
Franclim Carvalho com agasalho bege que parecia um pijama de dormir para clima frio, no confronto contra o Cienciano - Foto: Vítor Silva/Botafogo
Há algo de quase poético no fracasso administrativo do Botafogo: quando surge a oportunidade de corrigir o rumo, a diretoria prefere insistir na mesma estrada.
Franclim Carvalho flertou com o Vasco. Em qualquer ambiente competitivo, um episódio assim deveria, no mínimo, provocar uma reflexão profunda sobre confiança, comprometimento e continuidade. Mas a diretoria decidiu mantê-lo e o blindou. Ao ter feito isto, assumiu também a responsabilidade pelo que viesse depois.
O problema é que o futebol, implacável como sempre, não costuma respeitar discursos de confiança. Ele cobra resultados.
E, jogando em casa, o Botafogo não tem apresentado a força que se espera de uma equipe que deveria transformar o seu estádio em território de imposição. A torcida vai, apoia, cobra, acredita — e muitas vezes recebe em troca um futebol incapaz de traduzir o mando de campo em vitórias.
Eis a verdadeira ode: uma homenagem à insistência quando a mudança parecia necessária; à manutenção quando havia motivos para ruptura; à esperança administrativa que se sustenta mesmo quando o campo insiste em apresentar outra realidade.
Não se trata de dizer que toda derrota é culpa do treinador. Jogadores, planejamento, montagem do elenco e decisões da própria diretoria também fazem parte da equação. Mas, quando o treinador deixa de entregar aquilo que se espera dele, cabe à direção tomar decisões.
Franclim Carvalho era para ter sido demitido durante a pausa para a Copa do Mundo de 2026. Naquele momento, havia uma oportunidade de interromper o trabalho, avaliar o desempenho da equipe e tomar uma decisão com calma e planejamento. Mas a diretoria preferiu manter a aposta e blindar o treinador.
Antes disto havia ocorrido a eliminação para a Chapecoense na fase de 16 avos da Copa do Brasil 2026 — sem altitude e, sobretudo, sem atitude. Mais uma oportunidade perdida, mais um capítulo de um planejamento que parece não ter encontrado respostas dentro de campo.
Depois, veio a eliminação do Botafogo na Copa Sul-Americana de 2026, diante do Cienciano, coroada pela vexatória goleada de 6 a 1, segundo jogo este bando em campo infelizmente não fará o placar necessário e ainda vai tomar gols. E há uma ironia que parece ter sido escrita pelo próprio destino: por falta de planejamento, o Botafogo acabou eliminado em duas competições por dois adversários cujos nomes começam com a mesma letra: C.
Chapecoense e Cienciano. Duas eliminações. Duas letras C. O planejamento atual precisa urgentemente encontrar um “C” de correção.
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Matheus Martins e Mateo Ponte desolados, enquanto Matias Succar comemora o Hat-Trick em Cienciano x Botafogo pelo jogo de ida das Oitavas de Final da Copa Sul-Americana 2026 (Jose Angulo / AFP) |
O 6 a 1 não pode ser tratado apenas como mais uma derrota. É um placar que expõe fragilidades, escancara problemas e deveria obrigar a diretoria a olhar para o próprio trabalho. Quando uma equipe sofre muitos gols, cria oportunidades e não consegue transformar criação em gols, o problema deixa de ser pontual.
A falta de pontas de qualidade e de um centroavante capaz de decidir também pesa. Um time que concede demais, cria bastante, mas não consegue marcar com eficiência, torna-se perigosamente vulnerável. E, no Campeonato Brasileiro, vulnerabilidade custa caro.
Agora, resta o Brasileirão.
E que o Botafogo consiga fazer mais de 15 pontos nesta sequência decisiva, porque a prioridade precisa ser clara: afastar de vez o risco de voltar para a Série B em 2027. Não há espaço para acomodação, discursos vazios ou a repetição do “tá tudo bem” ou pretende. É fazer acontecer.
Não está tudo bem.
É justamente aí que o fracasso administrativo se torna mais evidente: não necessariamente por ter escolhido Franclim Carvalho, mas por insistir nele diante de sinais que deveriam provocar questionamentos.
Uma diretoria competente precisa saber contratar. Mas precisa, sobretudo, saber quando não insistir.
E o Botafogo parece estar aprendendo da maneira mais dolorosa que administrar futebol não é apenas manter pessoas, oferecer respaldo e esperar que as coisas se resolvam. É reconhecer problemas, assumir riscos e ter coragem para mudar.
Que esta seja, portanto, uma ode ao fracasso administrativo: não uma celebração do fracasso, mas um retrato irônico de como decisões aparentemente pequenas podem se transformar em problemas enormes.
Porque, no futebol, a omissão também é uma decisão.
E quando a diretoria escolhe permanecer imóvel enquanto o time não convence, a responsabilidade pelo fracasso deixa de estar apenas à beira do campo.
Ela chega à sala da direção.
Acorda, GDA LUMA, Eduardo Hahn Iglesias, Estêvão Benincá, João Paulo Magalhães Lins, Léo Coelho, Paula Young, Deive Bandeira e Bruno Nocce, antes que seja tarde demais!
O “tá tudo bem” já não serve mais como resposta.
Agora é hora de agir.
