Hipótese de terceira via coloca John Elkann, da Stellantis e dono da Juventus, como alternativa que poderia ter encerrado em abril de 2026 a indefinição envolvendo a SAF do Botafogo; meses depois, em Julho, executivo esteve em Betim/MG para celebrar cinco décadas da Fiat no Brasil e falou sobre investimentos e o futuro da fábrica da marca no Brasil
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John Elkann em entrevista ao ¨O Tempo¨ sobre os 50 anos da FIAT no Brasil durante entrevista à Raimundo Couto - Foto Reprodução: AUTOTEMPO/O TEMPO |
John Elkann esteve no centro de duas dimensões que, embora pertençam a universos diferentes, passaram a fazer parte do cenário empresarial e esportivo brasileiro em 2026: o futebol e a indústria automotiva.
Em abril, durante o processo de venda dos ativos da Eagle Football Holdings Bidco conduzido pela Cork Gully LLP, administradora judicial da holding, o nome de Elkann apareceu entre os potenciais interessados na aquisição da SAF do Botafogo. A Cork Gully havia colocado à venda os principais ativos da Eagle, incluindo a participação na SAF alvinegra, além do Lyon, da França, e do RWDM Brussels, da Bélgica.
Nesse contexto, surge uma hipótese: e se a Cork Gully administradora judicial da Eagle BidCo tivesse escolhido John Elkann para assumir o controle da SAF do Botafogo naquele momento?
Dentro desse cenário, o Botafogo poderia ter seguido por uma trajetória diferente da que se desenhou posteriormente. A escolha de Elkann teria colocado à frente do futebol alvinegro um empresário ligado a um dos maiores conglomerados automotivos do mundo, além de integrante da família Agnelli, historicamente associada à Fiat e à Juventus.
A hipótese também altera a leitura sobre o chamado limbo envolvendo a estrutura societária do Botafogo. Em vez da situação atual, na qual a definição sobre o controle e os rumos da SAF passou por diferentes interessados e negociações, o clube poderia ter recebido naquele momento um controlador com estrutura empresarial internacional já estabelecida.
O processo de venda da SAF
A Cork Gully LLP foi nomeada administradora da Eagle Bidco em 27 de março de 2026, após a disputa envolvendo credores da holding. Com a administração judicial, John Textor perdeu os poderes de diretor da Eagle BidCo, embora inicialmente continuasse ligado à gestão esportiva do Botafogo.
Em 10 de abril, a Cork Gully anunciou a venda dos principais ativos da companhia em publicação no Financial Times. Entre eles estava a SAF do Botafogo. Interessados foram convidados a apresentar manifestações de interesse à administradora.
Foi nesse processo que John Elkann passou a ser citado entre os nomes que poderiam participar da disputa pelo Botafogo. A imprensa esportiva e econômica registrou o interesse do executivo, que é chairman da Stellantis, presidente da Ferrari e ligado à Exor e à Juventus.
O processo seguiu com outros grupos e, posteriormente, a GDA Luma de Gabriel de Alba, apareceu como uma das propostas efetivamente analisadas pela administradora. Porém ainda não assinou o contrato devido ao caso credivalores.
A hipótese que muda o cenário
É justamente a partir desse ponto que se estabelece o cenário hipotético.
Se John Elkann tivesse sido escolhido pela Cork Gully em abril de 2026, a SAF Botafogo poderia ter passado diretamente para o comando de um grupo empresarial de alcance global, evitando a continuidade da indefinição societária que se seguiu.
Nessa hipótese, a estrutura do Botafogo não teria ficado dependente da condução de uma negociação posterior envolvendo a GDA Luma e o clube associativo.
O cenário também afastaria a possibilidade de o Botafogo Associativo assumir um papel de protagonismo na condução cotidiana da estrutura enquanto a definição definitiva do controlador da SAF permanecesse pendente.
É nesse ponto que a comparação ganha força: de um lado, a possibilidade de um controlador internacional com uma estrutura empresarial consolidada; de outro, a permanência de uma estrutura provisória marcada por negociações, interesses e indefinições sobre o futuro da SAF.
John Elkann e os 50 anos da Fiat no Brasil
Meses depois de seu nome aparecer associado ao processo de aquisição da SAF do Botafogo, John Elkann voltou ao Brasil, desta vez em uma agenda completamente ligada à indústria automobilística.
O chairman do Grupo Stellantis esteve em Betim, Minas Gerais, em 21 de julho, para participar das comemorações dos 50 anos da Fiat no Brasil, celebrados oficialmente em 9 de julho.
Em entrevista exclusiva ao Autotempo, Elkann falou sobre a relação pessoal com o país, os investimentos da Stellantis, a importância estratégica do Polo Automotivo de Betim e os impactos sociais da operação na região.
Herdeiro da família Agnelli, fundadora da Fiat na Itália, Elkann nasceu em Nova York, nos Estados Unidos, possui cidadania italiana e tem 50 anos. Durante a infância, viveu cinco anos no Brasil e aprendeu a falar português por sua relação com o país.
A presença em Betim também demonstrou o peso da operação brasileira dentro da estratégia mundial da Stellantis.
