Michele Kang fecha acordo para adquirir 87,8% do Lyon e assume controle do clube francês em operação de quase R$ 500 milhões; Como isto afeta o Botafogo?


Michele Kang Foto: (L. Cipolla /L'Équipe)



O Olympique Lyonnais está prestes a viver uma das maiores transformações de sua história recente. Após 11 meses e 24 dias, desde o afastamento de John Textor como Presidente e dono do clube da cidade de Lyon, em 30 de Junho de 2025, após uma grave crise financeira que abalou o grupo Eagle Football, a empresária Sul-coreana Michele Kang chegou a um acordo para assumir o controle do tradicional clube francês, em uma operação que pode redefinir não apenas o futuro do Lyon, mas também influenciar diretamente o processo de venda da SAF do Botafogo. 



Na manhã de terça-feira, Michele Kang chegou ao número 34 do boulevard de Courcelles (17º arrondissement de Paris) pouco antes das 9h30, enquanto a delegação da OL era esperada pela Direção Nacional de Controle de Gestão (DNCG) para sua audiência de retomada às 11h. Foi somente às 12h45 (Horário de Paris), após uma longa sessão oral, que toda a delegação, também representada pelo CEO Michael Gerlinger, enfrentou novamente o calor escaldante parisiense.


 

O acordo foi anunciado na terça-feira (23/6) pelo OL, e a Eagle Group, empresa controlada pelos credores da Eagle Football Holdings BidCo Limited e atualmente administrada pela empresa britânica de reestruturação financeira Cork Gully LLP. Pela operação, Michele Kang adquirirá 87,8% do capital da Eagle Football Group SA, controladora do Olympique Lyonnais.


A negociação representa o fim da era iniciada por John Textor no clube francês e abre caminho para uma profunda reestruturação financeira e administrativa.


Michele Kang assumirá dívidas e fará aporte milionário



Como parte do acordo, Michele Kang comprometeu-se pessoalmente a adquirir a dívida junto aos principais credores da Eagle Bidco, tornando-se a única acionista majoritária do Lyon.

Além da assunção das obrigações financeiras, Kang também realizará uma injeção de capital de até 75 milhões de euros, valor que corresponde a aproximadamente R$ 483 milhões na cotação atual.

Desse total, cerca de 31 milhões de euros (R$ 200 milhões) serão aportados imediatamente na conclusão da transação.

Segundo o comunicado oficial, o investimento será utilizado para fortalecer a estrutura financeira do clube e garantir a continuidade das operações esportivas e administrativas.

Ao mesmo tempo, os principais credores da instituição concederam uma série de facilidades financeiras para os próximos 18 meses, condicionadas à conclusão da operação.

O gesto foi interpretado internamente como um forte voto de confiança na capacidade de Michele Kang de reconstruir o clube.

Entre os credores envolvidos estão algumas das maiores instituições financeiras do mundo, incluindo:

Ares Management;
Goldman Sachs;
MUFG;
MetLife.

O Lyon agradeceu publicamente o apoio dessas instituições, destacando que a colaboração foi fundamental para viabilizar a operação.

DNCG ainda precisa aprovar a operação

Apesar do anúncio do acordo, a conclusão definitiva da transação ainda depende da aprovação da Direção Nacional de Controle de Gestão (DNCG), órgão responsável pela fiscalização financeira dos clubes franceses.

Nos próximos dias, Michele Kang deverá apresentar oficialmente seu projeto para o Lyon perante a entidade.

A manutenção administrativa do clube na Ligue 1 é considerada condição indispensável para o fechamento da operação.

Segundo o Lyon, Kang vem mantendo diálogo constante e transparente com a DNCG durante todo o processo.

Lyon deixará a Eagle Football

Caso todas as etapas regulatórias sejam concluídas com sucesso, o Olympique Lyonnais deixará oficialmente a estrutura da Eagle Football.

O clube voltará a operar sob a marca OL Groupe, denominação utilizada antes da chegada de John Textor.

A empresa permanecerá listada na bolsa de valores francesa.

A nova estrutura também manterá Michele Kang na presidência e Michael Gerlinger como diretor-executivo.

