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Durcesio Mello e John Textor em 2022; Thairo Arruda em meados de Julho de 2023 - Foto Reprodução |
Em mais um capítulo da crise que envolve a SAF do Botafogo de Futebol e Regatas, uma reunião do Conselho de Administração realizada em fevereiro de 2026; cuja ata foi expedida recentemente — trouxe à tona decisões que aprofundam o embate entre a gestão da empresa e o clube associativo. No centro da controvérsia está o programador e empresário Norte-americano John Textor, que consolidou poderes para representar isoladamente a SAF em operações financeiras estratégicas. Revelou a coluna de Lauro Jardim em ¨O GLOBO¨.
A medida foi formalizada no contexto de um empréstimo de US$ 25 milhões (cerca de R$ 131 milhões) junto à GDA Luma, empresa especializada em recuperação de títulos podres. Segundo a ata, John Charles Textor passou a ter autonomia total para assinar documentos e conduzir a operação em nome da SAF, após a renúncia do então CEO Thairo Arruda.
Concentração de poder e quitação ampla
A saída de Thairo Arruda não apenas abriu caminho para a centralização de poderes em Textor, como também foi acompanhada de uma cláusula de quitação considerada incomum por opositores. O ex-CEO recebeu “a mais ampla, plena, rasa, geral, irrevogável e irretratável quitação” por todos os atos praticados durante sua gestão — movimento interpretado por críticos como uma tentativa de blindagem jurídica diante de possíveis responsabilizações futuras.
A SAF, por sua vez, sustenta que se trata de uma formalidade padrão em processos de transição executiva, afirmando que, com a vacância do cargo, Textor tornou-se o único diretor com competência estatutária e legal para representar a companhia.
Voto nulo e articulação no conselho
Um ponto que intensificou a controvérsia foi a postura de Durcesio Mello, representante do clube associativo no Conselho e ex-presidente do Botafogo (2021-2024). Segundo a ata, ele optou por se abster (voto nulo) nas deliberações centrais da reunião.
Essa decisão abriu espaço para que outros membros do conselho, como Jordan Fiksenbaum e Kevin Weston, diretores nomeados por Textor na Eagle BidCo em Novembro de 2025, votassem favoravelmente às propostas alinhadas a John Textor, viabilizando a aprovação da operação financeira. Que segundo Thairo Arruda foi arriscada.
Nos bastidores, a leitura de opositores é de que a abstenção de Durcesio acabou sendo determinante para o avanço da medida, permitindo que o bloco (Jordan e Kevin) ligado a Textor consolidasse maioria e aprovasse o que consideram uma engenharia financeira arriscada.
Garantias amplas e risco patrimonial
Outro ponto sensível aprovado na reunião foi a cessão fiduciária em favor da GDA Luma. Esse tipo de garantia transfere ao credor a titularidade de ativos até a quitação da dívida. No caso da SAF Botafogo, o pacote é amplo: inclui receitas futuras, valores provenientes de transferências de jogadores, direitos econômicos, ativos móveis e imóveis e até mesmo o penhor das ações da Eagle Football Holdings na companhia.
Além disso, foi concedida uma procuração à credora, permitindo que ela (GDA LUMA) pratique atos em nome da SAF em determinadas circunstâncias. A gestão argumenta que tais medidas seguem o rito normal de operações financeiras dessa magnitude e que não implicam controle direto da empresa pela credora — apenas garantem execução em caso de inadimplência.
Já opositores enxergam um cenário preocupante: caso Textor perca o comando da SAF, a estrutura montada poderia dificultar a reversão dos ativos, inclusive em um eventual processo de recuperação judicial. Há também críticas de que a operação estaria ligada a um “waiver” (renúncia/desistência de direito) que, na prática, afastaria a responsabilidade de Thairo Arruda sobre uma dívida estimada em R$ 3 bilhões. Porém Thairo buscou o Banco BTG Pactual para resolver a situação, porém o associativo não aprovou a ideia, seguindo Durcesio, e ainda sabotaram a proposta de Thairo.
