Com Rodrigo Bellão, Botafogo se aproxima dos 100 jogos com técnicos estreantes ou interinos no comando, durante ERA SAF desde 2022


Rodrigo Dias Bellão em jogo do Brasileirão Sub-20 em 2025 - Foto: Wallace Lima/Botafogo



Desde a implementação da Sociedade Anônima do Futebol (SAF), em 2022, o Botafogo convive com uma intensa rotatividade no comando técnico. Em pouco mais de quatro anos, o clube já recorreu a 13 treinadores, entre profissionais com carreira consolidada, estreantes e interinos — uma média próxima de três nomes por temporada segundo levantamento de O GLOBO


Mas, além da quantidade de mudanças, outro dado chama atenção: a frequência com que o Botafogo entrega o comando da equipe a profissionais em início de trajetória ou chamados para assumir provisoriamente.


Com Rodrigo Bellão, atualmente à frente do time após sair do sub-20, o clube chegou a 98 partidas comandadas por técnicos interinos ou estreantes desde o início da era SAF. O número corresponde a aproximadamente 32% dos 305 jogos disputados pelo Botafogo no período analisado, que vai de Botafogo 1 x 3 Corinthians, em 10 de abril de 2022, primeiro compromisso do clube como SAF, até a derrota por 3 a 2 para o Athletico-PR, em 24 de agosto de 2026.


Caso Bellão permaneça no cargo, como vem sendo indicado pela ausência, até o momento, de negociação por um novo treinador, a marca de 100 partidas deverá ser alcançada justamente em uma sequência de enorme dificuldade: os confrontos com Flamengo e Palmeiras, vice-líder e líder do Campeonato Brasileiro, respectivamente.


Foto Reprodução  - Editoria de Arte de O GLOBO


Quase um terço dos jogos nas mãos de interinos ou estreantes

O levantamento mostra que sete profissionais se encaixam no grupo de treinadores interinos ou estreantes que comandaram o Botafogo na era SAF.


São eles os interinos Cláudio Caçapa, Lúcio Flávio, Fábio Matias, Carlos Leiria e Rodrigo Bellão, além dos treinadores em primeira experiência como comandantes principais, Franclim Carvalho e Davide Ancelotti.


Juntos, eles somam 98 partidas, com:

46 vitórias

22 empates

30 derrotas

54,4% de aproveitamento


É um volume expressivo para um clube que, especialmente a partir de 2023, passou a trabalhar com elencos mais caros e com metas esportivas cada vez mais ambiciosas.


Na prática, quase um em cada três jogos do Botafogo na era SAF foi comandado por alguém que não tinha uma carreira consolidada como treinador principal ou que assumiu a equipe de maneira provisória.


O contraste fica ainda mais evidente quando se observa o período posterior à saída de Artur Jorge, campeão brasileiro e da Libertadores pelo clube em 2024. Desde então, apenas dois nomes com trajetória estabelecida como técnicos principais passaram pelo cargo: Renato Paiva, em 2025, e Martín Anselmi, no início de 2026.


Bellão e a marca dos 100 jogos

Rodrigo Bellão representa o capítulo mais recente dessa história.


Originalmente integrante da estrutura do sub-20, ele foi resgatado para assumir novamente o time principal após a demissão de Franclim Carvalho, no dia 18 de agosto. Esta é sua terceira passagem como interino do Botafogo em 2026.


Bellão havia sido acionado anteriormente para tentar reagir à derrota por 6 a 1 para o Cienciano, pela Copa Sul-Americana. No jogo de volta, no Estádio Nilton Santos, o Botafogo venceu por apenas 1 a 0 e não conseguiu reverter o cenário criado na altitude de Cusco, no Peru.


Agora, a missão é ainda mais pesada. O treinador terá pela frente uma sequência contra equipes que ocupam as primeiras posições do Campeonato Brasileiro. Antes disso, o Botafogo já sofreu um duro revés diante do Athletico-PR, terceiro colocado, por 3 a 2, no Nilton Santos.


Se Bellão seguir à frente da equipe, os próximos compromissos devem colocar oficialmente o grupo de interinos e estreantes na marca simbólica de 100 jogos na era SAF.


Mais do que uma estatística, o número expõe uma característica estrutural do projeto: a dificuldade do Botafogo em estabelecer uma continuidade prolongada no comando técnico.


Franclim Carvalho: 22 jogos e uma passagem relâmpago

A mudança mais recente ocorreu com Franclim Carvalho, que havia iniciado sua trajetória como treinador principal justamente no Botafogo.


Português e ex-auxiliar de Artur Jorge, Carvalho fazia parte da comissão técnica que conquistou o Campeonato Brasileiro e a Libertadores em 2024. Em abril de 2026, recebeu a oportunidade de iniciar sua carreira como comandante.


