Montegra Capital: Fundo de investimentos da Flórida cobra R$ 15,8 milhões da SAF do Botafogo por empréstimo contraído na gestão John Textor


John Textor - Foto: Jorge Rodrigues/AGIF


O fundo de investimentos localizado na cidade de Pembroke Pines, no condado de Broward, no estado da Flórida, nos EUA, a Montegra Capital Resources afirma que não recebeu qualquer pagamento da dívida e pede à Justiça que crédito fique fora da recuperação judicial da SAF alvinegra.


A já complexa situação financeira da SAF do Botafogo ganhou um novo capítulo nesta semana. O fundo americano Montegra Capital Resources ingressou na 2ª Vara Empresarial do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro cobrando R$ 15,8 milhões da SAF alvinegra, valor referente a um empréstimo firmado durante a gestão de John Textor.


Segundo informações divulgadas pelo jornalista Ancelmo Gois, no jornal ¨O GLOBO¨, a empresa alega que o débito não foi incluído na relação de credores apresentada pelo clube no processo de recuperação judicial e sustenta que o crédito possui natureza extraconcursal, o que significaria que não estaria sujeito às regras do processo de reestruturação financeira.


Empréstimo teve atletas e contratos da Eagle Football como garantia


De acordo com a petição apresentada à Justiça, o empréstimo totalizou exatamente R$ 15.830.430. Embora a operação tenha sido formalizada apenas em abril de 2026, a Montegra afirma que os recursos foram disponibilizados ao Botafogo ainda em dezembro de 2025.


O negócio foi estruturado por meio de um contrato de cessão fiduciária de direitos creditórios, modalidade amplamente utilizada no mercado financeiro para garantir operações de crédito. Nesse tipo de acordo, o devedor transfere ao credor determinados direitos ou recebíveis como forma de assegurar o pagamento da obrigação assumida.


Como garantia da operação, a SAF do Botafogo teria cedido direitos relacionados a futuras transferências de atletas profissionais, além de créditos oriundos de contratos vinculados a Textor e empresas do grupo Eagle Football Holdings.


A documentação também estabelece que o clube deveria comunicar à Montegra eventuais negociações envolvendo jogadores e direcionar recursos provenientes dessas transações para uma conta específica vinculada ao contrato.


Fundo afirma que Botafogo não pagou “sequer um centavo”


Na ação judicial, a Montegra adota um discurso duro em relação ao cumprimento das obrigações assumidas pela SAF.


Segundo o fundo, além da ausência de informações sobre movimentações relacionadas aos ativos dados em garantia, o Botafogo não teria efetuado qualquer amortização do débito desde a celebração do contrato.


A empresa afirma que não recebeu "sequer um centavo" referente ao valor emprestado, circunstância que motivou o pedido de reconhecimento judicial do crédito e sua exclusão dos efeitos da recuperação judicial.


A alegação amplia as preocupações em torno da situação financeira da SAF, que já enfrenta questionamentos de diversos credores após o pedido de recuperação judicial protocolado neste ano.


Disputa gira em torno da natureza do crédito


O principal ponto jurídico da ação não está apenas no valor cobrado, mas na classificação da dívida.


A Montegra sustenta que a cessão fiduciária de direitos creditórios garante ao credor uma posição diferenciada perante a legislação brasileira. Com base na Lei de Recuperação Judicial e Falências, a empresa argumenta que créditos garantidos por cessão fiduciária possuem natureza extraconcursal e, portanto, não devem ser submetidos ao plano de recuperação.


Para reforçar sua tese, o fundo cita precedentes do Superior Tribunal de Justiça que reconhecem a exclusão desse tipo de crédito dos efeitos da recuperação judicial.


Caso a Justiça acolha o pedido, a Montegra poderá buscar o recebimento integral da dívida fora do processo de reestruturação financeira da SAF, situação que normalmente confere maior proteção ao credor e reduz o risco de descontos, parcelamentos ou alongamentos previstos em planos de recuperação.


Novo desafio para a recuperação judicial do Botafogo


O caso surge em um momento delicado para o Botafogo. A recuperação judicial da SAF foi apresentada como uma alternativa para reorganizar passivos acumulados nos últimos anos e garantir a continuidade das operações esportivas e empresariais do clube.


No entanto, a contestação apresentada pela Montegra pode abrir espaço para questionamentos semelhantes por parte de outros credores que possuam garantias fiduciárias ou estruturas contratuais equivalentes.


Especialistas em recuperação de empresas apontam que disputas sobre a natureza dos créditos costumam desempenhar papel decisivo em processos dessa magnitude, já que determinam quais credores participarão efetivamente das negociações coletivas e quais poderão buscar pagamento à margem do plano de recuperação.


Impactos para a gestão Textor


A cobrança também volta a colocar sob escrutínio operações financeiras realizadas durante o período em que John Textor exercia controle direto das decisões estratégicas do Botafogo dentro da estrutura da Eagle Football.


Embora o empresário tenha sido responsável por investimentos que impulsionaram o crescimento esportivo do clube nos últimos anos, operações financeiras envolvendo empréstimos, antecipação de receitas e garantias associadas a ativos futuros vêm sendo analisadas com atenção crescente por credores e órgãos judiciais.


A ação da Montegra acrescenta mais um elemento à complexa rede de compromissos financeiros assumidos pela SAF e poderá influenciar diretamente a condução do processo de recuperação judicial nos próximos meses.


Até o momento, não houve manifestação pública da SAF do Botafogo sobre as alegações apresentadas pelo fundo de investimentos floridense, nos autos da ação.

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