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Warleson e Gabriel Batista ainda não agradam a torcida do Botafogo; e Neto Murara que já deixou o Botafogo - Foto Reprodução |
O Botafogo convive com problemas praticamente em todas as áreas do elenco desde o início da temporada. Mas nenhum deles se tornou tão evidente — e tão desgastante — quanto a crise no gol.
A posição que deveria oferecer segurança acabou se transformando em um dos principais símbolos da instabilidade alvinegra em 2026. Em 23 partidas do Campeonato Brasileiro, o clube chegou a utilizar cinco goleiros: Léo Linck, Raul Steffens, Neto, Warleson e Gabriel Batista. A rotatividade é reflexo de uma combinação de falhas individuais, lesões, perda de confiança e decisões de planejamento que deixaram a comissão técnica constantemente em busca de uma solução.
Os números ajudam a dimensionar o problema. Até a 23ª rodada, o Botafogo havia sofrido 37 gols no Brasileirão, segundo a CBF.
Depois da derrota por 3 a 2 para o Athletico-PR, pela 24ª rodada, o time chegou ao clássico contra o Flamengo ainda pressionado por sua fragilidade defensiva.
Não se trata, evidentemente, de atribuir exclusivamente aos goleiros todos os problemas defensivos. O sistema como um todo tem apresentado dificuldades. Mas a sucessão de nomes sob as traves mostra que o Botafogo ainda não conseguiu encontrar um titular capaz de transmitir a estabilidade esperada para uma equipe que pretende competir em alto nível.
Uma camisa 1 sem dono
A temporada começou com Neto como principal aposta. Contratado em 2025 para assumir a vaga deixada após a saída de John, o experiente goleiro carregava uma trajetória internacional e a expectativa de representar uma solução de maior maturidade para a posição.
O problema é que a aposta não funcionou.
Neto vinha de uma grave lesão muscular que o havia afastado desde setembro de 2025. Ele voltou a atuar no início de 2026, depois de mais de quatro meses de recuperação, e chegou a ser tratado pelo técnico Martín Anselmi como uma das opções para a disputa pela titularidade.
A retomada, porém, não produziu a segurança esperada. O goleiro acumulou atuações irregulares e acabou perdendo espaço em meio a uma temporada marcada pela disputa constante pela posição.
A situação ganhou uma dimensão extracampo quando Neto se desentendeu com John Textor. Segundo relatos publicados à época, o proprietário da SAF fez cobranças ao jogador em razão do momento negativo, e a relação entre os dois acabou contribuindo para o afastamento do goleiro. Anselmi acatou a decisão de tirá-lo dos planos.
Neto chegou a ser reintegrado ao grupo por Franclim Carvalho. O novo treinador entendia que não fazia sentido manter um jogador experiente afastado enquanto o elenco sofria com a falta de opções para a posição. A tentativa de recuperação, contudo, não se transformou em solução definitiva.
Em junho, o Botafogo encerrou antecipadamente o vínculo com o goleiro. Neto deixou o clube depois de 22 partidas e 25 gols sofridos em sua passagem pelo Alvinegro, de acordo com levantamento publicado na ocasião da rescisão.
Léo Linck e Raul também não conseguem resolver
A crise, entretanto, não começou nem terminou em Neto.
Antes e depois da passagem do experiente goleiro pelo time titular, Léo Linck e Raul receberam oportunidades. Nenhum dos dois conseguiu se consolidar.
Léo Linck teve participação importante na primeira parte da temporada, mas também passou a ser questionado. Uma falha na derrota para o Barcelona de Guayaquil, que contribuiu para a eliminação do Botafogo na Libertadores, aumentou a pressão sobre o jogador. Na sequência, Raul assumiu a titularidade.
A troca tampouco resolveu o problema.
Quando recebeu a oportunidade de ser titular, Raul não conseguiu transformar o bom desempenho observado nos treinamentos em regularidade durante as partidas. Em determinado momento, o goleiro chegou a acumular uma sequência de jogos, mas sofreu 13 gols em seis partidas, segundo o ge.