Outro ponto importante é que o Lyon masculino continuará sendo administrado separadamente do OL Lyonnes, equipe feminina que já está sob influência direta de Kang e é considerada uma potência mundial da modalidade.

Michele Kang destaca responsabilidade e ambição

Em declaração divulgada pelo clube, Michele Kang afirmou que o momento representa uma grande responsabilidade.

"É com grande senso de responsabilidade e grande honra que faço parte desse processo de assumir o Olympique Lyonnais. O progresso que fizemos no último ano já é excepcional. Conseguimos reconquistar a confiança de todos, enquanto lançamos as bases para a reconstrução da OL."

A empresária acrescentou que pretende recolocar o clube entre os protagonistas do futebol europeu.

"Continuaremos nossos esforços em todas as frentes para fazer do nosso clube um dos líderes do futebol europeu, mas também um grande jogador na metrópole de Lyon."

Michael Gerlinger celebra a operação

O diretor-executivo Michael Gerlinger também destacou a importância do acordo.

"Somos especialmente gratos a Michele, que escolheu assumir o comando do Olympique Lyonnais. Seu compromisso nos incentiva a continuar todas as mudanças profundas que iniciamos para tornar nosso clube cada vez mais forte."

Gerlinger ressaltou ainda o trabalho do diretor esportivo Matthieu Louis-Jean e do técnico Paulo Fonseca no processo de reconstrução esportiva.

"Colocamos o Olympique Lyonnais de volta no caminho certo, permitindo que nossa unidade esportiva trabalhe serenamente. Com Matthieu Louis-Jean e Paulo Fonseca, faremos tudo ao nosso alcance para corresponder ao investimento pessoal de Michele."

Como a venda do Lyon impacta diretamente o Botafogo

A mudança de comando no Lyon tem reflexos imediatos sobre outro clube que fazia parte da estrutura Eagle Football: o Botafogo.

Nos últimos meses, representantes do clube francês e do clube carioca vinham discutindo alternativas para resolver pendências financeiras acumuladas durante a gestão de John Textor.

As conversas ocorriam principalmente por intermédio da Ares Management, principal credora da Eagle Football.

Naquele momento, a ideia era manter o Lyon dentro da estrutura e vender o Botafogo.

As negociações envolviam inclusive possíveis compensações financeiras relacionadas aos débitos gerados pelo sistema de caixa único utilizado por Textor.

Esse modelo permitia a movimentação de recursos entre os clubes do grupo, criando uma complexa rede de créditos e débitos cruzados.

Entrada da Cork Gully mudou o plano da Eagle

O cenário mudou quando a Ares decidiu acionar mecanismos previstos na legislação inglesa e nomeou a Cork Gully como administradora judicial independente da Eagle Bidco.

A partir desse momento, a estratégia passou a ser a venda dos três clubes ligados ao grupo:

Olympique Lyonnais;
Botafogo;
RWD Molenbeek, da Bélgica.

Foi nesse contexto que Michele Kang surgiu como principal candidata para assumir o Lyon.

Agora, com a concretização do acordo, o clube francês deixa a órbita da Eagle Football.

Nos bastidores, dirigentes e investidores avaliam que qualquer negociação futura envolvendo Lyon e Botafogo precisará começar praticamente do zero.

GDA precisará negociar diretamente com Michele Kang

A mudança de controle cria uma nova realidade para a SAF do Botafogo.

Para que qualquer entendimento entre os clubes aconteça, a GDA — grupo liderado pelo empresário mexicano Gabriel de Alba — precisará primeiro concluir a compra da SAF alvinegra.

Somente depois disso poderão ser abertas negociações formais diretamente com Michele Kang.

Fontes envolvidas nas conversas classificam a situação como "cena dos próximos capítulos".

A prioridade absoluta neste momento é finalizar a transferência dos 90% das ações da SAF Botafogo.

A expectativa é que essa etapa seja concluída já na próxima semana.


O que falta para a GDA assumir o Botafogo?

As negociações para a venda da SAF estão em estágio avançado.