A experiência, entretanto, durou apenas 22 jogos.


A goleada por 6 a 1 para o Cienciano, em Cusco, acabou sendo a pá de cal sobre o trabalho. Pouco depois, o clube optou pela demissão e novamente recorreu a uma solução interna, desta vez com Bellão.


Franclim foi o segundo treinador estreante escolhido no projeto de John Textor. O primeiro havia sido Davide Ancelotti.


Davide Ancelotti: a segunda aposta em um estreante

Filho de Carlo Ancelotti, Davide iniciou sua trajetória como treinador principal no Botafogo depois de quase uma década trabalhando como auxiliar do pai.


Sua experiência havia passado por grandes clubes europeus, como Bayern de Munique, Everton, Napoli e Real Madrid. Aos 35 anos, recebeu a primeira oportunidade de comandar uma equipe profissional de forma efetiva.


A chegada ocorreu após a saída de Renato Paiva e a eliminação do Botafogo para o Palmeiras nas oitavas de final do Mundial de Clubes de 2025.


O trabalho de Davide teve momentos positivos. O italiano encerrou sua passagem pelo clube com uma sequência de dez partidas de invencibilidade. Ainda assim, sua saída acabou marcada por um conflito com a diretoria.


O treinador deixou o Botafogo após discordar da decisão de demitir Luca Guerra, preparador físico de sua comissão técnica.


A aposta, portanto, também não resultou em uma permanência de longo prazo.


O histórico dos interinos é ainda maior

Se a presença de estreantes chama atenção, a utilização de treinadores interinos é ainda mais recorrente na história recente do Botafogo.


Um dos episódios mais marcantes aconteceu em 2023, quando Lúcio Flávio assumiu a equipe durante a crise do Campeonato Brasileiro. O clube havia construído uma enorme vantagem na liderança, mas entrou em uma espiral de resultados negativos na reta final da competição.


Lúcio Flávio esteve no banco em algumas das partidas mais emblemáticas daquele colapso, incluindo as derrotas por 4 a 3 para Palmeiras e Grêmio, ambas de virada, no segundo turno.


A experiência não foi suficiente para estabilizar a equipe, que acabou perdendo força na reta decisiva do campeonato.


Carlos Leiria assumiu o campeão brasileiro e da Libertadores

Outro episódio emblemático ocorreu no início de 2025.


Depois da saída de Artur Jorge, o Botafogo decidiu entregar a equipe a Carlos Leiria, então técnico do sub-20. O desafio era enorme: Leiria recebeu um elenco que havia acabado de conquistar o Campeonato Brasileiro e a Copa Libertadores.


O início da temporada também reservava duas decisões importantes. O Botafogo disputaria a Supercopa do Brasil contra o Flamengo e a Recopa Sul-Americana contra o Racing.


A solução provisória, entretanto, não funcionou como esperado. Já em fevereiro, o clube havia recorrido a outro profissional para a disputa da Recopa: Cláudio Caçapa, novamente no papel de interino.


O Botafogo acabou sem os dois títulos que estavam em disputa no começo daquele ano.


Na visão de John Textor, contudo, a temporada ainda teria seu início efetivo em abril, com o começo das campanhas no Brasileirão e na Libertadores.


Caçapa foi o "bombeiro" mais eficiente

Nem todas as experiências com interinos foram negativas.


Cláudio Caçapa protagonizou, em 2023, a passagem mais eficiente de um técnico provisório pelo Botafogo na era SAF.


Após a saída de Luís Castro e antes da chegada de Bruno Lage, Caçapa foi chamado para assumir a equipe em caráter emergencial. O efeito foi imediato: foram quatro vitórias em quatro partidas, com o Botafogo mantendo uma vantagem confortável na liderança do Campeonato Brasileiro.


Caçapa deixou o time em situação extremamente favorável antes de passar o comando para Bruno Lage.


O episódio criou uma espécie de referência para a utilização de interinos no clube: quando a troca de treinador ocorre no meio de uma temporada, uma solução interna pode produzir resultados imediatos e permitir uma transição até a chegada de um novo comandante.


O problema, para o Botafogo, é que essa solução temporária passou a aparecer com frequência muito maior do que seria esperado em um projeto de longo prazo.


Fábio Matias também teve passagem positiva

Outro caso de destaque foi o de Fábio Matias.


Em 2024, o profissional assumiu a equipe na fase prévia da Libertadores e conseguiu conduzir o Botafogo à fase de grupos da competição.


Foi uma passagem curta, mas importante. Matias cumpriu a missão para a qual foi escolhido e posteriormente entregou o time a Artur Jorge.


A chegada do português, naquele momento, mudaria definitivamente a trajetória do clube.


Artur Jorge foi a exceção que virou história

A passagem de Artur Jorge é especialmente importante quando se analisa a instabilidade do Botafogo.


