A Ares Management Corporation está envolvida em uma disputa cada vez mais amarga para John Textor, ainda acionista majoritário da Eagle Football Holdings BidCo com 65,4% das ações desta holding, em torno da reestruturação de um de seus maiores investimentos no esporte.
Com sede em Los Angeles/Califórnia, a Ares busca recuperar cerca de US$ 250 milhões (R$ 1,5 bilhão) em empréstimos pendentes concedidos à Eagle BidCo, segundo pessoas familiarizadas com o assunto. O fundo pretende reaver os valores por meio da venda ou da tomada de controle do Olympique Lyonnais, clube francês pertencente à holding e também de outros clubes como RWDM Brussels e Botafogo.
Um investimento bilionário de Textor, com ultimato
A Eagle adquiriu o Lyon por aproximadamente €800 milhões (R$4,9 bilhões) em 2022. A Ares apoiou a operação com mais de US$ 450 milhões (R$2,3 bilhões) em financiamento, marcando uma de suas primeiras grandes investidas no futebol internacional.
Desde então, a Eagle Holdings BidCo enfrentou dificuldades financeiras. Embora a Ares já tenha recuperado mais de US$ 200 milhões (R$1 bilhão de reais) do empréstimo inicial, documentos indicam que o fundo reavaliou recentemente o valor da dívida remanescente para cerca de 32 centavos por dólar. Fontes afirmam que a gestora perdeu a paciência com Textor diante de múltiplas quebras de cláusulas contratuais (covenants).
John Textor contesta veementemente qualquer irregularidade. Segundo um porta-voz do empresário Norte-americano, a Ares teria aprovado as demonstrações financeiras auditadas da Eagle BidCo. “Contestamos todos os supostos eventos de inadimplência”, declarou o representante. Já a Ares Management Corporation informou que continuará defendendo sua posição pelos canais legais cabíveis.
Pressão aumenta e cenário se complica
O fundo de investimento que emprestou €425 milhões (R$2,6 bilhões) a John Textor para viabilizar a compra da OL em 2022 agora exige o pagamento da dívida da Eagle e trabalha para afastar definitivamente o empresário da estrutura de comando da Eagle BidCo.
No dia 28 de janeiro, Textor foi destituído com efeito imediato do cargo de diretor da Eagle Football Holding Bidco. Além disso, ele fez um empréstimo em nome do Botafogo de Futebol e Regatas junto à GDA Luma e Hutton Capital — fundos que haviam sido rejeitados pelo órgão regulador financeiro do futebol francês (DNCG) durante o processo de aprovação malsucedido da OL em junho passado.
Essas quebras de contrato, consideradas insustentáveis pela Ares e Mark Affolter, teriam desencadeado as atuais movimentações estratégicas. A situação de Textor também é vista como mais frágil do que nunca dentro do Botafogo, um dos principais ativos da Eagle no Brasil.
Venda forçada ou aquisição direta?
Caso Textor seja definitivamente afastado, a questão central passará a ser a governança. Em tese, a Ares poderia promover uma venda forçada dos clubes controlados pela Eagle — incluindo o Olympique Lyonnais, o Botafogo e o RWD Molenbeek — para recuperar seu investimento. Outra possibilidade seria assumir diretamente o controle do Lyon, considerado o único ativo com valor significativamente elevado dentro do portfólio.
Michele Kang, que sucedeu Textor na presidência enquanto aportava recursos na estrutura, afirmou em assembleia de acionistas que tudo o que envolve as finanças da Eagle Bidco está “fora do escopo” de sua gestão. Ainda assim, a recuperação esportiva e financeira conduzida sob sua liderança não desagrada à Ares, que já demonstra vantagem estratégica sobre o futuro da administração.
Um alerta ao mercado do futebol mundial
Além do Lyon, a Eagle também investiu no Botafogo e no RWD Molenbeek. No verão europeu passado, John Textor vendeu a sua participação minoritária no Crystal Palace FC ao empresário Woody Johnson, proprietário do New York Jets, operação que permitiu à Ares recuperar parte relevante do capital inicialmente emprestado.
O rompimento entre Textor e a Ares evidencia os riscos crescentes do financiamento de investimentos no futebol europeu quando é mal feito, justamente em um momento em que volumes cada vez maiores de capital institucional fluem para o esporte mais popular do mundo.
Em 2022, a Ares lançou um fundo de US$ 3,7 bilhões (R$ 18,5 bilhões) voltado para esportes, mídia e entretenimento e investiu em clubes como o Atlético de Madrid e o Chelsea FC.
A história recente mostra que fundos de investimento não hesitam em assumir o controle de equipes tradicionais em casos de inadimplência. A Elliott Investment Management tomou o controle do AC Milan em 2018 após o antigo proprietário chinês Li Yonghong não quitar dívidas. Já em 2024, a Oaktree Capital Management assumiu a Inter de Milão em circunstâncias semelhantes.
O desfecho do embate entre Ares e John Textor vai redefinir o futuro do Olympique Lyonnais e dos demais clubes ligados à Eagle Football BidCo: RWDM Brussels e Botafogo — e servir de novo marco sobre os limites e riscos do capital financeiro no futebol mundial.