O acordo ocorre diretamente entre a GDA e a Cork Gully LLP.

Nem o Botafogo Social nem a SAF participam formalmente das tratativas.

Ainda assim, o presidente João Paulo Magalhães acompanha de perto o processo na cidade de Nova York/NY, EUA.

A transação prevê a transferência dos 90% das ações atualmente pertencentes à Eagle Bidco.

O modelo é semelhante ao utilizado por Michele Kang no Lyon.

A GDA assumirá não apenas as ações, mas também toda a dívida da SAF Botafogo, estimada em aproximadamente R$ 3 bilhões.

Por esse motivo, não haverá pagamento direto à Eagle Football pela aquisição.

GDA promete investimento superior a R$ 670 milhões

Além da assunção das dívidas, a GDA pretende realizar um robusto aporte financeiro no clube.

O plano prevê investimento de US$ 105 milhões, equivalente a aproximadamente R$ 579 milhões.

Uma primeira parcela de US$ 25 milhões, cerca de R$ 138 milhões, deverá entrar imediatamente após a transferência do controle acionário.

O objetivo é garantir fluxo de caixa e estabilidade operacional durante os primeiros meses da nova gestão.

Também existe a previsão de amortização de parte das dívidas da SAF com o clube associativo.


Lyon e Botafogo divergem sobre valores a receber

Um dos temas que deverá voltar à pauta futuramente envolve os débitos existentes entre Lyon e Botafogo.

O clube francês entende possuir cerca de R$ 727 milhões a receber da equipe carioca.

Por outro lado, ainda sob a gestão de John Textor, a SAF Botafogo alegava possuir aproximadamente R$ 745 milhões em créditos contra o Lyon.

A solução dessa disputa é considerada essencial para o equilíbrio financeiro das duas instituições.


Dívida da Eagle ultrapassa R$ 3 bilhões

A crise que culminou na venda dos clubes teve origem no elevado endividamento da Eagle Football.

Segundo documentos do processo, a dívida total da estrutura é estimada em US$ 547,3 milhões, valor próximo de R$ 3 bilhões.

Foi justamente esse cenário que levou a Ares Management a intervir na gestão e promover a nomeação da Cork Gully como administradora independente.

Textor tenta recuperar poder na Justiça

Enquanto a venda do Botafogo avança, John Textor continua travando uma batalha judicial para tentar recuperar influência sobre a SAF.

Na última segunda-feira, a Justiça do Rio de Janeiro determinou a devolução temporária de seus direitos políticos dentro da estrutura societária.

A decisão foi tomada pelo desembargador Luiz Eduardo Canabarro, que suspendeu provisoriamente os efeitos das decisões arbitrais que afastaram Textor do comando.

Apesar disso, o entendimento do Botafogo Social é que a decisão entra em conflito com posicionamentos anteriores do Superior Tribunal de Justiça (STJ).

No fim de maio, o STJ reconheceu a competência do Tribunal Arbitral da Fundação Getulio Vargas (FGV) para julgar a disputa envolvendo a SAF.

Foi justamente esse tribunal que determinou o afastamento de Textor da gestão em abril.

Nos bastidores, a avaliação é de que as recentes decisões judiciais não devem impedir o avanço das negociações entre GDA e Cork Gully.

Nova configuração do futebol multiclubes

A aquisição do Lyon por Michele Kang representa um dos capítulos mais importantes da reestruturação do modelo multiclubes criado por John Textor.

Com a saída do clube francês da Eagle Football e a iminente venda do Botafogo para a GDA, a estrutura originalmente idealizada pelo empresário norte-americano caminha para ser completamente desmontada.

O Lyon inicia uma nova era sob comando de Michele Kang, respaldada por credores internacionais e por um aporte próximo de meio bilhão de reais.

O Botafogo, por sua vez, aguarda a conclusão da venda da SAF para definir seu futuro administrativo e financeiro.

O que antes era uma rede integrada de clubes passa agora a ser composto por instituições independentes, obrigadas a renegociar suas relações comerciais, financeiras e esportivas em um cenário completamente diferente daquele construído durante a era Textor.

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