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Thiago Alves e João Paulo Magalhães Lins - Foto Reprodução: Instagram |
O Botafogo está em reboque. Todo mundo está em choque. E, parafraseando “Múmias”, sucesso do Biquíni Cavadão lançado em 1986, há quatro décadas atrás, “Bem-aventurados sejam aqueles que amam a desordem... não somos deste clube” — pelo menos não deste Botafogo mergulhado em correntes, contradições e torcedores quase em torrentes.
A situação da SAF Botafogo chegou a um território difícil de explicar e ainda mais difícil de defender: o limbo.
Atualmente, o poder está nas mãos do AssociaSAF, em um cenário no qual há dirigentes favoráveis àquilo que já pode ser chamado, sem cerimônia, de ¨BOTAVISTA¨ — uma mistura de Botafogo com Boavista, uma espécie de modelo híbrido que parece traduzir perfeitamente a confusão administrativa e esportiva que tomou conta do clube.
E talvez o maior problema esteja justamente aí: o discurso do Botafogo não conversa com a prática.
Há muitas promessas. Há muitas explicações. Há muitas garantias. Mas, quando a bola rola, a realidade insiste em desmentir o discurso.
A teoria é bonita. O campo, nem tanto.
O presidente João Paulo Magalhães Lins fala em um ambiente mais leve, em jogadores que compraram o projeto e em confiança no trabalho de Thiagão (Thiago Alves), tratado como o principal gerente de futebol disponível para o atual momento alvinegro.
O discurso é firme. E há até um recado para quem não concordar: “chiar à vontade”.
Também se afirma que os jogadores respeitam demais o profissional e que existe confiança no projeto.
Tudo isso pode funcionar na teoria.
O problema é que futebol não é feito apenas de teoria.
Na prática, o que se viu foi um grupo que se tornou apático, distante e sem resposta. Quem terminou a partida contra o Mirassol sem perceber que havia algo profundamente errado naquele time provavelmente não está enxergando o que acontece dentro de campo.
E isso é particularmente preocupante.
Nem mesmo no auge da crise entre o futebol social e John Textor o Botafogo apresentou, em determinados momentos, uma aparência de apatia tão evidente.
O discurso, porém, não registra essa realidade.
O discurso constrói outra realidade.
E é justamente essa distância entre uma coisa e outra que preocupa.
Agora, deixemos Thiago Alves e a República de Bacaxá de lado
Por um instante, deixemos Thiagão, a República de Bacaxá e toda essa discussão administrativa de lado.
Olhemos para Tite.
Será ele o homem capaz de devolver esse elenco a uma realidade competitiva?
A pergunta não é sobre passado, currículo ou nostalgia. É sobre o Botafogo de hoje.
Também não faz sentido transformar Tite em treinador ultrapassado simplesmente por causa de alguns trabalhos recentes. Isso seria uma análise preguiçosa.
Tite pode, sim, desenvolver um bom projeto no Botafogo.
E, neste momento, talvez nem seja necessário exigir uma revolução. Se conseguir organizar a defesa, reconstruir o meio-campo e devolver algum padrão coletivo ao time, já terá feito algo extremamente relevante.
O problema maior talvez seja outro: Tite conseguirá superar o próprio entorno?
Porque treinador nenhum trabalha sozinho.
Se existe uma estrutura confusa ao redor, se existem discursos que não correspondem ao campo e se há uma distância entre aquilo que se anuncia e aquilo que efetivamente acontece, o trabalho do treinador fica ainda mais difícil.
A pausa da FIFA será um divisor de águas
A parada para as partidas das seleções chega em um momento importante.
Agora com Tite no comando da comissão técnica, haverá tempo para trabalhar, observar e tentar reorganizar o elenco.
Mas a pausa também servirá para outra coisa: testar o discurso.
Será que Thiagão e a República de Bacaxá estão mesmo “bem na fita”?
Será que os jogadores compraram o projeto?
Será que o ambiente é realmente tão leve quanto se afirma?
Ou será que estamos diante de uma realidade completamente diferente daquela apresentada publicamente?
As respostas não virão em entrevistas.
Virão no gramado.
E elas começarão a aparecer no Clássico Cruz & Fogo contra o Vasco.
Depois do Vasco, acabou a desculpa do tempo
O confronto com o Vasco será determinante porque, depois dele, não haverá mais espaço para a justificativa de que Tite não teve tempo para treinar o time.
Tempo terá existido.
Trabalho terá sido feito.
A responsabilidade, então, será dividida entre comissão técnica, jogadores, departamento de futebol e dirigentes.
E o Botafogo precisará apresentar alguma coisa que hoje parece faltar: coerência.
Coerência entre o que se fala e o que se faz.
Coerência entre o projeto anunciado e o futebol apresentado.
Coerência entre a confiança declarada nos jogadores e aquilo que esses jogadores demonstram quando entram em campo.
Porque o Botafogo do discurso do presidente é um Botafogo organizado, leve, comprometido e confiante.
O Botafogo que estamos vendo é outro.
É um Botafogo em reboque.
Um Botafogo em choque.
Um Botafogo preso em suas próprias correntes.
E, enquanto dirigentes fazem discursos, torcedores ficam quase em torrentes, tentando entender que clube é esse que está diante deles.
Bem-aventurados aqueles que amam esta desordem.
Porque, para quem olha de fora, o que existe hoje no Botafogo é um enorme abismo entre a teoria e a prática.
E esse abismo precisará começar a desaparecer dentro de campo.
¨Errar não é humano, depende de quem erra, esperamos por vitórias, mas vivendo só de guerras¨
O Clássico Cruz & Fogo contra o Vasco será o primeiro grande teste. Depois dele, o discurso terá de encontrar a realidade com muitas vitórias seguidas acontecendo, para que o Botafogo fuja de vez de flertar com o rebaixamento, e busque uma vaga na Sul-Americana ou Pré-Libertadores para salvar a temporada atual e a próxima.
Bem-aventurados sejam os senhores do progresso, bem-aventurados sejam esses senhores do regresso.
