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Foto Reprodução: Renascença |
Técnico português vive momento mais intenso da carreira no futebol brasileiro, depois de início pelo Belenenses SAD, ter ido para a comissão técnica de Artur Jorge, pelo Braga, Botafogo e Al-Rayyan.
Em meio ao maior desafio de sua trajetória profissional, o técnico Franclim Carvalho abriu o jogo sobre o futuro da carreira, os obstáculos encontrados no futebol brasileiro e a transformação de Arthur Cabral no Botafogo. Participando da 4ª Conferência Bola Branca, tradicional simpósio português sobre futebol organizado pela Rádio Renascença, o treinador falou diretamente da Venezuela, poucas horas após a vitória do Glorioso sobre o Caracas, e abordou desde suas ambições pessoais até a identidade tática que tenta implementar no clube carioca.
Vivendo sua primeira grande experiência como treinador principal, Franclim não escondeu que deseja retornar ao futebol português no futuro.
Assista abaixo:
— É um objetivo, e é o meu objetivo principal, voltar a Portugal e treinar no Campeonato Português. Já tive essa possibilidade, mas estava com o Artur Jorge e acho que temos que ser leais. Eu pensava que ia acontecer agora, que iria começar em junho, entretanto apareceu o Botafogo, esta hipótese que, como eu disse, não poderia recusar. Mas, sim, é um objetivo que tenho em mente, e sei que vai acabar por acontecer — afirmou.
O treinador destacou ainda a admiração pelo nível tático do futebol lusitano, colocando a liga portuguesa entre suas preferidas no mundo.
— Acho que nosso campeonato tem muita qualidade, é muito rico taticamente, é mais rico taticamente que no Brasil. Tem muito bons jogadores, e tem equipes que dificultam muito o que faz o treinador pensar, e eu gosto disso. Gosto muito do Campeonato Português e do Campeonato Italiano por isso.
Rotina intensa no Botafogo e desafios do calendário brasileiro
Desde que assumiu o Botafogo, Franclim mergulhou em uma rotina considerada exaustiva até mesmo para padrões sul-americanos. O treinador detalhou a sequência pesada de jogos, viagens e treinamentos em um calendário que classificou como extremamente exigente.
— Completamos o 15º jogo desde que eu cheguei e sábado faremos o 16º antes da parada para a Copa do Mundo. Nós temos jogado sempre de dois em dois ou de três em três dias. Jogamos ontem, hoje treinamos de manhã, depois uma viagem de cinco horas e meia até a Bahia, vamos direto, treinaremos lá e depois jogaremos no sábado. É esta exigência, esta intensidade, esta densidade que nós temos tido.
Apesar da eliminação precoce na Copa do Brasil, Franclim valorizou o desempenho na Copa Sul-Americana e o início competitivo no Brasileirão.
— Conseguimos passar em primeiro lugar na fase de grupos na Copa Sul-Americana. E no Campeonato Brasileiro tentaremos andar naquele grupo dos oito ou dez da frente. O campeonato é muito difícil, muito competitivo.
Segundo ele, o equilíbrio técnico do futebol brasileiro é um dos fatores que tornam a competição tão imprevisível.
— Não há jogos fáceis. Sei que parece um clichê, mas aqui é verdade, porque todas as equipes têm dois ou três jogadores com muita qualidade e que fazem a diferença.
Arthur Cabral reencontra o melhor futebol sob comando de Franclim
Um dos principais assuntos abordados pelo treinador foi a recuperação de Arthur Cabral. Contratado pelo Botafogo em maio de 2025 após passagem frustrante pelo Benfica, o atacante quase deixou o clube antes da chegada da nova comissão técnica. Hoje, tornou-se peça fundamental no sistema ofensivo alvinegro.
Com sete gols em 14 partidas sob o comando de Franclim Carvalho, Arthur vive sua melhor fase desde o retorno ao futebol sul-americano.
— Portugal não viu o verdadeiro Arthur Cabral. Eu, infelizmente vi, porque jogamos contra a Fiorentina quando estávamos no Braga e ele fez gol, depois jogamos contra o Benfica quando estávamos no Braga e ele fez gol — brincou o treinador.
Franclim revelou que impedir a saída do atacante foi prioridade logo após assumir o clube.
— Quando cheguei aqui, havia até a possibilidade dele sair, porque o mercado interno ainda estava aberto, mas era algo impensável perdermos o Arthur Cabral.
O técnico também destacou que o modelo de jogo ofensivo favorece os atacantes.
— Nós aqui tentamos procurar atacar muito e ter muita bola no último terço, e isso leva a que nossos atacantes tenham muita oportunidade.
Mesmo satisfeito com os números do camisa 19, Franclim acredita que o centroavante ainda pode produzir mais.
— Ele era o terceiro batedor oficial de pênaltis, portanto tem zero gols de pênalti, mas tem feito muitos gols desde que chegamos. É o atleta no Brasil com mais gols, tem sete, mas tem capacidade para fazer mais.
