Com trabalho de Franclim Carvalho questionado pela torcida, 4 técnicos podem mudar o rumo da SAF Botafogo no médio e longo prazo


Franclim Carvalho - Foto: Vítor Silva/Botafogo


O Botafogo vive um momento que pode ser determinante para a construção de seu próximo ciclo esportivo. Mais do que os resultados imediatos, o clube precisa definir qual identidade pretende estabelecer para a equipe dentro da nova estrutura da SAF, administrada pela GDA LUMA de Gabriel de Alba.


A recente coletiva de Franclim Carvalho após o empate do Botafogo em 1 a 1 contra o Fluminense, onde o mesmo alegou que Montoro (melhor da partida) jogou abaixo do esperado, e que está satisfeito caso mais reforços não cheguem está tudo bem; aumentou o debate sobre os rumos do futebol alvinegro. O treinador afirmou que gostaria de contar com reforços, mas também demonstrou tranquilidade caso a diretoria não consiga concluir novas contratações. A declaração, embora possa ser interpretada como uma tentativa de preservar a confiança no elenco, também levanta uma questão importante sobre o planejamento esportivo.


O Botafogo precisa apenas administrar o elenco atual ou pretende construir um modelo de jogo capaz de orientar contratações, formação de jogadores e decisões do departamento de futebol?


Essa diferença pode determinar o sucesso de uma nova SAF.


A ideia de construir um time inspirado no modelo da Atalanta, da Itália, passa necessariamente pela definição de princípios de jogo. Não se trata de simplesmente copiar uma formação tática, mas de adotar características como intensidade, pressão coordenada, ocupação dos corredores, mobilidade, agressividade sem a bola e reação rápida após a perda da posse, além de buscar uma melhor assertividade nas decisões finais do último terço de campo. 


 

Nesse contexto, quatro treinadores estrangeiros aparecem como alternativas interessantes para um eventual projeto de reconstrução à longo prazo: Sérgio Conceição, Thiago Motta, Sebastián Beccacece e Sylvinho.


Cada um apresenta características distintas e poderiam conduzir o Botafogo por um caminho diferente.


Sérgio Conceição seria a opção pela intensidade e pela personalidade competitiva.


O português construiu sua carreira de treinador principalmente no FC Porto, onde comandou equipes agressivas, organizadas e capazes de pressionar o adversário em diferentes setores do campo. Seus times utilizaram estruturas como 4-4-2 e 4-2-3-1, mas a formação inicial sempre esteve subordinada ao comportamento coletivo.


Uma das principais características de Conceição é a capacidade de fazer suas equipes acelerarem o jogo depois da recuperação da bola. A pressão também tem papel importante, especialmente quando existe possibilidade de recuperar a posse ainda no campo ofensivo.


No Botafogo, o treinador poderia trabalhar com um 4-2-3-1, transformando a equipe em 4-4-2 durante a pressão. Outra possibilidade seria utilizar uma saída de três jogadores, permitindo que um dos laterais avançasse para criar superioridade no meio ou no corredor.


A principal vantagem de Conceição seria a capacidade de modificar rapidamente a personalidade competitiva da equipe. Seu trabalho exige intensidade física, concentração e forte comprometimento dos jogadores com o sistema.


Por outro lado, seria um treinador que provavelmente precisaria de autonomia e participação direta na construção do elenco além do alto salário acima de R$2,5 Milhões por mês. Um projeto com Conceição teria de ser acompanhado por uma estrutura esportiva capaz de fornecer jogadores adequados às suas exigências.


Thiago Motta representa uma proposta diferente.


O ítalo-brasileiro construiu uma carreira como jogador em alguns dos maiores clubes da Europa. Formado no Barcelona, chegou ao time principal do clube catalão no início dos anos 2000. Depois passou por Atlético de Madrid e Genoa antes de chegar à Inter de Milão.


Na Inter, Motta foi integrante da equipe que conquistou a histórica tríplice coroa na temporada 2009/10, com Campeonato Italiano, Copa da Itália e Liga dos Campeões na era José Mourinho.


Em 2012, o meio-campista foi contratado pelo Paris Saint-Germain, onde permaneceu até o encerramento da carreira, em 2018. No clube francês, conquistou diversos títulos nacionais e acumulou mais de duas centenas de partidas.


