Em 30 de junho de 2025, John Textor deixou o comando do Olympique Lyonnais, clube da cidade de Lyon, em Ródano-Alpes na França, entregando o controle operacional do clube francês à Michele Kang, proprietária do Washington Spirit clube feminino dos EUA.
A transição ocorreu após o regulador francês do futebol, a DNCG, rebaixar o Lyon por questões financeiras (decisão que foi posteriormente revertida com sucesso em recurso). Publicamente, Textor e Kang demonstraram cordialidade inicialmente. Ele a chamou de “a escolha perfeita” para liderar o clube daqui em diante, enquanto Kang agradeceu a Textor por seu “compromisso e visão”.
Nos bastidores, porém, Textor afirma que Kang já havia firmado um acordo paralelo “secreto” com a Ares Management Corporation, gestora global de investimentos que emprestou US$450 Milhões de Dólares(R$ 2,25 bilhões) à Eagle Football Holdings BidCo em 2022 — a holding que reúne as participações de Textor em diversos clubes, incluindo o Lyon, na França, o RWD Brussels na Bélgica, e o Botafogo, no Brasil. (Kang detém a maioria das ações do time feminino do Lyon e já integrou o conselho da Eagle Football, que também possui participação minoritária na equipe feminina).
Textor afirma que, ao renunciar ao conselho do Lyon e ver Kang assumir o cargo, acreditava que todos estavam alinhados: ele comandaria o Botafogo, ela lideraria o Lyon e, de forma centralizada, as decisões relacionadas ao futebol seriam tomadas de maneira colaborativa por meio da Eagle.
Em vez disso, segundo ele, Kang fez “uma grande jogada de poder” ao assumir o controle total do Lyon e criar um “conselho paralelo”, cuja existência Textor diz ter descoberto apenas após sua renúncia e depois de já ter confiado a ela a gestão do clube. Por meio de um representante, Kang se recusou a comentar. “Eu realmente achei que éramos amigos”, afirmou Textor ao Front Office Sports.
O patrimônio líquido de John Charles Textor não é claro, o mesmo que possui grau de parentesco com a família DuPont, embora estimativas apontam cerca de US$ 3,4 bilhões (R$17,3 Bilhões) em 2025 . No ano passado, Textor vendeu sua participação minoritária (45%) do Crystal Palace F.C. por cerca de US$ 254 milhões (R$ 1,4 bilhão) para Woody Johnson. Além do esporte, o programador e empresário de 60 anos é conhecido por investir em tecnologia. Ele foi presidente-executivo da FuboTV e já foi seu maior acionista, além de ter investido na empresa de efeitos visuais Digital Domain.
Kang, de 66 anos, possui patrimônio estimado em cerca de US$ 1,2 bilhão (R$ 6 Bilhões), segundo a Forbes. Ela construiu sua fortuna com a empresa de tecnologia em saúde Cognosante e com a firma de capital de risco Cognosante Ventures. Tornou-se acionista do Washington Spirit, da National Women's Soccer League (NWSL), com 35% de participação em 2020 e adquiriu o controle majoritário da equipe por US$ 35 milhões (R$ 175 milhões) em 2022. Ela também integra o grupo que comprou o Baltimore Orioles, da Major League Baseball (MLB), em 2024.
A deterioração da relação
A relação entre Textor e a Ares se deteriorou. A Ares vem tentando recuperar cerca de US$ 250 milhões (R$1,25 Bilhão) em empréstimos pendentes à Eagle, informou a Bloomberg no início deste mês. Posteriormente, a empresa protocolou documento na Companies House, no Reino Unido, removendo Textor do cargo de diretor da Eagle Football — informação divulgada inicialmente pela Bloomberg — algo que Textor contesta, afirmando que a Ares não tem esse direito.
Em resposta, Textor publicou uma longa declaração detalhando a cronologia dos fatos, incluindo o link para um documento registrado em 29 de janeiro na Companies House, no qual ele se reconduziu ao conselho de administração da empresa.
Textor sustenta que as medidas adotadas pela Ares para, segundo ele, assumir o controle efetivo do Lyon podem gerar problemas junto à Autorité des marchés financiers (AMF) Autoridade dos Mercados Financeiros na tradução para o português; o órgão regulador do mercado financeiro na França.
“Eles tomaram o clube sem o devido processo legal”, disse Textor ao Front Sports Office. “Agiram às escondidas.” Segundo documentos analisados pelo FOS, Textor enviou carta à AMF em 28 de janeiro detalhando suas alegações. Uma pessoa familiarizada com o assunto afirmou que a Ares não foi contatada pela AMF. O órgão não respondeu a pedido de comentário. Textor afirma que a AMF iniciou uma investigação.
