efeitos de medidas arbitrais contra Textor não produz, automaticamente, sua recondução ao comando da SAF.
Segundo o magistrado, a liminar concedida ao empresário atinge exclusivamente determinações oriundas da Câmara de Arbitragem da Fundação Getulio Vargas.
Dessa forma, permanecem válidas as decisões tomadas posteriormente no âmbito da recuperação judicial e as deliberações societárias que resultaram na nomeação de Eduardo Iglesias como gestor da companhia.
Recuperação judicial continua preservada
O tribunal também ressaltou que a recuperação judicial da SAF não sofre qualquer impacto com a decisão favorável a Textor.
Entre os atos preservados estão:
A suspensão dos direitos políticos da Eagle;
A nomeação de gestor temporário;
A posterior indicação de Eduardo Iglesias para administrar a SAF;
As deliberações societárias aprovadas durante o processo de recuperação judicial.
Na avaliação do desembargador, todos esses atos coexistem juridicamente com a liminar obtida por Textor.
Assim, eventuais obstáculos para o retorno do empresário à administração do clube não decorrem apenas das decisões arbitrais que foram suspensas.
Caminho jurídico ainda é longo
Na prática, o entendimento do Tribunal de Justiça é que John Textor não reassumiu automaticamente a gestão da SAF.
Caso pretenda contestar sua exclusão dos cargos administrativos, o empresário precisará atacar especificamente as decisões societárias e judiciais que sustentam a atual estrutura de governança.
O desembargador também destacou que questionamentos sobre a validade dos atos arbitrais devem ser inicialmente analisados pela 7ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro, onde tramita a ação anulatória proposta por Textor.
Cenário permanece indefinido
O episódio desta quarta-feira deixa evidente que a disputa pelo controle da SAF do Botafogo está longe de um desfecho.
De um lado, John Textor sustenta que voltou ao comando da companhia e promete um aporte financeiro expressivo para fortalecer o clube.
Do outro, clube social, Eagle BidCo e os administradores da recuperação judicial afirmam que Eduardo Iglesias permanece legitimamente à frente da gestão e que nenhuma mudança prática ocorreu após a recente decisão judicial.
Enquanto novas batalhas jurídicas são travadas nos tribunais, o futuro administrativo da SAF segue indefinido, transformando o Botafogo em um dos casos societários mais complexos e relevantes do futebol brasileiro contemporâneo.



