Entre 2020 e 2026, o Botafogo viveu um dos períodos mais instáveis de sua história recente no comando técnico. Em apenas seis anos, 16 treinadores diferentes passaram pelo banco de reservas alvinegro, entre efetivos e interinos. número que se tornou um recorde entre os 12 principais clubes da Série A do Campeonato Brasileiro nesses últimos 6 anos.
Enquanto a maioria dos grandes clubes também passou por trocas constantes, nenhum atingiu um número tão alto de mudanças no comando técnico em um intervalo tão curto. O caso alvinegro acabou se tornando um exemplo emblemático da cultura de resultados imediatos no futebol nacional.
No caso do Botafogo, essa rotatividade coincidiu com momentos muito distintos, desde o rebaixamento à Série B em 2021 até o auge histórico com a conquista da Libertadores e do Brasileirão em 2024.
A seguir, uma análise detalhada dessa sequência de treinadores e do contexto de cada passagem.
2020: Início da turbulência
O ano de 2020 marcou o início de uma grande instabilidade no Botafogo.
Alberto Valentim
Valentim começou o ano como treinador após assumir ainda em 2019. Seu trabalho, no entanto, não resistiu aos maus resultados. Em cerca de quatro meses, foi demitido após campanha irregular e pressão da torcida. Valentim ainda é o último técnico, que fora campeão do Campeonato Carioca pelo Botafogo, em 2018. A segunda passagem de Valentim, como técnico do Fogão, foi entre 11/10/2019 à 09/02/2020 totalizando 121 dias.
Paulo Autuori
Técnico e Ídolo do clube por ter sido campeão brasileiro em 1995, Autuori assumiu novamente o time. Ele tentou reorganizar o elenco em meio a dificuldades financeiras e técnicas, mas os resultados não evoluíram e sua passagem terminou em 01/10/2020.
Bruno Lazaroni
Auxiliar do clube, Lazaroni foi promovido ao cargo após a saída de Autuori. A experiência foi curta: 27 dias e poucos jogos no comando antes de nova mudança.
Ramón Díaz
Nem sequer teve tempo pra treinar, pois estava resolvendo problemas de saúde, que comando o time, foi seu filho Emiliano Diáz, ambos ficaram apenas 22 dias de 05/11/2020 à 27/11/2020 como técnico e auxiliar respectivamente do Botafogo.
Eduardo Barroca
Barroca retornou ao clube em novembro de 2020, assumindo o time em meio à luta contra o rebaixamento no Campeonato Brasileiro. Porém não conseguiu evitar o descenso, e até fugiu de entrevistas após o rebaixamento ter sido decretado. Barroca ficou no cargo de 28/11/2020 à 06/02/2021, totalizando 70 dias.
2021: reconstrução após o rebaixamento
Marcelo Chamusca
Com o clube já rebaixado para a Série B, Chamusca foi contratado para comandar o projeto de retorno à elite. A equipe teve desempenho irregular e ele acabou demitido ainda durante a temporada. Chamusca ficou como técnico do Botafogo de 22/02/2021 à 13/07/2021 totalizando 141 dias.
Enderson Moreira
Enderson assumiu o time na sequência e conseguiu estabilizar o Botafogo. Seu trabalho culminou no título da Série B de 2021, garantindo o retorno à primeira divisão.
2022–2023: a era da SAF e o início do projeto internacional
Com a transformação do clube em SAF sob gestão do empresário John Textor, o Botafogo passou a investir mais em treinadores estrangeiros. Textor disse que Enderson Moreira não estava preparado para assumir a Ferrari, que seria o Novo Botafogo. Enderson Moreira ficou de 20/07/2021 à 11/02/2022, totalizando 206 dias no comando do Botafogo. Semanas antes de ter se tornado SAF.
Luís Castro
O técnico português chegou em 2022 com a missão de implementar um projeto de longo prazo. Seu trabalho ajudou a reorganizar o clube esportivamente e a montar uma base competitiva para as temporadas seguintes.
Apesar da evolução, Castro deixou o clube em 2023 para trabalhar no Al-Nassr e realizar o sonho de treinar o maior esportista português do século 21, Cristiano Ronaldo. Luís Castro ficou como técnico do Botafogo de 25/03/2022 à 30/06/2023 totalizando 1 ano e 97 dias, conquistou a Taça Rio de 2023 pelo Botafogo.
