Ares Management Corporation quer recuperar valor que foi emprestado pra John Textor em 2022, o ex-skatista que possui parentesco com a família DuPont está com o seu império da Eagle BidCo em apuros, informa o Bloomberg


A Ares Management Corporation avançou com medidas para reduzir o controle operacional de John Textor sobre o grupo multiclubes Eagle Football Holdings BidCo LTD, em meio a perdas financeiras contínuas e tensões envolvendo uma das maiores apostas esportivas do investidor de crédito desde 2022, quando John Textor usou grande parte do investimento para comprar o Olympique Lyonnais.


De acordo com registro oficial no Companies Houses do Reino Unido, Textor deixou o cargo de diretor da Eagle Football Holdings Bidco Ltd., a holding britânica que concentra participações em clubes como o Olympique Lyonnais. A destituição ocorreu no fim de janeiro e foi formalizada em documento apresentado na terça-feira. Atualmente, a empresa não possui diretores ativos registrados.


Embora Textor permaneça como acionista majoritário das participações nos clubes, a mudança enfraquece seu controle cotidiano sobre os investimentos.


Pressão financeira


A Ares é a principal credora da Eagle Football Holdings BidCo após financiar a aquisição do Lyon, em 2022, por cerca de €425 milhões de euros (R$ 2,6 bilhões) O fundo de investimento busca recuperar aproximadamente US$ 250 milhões (R$1,2 Bilhão) em empréstimos pendentes. Um porta-voz da Ares confirmou que a alteração na estrutura de comando foi implementada.


Documentos também indicam que a Ares reduziu o valor contábil da dívida concedida à Eagle para cerca de 32 centavos por dólar, refletindo preocupações com a recuperação integral do crédito.


A Eagle Football Group registrou prejuízo líquido de €201,1 milhões no exercício encerrado em 30 de junho de 2025, segundo contas não auditadas.


LEIA TAMBÉM: Ares Capital Corp que tem Mark Affolter na gestão, detalha desempenho positivo no Atlético Madrid, e revela endividamento da Eagle Football de John Textor, aproximadamente US$531 Milhões de Dólares (2,7 Bilhões); e deste montante R$650,5 Milhões vencendo em Janeiro de 2027


John Textor é afastado do comando da Eagle Holdings BidCo em ação da Ares, e só segue ainda como acionista majoritário do Botafogo por conta de uma liminar na Justiça Do RJ, enquanto o caso será reanalisado


Disputa pelo controle


Textor contesta a legitimidade da decisão. Em comunicado publicado em seu site, afirmou que, como único diretor do acionista controlador da Eagle Bidco, não reconhece qualquer direito da Ares de nomear ou destituir dirigentes na estrutura da holding.


A crise evidencia tensões na estratégia multiclube liderada por Textor, que combinou ambição esportiva com forte alavancagem financeira.


Clubes envolvidos e desdobramentos


Além do Lyon, a Eagle BidCo mantém participações no RWD Molenbeek, da Bélgica, e no Botafogo de Futebol e Regatas, no Brasil. Textor vendeu sua fatia no Crystal Palace FC no último verão europeu em 2025, ao empresário Woody Johnson, proprietário do New York Jets da NFL, movimento que permitiu à Ares recuperar parte relevante do empréstimo inicial.


A própria Ares possui investimentos em outros clubes relevantes, como Atlético de Madrid, Inter Miami CF e Chelsea FC.


No Brasil, o Botafogo chegou a ser punido pela FIFA com proibição para registrar atletas (Transfer Ban) devido a parcelas que ficaram sem serem pagas. Textor afirmou em vídeo recente que a sanção foi suspensa.


Na França, o empresário também protagonizou embates políticos no futebol local. Durante negociações sobre direitos de transmissão da Ligue 1, Nasser Al-Khelaifi, presidente do Paris Saint-Germain, chamou Textor de “cowboy”, em meio a discussões acaloradas sobre direitos de transmissão da BeinSports e DAZN.


A disputa com a Ares marca um novo capítulo na turbulenta trajetória do projeto multiclubes de John Textor, que combina resultados esportivos pontuais com crescente pressão financeira e conflitos de governança após alavancagens mal feitas. 


