Queda de 40% no programa de sócios-torcedores Camisa 7 ocorre em meio à recuperação judicial, dívidas com o Lyon, disputa pelo controle da SAF e chegada da GDA Luma que ainda é credora
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Torcida do Botafogo contra o Remo em 2 de Maio de 2026, no Estádio Nilton Santos — Foto: André Durão |
O Botafogo perdeu aproximadamente 26 mil sócios-torcedores em apenas um ano, em um dos sinais mais evidentes do desgaste provocado pela crise financeira e institucional que atingiu a SAF após o período de maior sucesso esportivo da era John Textor.
Segundo dados do relatório mensal da recuperação judicial da SAF, divulgado em setembro e analisado pela imprensa especializada, o programa Camisa 7 chegou a cerca de 37 mil associados, depois de ter alcançado seu recorde, próximo de 81 mil, em dezembro de 2024, logo após as conquistas da Libertadores e do tricampeonato Brasileiro. A retração representa uma perda superior à metade da base construída no auge da empolgação da torcida.
Apenas em julho de 2026, o programa registrou 458 novas adesões, contra 299 cancelamentos, enquanto 1.154 associados deixaram de pagar suas mensalidades. O tíquete médio permaneceu próximo de R$ 65 por mês. Os números foram divulgados a partir do relatório da recuperação judicial.
O contraste é expressivo. O mesmo programa que, no auge esportivo, ultrapassou 80 mil associados era tratado pelo próprio Botafogo como um importante componente de sua receita recorrente. As demonstrações financeiras de 2024 registraram a marca histórica de mais de 80 mil sócios ativos durante a temporada.
Do auge à perda de confiança
A deterioração da relação financeira entre clube e torcida ocorre paralelamente à implosão do modelo empresarial construído pela Eagle Football Holdings BidCo, grupo então comandado por John Charles Textor.
O Botafogo entrou em 2026 pressionado por restrições de caixa, Transfer Bans, dívidas relacionadas a contratações e uma disputa societária que culminou no pedido de recuperação judicial. A própria SAF afirmou que o cenário foi agravado por bloqueios, vencimentos antecipados e falta de liquidez.
Em maio, o clube declarou que permaneceu por mais de um ano sem receber uma injeção relevante de recursos, enquanto outros ativos do grupo receberam aportes. Na mesma manifestação, a SAF responsabilizou diretamente a Eagle Football e John Textor pelo agravamento da situação financeira.
O balanço de 2025 ajuda a dimensionar o problema: a SAF registrou faturamento bruto de aproximadamente R$ 1,4 bilhão, mas mais de R$ 733 milhões desse montante vieram de negociações de jogadores, enquanto a dívida alcançava cerca de R$ 2 bilhões.
Ou seja, o modelo dependia fortemente da transformação de ativos esportivos em dinheiro. Quando o fluxo financeiro entre os clubes da Eagle deixou de funcionar, o Botafogo passou a enfrentar uma crise de liquidez que atingiu diretamente sua capacidade de operar.
O caso Lyon e as transferências sob investigação
Um dos capítulos mais controversos da crise envolve o Olympique Lyonnais, clube que também fazia parte da estrutura da Eagle.
Investigações na França levantaram suspeitas sobre chamadas “transferências fantasmas” envolvendo jogadores do Botafogo. Entre os nomes citados estão Luiz Henrique, Igor Jesus, Thiago Almada, Jair Cunha e Savarino. A investigação questionou operações nas quais jogadores teriam sido negociados economicamente com o Lyon sem necessariamente terem atuado ou sido registrados pelo clube francês.
As acusações são contestadas por John Textor, que negou irregularidades e apresentou sua própria versão para as operações. O empresário afirmou que havia uma estrutura de centralização de caixa entre os clubes da Eagle Football Holdings BidCo e que o Botafogo teria transferido cerca de 146 milhões de euros ao Lyon, parte relacionada aos direitos econômicos de jogadores.
O conflito deixou de ser apenas contábil e chegou aos tribunais.