2023: O ano das trocas no Brasileirão
Durante o Campeonato Brasileiro de 2023, o Botafogo teve cinco treinadores diferentes, mesmo brigando na parte de cima da tabela.
Cláudio Caçapa
Ex-jogador do clube, assumiu interinamente após a saída de Luís Castro. Conseguiu bons resultados e manteve o time na liderança. Caçapa na ocasião ficou apenas 2 semanas e meia, antes da vinda de Bruno Lage. Depois teria uma segunda passagem após a demissão de Carlos Leiria em 07/03/2025. Recentemente Cláudio Caçapa era até então o técnico interino efetivo, porém foi demitido em 20/02/2026.
Bruno Lage
O português chegou com grande expectativa, mas a equipe perdeu rendimento e sua passagem durou pouco. Depois que se irritou com a torcida, e colocou o seu cargo à disposição logo após um revés contra o Fla. Lage ficou como técnico do Botafogo de 12/07/2023 à 04/10/2023, totalizando 84 dias.
Lúcio Flávio
O que mais sofreu, levou 2 viradas de 4 a 3 para Palmeiras e Grêmio respectivamente, em 01/11/2023 e 09/11/2023, também assumiu interinamente tentando recuperar o desempenho do time. Ficou conhecido como Lúcio Flávio o técnico da agonia, em alusão ao filme brasileiro, Lúcio Flávio o passageiro da agonia. Lúcio Flávio ficou como técnico interino por 1 mês e alguns dias.
Tiago Nunes
Contratado para a reta final do Brasileirão de 2023, recebeu a missão de reorganizar o time após a queda de rendimento na competição. Porém não deu certo. Tiago Nunes não conseguiu vencer nenhum jogo, só vive de empates e derrotas. Tiago Nunes ficou como técnico do Botafogo de 16/11/2023 à 22/02/2024, totalizando 98 dias.
2024: O auge histórico
Fábio Matias
O Botafogo começou com o auxiliar técnico mais prestigiado dos últimos anos, Matias fez um bom trabalho de base pelo Internacional, Fla, entre outros clubes, venceu uma Copa São Paulo pelo Internacional em 2019, e foi campeão da Taça Rio pelo Botafogo em 2024. Conseguiu moldar o elenco. Fábio Matias ficou como técnico interino por 2 meses e mais alguns dias.
Artur Jorge
O técnico português, nascido na cidade de Braga, entrou para a história do Botafogo. Sob seu comando, o clube conquistou dois títulos históricos em 2024: a Libertadores e o Campeonato Brasileiro, consolidando um dos melhores momentos da história recente do clube.
Após o sucesso, Artur Jorge deixou o clube para aceitar uma proposta no exterior. Após John Textor não garantir a permanência do elenco campeão, e ter brigado com o empresário de Artur, Hugo Cajuda.
2025: Instabilidade após o sucesso
A aposta maluca, chamada Carlos Leiria
O técnico interino nunca foi um dos melhores nomes no comando da BASE do Botafogo, mas ganhou voto de confiança por John Textor e outros integrantes da diretoria alvinegra. Durante 55 dias para esperar o novo treinador, coube a Carlos Leiria tentar repetir os feitos de Fábio Matias antes da chegada de Artur Jorge, porém não deu certo. Caçapa interinamente assumiu o comando técnico do Botafogo. O legado de Carlos Leiria ficou marcado pele lesão do zagueiro Bastos Quissanga, durante uma escalação equivocada contra o Madureira pelo Campeonato Carioca de 2024, no Estádio Moça Bonita, em Bangu.
Renato Paiva
Outro português assumiu após a saída de Artur Jorge, mas sua passagem foi curta. Ele acabou demitido após a eliminação do clube na Copa Do Mundo de Clubes 2025. Renato Paiva conseguiu fazer parte da épica vitória do Botafogo contra o PSG, em 19/06/2025. Paiva publicamente admitiu ter havido interferências nas escalações de jogo, por John Textor, que sempre mandava recado através da diretoria, ora por Alessandro Brito, outra por Léo Coelho. Paiva revelou isto em entrevista recente ao GE.