O aspecto psicológico também passou a pesar. Em um ambiente no qual cada erro debaixo das traves rapidamente se transforma em crise, a confiança dos goleiros foi sendo corroída. A cada nova falha, a comissão técnica buscava outra alternativa — e cada mudança, por sua vez, aumentava a sensação de insegurança.
Criou-se, assim, um ciclo difícil de interromper: o goleiro falha, perde confiança, deixa a equipe, o substituto assume pressionado e passa a jogar sob a mesma desconfiança.
O fantasma de 2007
A quantidade de goleiros utilizados pelo Botafogo também remete a um dos períodos mais turbulentos da história recente do clube.
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Júlio César, Max, Lopes, Marcos Leandro e Roger em 2007 - Foto Reprodução |
Em 2007, o Alvinegro viveu uma célebre crise na posição e utilizou cinco goleiros ao longo da temporada: Júlio César, Max, Roger, Lopes e Marcos Leandro. Naquele ano, a alternância foi tão grande que a camisa 1 se tornou um dos principais problemas da equipe.
A coincidência com 2026 chama atenção justamente porque o problema atual reproduz um padrão conhecido: muitas opções utilizadas, pouca continuidade e nenhuma delas capaz de transformar a posição em um ponto de segurança.
Em 2007, a situação foi posteriormente estabilizada com Castillo e Renan. O contraste é significativo: depois de experimentar cinco goleiros em uma temporada, o clube conseguiu reduzir drasticamente a rotatividade no ano seguinte.
O cenário atual, portanto, não é apenas uma estatística. É a repetição de um problema que o Botafogo já conhece.
A aposta nos reforços
Diante da incapacidade de Léo Linck e Raul de assumirem definitivamente a posição e da saída de Neto, o Botafogo foi ao mercado na janela do meio do ano.
Chegaram Warleson, ex-Cercle Brugge, da Bélgica, e Gabriel Batista, que estava no Santa Clara, de Portugal. Os dois foram apresentados praticamente juntos e chegaram com a missão explícita de disputar a titularidade.
A escolha inicial recaiu sobre Warleson.
O goleiro havia treinado por mais tempo com o grupo e, por isso, recebeu vantagem na disputa. Franclim Carvalho optou por colocá-lo em campo primeiro. A estreia foi promissora: contra o Vitória, Warleson terminou a partida sem sofrer gols e transmitiu uma primeira impressão positiva.
A sequência também trouxe momentos de estabilidade. O novo goleiro chegou a completar duas partidas consecutivas sem ser vazado no Brasileirão antes de sofrer seu primeiro gol, contra o Fluminense.
Por algum tempo, parecia que o Botafogo finalmente havia encontrado uma direção.
Até a goleada contra o Cienciano.
A noite que reacendeu a desconfiança
Warleson foi o goleiro do Botafogo na derrota por 6 a 1 para o Cienciano, no Peru, resultado que praticamente sepultou a campanha alvinegra na Copa Sul-Americana.
Na partida de volta, no Nilton Santos, o Botafogo venceu por 1 a 0, mas não conseguiu reverter a desvantagem e acabou eliminado. Warleson ainda deixou o campo lesionado após um choque com um atacante peruano. O corte no queixo exigiu 15 pontos.
O episódio abriu espaço para Gabriel Batista.
Contratado depois de quatro temporadas no futebol português, o goleiro formado no Flamengo recebeu a primeira grande oportunidade justamente em um momento de enorme pressão. O Botafogo precisava encontrar rapidamente uma alternativa para o gol enquanto Warleson se recuperava.
A estreia como titular veio diante do Athletico-PR.
E o resultado não ajudou a diminuir a pressão.
O Botafogo perdeu por 3 a 2 no Nilton Santos. Gabriel Batista não foi responsabilizado diretamente pelos gols sofridos, mas o fato de a equipe ter novamente sofrido três gols em uma partida manteve a discussão sobre a segurança defensiva.
Gabriel Batista ou Warleson?
A questão que se impõe agora é simples, mas difícil de responder: quem será o dono da camisa 1?