Betim como peça estratégica
Durante a entrevista, Elkann destacou a trajetória construída pela Fiat no país. Segundo o executivo, a operação brasileira produziu 18 milhões de veículos ao longo de sua história, sendo que aproximadamente 4 milhões foram destinados a outros 40 países.
O executivo também afirmou que o Brasil possui grande importância para a Stellantis e citou o ciclo de investimentos previsto para o período de 2025 a 2030, com 40 produtos diferentes.
A operação de Betim reúne, além da Fiat, atividades relacionadas a outras marcas do grupo, como Jeep, RAM, Peugeot e Citroën, reforçando o papel do Brasil dentro da estrutura global da Stellantis.
O Polo Automotivo de Betim também ganhou destaque pela estrutura industrial, pelos centros de pesquisa e desenvolvimento, laboratórios e tecnologias empregadas na produção de veículos. Em evento realizado na cidade, Elkann afirmou que Betim possui uma das fábricas mais avançadas da Stellantis no mundo.
Indústria, futebol e a família Agnelli
A trajetória de Elkann ajuda a conectar os dois episódios.
Na indústria, ele representa a família Agnelli e está à frente de um dos maiores grupos automotivos do mundo, com marcas como Fiat, Jeep, RAM, Peugeot e Citroën.
No futebol, seu nome está associado à estrutura proprietária da Juventus e ao ecossistema empresarial da Exor.
Por isso, sua eventual entrada no Botafogo em abril de 2026 teria representado a chegada ao futebol brasileiro de um investidor com experiência simultânea em indústria, investimentos, esporte e gestão de grandes organizações internacionais.
A questão permanece, portanto, no campo da hipótese: se a Cork Gully tivesse escolhido John Elkann naquele processo, o Botafogo poderia ter seguido outro caminho societário e administrativo, sem a configuração posterior que colocou a GDA Luma e o Botafogo Associativo no centro das discussões sobre o futuro da SAF.
Enquanto isso, em Betim, o mesmo John Elkann celebrava os 50 anos da Fiat no Brasil e apontava para o futuro da operação mineira.
A mensagem transmitida pelo executivo na comemoração do cinquentenário foi justamente de continuidade: depois de cinco décadas de história, a orientação seria olhar para frente e seguir avançando junto com trabalhadores, fornecedores, parceiros e clientes.
Assista a entrevista abaixo:
Autotempo: Como você se sente estando aqui no Brasil, na Fiat, comemorando esses 50 anos?
John Elkann: Muita emoção, eu morei aqui quando eu tinha 7 anos e morei 5 anos no Brasil e a minha idade é 50 anos, eu sou um pouco mais precoce. Nasci em abril e a Fiat nasceu no Brasil em julho, em 1976. E isso é muita emoção, todas juntas, mas é o orgulho de trabalhar aqui, orgulho de trabalhar com gente incrível, com quem construiu e fez esses 50 anos uma realidade importante. A gente fabricou aqui 18 milhões de carros e 4 milhões de carros partiram do Brasil para 40 países. Isso é uma coisa que é muito especial, muito rara, completar um sucesso assim. E é tudo feito de pessoas. O relacionamento que tem com as pessoas que trabalham aqui é muito, muito forte.
Autotempo: Qual é o papel do Brasil dentro da Stellantis hoje?
John Elkann: O Brasil tem uma grandíssima importância para a Stellantis e a gente está investindo muito. Nós agora completamos o maior investimento que nunca fizemos aqui. De 2025 até 2030 serão 40 "produtos" diferentes. De 1976 até hoje, diferentes marcos que temos aqui no Brasil, não somente a Fiat, mas também temos a Jeep, a gente tem a RAM, temos diferentes possibilidades também com Peugeot e Citroën, então foi realmente uma história incrível de progresso com o Brasil.
Autotempo: O projeto Árvore da Vida chamou atenção. Qual a importância dessa iniciativa para a Stellantis?
John Elkann: Para mim é muito, muito importante que a gente aqui no Brasil, como também em todos os países onde estamos, somos parte da comunidade, e trabalhamos com as pessoas que estão aqui e a Stellantis crê muito na educação, na força da educação, e a Árvore da Vida é um projeto muito, muito importante, que faz isso, que transmite conhecimento. Hoje a gente, vamos inaugurar a possibilidade de ter um carro nosso, um veículo comercial (um Fiat Ducato), que vai ser uma escola móvel e vamos fazer uma iniciativa a mais para a comunidade aqui de Betim, mais para a educação de meninas e meninos, que vão aprender mais.
Autotempo: Que mensagem você deixa para os mineiros, os brasileiros e para os clientes da Fiat?
John Elkann: A mensagem que eu tenho é obrigado para todos, para tudo que fizemos juntos até aqui. Obrigado para as pessoas que trabalham aqui, obrigado para os mineiros, e obrigado para os clientes e também parceiros da Fiat e da Stellantis no Brasil. A mensagem é que a gente fez muito bem nesses 50 anos, mas o que é importante é olhar para frente. Então, vamos para frente, juntos.
