O nigeriano Hemen Victor Tseayo e o Norte-americano Stephen Hamilton Welch renunciaram aos cargos de diretores da Eagle Holdings Bidco na manhã deste segunda-feira (26/1), segundo constam documentos da Companies House (lar/casa de empresas na tradução livre), órgão do governo britânico responsável pelo registro de empresas.
Ambos haviam sido nomeados diretores da Eagle Bidco, que na prática é a empresa controladora da SAF do Botafogo, em outubro de 2025. Com a saída de ambos, John Textor passa a ser o único diretor no momento, segundo os registros na Companies House no Reino Unido.
Tseayo foi diretor de desenvolvimento estratégico do Tottenham e chegou à Eagle Holdings BidCo em 8 de outubro de 2025. Já Welch havia sido escolhido por Textor em 16 de outubro daquele mesmo ano, para substituir Donald William Christopher Mallon no cargo de diretor independente da Eagle.
As saídas dos dirigentes podem ser um indício do que Textor revelou no último sábado 24/1, sobre a chegada de novos investidores da FuboTV e outros amigos de outras empresas e projetos, para ajudá-lo no Botafogo. O esperado aporte de US$ 50 milhões foi prometido para chegar ao clube nesta semana.
A saída dos executivos ocorre em meio a uma corrida para reestruturar e potencialmente formar uma nova versão da holding — a chamada Eagle 2.0. A ideia, nos bastidores, seria criar uma estrutura mais “clean” e com novos sócios para fortalecer o projeto global de Textor, especialmente depois dos problemas financeiros enfrentados pela antiga Eagle e pela necessidade de injetar capital fresco no clube carioca.
No entanto, este plano enfrenta um obstáculo pesado: o empresário americano está numa disputa judicial com a Iconic Sports, que o processa na Justiça Comercial do Reino Unido por mais de US$ 90 milhões (aproximadamente R$ 500 milhões) — valor referente a obrigações contratuais não pagas em uma operação anterior envolvendo a Eagle. Numa decisão preliminar, o tribunal britânico confirmou que Textor violou compromissos contratuais e que terá de pagar o que deve à Iconic, o que pode levar a uma execução de garantias ou perda de participação societária se os valores não forem quitados ou contestados com sucesso.
Ou seja: para que a tal Eagle 2.0 realmente ande, Textor precisará resolver essa dívida com a Iconic — seja com recursos próprios, seja com ajuda de investidores ou amigos ligados à sua operação (como os que o apoiam na FuboTV e outros fundos).
Até que o julgamento completo em Londres seja concluído, o cenário segue imprevisível, com muita coisa para acontecer nas próximas semanas. A permanência de Textor no comando da SAF Botafogo onde ele detém 90%, a entrada de novos parceiros ou até a mudança de controle da holding ainda estão em aberto conforme os desdobramentos legais e estratégicos vindouros na Justiça Comercial Britânica.
No momento qual é o panorama para indicar novos diretores?
Cenário 1 – Textor mantém o controle no curto prazo (mais provável agora, antes do julgamento completo)
Enquanto John Textor seguir como acionista majoritário formal da Eagle Bidco, o poder de indicação dos diretores continua sendo dele.
Nesse cenário, Textor pode:
Indicar diretores interinos ou de confiança pessoal
Postergar anúncios oficiais para evitar ruído jurídico
Manter a estrutura mínima exigida por lei no Reino Unido
Mesmo Textor pressionado, a Iconic Sports não tem poder direto de nomeação antes de uma decisão final ou execução judicial o que irá somente ocorrer daqui algumas semanas.
A Ares, apesar de maior credora, também não indica diretores automaticamente sem cláusulas específicas de “step-in rights” (direitos de intervenção) sendo ativadas. Em linguagem mais prática, significa o direito de um credor ou investidor “entrar” na gestão de uma empresa ou projeto caso certas condições sejam descumpridas (inadimplência, risco financeiro, quebra de contrato etc.). Se a empresa não paga a dívida, o credor pode exercer os step-in rights e assumir temporariamente decisões, indicar gestores ou controlar operações para proteger o investimento.
Este é o cenário atual de fato: controle formal ainda com Textor, mas estando politicamente fragilizado.
Cenário 2 – Ares ganha influência informal (pressão silenciosa) o que pode ocorrer nos próximos dias. A Ares nunca deixou Textor tomar qualquer ação, sem dar nenhuma resposta logo em seguida.
Se a situação financeira de Textor apertar, e há possíveis indícios que pode ocorrer — a Ares Management pode:
Condicionar renegociações de dívida
Exigir governança reforçada
Sugerir (não impor) nomes técnicos e independentes para o conselho da Eagle Football Holdings
Aqui, Textor ainda indicaria os diretores no papel, mas:
Os nomes seriam negociados
Haveria perfis mais financeiros e menos “políticos”
O objetivo seria proteger o crédito, não controlar o futebol
Esse modelo é comum em reestruturações: o acionista indica, o credor aprova nos bastidores.
Cenário 3 – Congelamento estratégico até Londres (bem plausível)
Outro caminho bastante realista:
Nenhum diretor novo anunciado agora
Eagle operando no mínimo estatutário
Decisões estratégicas adiadas
Isso evita:
Nomeações que possam ser questionadas judicialmente
Acusações de “esvaziamento” da empresa
Risco de reversão após decisão da Justiça britânica
Nesse cenário, Textor segura o tabuleiro até saber se:
Vai pagar
Vai perder participação
Ou vai precisar entregar ativos
Cenário 4 – Iconic vence e muda tudo (cenário de mudança total)
Se a Iconic Sports vencer definitivamente na justiça comercial britânica onde possui 70% para tal, e conseguir:
Executar garantias
Converter dívida em participação
Ou forçar venda de ativos
Aí o jogo muda completamente:
Textor pode perder o controle
Um administrador judicial pode ser indicado
Um novo conselho pode surgir sem o aval de Textor
Só a partir desse ponto a Iconic teria poder real para influenciar ou indicar diretores.
Importante: isso não acontece automaticamente com a vitória — dependerá do tipo de execução da sentença final que será anunciado, no dia deste julgamento completo.
Resumo
Agora: Textor ainda indica (ou segura indicações)
Ares: influencia, negocia possíveis nomes, mas não manda
Iconic: só terá poder após vitória + execução
Mais provável no curto prazo: cargos vagos ou ocupados de forma técnica e discreta
Decisão estrutural real: só depois do julgamento completo de Londres