Blindagem internacional e lei suíça
A ata revela ainda que John Textor determinou a aplicação da legislação suíça sobre receitas oriundas de transferências de atletas do elenco profissional. Isso inclui taxas fixas, bônus, mecanismos de solidariedade e valores de revenda.
Para críticos, a escolha não é trivial: trata-se de uma tentativa de blindagem internacional de receitas, dificultando eventuais questionamentos ou bloqueios no Brasil. A medida reforça a percepção de que a SAF estaria estruturando mecanismos para proteger ativos fora do alcance de disputas judiciais nacionais.
Questionamentos jurídicos e possível anulação
Especialistas que acompanham o caso avaliam que as deliberações podem ser contestadas judicialmente. Um dos principais argumentos é que a SAF não poderia onerar seu patrimônio sem comunicação prévia à Justiça, conforme decisão liminar do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro ainda em vigor.
A SAF rebate, afirmando que não houve violação da decisão judicial e destacando que a reunião contou com a presença de Durcesio Mello, representante do clube associativo no conselho. Segundo a ata, Durcesio se absteve de votar, e as decisões foram aprovadas por unanimidade entre os demais membros.
No entanto, o clube social contesta essa interpretação, argumentando que a simples presença de um representante não substitui a obrigação de comunicação formal ao Judiciário.
Reação do associativo e críticas públicas
Em nota, o advogado Leonardo Antonelli, representante do clube associativo, afirmou que “a SAF insiste em permanecer descumprindo o acordo de acionistas”, ressaltando que segue em vigor a decisão do TJRJ que suspende atos relacionados à venda e negociação de ativos com impacto econômico.
Para torcedores do Botafogo que ficam em dúvida sobre os bastidores do clube, lembre-se que paralelamente, o jornalista Lauro Jardim revelou informações envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, expondo estruturas financeiras controversas, e ainda foi ameaçado pelo vigarista de Belo Horizonte radicado em São Paulo/SP, em outro caso — o que amplia o contexto de desconfiança sobre operações desse tipo no mercado brasileiro. Não é confirmar ou apontar nada. Mas a GDA LUMA, é uma aposta de risco que Textor colocou a SAF Botafogo. Negar isto é de uma burrice sem tamanha.
Um cenário de desgaste e incerteza
A situação de John Textor à frente da SAF Botafogo é vista por críticos como um processo de desgaste acelerado. A concentração de poder, o aumento do endividamento — estimado em cerca de R$ 3 bilhões — e as decisões estratégicas recentes reforçam a percepção de que o modelo de gestão enfrenta dificuldades estruturais.
Para parte significativa do associativo e de observadores externos, os movimentos indicam não apenas uma tentativa de reorganização financeira, mas também sinais de fragilidade administrativa que podem comprometer o futuro do clube.
Enquanto isso, o impasse institucional segue sem futuro claro, com potencial de se estender aos tribunais e impactar diretamente o desempenho esportivo e a estabilidade do Botafogo nos próximos tempos.
A salvação imediata:
Nos bastidores, cresce a avaliação de que uma solução imediata para a crise da SAF passaria pela atuação da Ares Management Corporation, apontada como a maior credora da Eagle Holdings BidCo, veículo que controla ativos ligados a Textor.
A expectativa é que, diante do agravamento da situação financeira e do endividamento estimado em cerca de R$ 3 bilhões, a Ares possa exercer influência direta sobre a estrutura de controle. Paralelamente, discute-se a possibilidade de o Botafogo associativo buscar a derrubada da liminar que mantém Textor como acionista majoritário da SAF — movimento que abriria caminho para uma reconfiguração completa da governança.