  
John Textor com o seu Skate favorito em Tampa/Flórida - Foto: Arquivo Pessoal


John Charles Textor foi um dos skatistas mais promissores dos Estados Unidos. Textor nasceu em Kirksville, no estado do Missouri, na região centro-oeste dos EUA, mas se mudou ainda bem novo junto da família para Miami, no Estado da Flórida, na região sudeste dos EUA, onde foi criado. 


  
John Textor pela equipe de Skatistas FOX - Foto/Aquivo Pessoal

O começo de sua adolescência, na reta final dos anos 1970, coincidiu com a ascensão do skate nos Estados Unidos e a construção de pistas no país. Ao lado do irmão, Tab, John começou a andar de skate como lazer, mas o crescimento do esporte nos Estados Unidos fez com que marcas buscassem skatistas locais para formar equipes em competições - ao contrário da atualidade, com o predomínio de disputas individuais. Foi assim que a Fox, empresa que estava começando no ramo, chamou a dupla de Textors para torneios em Miami. Além disso, a avó de Textor morava na Califórnia, e os irmãos também praticavam nas pistas de lá.


  
Tab ao fundo, vendo John Textor na pista de Skate - Foto/Arquivo Pessoal

Praticamente todas as competições na Flórida eram realizadas na Skateboard Safari, uma das poucas pistas da região na época. John era um talento diferente porque competia em diferentes modalidades em um mesmo torneio. As primeiras provas foram suficientes para ele chamar a atenção da Sims Skateboards, à época a maior empresa de Skatistas, que o contratou. A Sims foi criada em Santa Barbara, Califórnia, maior centro do skate nos Estados Unidos na época. Tom Sims, dono da marca, teve a intenção de expandi-la para o outro lado do país e chamou pessoas da Flórida para formar o time de East Coast (Costa Leste) - a equipe pioneira foi a West Coast (Costa Oeste). 


        
John Textor fazendo manobra com o Skate - Foto/Arquivo Pessoal

Por ter uma proporção maior, a Sims competia em torneios por todos os Estados Unidos - e em competições que valiam dinheiro. Reportagens da "Skateboard Review", revista de skate dos anos 1970, mostram que Textor venceu torneios em Tampa, na Flórida.




Textor venceu o PepsiNova Challenge na categoria Banked Slalom sub-12 em 1978. Ele foi considerado o "competidor notável" da categoria e ganhou US$ 4 mil pelo desempenho.



Meses depois, ele ganhou o "Rainbow Wave" na categoria freestyle. No half pipe (pista em U), ficou em quarto lugar, e no bowl riding (modalidade disputada em pistas no formato de "tigela"), terminou em terceiro.


                             
John Textor fazendo manobra em pista - Foto/Arquivo Pessoal


- A internet do tempo eram basicamente as revistas de skate, era assim que conseguíamos informações. Foi também uma época de construções em massa de pistas e parques de skate, ali por volta de 1976, o que resultou em pessoas de diferentes bairros, cidades e até estados juntas - conta o ex-skatista Craig Synder


Snyder competiu na categoria infantil no mesmo período que Textor. O Norte-americano não seguiu a carreira nas quatro rodas, mas virou historiador sobre a origem e o desenvolvimento do skate nos Estados Unidos e escreveu um livro sobre o tema: "A Secret History Of The Ollie" (A História Secreta do Ollie, em tradução livre).


  
Teb e John Textor, agachados, os primeiros da esquerda pra direita - Foto: Arquivo Sims Skateboarders


- John era o mais novo de todo os skatistas e participativa de diferentes provas. Tinha freestyle, slalom, corrida, bowl riding, o pool riding estava crescendo... Naquela época, o foco era competir em tudo e ser bom em tudo. Hoje, o skatista foca mais em uma área. John participativa muito em bowl riding, slalom e freestyle e acho que ele era muito bom no freestyle. Em 1978 ou 79, ele era um dos melhores skatistas freestyle na sua idade. As competições eram divididas em amadores e profissionais. Os profissionais competiam independentemente da idade, e os amadores se dividiam em categorias pela idade - explica Craig.


              
O Skatista Craig Snyder - Foto/Arquivo Pessoal

Boa parte do dinheiro que Textor juntou para pagar a faculdade saiu das premiações nos torneios de skate. Ele se formou em economia em Wesleyan, faculdade em Connecticut, nos anos 1980.