Warleson havia conquistado a preferência inicial de Franclim Carvalho. A vantagem ocorreu principalmente porque o goleiro conseguiu trabalhar por mais tempo com o grupo antes da estreia. A comissão técnica, portanto, não havia necessariamente estabelecido uma hierarquia definitiva entre os dois reforços.
Gabriel Batista, por sua vez, ganhou uma oportunidade justamente quando o concorrente se lesionou.
O cenário mudou novamente com a chegada de Rodrigo Bellão ao comando da equipe. O treinador interino passou a trabalhar com uma situação que não criou: dois reforços recém-chegados, dois goleiros com pouco tempo de clube e uma torcida que já vinha de meses de desconfiança com a posição.
Warleson foi liberado para voltar aos treinamentos usando proteção no queixo, após a lesão sofrida contra o Cienciano.
A tendência, portanto, era de que Bellão precisasse escolher entre manter Gabriel Batista ou recuperar a hierarquia que havia sido estabelecida anteriormente com Warleson.
O problema é maior do que o goleiro
É justamente nesse ponto que a crise precisa ser analisada com mais cuidado.
O Botafogo pode trocar o goleiro novamente, mas isso não significa necessariamente que a defesa passará a funcionar.
Na derrota para o Athletico-PR, por exemplo, os dois primeiros gols nasceram de problemas coletivos. João Cruz abriu o placar aos dez minutos, e Viveros ampliou dois minutos depois. O colombiano ainda marcou o terceiro na segunda etapa. O Botafogo reagiu no fim, com dois gols de Santi Rodríguez, mas não conseguiu evitar a derrota.
A própria comissão técnica reconhece que é necessário encontrar um equilíbrio defensivo. O Botafogo tem produzido ofensivamente, mas continua concedendo oportunidades e gols em quantidade elevada.
Isso significa que a discussão sobre a camisa 1 precisa ser separada da discussão sobre o sistema defensivo.
Um goleiro pode cometer erros. Mas uma equipe que permite finalizações perigosas em sequência, perde duelos, oferece espaços e sofre gols em transições coloca qualquer jogador da posição sob enorme pressão.
Um contraste preocupante
O contraste vivido pelo Botafogo torna a situação ainda mais incômoda.
De um lado, existe um elenco que consegue criar oportunidades e, em determinados momentos, apresentar bom volume ofensivo. De outro, há uma defesa que não consegue sustentar o resultado.
O time chegou a ter 37 gols marcados e 37 sofridos no campeonato, de acordo com os dados da CBF após 23 partidas.
A igualdade entre gols marcados e sofridos resume, de certa forma, o momento da equipe: capacidade para competir no ataque, mas dificuldade para transformar essa produção em resultados por causa da vulnerabilidade defensiva.
E o problema aparece justamente quando a equipe mais precisa de estabilidade.
O clássico que pode definir a próxima escolha
O próximo desafio é de peso máximo: Flamengo x Botafogo, no Maracanã, pela 25ª rodada do Campeonato Brasileiro, no domingo, 30 de agosto, às 16h. A partida está confirmada pela CBF.
Para Bellão, o clássico representa mais do que três pontos.
É uma oportunidade de interromper uma sequência de resultados decepcionantes, recuperar a confiança do elenco e, principalmente, começar a construir uma defesa mais confiável.
No gol, a decisão será acompanhada com atenção especial.
Se Warleson estiver plenamente recuperado e sem limitações para atuar, a comissão pode optar por devolver a titularidade ao jogador que havia começado a ganhar espaço antes da lesão. Se a opção for pela continuidade de Gabriel Batista, o treinador estará apostando na adaptação rápida de um goleiro que ainda está construindo sua história no clube.
Nenhuma das escolhas será simples.
Warleson tem a vantagem de já ter conquistado a posição antes da lesão. Gabriel Batista tem a oportunidade de transformar a ausência do concorrente em uma afirmação pessoal.
A conta do planejamento
No fundo, porém, a crise do gol também expõe uma questão de planejamento.
O Botafogo começou a temporada sabendo que precisava administrar uma posição delicada. Neto tinha chegado cercado de expectativas, mas vinha de lesão e já enfrentava questionamentos. Léo Linck e Raul estavam no elenco, mas também não apresentavam a segurança necessária para assumir definitivamente a posição.