A trajetória ajuda a explicar algumas das características do treinador.


Motta viveu diferentes escolas do futebol europeu. Passou pela formação técnica do Barcelona, pela intensidade competitiva da Inter e pelo domínio territorial de um PSG que tinha obrigação de controlar a maioria de seus adversários.


Como treinador, demonstrou preocupação especial com ocupação dos espaços, superioridade numérica e flexibilidade posicional.


Uma equipe comandada por Motta poderia começar em um 4-3-3 ou 4-2-3-1 e se transformar em um 3-2-4-1 durante a posse de bola.


Essa mudança permitiria ao Botafogo construir desde trás com três jogadores, utilizar dois atletas na sustentação do meio-campo e colocar quatro jogadores em zonas ofensivas.


Sem a bola, a estrutura poderia retornar para um 4-4-2 ou 4-1-4-1, dependendo do adversário e da altura da pressão.


O grande atrativo de Motta seria a possibilidade de transformar o Botafogo em uma equipe baseada em conceitos e não apenas em posições fixas.


O risco estaria no tempo necessário para implementar esse modelo. Seria uma escolha mais adequada para um projeto de médio e longo prazo do que para uma mudança emergencial.


Sebastián Beccacece apresenta outra possibilidade.


O argentino é conhecido por equipes intensas, móveis e agressivas na pressão. Seus trabalhos são marcados pela tentativa de controlar o adversário por meio da pressão, da ocupação dos espaços e da velocidade na transição ofensiva.


Beccacece pode trabalhar com diferentes estruturas, incluindo 4-3-3, 4-2-3-1 e 3-4-3. Mais importante do que a formação inicial é a capacidade dos jogadores de modificar suas posições de acordo com o movimento da bola.


No modelo de Beccacece, o lateral pode avançar, o ponta pode ocupar uma posição interior, o volante pode aproximar-se da construção e o meia pode atacar espaços deixados pelo adversário.


A ideia seria construir um Botafogo menos previsível e mais agressivo.


Após recuperar a bola, o time procuraria acelerar verticalmente. Depois de perder a posse, a reação seria imediata, tentando impedir que o adversário consiga iniciar uma transição organizada.


Esse comportamento possui pontos de contato com o futebol que transformou a Atalanta em uma das equipes mais interessantes da Europa nas últimas temporadas.


Beccacece poderia ser uma escolha adequada caso o objetivo principal da nova SAF seja estabelecer uma identidade baseada em pressão, intensidade e verticalidade.


O quarto nome é Sylvinho.


O brasileiro apresenta uma característica que pode ser especialmente interessante para o Botafogo: a combinação entre experiência internacional e conhecimento da realidade do futebol brasileiro.


Como jogador, Sylvinho iniciou a carreira no Corinthians e posteriormente chegou ao Arsenal. Depois atuou pelo Celta de Vigo antes de se transferir para o Barcelona, onde permaneceu entre 2004 e 2009.


No clube catalão, participou de uma das gerações mais vitoriosas da história recente do futebol europeu e conquistou, entre outros títulos, a Liga dos Campeões.


Sylvinho encerrou a carreira como jogador no Manchester City.


A experiência acumulada em clubes como Arsenal, Barcelona e Manchester City proporcionou contato com diferentes escolas do futebol europeu.


Como lateral-esquerdo, também atuou em uma posição fundamental para a construção ofensiva e para a ocupação dos corredores.


Como treinador, Sylvinho demonstrou preferência por estruturas como o 4-3-3, mas também apresentou capacidade para modificar o comportamento defensivo e a pressão de suas equipes.


No Botafogo, poderia trabalhar em um modelo no qual o 4-3-3 se transforma em 3-2-4-1 durante a posse. Na fase defensiva, a equipe poderia retornar ao 4-4-2 ou, dependendo do contexto, formar uma linha de cinco jogadores.


A grande vantagem seria a possibilidade de unir conceitos adquiridos no futebol europeu com conhecimento sobre o ambiente brasileiro.


Para uma SAF que precise equilibrar planejamento de longo prazo e adaptação imediata ao futebol nacional, Sylvinho poderia ser uma alternativa interessante.