"John estava em um grupo jovem. Para competições amadoras, ele era o melhor do estado naquela época", lembra Craig.

A promissora carreira teve fim quando Textor sofreu uma grave lesão na cabeça quando treinava com seu irmão Tab em uma pista na Flórida. Ele chegou a ficar desacordado e teve sangramentos. A família recomendou que ele parasse, e John seguiu o conselho. O skate ficou de lado e ele se concentrou nos estudos, formando-se em economia. Anos depois, investiu em tecnologia e futebol.


Craig acredita que Textor tinha chance de ter se tornado profissional.


- Não posso cravar nada, mas o potencial estava ali. É preciso dedicação e foco (para virar profissional). Eu não era próximo dele, eu o assistia em competições, era meu contato com ele. A última vez que encontrei com ele foi em 1979 - conta.


  
John Textor e o irmão Tab - Foto/Arquivo Pessoal

Relação que continuou

Mesmo longe do skate competitivo, John não cortou laços. No fim dos anos 1990, a Sims passava dificuldades financeiras e chegou a ficar perto de falir. Textor, já em melhores condições financeiras, comprou a empresa em um investimento milionário com Michael Bay, conhecido diretor de cinema de filmes como "Transformers" e "Armageddon", para quitar as dívidas.


- Em maio de 1999, com nosso investimento de milhões de dólares, reestruturamos a empresa. Ainda era a mesma identidade, a Sims, e incluímos vários acionistas que estavam antes. Essa reestruturação passou por trazer capital, trazer novas pessoas, colocar muita energia e deixar o passado no passado. A marca tem muitas oportunidades, mas ainda estamos pagando pelo passado - contou em Textor em entrevista ao site "Snowboarder" em 1º de março de 2002.


Textor ajudou a marca a expandir para o snowboard e criou, ao lado de representantes de outras empresas, o Campeonato Mundial de Snowboard, que teve a primeira edição em 1996.


A relação comercial de John com a Sims não durou por muito tempo. Ele vendeu as ações na empresa e focou apenas na companhia de investimentos em tecnologia e efeitos visuais, a FuboTV. A fortuna feita nesta área permitiu, anos depois, que ele criasse capital suficiente para entrar no ramo do futebol, criasse a Eagle Football e virasse dono do RWDM Brussels, Botafogo e Lyon. E tudo começou com o skate nos EUA.


Há cerca de três anos, ao decidir ampliar sua presença em grandes apostas esportivas, a Ares Management Corporation assinou um cheque superior a US$ 400 milhões para um investidor considerado ousado, que promovia um novo modelo de propriedade no futebol.


Agora, a gestora busca recuperar mais da metade desse montante de John Textor, de 60 anos, ex-skatista competitivo e integrante em terceiro grau da família Du Pont através de um bisavô, os Du Pont/DuPont uma das 13 principais famílias do mundo, possuía mais de 2 mil membros em 2009, atualmente, acredita-se que estejam com mais de 3800 membros; Textor construiu a maior parte de sua carreira como um programador e empreendedor de tecnologia no modo "self-made" (“que se fez por conta própria” ou “que construiu a própria trajetória sem herança ou privilégios familiares”) antes de partir para a criação de um conglomerado esportivo.


O embate envolve um empréstimo concedido à Eagle Football Holdings LLC, empresa de Textor utilizada para financiar a aquisição do Olympique Lyonnais, em dezembro de 2022. Desde então, a situação financeira da Eagle BidCo se deteriorou, aumentando a pressão da credora.


Na terça-feira 24/02/2026, a Ares tomou medidas para reduzir o poder operacional de Textor em seu próprio grupo, retirando-o do cargo de diretor. O empresário contestou a legitimidade da decisão em publicação em seu site.


A disputa crescente acende um alerta para grandes gestoras como a Ares. Investidores institucionais têm avançado no futebol europeu, o esporte mais popular do mundo —, mas enfrentam um ambiente marcado por clubes deficitários e vulneráveis a crises após uma única temporada ruim. Ares e Textor divergem sobre possíveis violações de cláusulas da dívida e sobre a condução financeira da Eagle. Embora a gestora já tenha recuperado mais de US$ 200 milhões (R$1 Bilhão) do empréstimo inicial, reduziu o valor contábil da dívida restante para cerca de 32 centavos por dólar.