O clube tentou corrigir a rota durante o ano.
Primeiro, com mudanças internas. Depois, com novas oportunidades. Por fim, com dois reforços contratados na janela.
O problema é que a solução definitiva ainda não apareceu.
A chegada de Warleson e Gabriel Batista mostra que o departamento de futebol reconheceu a necessidade de intervenção. Mas contratar dois goleiros simultaneamente também evidencia o grau de incerteza existente no setor: nenhum deles chegou com uma titularidade consolidada.
Em outras palavras, o Botafogo não trouxe apenas concorrência. Trouxe dois jogadores para descobrir, em campo, quem seria capaz de resolver uma posição que já havia consumido boa parte da temporada.
O desafio de recuperar a confiança
Para o Botafogo, a solução talvez passe menos por encontrar um goleiro perfeito e mais por construir um ambiente no qual o titular consiga jogar com confiança.
A sucessão de mudanças produziu exatamente o efeito contrário.
Léo Linck teve oportunidade. Raul teve oportunidade. Neto teve oportunidade. Warleson ganhou a vaga. Gabriel Batista entrou por causa da lesão do concorrente.
A cada troca, a equipe precisou reaprender rotinas, características e formas de jogar com os pés. E cada goleiro passou a atuar sabendo que um erro poderia custar sua permanência.
É um cenário particularmente cruel para uma posição na qual confiança tem peso enorme.
O Botafogo precisa, portanto, escolher um nome e sustentá-lo.
Não significa ignorar falhas ou impedir a competição interna. Significa estabelecer uma hierarquia suficientemente clara para que o goleiro escolhido saiba que terá sequência para corrigir erros e evoluir.
Sem isso, a camisa 1 continuará sendo tratada como uma posição provisória.
De 2007 a 2026: um problema que voltou a aparecer
O episódio atual ganha dimensão histórica justamente porque lembra a crise de 2007.
Naquele ano, cinco goleiros passaram pela equipe: Júlio César, Max, Roger, Lopes e Marcos Leandro.
Quase duas décadas depois, o Botafogo voltou a chegar a uma temporada em que cinco nomes foram utilizados no Brasileirão.
A diferença é que, agora, o clube dispõe de uma estrutura completamente diferente da existente naquela época. A SAF, o investimento, o departamento de futebol profissionalizado e a estrutura financeira criaram expectativas muito maiores sobre a capacidade de planejamento.
Por isso, a repetição da história é ainda mais incômoda.
O problema não é simplesmente utilizar cinco goleiros.
O verdadeiro problema é chegar ao fim de agosto sem saber se o time finalmente encontrou aquele que poderá oferecer segurança até dezembro.
E, enquanto essa resposta não aparece, cada gol sofrido aumenta a pressão sobre o próximo jogador a vestir a camisa 1.
A decisão de Bellão
O clássico com o Flamengo coloca Rodrigo Bellão diante de uma escolha que simboliza toda a temporada.
Warleson retorna de lesão e já havia conquistado a preferência inicial. Gabriel Batista acaba de receber uma oportunidade como titular e precisa provar que pode permanecer no time.
Escolher um deles será apenas o primeiro passo.
O desafio real será fazer com que o escolhido deixe de ser apenas o quinto nome de uma longa lista e se transforme, finalmente, no goleiro do Botafogo.
Porque a crise do gol já deixou de ser apenas uma discussão sobre quem joga.
Ela se tornou uma questão de identidade, confiança e planejamento.
E, diante do Flamengo, no Maracanã, o Botafogo terá mais uma oportunidade — talvez uma das mais importantes da temporada — para começar a encerrar uma novela que já dura meses.
A camisa 1 precisa, enfim, encontrar um dono.
A matéria foi estruturada em formato jornalístico, com título, linha fina, contextualização, cronologia, análise do planejamento e gancho para o clássico. Também corrigi a linha temporal para refletir que o Botafogo já disputou a 24ª rodada e que Gabriel Batista foi titular contra o Athletico-PR.