Nesse contexto, ganha força a possibilidade de atuação direta de Mark Affolter, executivo sênior na Ares, atuando como Partner (sócio), gerente de portfólio e co-responsável pelas áreas de Sports, Media and Entertainment (Esportes, Mídia e Entretenimento), além de já ter sido co-chefe de U.S. Direct Lending (empréstimos diretos nos EUA) dentro do Ares Credit Group. Affolter que também já integrou a comissão de conselheiros da Eagle Bidco até Novembro de 2025, poderia neste cenário de coalizão articular a entrada de um novo operador global para assumir o controle da SAF Botafogo em caso de ruptura com o atual comando de John Textor.
Apollo entra no radar
Entre os nomes cogitados, destaca-se a Apollo Global Management, gigante do investimento internacional, que estaria avaliando oportunidades no futebol das Américas.
A Apollo já demonstrou apetite recente pelo setor ao adquirir, em 2025, o Atlético de Madrid, consolidando sua presença no futebol europeu. Agora, o grupo busca expandir sua atuação com a aquisição de novos clubes — um na América do Sul e outro na América do Norte.
Fontes de mercado indicam que o Brasil surge como destino prioritário na América do Sul, enquanto, no Hemisfério Norte, a preferência inicial recai sobre o México, embora clubes dos Estados Unidos também estejam no radar caso não surjam oportunidades consideradas ideais no futebol mexicano.
Disputa internacional: Iconic Sports que avançou contra Textor
Outro fator decisivo é a disputa judicial movida pela Iconic Sports, grupo liderado por Jamie Dinan, Alexander Knaster e Edward Eisler. O trio busca assumir participação relevante na Eagle Holdings BidCo e, consequentemente, influenciar o controle dos ativos ligados ao futebol.
O embate já teve um primeiro capítulo importante: em 21 de janeiro de 2026, John Textor foi derrotado em uma etapa inicial no tribunal comercial da Inglaterra e País de Gales (Commercial Court of England & Wales). A decisão é vista como um indicativo relevante do rumo da disputa.
Agora, as atenções se voltam para o chamado julgamento completo (FULL TRIAL) que será realizado no The Royal Courts of Justice (Tribunais Reais de Justiça) também em Londres, que ainda não tem uma data definida, pois é necessário a confirmação de várias testemunhas para o caso; este julgamento é considerado decisivo. Analistas do mercado estimam que a Iconic Sports possui uma probabilidade elevada de vitória — superior a 75% — o que, se confirmado, poderá alterar profundamente a estrutura acionária da Eagle Football Holdings BidCo.
Efeito dominó e possível coalizão
Em caso de vitória da Iconic Sports, o grupo passaria a deter ações relevantes da Eagle Holdings BidCo, pegando boa parte ou totalmente os 65,4% que John Textor ainda tem, abrindo espaço para uma possível coalizão com a Ares Management Corporation. Esse cenário, aliado a uma eventual aprovação do Botafogo associativo, poderia resultar em uma intervenção direta na SAF. A Iconic quer recuperar o valor investido na compra do Lyon, e as promessas falsas de John Textor, em levar a Eagle Football Holdings BidCo para a bolsa de valores de Nova York, a NYSE e abrir um IPO.
Especialistas comparam a situação num precedente marcante no futebol europeu: a atuação da Elliott Management no AC Milan, quando o então controlador e caloteiro Li Yonghong foi afastado após inadimplência.
Naquele caso, em 2018, a Elliott Management assumiu o controle do clube e promoveu uma reestruturação profunda, incluindo a contratação de Ivan Gazidis, Ex-Arsenal, como CEO,movimento que contribuiu para a reorganização financeira e esportiva do Milan.
Um cenário decisivo e de alto risco
No caso do Botafogo, o possível alinhamento entre Ares e Iconic Sports é visto como um ponto de inflexão. Para críticos da atual gestão, esse movimento representaria uma espécie de “antídoto” contra o modelo implementado por Textor — descrito por opositores como insustentável.
A metáfora que circula nos bastidores é contundente: o julgamento completo no Reino Unido seria a “criptonita” capaz de derrubar o que classificam como um projeto personalista e fragilizado de John Charles Textor.