Um porta-voz da Ares declarou que a empresa “observa as declarações altamente enganosas e imprecisas de John Textor e defenderá sua posição pelos canais legais apropriados”.
Contexto
Em dezembro de 2022, a Eagle Football anunciou a aquisição de uma “participação de controle significativa” no Lyon. Como parte da operação, fundos administrados pela Ares investiram na Eagle Football.
Desde então, a trajetória da empresa de Textor não tem sido tranquila. A Eagle Football não é listada em bolsa, embora Textor tenha tentado abrir capital nos Estados Unidos — primeiro por meio de uma fusão com uma empresa de aquisição de propósito específico (SPAC), que fracassou e resultou em processos judiciais ainda em andamento, e agora por meio de uma proposta inicial de oferta pública (IPO) no mercado Norte-americano. (A Ares também esteve envolvida na operação anterior, embora não tenha sido formalmente citada no litígio subsequente.)
No ano passado, Textor foi obrigado a vender sua participação no Crystal Palace ao proprietário do New York Jets, Woody Johnson, por violar as regras de multipropriedade de clubes da UEFA, que determinam que clubes com acionistas em comum não podem disputar a mesma competição europeia na mesma temporada. Tanto o Crystal Palace quanto o Lyon haviam se classificado para a UEFA Europa League 2025–26.
A UEFA entendeu que a venda ocorreu tarde demais e excluiu o clube da Liga Europa.
O “conselho das sombras” secreto
Textor afirma que o “shadow board” “não poderia ser mais ilegal”. Segundo ele, o comitê de cinco integrantes, criado sem seu conhecimento, operava fora das estruturas formais de governança do Lyon e controlava, na prática, as operações do clube, incluindo orçamento de jogadores e decisões executivas.
Ele argumenta que a Ares, como credora da Eagle Football — e não diretamente do Lyon — não teria o direito de formar esse comitê nem de assumir controle sobre o clube.
De acordo com cópia do acordo paralelo analisada pelo FOS, os membros iniciais do comitê incluíam Kang e Mark Affolter, da Ares; JP Conte, da Genstar Capital; Chris Mallon, da consultoria Fulcrum Partners; e Alexander Sugarman.
A Eagle estava inadimplente?
Textor afirma que a Ares tentou justificar suas ações alegando que sua gestão levou a Eagle Football à inadimplência em relação aos empréstimos.
“Eles usam a palavra ‘Inadimplência’ com I maiúsculo, como se tivéssemos deixado de pagar uma parcela”, disse. “A inadimplência que alegam diz respeito ao não envio de declarações à Companies House. Mas nossa posição é que não éramos obrigados a fazê-lo.”
Documento registrado em outubro na Companies House afirma que, em 30 de junho de 2023, a Eagle Football “estava em violação de determinadas obrigações relativas ao fornecimento tempestivo de informações financeiras” à Ares — algo que uma fonte familiarizada com o assunto disse poder ser interpretado como admissão de inadimplência técnica. (A chamada “inadimplência técnica” não implica necessariamente atraso de pagamento, podendo referir-se a qualquer descumprimento contratual.)
Em janeiro, o executivo da Ares Juan Arciniegas enviou e-mail a Textor e outros executivos afirmando que o acordo paralelo com Kang foi instituído devido à “grave dificuldade financeira” da Eagle Football e que o objetivo da empresa era proteger seu investimento.
Ares como investidora no esporte
A Eagle Football é apenas um dos diversos investimentos esportivos da Ares. Em 31 de janeiro, a divisão de esportes e entretenimento da empresa contava com 28 investimentos principais relacionados ao setor e ativos totais de quase US$ 670 milhões.
Em 2024, a Ares adquiriu participação de 10% no Miami Dolphins. Também possui participação relevante no Inter Miami CF, da Major League Soccer (MLS), e investimentos na League One Volleyball.
Anteriormente, havia investido no Atlético de Madrid, que disputa a LaLiga. Em novembro, a Apollo Global Management adquiriu o controle majoritário do clube — operação que, segundo o Financial Times, foi estruturada para assegurar um retorno significativo à Ares. A Apollo chegou a consultar a situação da SAF Botafogo e pode fazer uma proposta futura.
Em 2023, a Ares concedeu US$ 500 milhões (R$ 2,5 bilhões) em financiamento por dívida ao Chelsea F.C., da Premier League da Inglaterra.
A empresa fundou, em 2022, seu primeiro fundo dedicado a esportes com US$ 3,7 bilhões (R$ 18,5 bilhões) em capital disponível para investimento.
Com informações Front Sports Office