Davide Ancelotti
Filho do famoso treinador Carlo Michelangelo Ancelotti, Davide assumiu o Botafogo em 2025. Foi sua primeira experiência como técnico principal e conseguiu classificar o clube para a Libertadores, mas decidiu deixar o cargo antes do término do contrato. Após saber que 2026 seria uma temporada abaixo do esperado, e após o preparador física Luca Carlo Guerra, ter se queimado (ter destruído a sua reputação) com os funcionários do Botafogo, além de ter feito um recorde de jogadores lesionados no Departamento médico, Davide preferiu voltar a ser auxiliar técnico do pai, desta vez na Seleção Brasileira. Davide Ancelotti foi técnico do Botafogo entre 08/07/2025 à 17/12/2025, totalizando 162 dias.
2026: Nova tentativa de reconstrução
Martín Anselmi
O argentino assumiu o Botafogo em 2026 com a missão de manter o clube competitivo após as mudanças recentes. Seu trabalho começou em meio a pressão e resultados irregulares. Está sob pressão, e pode se tornar em breve o 19º treinador que passou pelo Botafogo nesses últimos 6 anos.
Lista completa: dos 18 técnicos (2020–2026)
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Alberto Valentim
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Paulo Autuori
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Bruno Lazaroni
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Ramón Diáz
Eduardo Barroca
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Marcelo Chamusca
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Enderson Moreira
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Luís Castro
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Cláudio Caçapa
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Bruno Lage
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Lúcio Flávio
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Tiago Nunes
Fábio Matias
Artur Jorge
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Carlos Leiria / Caçapa segunda passagem
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Renato Paiva
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Davide Ancelotti
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Martín Anselmi
Análise: o que explica tanta troca?
Pressão por resultados imediatos
No futebol brasileiro, técnicos raramente têm tempo para desenvolver projetos de longo prazo.
Mudanças estruturais do clube
A transformação em SAF trouxe novos modelos de gestão e treinadores estrangeiros sob a chancela de John Charles Textor.
Oscilações esportivas
O Botafogo passou por fases completamente opostas no período:
crise e rebaixamento, reconstrução, auge com títulos, mas briga de Textor com Hugo Cajuda, e a não renovação de contrato com Artur Jorge, após não ter garantido a continuidade do time e elenco campeão de 2024.
O contraste com a estabilidade do Palmeiras
Se o Botafogo simboliza a instabilidade, o exemplo oposto no futebol brasileiro é na Sociedade Esportiva Palmeiras.
Desde novembro de 2020, o clube mantém no cargo o treinador português Abel Fernando Moreira Ferreira. Durante esse período, ele se tornou o técnico mais vitorioso da história do clube, conquistando diversos títulos nacionais e internacionais como 3 Libertadores.
Entre as conquistas estão edições da Copa Libertadores da América, do Campeonato Brasileiro Série A e do Campeonato Paulista.
Mesmo quando perdeu títulos importantes, como ocorreu nas temporadas de 2024 e 2025, Abel Ferreira mostrou capacidade de adaptação e reformulação do elenco, mantendo o Palmeiras competitivo e agradando a mandatária Leila Pereira. Onde ambos possuem boa relação esportivamente falando.
A prova dessa continuidade veio em 2026, quando o treinador voltou a levantar uma taça ao conquistar o Campeonato Paulista de 2026 após vitória na final contra o Novorizontino no último domingo 8/3.
Dois modelos opostos no futebol brasileiro
O contraste entre Botafogo e Palmeiras ilustra dois caminhos distintos dentro do futebol brasileiro.
Botafogo
18 treinadores entre 2020 e 2026
recorde de trocas entre os grandes clubes da Série A
fases de instabilidade, mas também conquistas históricas.
Palmeiras
mesmo treinador desde Novembro de 2020
projeto de longo prazo
sequência de títulos e estabilidade esportiva.
O caso do Botafogo revela como a rotatividade de treinadores continua sendo uma característica marcante do futebol brasileiro. Mesmo com conquistas importantes no período, o clube carioca estabeleceu um recorde de trocas técnicas entre os principais clubes da Série A.
Ao mesmo tempo, a permanência de Abel Ferreira no Palmeiras mostra que a estabilidade também pode ser um caminho de sucesso, reforçando o debate sobre planejamento e paciência no comando das equipes no Brasil. Quando há persistência e projeto esportivo, e um dono que não dá uma de fanfarrão, e investe corretamente as coisas dão certo.



