Pioneiro da estratégia de multipropriedade, Textor responsabiliza a Ares por prejudicar seus planos para a Eagle BidCo, que também reúne além do Lyon da França, o RWDM Brussels da Bélgica, e do Botafogo no Brasil. 


Determinado a reorganizar a estrutura, John Textor tenta um novos financiadores. Ele manteve conversas com a Hutton Capital Management sobre uma possível solução que permitiria a saída da Ares, embora a empresa tenha se recusado a comentar.


Caso Textor perca o controle do Lyon, o episódio pode lembrar situações anteriores em que fundos Norte-americanos assumiram clubes europeus após inadimplência de seus proprietários, como ocorreu com o AC Milan, que passou à Elliott Investment Management em 2018, e com a Inter Milan, assumida pela Oaktree Capital Management em 2024.


Especialistas apontam que o futebol europeu exige abordagem específica. Apesar das receitas expressivas e do potencial global, prevalece uma cultura de curto prazo, na qual prejuízos são frequentes e muitas vezes tolerados.


Com mais de US$ 620 bilhões (R$3,1 Bilhões) sob gestão, a Ares Management Corporation, sediada em Los Angeles/Califórnia, é uma das gigantes do crédito privado. Seu capital financia desde data centers na América do Norte até hotéis em Londres e Nova York. Durante a pandemia, ampliou investimentos esportivos, incluindo acordos com a McLaren Racing e o San Diego Padres. Em 2022, lançou um fundo de US$ 3,7 bilhões voltado a esportes, mídia e entretenimento.


Já a trajetória empresarial de Textor foi marcada por volatilidade. Após deixar o skate nos anos 1980, investiu e administrou empresas variadas, incluindo um estúdio de efeitos visuais responsável por produções como Titanic e negócios de varejo digital. Em 2020, assumiu a plataforma de streaming FuboTV.


Em 2021, voltou-se ao futebol com a proposta de reduzir custos por meio de uma rede integrada de clubes. O projeto culminou na compra do Lyon por cerca de €800 milhões — à época, a maior transação envolvendo um clube francês.


As tensões aumentaram quando autoridades francesas ameaçaram o Lyon com rebaixamento por preocupações financeiras. O clube vendeu ativos importantes e só evitou a queda após obter financiamento emergencial, inclusive da própria Ares e da empresária Michele Kang, que substituiu Textor na presidência do Lyon.


O relacionamento entre as partes se deteriorou. Textor acusou Ares e Kang de atuarem como um “conselho paralelo” e levou queixa à autoridade reguladora francesa a DNCG. A Ares negou irregularidades e afirmou que defenderá sua posição pelos meios legais adequados.


Enquanto isso, a estratégia multiclubes gerou resultados esportivos relevantes. No Brasil, o Botafogo de Futebol e Regatas conquistou títulos importantes em 2024 como a Libertadores e o Tricampeonato Brasileiro, mas também enfrentou sanção da FIFA por atraso em pagamento de transferência em 2026, além de perder grande parte do time campeão em 2024. Na Inglaterra, a Eagle foi coproprietária do Crystal Palace FC quando o clube venceu a FA Cup de 2025. Posteriormente, Textor vendeu sua participação ao empresário Woody Johnson, dono do New York Jets, movimento que ajudou a Ares a recuperar parte do crédito.


Na França, Textor também protagonizou embates com Nasser Al-Khelaifi, presidente do Paris Saint-Germain, que o chamou de “cowboy” durante negociações sobre direitos de transmissão da Ligue 1 — provocação respondida pelo Norte-americano com ironia pública ao usar um chapéu de caubói.


Apesar das turbulências, Textor mantém planos ambiciosos. Tentou adquirir o Everton FC da Inglaterra, e avalia vender participação na Eagle em preparação para uma eventual abertura de capital. “O caminho pode ser turbulento, por design, mas poucos grupos proprietários entregaram mais campeonatos e troféus a mais comunidades do que nós”, afirmou em comunicado.


Com informações Bloomberg

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