Eagle/Cork Gully/Ares, SAF e Botafogo Social selam “cessar-fogo” e pedem suspensão de batalha judicial na justiça do Rio até 20 de Junho


General Severiano em 2018 - Foto: Vitor Silva/Botafogo


A crise societária que tomou conta do Botafogo de Futebol e Regatas nos últimos 8 meses, ganhou um novo e surpreendente capítulo. Em um movimento interpretado nos bastidores como um “acordo de pacificação”, a Eagle Football Holdings BidCo, a SAF alvinegra e o clube social protocolaram uma petição conjunta na Justiça do Rio de Janeiro solicitando a suspensão do processo que envolve a disputa pelo controle do futebol botafoguense.


O pedido foi apresentado à 2ª Vara Empresarial da Comarca da Capital, sob responsabilidade do juiz Marcelo Mondego de Carvalho Lima. As partes querem que o processo permaneça suspenso até o dia 20 de junho, enquanto tentam construir uma “solução consensual” para encerrar uma das mais turbulentas disputas de poder já vividas pelo Botafogo.


Na petição, Eagle, SAF e associativo afirmam que comunicarão imediatamente à Justiça caso haja um desfecho nas negociações. Ao mesmo tempo, o documento deixa claro que nenhuma das partes abre mão das decisões judiciais e arbitrais já tomadas até aqui, o que mantém o ambiente juridicamente instável.


Veja a petição enviada à Justiça:

S.A.F BOTAFOGO – Em Recuperação Judicial (“SAF BOTAFOGO”), EAGLE FOOTBALL HOLDINGS BIDCO LIMITED (“EAGLE BIDCO”) e BOTAFAGO DE FUTEBOL E REGATAS (“BFR”), vêm, conjuntamente, por seus advogados, requerer a V. Exa. a suspensão do processo até o dia 20 de junho de 2026, bem como dos eventuais prazos processuais em curso a partir da data do protocolo desta petição, com fundamento no art. 313, II, do Código de Processo Civil, para a tentativa de uma solução consensual entre as partes.


As partes se comprometem a comunicar a V. Exa. tão logo haja um desfecho nas tratativas e ressaltam que a suspensão objeto desta manifestação (i) poderá ser revogada a qualquer momento por petição de qualquer das partes, (ii) se dá sem qualquer renúncia de quaisquer das Partes aos seus respectivos direitos e recurso, e (iii) os prazos processuais que estejam em curso nesta data poderão ser cumpridos pelas Partes, independentemente da suspensão ora convencionada.


O que está em jogo


O principal objetivo das negociações é tentar oficializar a saída do Botafogo da estrutura multiclubes criada por John Textor, a Eagle Football Holdings, atualmente sob administração judicial da Cork Gully, e a maior credora da Eagle, a Ares Management Corporation. Caso o acordo avance, o clube associativo poderá recuperar os 90% das ações da SAF que hoje pertencem à Eagle e repassar para o novo investidor.


Esse movimento pode representar uma mudança histórica na estrutura de comando do clube. Desde a transformação em SAF, o Botafogo viveu um período de crescimento esportivo, mas também mergulhou em uma profunda crise financeira, administrativa e jurídica.


Nos bastidores, a tentativa de acordo entre Eagle, Ares e o clube social já vinha sendo discutida há mais de um ano. Entretanto, o cenário político interno dificultava qualquer avanço concreto. A situação começou a mudar entre o fim de 2025 e o início de 2026, período em que John Textor perdeu força política dentro da estrutura do clube.


A queda de prestígio de John Textor


A erosão do poder de Textor foi acelerada por uma série de decisões judiciais e arbitrais. Em 23 de abril, o programador e empresário Norte-americano foi afastado temporariamente do comando da SAF por decisão do Tribunal Arbitral da Fundação Getulio Vargas (FGV). Desde então, ele não retomou o controle operacional do clube e passou a ser tratado internamente como “carta fora do baralho” por integrantes da gestão e conselheiros próximos ao associativo.