Os quatro nomes possuem características diferentes.


Sérgio Conceição representa intensidade, personalidade e capacidade de mudança imediata.


Thiago Motta representa construção, flexibilidade e organização posicional.


Beccacece representa pressão, mobilidade e verticalidade.


Sylvinho representa a possibilidade de combinar experiência europeia e conhecimento do futebol brasileiro.


Existe ainda uma característica que aproxima especialmente Motta e Sylvinho.


Os dois conheceram o futebol de elite primeiro como jogadores.


Motta atuou no Barcelona, na Inter de Milão e no Paris Saint-Germain. Sylvinho passou por Corinthians, Arsenal, Celta, Barcelona e Manchester City.


Motta construiu sua leitura de jogo a partir do meio-campo, posição em que é necessário compreender espaços, linhas de passe e equilíbrio defensivo.


Sylvinho desenvolveu sua visão a partir do corredor, onde é necessário interpretar amplitude, cobertura, profundidade e participação ofensiva dos laterais.


Essa formação pode ser relevante para um projeto que pretende construir um time baseado em mobilidade e ocupação racional do campo.


Se a referência for realmente a Atalanta, o Botafogo não deveria buscar apenas uma formação específica.


O objetivo deveria ser criar uma equipe capaz de alternar estruturas sem perder identidade.


Com a bola, o time poderia trabalhar em um 3-2-4-1, criando superioridade na saída e colocando jogadores entre as linhas adversárias.


Sem a bola, poderia retornar ao 4-4-2 ou 4-1-4-1.


Durante a pressão, poderia utilizar um comportamento mais agressivo, aproximando os atacantes da primeira linha adversária.


A formação seria apenas o ponto de partida.


O mais importante seria estabelecer comportamentos.


O jogador precisaria saber quando pressionar, quando recuar, quando atacar o espaço, quando ocupar o corredor e quando oferecer apoio ao companheiro.


Esse tipo de organização é justamente o que permite que uma equipe tenha identidade independentemente das alterações de escalação.


Por isso, a discussão sobre o futuro do Botafogo não deveria se limitar à avaliação de Franclim Carvalho ou à necessidade de novos reforços.


A questão central é maior.


A nova SAF precisa definir que tipo de futebol pretende construir.


Se a GDA LUMA pretende estabelecer um projeto sustentável, o treinador deveria ser escolhido antes da definição do perfil das contratações. O departamento de scouting deveria buscar jogadores que se encaixem no modelo, e não simplesmente atletas considerados bons negócios no mercado.


A lógica deveria ser simples: identidade, treinador, modelo de jogo, perfil de jogador, scouting e contratações.


É essa sequência que pode transformar uma SAF em um projeto esportivo.


Entre os quatro nomes analisados, Sérgio Conceição seria a opção mais voltada para impacto imediato. Thiago Motta poderia ser o nome mais interessante para uma transformação estrutural de médio e longo prazo. Beccacece teria forte capacidade para estabelecer um futebol agressivo e vertical. Sylvinho poderia representar o equilíbrio entre experiência europeia e conhecimento do futebol brasileiro.


Nenhum deles seria uma solução automática.


Todos exigiriam planejamento, elenco adequado e respaldo da direção.


Mas existe algo em comum entre as quatro possibilidades: todos poderiam ser escolhidos a partir de uma ideia de futebol.


E talvez seja exatamente isso que o Botafogo precise neste momento.


Uma coletiva ruim não define o futuro de um treinador. Um jogador fazer uma partida abaixo do esperado também não define um projeto.


O que define um projeto é a capacidade de responder para onde o clube está indo.


Se o objetivo é construir um Botafogo intenso, agressivo, vertical, organizado e capaz de pressionar durante os 90 minutos, existem caminhos no mercado.


Sérgio Conceição, Thiago Motta, Sebastián Beccacece e Sylvinho representam quatro desses caminhos.


A decisão mais importante, entretanto, não é escolher entre quatro treinadores.


É decidir qual Botafogo a nova SAF pretende construir.


Antes de contratar o próximo jogador, o clube precisa definir o próprio modelo de futebol.


Porque, no futebol moderno, uma grande equipe não começa pelo nome do jogador.


Começa pela ideia.

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