Em abril de 2026, o Botafogo acionou o Lyon na Justiça brasileira para cobrar mais de R$ 745 milhões. Segundo a SAF, os valores envolvem empréstimos, transferências e outras operações realizadas dentro da estrutura financeira da Eagle. Uma das ações envolve 21 milhões de euros relacionados a três transferências realizadas em março de 2025.
As demonstrações financeiras do Botafogo também registraram operações financeiras intragrupo realizadas entre 2024 e 2025 e informaram que créditos com vencimento em março de 2026 não foram liquidados. O clube posteriormente ajuizou ação para cobrar 104 milhões de euros.
GDA Luma aparece entre os maiores credores
A crise ganhou ainda uma dimensão societária com a entrada da GDA Luma, ligada ao empresário mexicano Gabriel de Alba, como novo investidor pretendido para a SAF.
No levantamento de credores apresentado na recuperação judicial, a GDA Luma apareceu inicialmente como segunda maior credora da SAF, com um crédito listado em US$ 37,5 milhões, equivalente a cerca de R$ 186,8 milhões na conversão utilizada no documento.
A posição, porém, é peculiar: a própria GDA é o investidor que negocia a entrada no controle da SAF e pediu para deixar a lista de credores. O acordo vinculante de investimento foi assinado em junho, mas a transferência efetiva do controle acionário ainda dependia de etapas societárias e judiciais.
O plano prevê uma transformação profunda na estrutura de controle. Atualmente, o Botafogo associativo detém 51% da SAF, enquanto a Eagle possui 49%. A estratégia discutida envolve a emissão de novas ações, diluindo a participação da Eagle e criando condições para a futura transferência do controle para a GDA.
A crise não ficou restrita aos balanços
O impacto financeiro também chegou ao campo.
Em junho, o Botafogo acumulava quase R$ 300 milhões em dívidas que resultaram em transfer bans da Fifa, relacionados às contratações de Thiago Almada, Rwan Cruz, Santi Rodríguez, Artur Victor e Lucas Villalba.
O cenário é particularmente simbólico para uma torcida que, menos de dois anos antes, vivia o período mais glorioso do clube em décadas.
Depois de Libertadores e Campeonato Brasileiro, o Camisa 7 chegou perto de 81 mil associados. Agora, cerca de 37 mil permanecem. A diferença não representa apenas uma perda comercial: ela pode ser interpretada como um termômetro da confiança do torcedor no projeto.
A queda de aproximadamente 26 mil associados em um ano significa que uma parcela expressiva da torcida deixou de enxergar o programa como prioridade — justamente quando a SAF mais precisa de receitas recorrentes e previsíveis.
O desafio da reconstrução
A recuperação judicial tenta colocar ordem em uma estrutura que cresceu rapidamente durante a era Textor, mas que acabou exposta a uma complexa rede de obrigações entre empresas do mesmo grupo.
O Botafogo já fechou acordos preliminares com credores importantes, incluindo a MLS e o Ludogorets, e busca alcançar o percentual necessário para aprovação do plano de recuperação. A dívida da SAF foi apresentada em patamar superior a R$ 2,5 bilhões, incluindo aproximadamente R$ 400 milhões em obrigações tributárias.
A entrada da GDA Luma pode representar uma nova etapa, mas não apaga o passivo acumulado nem resolve automaticamente as disputas relacionadas à Eagle e ao Lyon.
No fim, a queda do número de sócios talvez seja o retrato mais simples de uma crise extremamente complexa.
O Botafogo passou, em menos de dois anos, de quase 81 mil torcedores pagando mensalmente para sustentar o projeto a aproximadamente 37 mil. Uma perda de 44 mil sócios-torcedores no período.
A torcida que ajudou a financiar o sonho agora cobra respostas.
E a nova administração terá de convencer esses milhares de torcedores de que o próximo projeto será construído sobre bases diferentes — com dinheiro real, transparência, responsabilidade financeira e, sobretudo, confiança. Algo bem longe do cenário atual de limbo.