Após o afastamento, Durcesio Mello foi nomeado diretor interino da SAF até a realização da Assembleia Geral que posteriormente indicou Eduardo Iglesias como diretor-geral da companhia.


O processo de desgaste também atingiu antigos aliados. O ex-CEO Thairo Arruda era considerado um dos principais defensores de um acordo entre o associativo e os credores ligados à Ares Management. Ele chegou a liderar parte das negociações diante das divergências crescentes com Textor, mas deixou o clube em fevereiro deste ano.


Guerra jurídica entre Justiça comum e arbitragem


O caso virou um verdadeiro labirinto jurídico envolvendo Justiça comum, arbitragem privada e recuperação judicial.


Nos últimos meses, decisões conflitantes ampliaram o clima de insegurança institucional no clube. O Tribunal Arbitral da FGV chegou a devolver os direitos políticos da Eagle na SAF e invalidar a posse de Durcesio Mello. Poucas horas depois, porém, a Justiça do Rio suspendeu os efeitos da arbitragem e voltou a retirar os direitos políticos da holding.


A 2ª Vara Empresarial sustentou que o tribunal arbitral não poderia se sobrepor às decisões relacionadas ao processo de recuperação judicial da SAF. O entendimento do magistrado foi de que havia risco de dano irreparável caso a Eagle reassumisse imediatamente a gestão do futebol botafoguense.


Essa disputa criou um cenário considerado caótico até mesmo por torcedores e especialistas jurídicos que acompanham o caso. Em fóruns e comunidades online, o imbróglio passou a ser tratado como uma “guerra de decisões”, com diferentes instâncias produzindo efeitos simultâneos sobre a governança do clube.


Recuperação judicial e crise financeira


O ambiente institucional turbulento ocorre paralelamente ao agravamento da situação financeira da SAF.


Em maio, a Justiça aceitou o pedido de recuperação judicial do Botafogo, iniciado após a alegação de “grave cenário financeiro”, risco de transfer bans internacionais e forte restrição de caixa.


A SAF argumenta que enfrenta vencimentos antecipados de dívidas e dificuldades operacionais severas, cenário que pressionou ainda mais as relações entre o associativo, a Eagle e os fundos credores ligados à Ares.


Além disso, diferentes grupos passaram a disputar influência sobre uma eventual venda da SAF. A Eagle ainda controla 90% das ações, mas o clube busca alternativas para reestruturar o comando societário.


Novo investidor ganha força


Nos bastidores, o nome mais forte para assumir o controle da SAF atualmente é o fundo Norte-americano da GDA Luma Onshore Holdco LLC de Gabriel de Alba, e que tem como parceiro Marcelo Claure, além da possibilidade de Todd Boehly e do príncipe saudita Bader Bin Abdullah Farhan Al-Saud investirem nesta nova reestruturação da Saf Botafogo.


O grupo aparece como favorito principalmente por conta da dívida de aproximadamente R$ 124,8 milhões que a SAF possui junto à empresa. A operação poderia transformar o credor em controlador do futebol botafoguense, dentro de uma reestruturação mais ampla.


Apesar disso, outras propostas seguem sendo analisadas, e a expectativa é de que as negociações avancem nas próximas semanas.


Clima de trégua pode redefinir futuro do clube


O pedido conjunto protocolado pelas partes representa a primeira sinalização concreta de pacificação desde o início da crise.


Mesmo sem encerrar oficialmente os litígios, o “cessar-fogo” reduz momentaneamente a tensão institucional e abre espaço para um acordo capaz de redefinir completamente o futuro societário do Botafogo.


Internamente, dirigentes acreditam que uma solução negociada é o único caminho para evitar o aprofundamento da crise financeira e devolver estabilidade ao futebol do clube.


Enquanto isso, dentro de campo, o elenco tenta manter o foco. O Botafogo volta a atuar nesta quarta-feira, às 19h (de Brasília), diante do Caracas Fútbol Club, pela fase de grupos da Copa Sul-Americana. O time carioca já está classificado para as oitavas de final da competição.

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