O português chegou em 2024 e conseguiu construir o trabalho mais vitorioso da era SAF até então. Sob seu comando, o Botafogo conquistou o Campeonato Brasileiro e a Copa Libertadores no mesmo ano, feito que transformou aquela temporada em um dos capítulos mais importantes da história recente do clube.


Artur Jorge também representa a diferença entre uma solução provisória e a construção de um trabalho consolidado.


Depois de uma sucessão de mudanças, o Botafogo encontrou estabilidade suficiente para transformar um elenco de alto investimento em um time campeão nacional e continental.


A saída do treinador, portanto, abriu novamente uma fase de grande movimentação no comando.


Dois grupos bastante diferentes

Os 305 jogos analisados podem ser divididos em dois grandes grupos.


De um lado, estão os 98 compromissos sob responsabilidade de interinos ou estreantes, com 46 vitórias, 22 empates e 30 derrotas e aproveitamento de 54,4%.


Do outro, estão aproximadamente dois terços da era SAF, comandados por profissionais que já tinham experiência relevante como técnicos principais: Luís Castro, Bruno Lage, Tiago Nunes, Artur Jorge, Renato Paiva e Martín Anselmi.


Esse grupo soma 207 partidas, com:


101 vitórias

49 empates

57 derrotas

56,7% de aproveitamento

A diferença de aproveitamento entre os dois grupos é relativamente pequena: pouco mais de dois pontos percentuais.


Isso mostra que a estatística não pode ser interpretada simplesmente como prova de que interinos ou estreantes tiveram desempenho muito inferior. O principal ponto é outro: a frequência com que o Botafogo precisou recorrer a essas soluções.


Luís Castro foi quem mais permaneceu

Entre os treinadores escolhidos para comandar o projeto SAF, Luís Castro foi o único a completar um ano no clube.


Primeiro técnico contratado por John Textor para liderar o projeto, o português assumiu uma função central na transformação do Botafogo após a mudança de modelo administrativo.


Castro deixou o clube no meio de 2023 para assumir o Al Nassr, da Arábia Saudita, depois de receber o convite para trabalhar com Cristiano Ronaldo.


A saída abriu espaço para a primeira passagem de Caçapa como interino e, posteriormente, para a chegada de Bruno Lage.


Desde então, o Botafogo passou por uma sequência de mudanças que ajuda a explicar o atual número de 13 treinadores.


Uma estatística que simboliza a instabilidade

A marca de 98 jogos de interinos ou estreantes ganha peso quando colocada em perspectiva.


O Botafogo disputou 305 partidas desde o início da era SAF. Em praticamente um terço delas, o responsável pelo time estava estreando como treinador principal ou havia sido escolhido apenas para ocupar o cargo temporariamente.


É uma proporção significativa para um clube que, ao mesmo tempo, passou a operar com investimentos elevados, elencos caros e objetivos esportivos ambiciosos.


A contradição fica ainda mais evidente quando se considera que o período inclui a maior conquista do projeto — os títulos brasileiro e continental de 2024 — e, ainda assim, não houve continuidade prolongada no comando técnico depois da saída de Artur Jorge.


O desafio de Bellão

Agora, Rodrigo Bellão recebe uma tarefa que vai além de tentar somar pontos nas próximas rodadas.


Se permanecer, ele poderá conduzir o Botafogo à simbólica marca de 100 jogos comandados por técnicos interinos ou estreantes na era SAF. E isso acontecerá justamente diante de Flamengo e Palmeiras, adversários que ocupam as duas primeiras posições do Campeonato Brasileiro.


O cenário coloca Bellão diante de uma pressão considerável, mas também oferece uma oportunidade.


Uma boa sequência poderia transformar mais uma solução emergencial em um trabalho de maior duração. Por outro lado, resultados negativos reforçariam o padrão que se tornou recorrente desde 2022: a utilização de um interino, a busca por um novo treinador e o reinício do projeto.


Por enquanto, o dado mais eloquente permanece sendo o número.


98 jogos de 305 — quase um terço da era SAF — foram entregues a treinadores interinos ou estreantes.


Com Flamengo e Palmeiras no horizonte, o Botafogo está a apenas duas partidas de transformar essa estatística em uma marca de três dígitos.


E, mais do que celebrar ou condenar o número, a marca de 100 jogos servirá como retrato de uma questão que acompanha o projeto desde sua implantação: a dificuldade de transformar mudanças frequentes no comando em continuidade esportiva. Com a eminente administração da GDA LUMA, num cenário que não se complique no caso Credivalores, é algo que Gabriel de Alba e seus parceiros de negócios precisarão mudar no Botafogo, onde precisam garantir um técnico que fique por pelo menos 2 anos ou mais, posteriormente.

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