“Arthur é muito mais rápido do que parece”
Além da capacidade finalizadora, Franclim fez questão de elogiar aspectos físicos e táticos do atacante.
— Ao contrário do que possa parecer, o Arthur é muito rápido. Tem um jogo contra o Remo em que ele atinge 36,4 km/h, o que é muito.
Segundo o treinador, a força física e o jogo de apoio tornam Arthur indispensável para a equipe.
— É um atleta que nos permite esticar o jogo, porque usa bem o corpo e é forte. Nos permite ser aquele primeiro apoio frontal, acrescenta muito à nossa equipe e neste momento é um jogador indispensável para nós.
A expectativa da comissão técnica é ambiciosa para a sequência do Campeonato Brasileiro.
— Tenho a expectativa de que o Arthur faça 14, 15 ou 16 gols no Brasileiro.
Franclim expõe dificuldades enfrentadas por portugueses no futebol brasileiro
Ao analisar a pequena quantidade de atletas portugueses atuando no Brasil, Franclim apontou diversos fatores que dificultam a adaptação.
O principal deles, segundo o técnico, é o calendário.
— É muito difícil o jogador português adaptar-se ao Campeonato Brasileiro. Esta densidade competitiva, estes três jogos por semana, eles estão habituados ao rodízio. Aqui isso é permanente.
O treinador ainda criticou as condições dos gramados brasileiros e o desgaste provocado pelas longas viagens.
— Temos o estado dos gramados, que não é bom. Os gramados no Brasil são de qualidade baixa, até porque temos alguns sintéticos. Temos muita viagem, vamos jogar em Fortaleza e são mais de três horas de voo.
As diferenças climáticas também foram destacadas.
— Nós fomos a São Paulo, chovia muito no fim de semana passado e depois chegamos ao Rio e estavam 24, 25 ou 26 graus, aquele calor abafado.
Franclim ainda citou o comportamento dos torcedores brasileiros e o peso da exposição pública.
— O brasileiro vem direto a nós e quer tirar uma foto, ou quer falar como a equipe jogou ou tem que jogar. Eles são mais desenvoltos.
“Os portugueses não têm dimensão do que é o Botafogo”
O treinador revelou que até mesmo os integrantes portugueses de sua comissão técnica ficaram impressionados com a dimensão do clube carioca.
— Meus auxiliares são todos portugueses e eles próprios confidenciam que não tinham noção da dimensão do Botafogo.
Segundo Franclim, o impacto popular do clube se manifesta em todas as viagens.
— Nós vamos jogar a qualquer lado e temos sempre muito torcedor, muitos à nossa espera no hotel, no estádio.
Ele também chamou atenção para o ambiente intenso das redes sociais e da imprensa esportiva brasileira.
— O peso, a exigência diária, no Brasil, a mídia e as redes sociais são muito fortes. São muito agressivos. Isto tem o lado bom e o lado mau.
Verticalidade, agressividade e muitos gols: a identidade do novo Botafogo
Questionado sobre sua filosofia de jogo, Franclim Carvalho explicou que deseja um Botafogo agressivo, vertical e ofensivo.
— Todos os treinadores gostam de atacar, gostam de controlar o jogo com a bola, obviamente que eu não sou diferente, mas tenho uma forma de estar e uma ideia um pouco mais agressiva, mais objetiva.
O treinador afirmou que não aprecia um futebol excessivamente paciente.
— Não gosto de controlar o jogo com a bola, de ser muito paciente. Assumo que não gosto.
Segundo ele, os números comprovam a mudança de estilo implementada desde sua chegada.
— Desde que chegamos, somos a equipe do Brasil que mais remates faz, que mais ataques faz, que mais escanteios tem, que mais passes progressivos tem.
A intensidade ofensiva, porém, trouxe consequências defensivas.
— Esta sede, esta vontade, esta verticalidade que nós procuramos depois leva-nos, por vezes, a estar muito expostos, e temos sofrido muitos gols.
Franclim reconheceu que ainda busca o equilíbrio ideal.
— Eu próprio tenho que melhorar enquanto treinador, tentar encontrar esse equilíbrio. Nós aqui não temos muito tempo para trabalhar ou para treinar. Isso não funciona como desculpa, mas é uma realidade.
Um treinador em ascensão
Mesmo ainda no início da trajetória como treinador principal, Franclim Carvalho já se tornou uma das figuras mais comentadas do futebol brasileiro em 2026. Entre elogios ao futebol português, críticas ao calendário nacional e a recuperação de Arthur Cabral, o técnico português deixa claro que vive um período de aprendizado intenso — e de afirmação.
Enquanto projeta um futuro em Portugal, Franclim tenta consolidar no Botafogo uma equipe ofensiva, vertical e competitiva. E, ao que tudo indica, sua passagem pelo futebol brasileiro pode ser determinante para os próximos passos de uma carreira em plena ascensão.
